domingo, dezembro 31, 2006

Disparates de início de milénio ou retrocesso civilizacional?

O fim de mais um ano é sempre uma boa altura para reflectir sobre o que andamos a fazer ao de cima da terra e por baixo das estrelas e também sobre o que não fizemos e deveriamos ou poderiamos ter feito no nosso pequenito planeta.

Quanto a mim vou destacar alguns factos que alguns de nós andaram por cá a fazer e que são um sintoma de que a História não é feita de continuidades lineares e muito menos "evolui" em direcção a uma suposta "superior" civilização Ocidental.

1º disparate do ano - Aconteceu em solo nacional e mais uma vez partiu de um dos nossos autarcas.

Foi na Póvoa do Varzim e a decisão parece ter partido do Vereador que dá pelo nome de Aires Pereira, segundo notícia o jornal Público.

O homem incomodado com os defuntos e a maneira de os sepultar e porque os vivos não têm problemas que o entretenham, decretou a uniformização do culto dos mortos.

Cito o jornal público de 30 de Dezembro que cita as palavras do ex-mo senhor vereador.
Leiam com a devida atenção e pasmem:

"Iguais a nascer, iguais a morrer. Novo cemitério da Póvoa do Varzim muda paradigma no culto dos mortos. Câmara impõe minimalismo histórico, com jazigos estilizados para acabar com "decorações excessivas", assume o vereador. O novo cemitério municipal vai provocar uma alteração radical à forma como os habitantes da Póvoa do Varzim manifestam o seu culto pelos mortos, uma vez que os jazigos vão deixar de ser decorados de acordo com o gosto dos familiares do falecido. Por imposição da Câmara, todos serão cobertos de forma identica "estilizada" - uma lápide com a menção ao morto e um jarro de flores - variando apenas a possibilidade, para os enterramentos católicos, de ser colocada um cruz à cabeceira (...)"

Aí está senhor Vereador e senhor presidente da Câmara da Póvoa do Varzim!!! Isso é a verdadeira igualdade: "iguais ao nascer, iguais a morrer".

Pessoal da Póvoa do Varzim, desculpem lá, mas tenho que perguntar: Estão todos a dormir? Quem elege esses senhores? Não serão essas práticas altamente totalitárias por parte do poder autárquico sobre aquilo que há de mais intimo na privacidade de cada cidadão?

Melhor só a determinada altura o partido comunista de Mao Zedong na China que só permitia relações sexuais entre os camaradas à Sexta-feira em cada semana.

2º disparate do ano - A condenação à morte de Saddam Hussein e a sua plena aprovação pela administração Norte-Americana.

Será uma condenação por enforcamento própria dos valores que apregoam as democracias ocidentais? Já agora que se nomeie um carrasco e que se decapite o homem na praça pública. E que a população saia em massa para a rua a aplaudir.

Já foi assim que se fez justiça mas o retorno do recalcado parece estar a ressurgir.
Valha-nos a posição tomada pelos representantes da União Europeia. Ao menos isso...

3ºdisparate do ano - A Associação de Juízes no seu perfeito juízo... Quando um homossexual agride violentamente outro homossexual no espaço doméstico isso não é considerado violência doméstica.

Claro que os nosso juízes também sobrem de homofobia social.

E que tal uma cadeirinhas de Antropologia, de Sociologia ou de História da Vida Sexual nos cursos de Direito? Não fazia nada mal e tinhamos uma justiça mais informada e logo mais justa...Enfim, batam há vontade os que são homossexuais que os juízes estão do vosso lado. Não há outra interpretação possível da lei...

4º disparate do ano - Quase ninguém reparou e o facto passou despercebido, mas o Congresso Norte-Americano aprovou este ano quase por unanimidade total, percorrendo os partidos à direita e à esquerda do espectro partidário, um MURO QUE SEPARA OS EUA DO MÉXICO DE APROXIMADAMENTE 1100 KM.

Já não me espanta tão barbara decisão. Espanta-me sim, é a total apatia social face a esta questão. Onde para a cidadania?

Abraços e feliz Ano Novo.

João Martins

terça-feira, dezembro 19, 2006

Câmaras Municipais, autarcas e licenças de construção

Moro na cidade de Loulé há 36 anos e tenho acompanhado atentamente o crescimento da cidade.

Actualmente moro à saída para Faro na urbanização das Portas do Céu.

Como cidadão da cidade de Loulé, como eleitor que deveria confiar nos eleitos locais venho questionar neste espaço de democracia virtual como é possível que na Avenida Parque das Cidades junto à bomba de gasolina na saída para Faro seja possível construir vários blocos de apartamentos que cercam os depósitos de combustível?

É possível que isto aconteça? Não há riscos para a saúde destas populações que ali irão habitar?

E os riscos de uma explosão estão salvaguardados? Não foram as bombas de gasolina recomendadas legalmente para a periferia das cidades?

Quem autoriza a licença destas construções? Chama-se a isto ordenamento territorial das cidades?

O senhor Presidente da Camara de Loulé tem conhecimento destas construções? E se tem conhecimento acha que construir a 5 metros da bomba de gasolina é uma boa aposta no ordenamento urbanístico da cidade?


Sabemos que Loulé cresceu nos últimos anos e que a pressão demográfica foi acompanhada da pressão urbanistica. Mas acordar de manhã, abrir a janela e respirar o chumbo libertado pelo combustivel automóvel terá alguma coisa a ver com o conceito de qualidade de vida?

E as autarquias não terão um papel na gestão equilibrada do crescimento das cidades?

Dá que pensar...e nunca sabemos quais os critérios que levam à aprovação de determinadas construções e à rejeição de outras.

Fica a ideia do reino da arbitrariedade.

Abraços e boas festas

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Capitalismo Natalício: Sobre a obrigação de dar, receber e retribuir

O Natal está aí. Data religiosa por excelência desde o início da era cristã tem vindo a ser progressivamente reapropriada pela sociedade de consumo, tendo como simbolo máximo as novas catedrais religiosas, vulgo Shopping Center.

Um estudo divulgado esta semana revelava que o stress dos portugueses dispara nesta época.

Aqui apresento algumas razões possíveis para isso:

- Há aqueles que não querem oferecer quaisquer prendas por não terem dinheiro para as comprar. Para estes o sistema nervoso dispara quando alguém lhes oferece alguma coisa. A obrigação de retribuir deixa-os à beira de um ataque de nervos.

- Há os outros que não se querem esquecer de ninguém e perdem horas infinitas da sua vida a elaborar listas de prendas até ao último pormenor.

- Há aquela espécie que só descansa quando oferece prendas de valor superior às que recebeu ou não fosse isso um verdadeiro sinal de distinção.

- Há ainda os que ficam fora de si a tentar descobrir a prenda que imaginam que faria a realização dos outros. De tanto pesquisar o resultado é a incapacidade de nada escolher.

- Há os que desesperam pois o dinheiro não chega para tudo e têm que escolher os eleitos a serem prendados. Os que irão ficar de fora da lista é que não irão gostar nada da festa.

- Há os que correm todas as lojas para oferecer as prendas mais baratuchas possível. As lojas dos chineses agradecem e o tempo perdido nas filas de compras são um verdadeiro teste de paciência chinesa.

- Há ainda aqueles que durante todo o ano só sabem trabalhar. Quando chega esta altura do ano vêem tanta agitação há sua volta que ficam mais agitados que aqueles que os rodeiam.

- Há os que ficam à espera de ver de quem recebem prendas. Depois das ofertas recebidas lá vão as prendinhas para quem não se esperava oferecer nada.

- Há a situação deveras cómica dos que oferecem prendas a pessoas de quem não gostam. Acto de que se arrependerão durante todo o ano seguinte. O caso das prendinhas aos patrões é muitas vezes disto exemplo.

- Os judeus, os muculmanos e outros que tais têm o ritmo cardiaco menos acelerado. Se não se incomodarem com o pai natal criado pela coca-cola reagem com tranquilidade e indiferença a tanta agitação.

- Os ateus oscilam entre os que ficam felizes com tanta euforia que até esquecem que são ateus e os que ficam irritados com alegria dos outros e sobretudo por receberem prendas sem saberem bem porquê.

Enfim, é a obrigação de dar, de receber e de retribuir.

De toda a forma é sempre uma data em que as pessoas andam mais simpáticas. Um simples Feliz Natal faz muitas vezes com que todo o stress consumista do mundo perca todo o sentido.

Abraços e Feliz Natal são os votos de um ateu que oferece e recebe prendas nesta data fascinante.

João Martins
-

domingo, novembro 26, 2006

Quando a Cultura é o parente pobre da política

A Cultura anda pelas ruas da amargura no nosso país.

Os orçamentos para a política cultural do país são praticamente inexistentes.

Os "profissionais" das artes e do espectáculo estão fortemente precarizados e com dificuldades de sobrevivencia.

A Festa da Música vai fechar para obras.

O Ballet da Gulbenkian foi extinto porque tido por muito "gastador".

O Rivoli foi entregue aos privados. Os Ruis Rios das nossas autarquias encaram a cultura como "mero" despesismo e cortam os apoios e financiamentos que a permitiam ainda respirar.

Ora a cultura é "só" a alma de um povo.Não há povo sem cultura.

Seja ela "erudita" ou "popular", de "elite" ou de "massas", a cultura é aquilo que permite a uma sociedade ou uma comunidade construir a sua identidade.

O Estado tem um papel social fundamental no desenvolvimento cultural dos povos e numa época em que a escola é acusada de reproduzir as desigualdades sociais reproduzindo no seu interior sobretudo os valores culturais da cultura burguesa, é ao Estado e às autarquias que cabe um papel de distribuidor cultural sobretudo da cultura dita erudita, que é aquela à qual as classes sociais mais desfavorecidas não têm acesso através da sua socialização familiar.

Se numa boa parte das nossas famílias não há o habitus de ir ao teatro, ao cinema, à ópera, ao museu, aos espectaculos de dança ou de música clássica.

Se na escola as artes são praticamente inexistentes no interior dos curriculos escolares. Quem teria a grande função de igualizar as oportunidades sociais de acesso aos bens culturais mais valiosos?

Só tenho um resposta. O Estado tem que ver as coisas da cultura como um investimento nas pessoas e não como uma mera despesa como é habitual constatarmos.

Numa altura em que o capitalismo predador reduz todas as esferas da vida social ao económico e à busca incessante do lucro (até a religião não escapa à mercadorização da vida social) vale a pena perguntar:

Mozart teria lugar no nosso mundo? Teria existência social? Seria "lucrativo"?

Miguel Ângelo teria pintado a Capela Sistina? Esta maravilha do mundo teria sido criada no nosso tempo?

Gaudi teria tido as dezenas de anos para construir a Sagrada Família?

Vivaldi teria composto as Quatro Estações?

Quem financiaria estes criadores não estando garantido o sucesso inicial em termos "lucrativos"?

Pode a cultura medir-se no número de espectadores e no lucro auferido à maneira de uma fita de Holywood?


Ps: Parabéns à Câmara de Loulé pelo esforço que parece estar a fazer na dinamização do Cine Teatro Louletano.
Sendo claramente insuficiente no desenvolvimento cultural da população louletana é justo dizer que parece haver um esforço para conseguir uma programação cultural interessante com alguma continuidade. A esquerda não fez melhor enquanto foi poder na autarquia.

Abraços culturais e bom fim de semana para todos vós.

João Martins

sábado, outubro 28, 2006

A farsa dos rankings

A divulgação por parte de alguns jornais nacionais dos rankings das escolas secundárias a partir exclusivamente dos resultados dos exames nacionais é uma autêntica farsa nacional.

Farsa, desde logo, porque os rankings são lançados em bruto, ou melhor, à bruta, pois como sabem os cidadãos mais atentos (que infelizmente não são muitos) não se pode comparar aquilo que não é comparável.

Não é comparavel, desde logo, porque os resultados dos exames são descontextualizados em relação à composição social das escolas e ao nível socioeconomico das famílias.

Não é comparável, porque as assimetrias sociais e territoriais transportadas para o interior das escolas não são levadas em conta na análise.

Não é comparável, porque as escolas privadas que aparecem no topo do ranking têm uma composição social claramente favorecida.

Não é comparável, porque as escolas de territórios desfavorecidos e em dificuldade ("problemáticas" como dizem os políticos e os jornalistas)não podem produzir os mesmos resultados das escolas das zonas favorecidas de Lisboa.

Não é comparável, pois comparar as escolas do litoral urbano e com elevado nível de vida, com as escolas do interior rural e com um nível de vida miserável é como comparar a performance de um Ferrari com a de um Mini-Morris dos anos sessenta.

Vale a pena desmistificar alguns questões em relação ao sucesso escolar para não iludirmos as populações e agravarmos ainda mais as desigualdades sociais face à escolarização:

1. Existe um consenso na comunidade cientifica de sociólogos da educação que o capital económico e sobretudo o capital cultural das famílias são quase determinantes no sucesso escolar dos filhos.

Digo quase, porque não havendo uma relação determinista, sabemos hoje que quanto maior o capital económico e cultural das famílias maior a propabilidade que os seus filhos têm de repetir, ou de abandonar precocemente a escola, ter melhores resultados escolares e escolher vias de escolarização que são prestigiadas e prestigiantes em termos dos destinos sociais futuros a atingir.

2. Directamente correlacionado com isto, sabemos também, que a composição social das escolas medida pelo perfil do seu público condiciona fortemente os resultados escolares. Quer isto dizer que numa escola de classes médias e superiores os alunos têm vantagens sobre os alunos de escolas de composição social desfavorecida.

3. Existem estudos que indicam que os próprios professores "fogem" das escolas com composição social desfavorecida como quem foge da lepra, o que quer dizer que os "melhores" professores vão leccionar para as "melhores" escolas agravando ainda mais as desigualdades.

4. Os próprios resultados do ranking, feitos em bruto e à bruta, mesmo descontextualizados evidenciam claramente as assimetrias sociais face à escolarização e alguns factores que contribuem para a forte diferenciação e deigualdade de resultados.

Podemos constatar, com raras excepções, que as escolas do litoral estão em clara vantagem sobre as escolas do interior.

Podemos constactar que as escolas das grandes metropoles estão sobrerepresentadas nas escolas com melhores resultados em detrimento das escolas da provincia.

Podemos constactar que as escolas em meio rural e no interior do país (com raras excepções) têm piores resultados nos exames.

Podemos constatar que as escolas ditas "problemáticas" aparecem quase todas em posições pouco prestigiantes.

Enfim, nada disto seria problemático se as escolas pior classificadas não ficassem estigmatizadas negativamente, "culpabilizando-se" subtilmente os maus resultados com o "mau" trabalho dos professores.

Não seria problemático se os paizinhos não saissem a correr para matricular os filhos nas "boas" escolas que são aquelas que estão no topo do ranking.

Não seria grave se as determinantes sociais não fossem ocultadas e se não fosse a "ideologia do dom" que é agora usada pelos professores das "boas" escolas. O bom resultado não é julgado pela composição social favorecida dos alunos mas sim pelo bom trabalho com os seus alunos.
Viva a mentira social!

Para terminar, gostava de dizer que poderia concordar com os rankings desde que estes fossem devidamente contextualizados com variaveis de caracterização socio-económica (como tentou fazer o ministro David Justino) e desde que isso contribuisse para os pais fazerem as suas escolhas de forma mais informada e equitativa (sabendo que os pais estão em situação clara de desigualdade face à escolha dependendo da suas distãncia cultural à escola).

Lamento é que "conceituados" jornalistas da nossa praça e não posso deixar de referir o director do jornal o público, sejam cegos (porque é de cegueira e de ignorância que se trata) na análise que fazem dos resultados do ranking em prole da sua ideologia que defende a mercadorização pura e dura da educação portuguesa.

Pelo lugar que ocupam e pela responsabilidade que têm como opinion makers no espaço público e estando este hoje largamente colonizados pelso media, estes senhores deviam ser seriamente penalizados pois condicionam negativamente a vida de muitas famílias e beneficiam claramente algumas delas!

Um abraço e votos para que um dia a Escola Secundária de Loulé seja um dia a primeira do ranking...seria sinal que já não havia por lá pobres.

domingo, outubro 15, 2006

A crise acabou. A vida do ministro confundida com a vida do comum dos portugueses

Manuel Pinho no auge da histeresis.
A crise acabou! Agora só precisamnos de saber qual vai ser a velocidade do crescimento económico.

Não há pachorra para este tipo de barbaridades.

Num país com dois milhões de pobres. Num país em que as classes médias estão a perder poder de compra e a baixar o seu nível de vida. Numa época em que o desemprego atinge contornos dramáticos. Em que as desigualdades não param de crescer.
Quase na mesma hora em que milhares de professores descem as ruas de Lisboa assim como uma boa parte dos funcionários públicos.

Na mesma altura em que direitos sociais conquistados com muito sangue, suor e lágrimas são atacados como nunca desde o 25 de Abril.

Numa altura em que a saúde vai ser semi-privatizada e quem não tiver dinheiro vai morrer mais rapidamente. Em que a segurança social vai no sentido da privatização e a maioria da população arrisca-se a não recebê-la; o ministro Pinho transporta o seu óptimo nível de vida, que talvez nunca tenha tido situação pessoal tão boa, para a história de vida da maioria dos portugueses.

A crise acabou...já não há pachorra!!!

Nem o Conde de Abranhos celebrizado por Eça de Queirós diria tamanho disparate.

Como o poder cega!

abraços e que se vá depressa a crise e já agora...

...que nunca mais volte...

quarta-feira, outubro 04, 2006

O Muro da vergonha do Ocidente

A globalização intensificou as relações de interdependência à escala global. Nas sociedades contemporaneas a rede é a palavra chave. Queiramos ou não todos estamos conectados.

O capital financeiro circula à velocidade do som ao click do botão direito do rato. O capital económico abandona zonas do globo onde sente que os custos de produção não geram as mais valias que as grandes multinacionais acham aceitavel do ponto de vista da lógica do lucro.

Atentados terroristas em determinadas zonas do mundo são possíveis de ser visualizados em toda a "aldeia global" no exacto momento em que ocorrem até pelo habitante da aldeia mais remota do Casaquistão.

A guerra do Iraque pode ser assistida em directo e on-line e os próprios militares vão acompanhando os desenvolvimentos da mesma pela televisão sabendo através desta primeiro que das suas chefias as consequências das suas acções no terreno.

As relações sociais, amorosas e conjugais atravessam todas as fronteiras do globo terrestre através das novas tecnologias da informação e da comunicação.

Os governos caiem ao sabor de mensagens de sms e das capacidades fantásticas da comunicação via satélite, quem não se recorda da recente queda de José Maria Aznar aqui na vizinha Espanha e paradoxo dos paradoxos numa era em que as desigualdades sociais se agravam quase à mesma velocidade com que o crescimento da riqueza dos mais poderosos atinge valores históricos inigualáveis eis que os povos que querem partir dos seus territórios abandonando as suas raízes à procura de melhores condições de vida atraidos pela ilusão do modo de vida "Ocidental" são impedidos de o fazer.

O muro de mil e cem kilómetros que o senado norte-americano aprovou quase na sua totalidade!!! para impedir os emigrantes mexicanos de entrarem nos EUA são um retrocesso histórico absolutamente inacredítável na história, cultura e nos valores ditos ocidentais.

A democracia tem destas coisas. Sendo um outorgação legal ela é incrivelmente imoral. A rejeição do "outro" como forma de assegurarmos o nosso bem estar e segurança social infelizmente está aí para legitimar as novas atrocidades sociais.

Primeiro começamos por rejeitar a cultura do outro e um dia descobriremos que à sempre algum "outro" para nos rejeitar a nós.

sábado, setembro 23, 2006

O papa e o Islão

Todas as religiões são exclusivistas, fechadas sobre si mesmas e recusam os dogmas que não entram nos seus dogmas de fé.

Ser cristão implica não professar a religião muçulmana, ser muculmano significa não aderir às crenças religiosas dos judeus e ser budista implica que não se seguem os principios do protestantismo calvinista.

Estes mundos sociais exclusivistas não implicam que a visão do "outro" como "ele" não permita a convivência pacífica.

A tese absurda sobre a "guerra de civilizações" entre o "Ocidente" e o "Oriente" à força de tanta enunciação discursiva na palavra de muitos pseudo intelectuais do mundo dito Ocidental ainda se torna numa profecia auto-realizadora. Tanto se deseja que aconteça que ela corre o risco de se tornar real.

O Papa Bento XVI esqueceu-se de vestir o papel social de Papa e por momentos interpretou o seu papel na pele de cardeal Ratzinger.

É que se as interpretações intelectualistas do Islão são permitidas ao cardeal Ratzinger, ao papa Bento XVI trata-se de brincar com o fogo quando numa passagem claramente infeliz se rotula a religião islamica de culto do belicismo e da Jihad.

Estudos históricos sobre o mundo islâmico revelam um percurso histórico de elevada tolerãncia religiosa e de elevada convivencia pacífica nas mais variadas partes do mundo entre o Islão e outras comunidades religiosas.

Sabendo que como papa as suas palavras são armas de fogo, ou de paz, que podem salvar, ou destruir milhares de vidas, Bento XVI teria que ter mais cuidado nas suas reflexões e intrusões na cultura do "outro"...sob pena de no actual contexto deitar gasolina num barril de pólvora.

Como alguém em tempos diria...não havia nexessidade.

Abraços a todo o pessoal.

domingo, setembro 03, 2006

O novo espírito do capitalismo

O capitalismo como sistema económico, político e social é um sistema que se baseia desde sempre na exploração do homem pelo homem.

Karl Marx, o teórico por excelência da análise do sistema capitalista pôs a nu o confronto entre o capital e o trabalho e a fabricação de mais valias a partir da exploração do proletariado como a essência que produzia a dominação dos capitalistas.

Em jeito de profecia Marx protagonizava o fim da história com a revolução do proletariado e a abolição da sociedade de classes.

Marx falhou redondamente a sua análise onde a sua interpretação científica (brilhante para a época) cedeu lugar às suas pretenssões ideológicas.

Mas se Marx passou de moda, sendo olhado de "lado" mesmo no interior das Universidades (pelo menos daquelas mais comprometidas e dependentes do poder do capital) o sistema teórico de Marx continua fundamental para percebermos os sistemas sociais em que vivemos e sobretudo o capitalismo tal como ele hoje se manifesta.

Afinal ainda nos dias de hoje constatamos que as classes sociais são como as bruxas "não sei se elas existem mas que as há...há".

Afinal, as desigualdades crescem como nunca nas últimas décadas.

Afinal, a concentração de riqueza do capital atinge valores nunca atingidos na nossa história.

Afinal ,a pauperização da sociedade constatada por Marx traduz-se hoje na pobreza crescente e na "naturalização" da exclusão social.

Afinal o que mudou é que o sistema capitalista numa nova busca de legitimação procura novas legitimidades para que os seus efeitos negativos apareçam como a "ordem natural das coisas".

É assim que nasce uma nova concepção de indivíduo ajustável aos interesses do capital.

Hoje temos que ser obviamente "competentes" - sendo a competência definida como a capacidade "individual" que cada um deve ter ou adquirir por conta própria, à revelia do papel da produção social da sua competência. Desresponsabiliza-se os sistemas socias que produzem desigualdades e legitima-se o valor dos mais "competentes" que por norma são os mais previligiados.

Os desempregados deixam de ser "despedidos" e passam a ser "dispensados" - se no despedimento a culpa é por norma atribuída ao empregador, na "dispensa" a culpa é do trabalhador pois não se "actualizou" como seria de esperar, logo não tem valor como valor de troca no mercado do capital.

Os "trabalhadores" passaram a ser "colaboradores" - A visão dicotómica do conflito de interesses entre capital e trabalho passou para uma visão harmónica do trabalho e do funcionamento das empresas. Ser "colaborador" implica que os interesses são "comuns" e o que é bom para a classe empresarial é óptimo e serve na perfeição o interesse das categorias profissionais intermédias ou da base das organizações. Óptimo sistema ideológico como estratégia de esgotamento dos conflitos e dos interesses conflituais.
O mundo do trabalho e das empresas é o mundo da harmonia social!

Os indíviduos devem ser "flexíveis" - Se o capital é global e circula à escala do planeta à velocidade do som, não vêem os ideologos do sistema como não podem ser os indíviduos flexibilizados e melhor ainda "deslocalizados".

Os indivíduos devem ser também "empreendedores" - Numa época em que o capitalismo entra em crise de legitimidade, em que é possível crescer a economia e simultaneamente crescer o desemprego e o fecho de empresas, é provável que com indivíduos "empreendedores" a culpa dos disfuncionamentos do sistema seja da falta de empreendedorismo, pois o que não pode ser posto em causa é a ideologia neoliberal predadora que substitui políticas de pleno emprego por políticas de pleno interesse do capital.

O capitalismo "naturaliza" também o desemprego como uma "fatalidade" social - O que não falta por aí no nosso sistema mediático são afirmações do género: "São as empresas que criam emprego, isso de criar emprego não é coisa de políticos nem de políticas sociais".

A ignorância neoliberal tem a crença interesseira de que o económico é uma esfera da vida social desligada do político e do social. A divina crença do mercado livre, a funcionar no interesse de todos, adia qualquer tipo de intervenção do Estado pois mais tarde ou mais cedo "os mercados" vão responder...há que esperar... um ano, dois anos, cinco anos, dez anos, trinta anos, cinquenta anos...um dia o interesse pessoal transformar-se-á no interesse geral.
É a profecia de Marx ao contrário!

Mas o sistema capitalista na sua recente modalidade de funcionamento também "corrói o caracter" dos indíviduos. Richard Sennett, sociólogo Norte-Americano, demonstrou na sua obra "A corrosão do carácter" como o novo capitalismo destrói a possibilidade de uma vida pessoal e familiar harmónica, fazendo com que os indivíduos andem uma vida inteira "precarizados", "flexibilizados", à procura de uma carreira que demora em ser estável, pois é a turbulência identitária o que define a personalidade de cada um. O futuro, algures, um dia depois da morte, tratá alguma estabilidade e segurança ontológica.

Boa semana para o pessoal da blogosfera.

João Martins

sábado, agosto 26, 2006

A culpa é da chuva

Já vamos estando habituados a este tipo de incompetências e irresponsabilidades por parte de alguns dos políticos da nossa praça.

Como já aqui fiz referência a ausência de sensibilidade ambiental da maior parte dos nossos autarcas tem resultado numa catástrofe ambiental para o ordenamento do território na região do Algarve.

Numa época em que siglas como PROTAL,PDM,REN,RAN e outras que tais entraram no vocabulário até do cidadão menos informado, continuamos a recusarmo-nos do ponto de vista político a respeitar as prescrições e as proscrições que tais documentos recomendam e/ou obrigam.

Isso é comprovável pelo continuo abuso de construção em cima das dunas e da água do mar numa boa parte da nossa costa, coisa que me faz uma terrível "confusão" do ponto de vista das decisões e autorizações políticas.

É claro que tal depravação urbana tem que resultar em consequências danosas em termos ambientais.

Desta vez foi em Vale do Lobo. Uma descarga poluente em plena época balnear levou as autoridades ambientais (e muito bem!!!) a retirar a bandeira azul à respectiva praia.

Do lado económico, Van Gelder, o proprietário do empreendimento Vale do Lobo lavou desde logo as suas mãos fazendo como Pôncio Pilatos fez a Jesus Cristo: "Isto é um crime ambiental, temos que apurar responsabilidades e encontrar os responsáveis".

Da autarquia Louletana fez-se como o ministro Sócrates: "A gestão do silêncio é de ouro"..."pelo que nos toca informamos que as ETARS estão a funcionar em pleno".

Os responsáveis pela CCDR ultrapassaram-se a si próprios: "A culpa é da chuva que isto de chover no verão é um ultrage a todos os algarvios".

Para completar o cambalacho, Vale do Lobo, porque acha impensável ficar sem a tão apetitosa bandeira azul encontrou a solução encantatória para o problema: "A malta coloca a bandeira da União Europeia que por acaso também é azul e enganamos os parolos que aqui venham à nossa praia".

Pois é...é o reino da macacada!!!

Mas agora pergunto eu, quem se responsabiliza pelos impactos económicos, ambientais e...de saúde (saúde sim, porque estes não são visíveis nos cálculos económicos e políticos)para as populações que tomam o seu banho em àguas tão agradáveis?

A moda política é passar a mensagem que os defensores do ambiente são os "fundamentalistas" que travam o desenvolvimento económico dito "sustentável" mas parece que os "fundamentalistas" deveriam ser levados em conta em muitas mais situações.

Felizmente os estudos sociológicos indicam que as novas gerações são muito mais inteligentes do ponto de vista ambiental.

Pode ser que por aí o ambiente um dia ganhe o estatuto de cidadania em portugal.

Um abraço ambiental para todos

João Martins

sábado, agosto 12, 2006

A era dos danos "colaterais"

O mundo está mais perigoso do que nunca.

A guerra continua a ser uma instituição social total e com os meios tecnológicos e militares hoje disponíveis a capacidade de destruição em massa e inclusivé o risco de se acabar com a espécie humana é uma probabilidade comtemporânea bem real.

Norbert Elias, sociólogo Alemão, que percorreu em vida quase todo o século XX e assistiu aos horrores da segunda guerra mundial já tinha avisado.

Progredimos espantosamente na capacidade tecnológica e no aparente domínio sobre a natureza não humana, mas pouco evoluimos na capacidade de estabelecermos um entendimento entre os seres humanos.

A capacidade de vivermos harmoniosamente como seres humanos sem fazermos a separação entre um "nós" e os "outros" é infinitamente mais limitada do que a capacidade de destruição nuclear.

O 11 de Setembro de 2001 e as políticas seguidas pela administração Bush de combate ao "terrorismo", atacando estados e nações inteiras, onde se deveria combater apenas os grupos terroristas altamente organizados, veio potencializar o ódio ao "ocidente" e o consequente aumento da capacidade de recrutamento humano dos grupos terroristas espalhados por todo o mundo.

De toda a forma não se percebe muito bem se foram as guerras no Medio Oriente que potencializaram os actos terroristas ou se pelo contrário foi o terrorismo que deu origem à escalada da guerra. Provavelmente a relação é de causalidade circular.

Uma coisa é certa, o mundo mudou. Os actuais acontecimentos, entre os quais o mais recente no aeroporto de Heathrow, vão legitimar políticas de privação das liberdades individuais.

Bilhetes de identidade genéticos. Câmaras de video-vigilância nas casas de banho públicas, centros comerciais, auto-estradas, jogos de futebol, teatros, na ópera e outros que tais. Redes de satélite vigilantes dos mais pequenos movimentos individuais.
Sistemas de vigilância que visualizam seres humanos como vieram ao mundo.

Aviões carregados de civis abatidos em pleno ar pelas autoridades oficiais sempre que houver movimentos suspeitos e violação de espaço aéreo provocando danos "colaterais" (o que só legitima mais a causa dos terroristas que podem sempre dizer que foram "eles" que destruiram os aviões com civis voltando as populações contra os Estados)....o caminho está a ser traçado.


Existe uma visão política mais conservadora que só precisa do pretexto que agora está a ser dado. O Estado Totalitário severamente critícado por George Orwell em 1984 na sua visão do Big Bhother veio para ficar.

Ia para Londres esta semana em férias. Felizmente a agência de viagem conseguiu a alteração de destino a meu pedido.

O paradoxo acentuou-se na minha memória.

Segurança pessoal e colectiva ou liberdades individuais inalienáveis?

Não sei, tenho muitas dúvidas. Raramente tenho certezas e engano-me muitas vezes. Mas estarei disposto a abdicar das minhas liberdades tão duramente conquistadas ao longo da história da humanidade? Não valerá a pena sofrer a infima e dramática probabilidade de um dia, algures no globo terrestre sofrer um atentado?

E o terror será melhor combatido com o terrorismo de Estado?

A assunto está na ordem do dia e esta é uma discussão política em que os cidadãos têm que participar.

Bom fim de semana a todos os cibernautas.

João Martins

terça-feira, agosto 01, 2006

Sinais preocupantes da democracia portuguesa

Os regimes democráticos não sendo isentos de imperfeições caracterizam-se por um tipo de dominação racional-legal como nos ensinou o grande sociólogo Max Weber.

Quer isto dizer que o que legitima a dominação dos dominantes sobre os dominados é a crença na legalidade e nos regulamentos instítuidos pela lei do Estado de Direito.

A separação do cargo do homem que o ocupa é assim uma das traves mestras da legitimidade dos regimes democráticos.

Infelizmente assim não o entendem alguns dos nossos mais conceituados autarcas que têm vindo a público recentemente com afirmações discursivas e práticas sociais muito preocupantes do ponto de vista da vida democrática, demonstrando alguns comportamentos mais conformes com as práticas políticas dos regimes autoritários.

Senão vejamos, Rui Rio "proíbe" a crítica social e política às entidades que sejam apoiadas financeiramente pela autarquia do Porto. Promove desta forma um rebanho de cordeirinhos obedientes pois se dizem o que pensam o "subsídio" da autarquia com toda a certeza que será retirado.

Alberto João Jardim quer um jardim exclusivamente para heterossexuais. Para este "dinossauro" da política portuguesa Sócrates anda a enganar os portugueses pois faz de conta que quer resolver os problemas económico-financeiros do país, mas o que ele quer mesmo fazer, qual visão conspirativa, é legalizar o casamento dos homossexuais sem que os portugueses se apercebam, quase como o fez com a substituição do Ministro dos Negócios Estrangeiros, contribuindo assim segundo o omnipotente Jardim para a "degradação moral da vida portuguesa".

Fernando Ruas quer "expulsar os fiscais do ambiente à paulada" "valorizando" desta forma as preocupações ambientais dos portugueses e aderindo ainda ao "apanhem-no vivo ou morto" tão do agrado de George W. Bush.

Pois é, é a democracia que vamos tendo. Se isto continua assim começa a ser preocupante e de certa forma um retrocesso em relação às conquistas de Abril de que tanto estes senhores acima referidos apregoam ter contribuido.

Boa semana e lembrem-se que a democracia não é um estado adquirido de uma vez por todas mas sim um processo em constante transformação.

João Martins

domingo, julho 23, 2006

O Ethos ambiental dos nossos autarcas

Fernando Ruas, presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses mostrou em todo o seu esplendor o pensamento comum à maior parte dos autarcas portugueses sobre as questões ambientais.

Diz-nos este senhor para não hesitarmos e "corrermos com os fiscais do ambiente à pedrada".

É lamentável que este senhor represente os autarcas portugueses e ainda mais lamentável que esta seja a visão do mundo que predomina na cabeça da maior parte dos nossos autarcas.

Não tomando a nuvem por Juno nem a àrvore pela floresta, o desordenamento do território em todo o país é tal que deixa envergonhado qualquer cidadão de um país que se queira civilizado.

Numa altura em que o PROTAL está em cima da mesa das negociações, aquilo de que mais se queixam os nossos autarcas é dessa "moda do ambiente" como entrave ao desenvolvimento económico, sendo que na óptica da maioria desses senhores desenvolvimento é igual a crescimento económico.

Basta dar um passeio pelo litoral e vemos que é possível em Quarteira construir prédios de dez andares dentro da areia (caso da última construção antes de chegar ao Forte Novo).
É possível ver vivendas a caírem para dentro de àgua na praia de Vale do Lobo (num claro atentado ambiental à erosão costeira).
É possível ainda nas Dunas Douradas construir vinte apartamentos a cinco metros das dunas de areia (coisa só possível com "compadrios" na aprovação das licenças de construção).

Entre projectos estruturantes e de interesse "vital" para a "Região" e a construção de Marinas ao longo da costa algarvia o caminho que se está a seguir não é claramente o do ordenamento da Orla Costeira, mas sim o de continuar a "betanização" do que falta cimentar em cima das àguas algarvias.

Pelo menos houve o decoro dos custos económicos do desinvestimento ambiental em Vale de Lobo terem desta vez sido suportados pelos próprios privados que exploram essa costa, pois da última intervenção tinham sido em parte os dinheiros públicos a custear os interesses privados que lucram com o negócio.

Hoje, dia 23/07/2006 fui expulso por um segurança da empresa Prosecom das Dunas Douradas quando tentava estacionar o carro para ir à praia.
Os senhores estão a construir 10 apartamentos em "cima" da àgua do mar e já se sentem donos da antiga praia "As Três Marias".

É mais um caso grave de apropriação privada do espaço público e a tentativa de apropriação da praia para "ricos" clientes expulsando o "povo" da dita cuja.

Grave do ponto de vista da democracia. Não acha, senhor Presidente da Câmara Municipal de Loulé?

João Martins

sexta-feira, julho 14, 2006

Proposta indecente

Gilberto Madail no seu melhor! Depois da catarse nacional e do bom desempenho da selecção portuguesa, há que reconhecê-lo, eis que aparece o caciquismo futebolistico no seu esplendor.

A proposta feita pelo senhor presidente da federação portuguesa de futebol no sentido de isentar de impostos os "pobres" trabalhadores do mundo da bola ultrapassou todas as expectativas de bom senso ao alcance do cidadão comum.

Num país em que o salário mínimo "nacional" ronda a miserável quantia de 350 euros por mês, o senhor Madail acha por bem que os nossos milionários futebolistas sejam "beneficiados" pelo bom serviço de salvação da pátria lusitana.

Eis uma proposta que diz tudo sobre quem a faz e que diz muito mais sobre como pensam e vêem o mundo os caciques do mundo da bola.

O futebol até há bem pouco tempo sempre foi um Estado Paralelo, qualquer coisa como um Estado dentro do Estado, onde a fuga ao fisco, a lavagem de dinheiro vindo de negócios escuros e os conluíos entre construtores civis, câmaras municipais e dirigentes desportivos adquiriam contornos de "normalidade". É o "sistema" a funcionar pois não pode ser de outra maneira já que todos fazem assim.

Se o meu vizinho compra os árbitros eu também tenho que comprar e este círculo vicioso alimentou-se desta "naturalidade" até à meia duzia de anos. Pena que aqui em Portugal o "apito dourado" não tenha qualquer repercussão social pois a nossa justiça infelizmente é tremendamente injusta.

Provavelmente temendo aquilo que acontece neste momento no futebol Italiano, onde a corrupção futebolistica já não passa impune, o senhor Madail decidiu fazer esta proposta legal e imoral simultaneamente.

Eu faço uma proposta decente. Por favor não tomem o dito "povo" por idiota, despeçam já esse senhor.

Quem assim pensa não pode continuar a desempenhar o lugar que ocupa.

Em nome dos impostos dos portugueses, de forma a que não precisem tanto de "apertar o cinto" para que afinal de contas o Estado Social vá passando a ser apenas uma parcela dos livros de História de Portugal.

Abraços e beijinhos

João Martins

terça-feira, julho 04, 2006

Lésbicas pois. Onde está o problema?

O canal dois da RTP está a fazer história com a transmissão da série "Lésbicas".

História, porque esta é uma categoria social estigmatizada e marginalizada ao longo dos tempos na sociedade portuguesa.

História porque está a tornar visível aquilo que é oculto no dia a dia de muitos cidadãos que vivem entre nós e a quem são escamoteados os seus direitos.

A homossexualidade é entendida na maioria das sociedades contemporãneas como "contra-natura", rejeitada e condenada pela igreja católica como um pecado divino e os homossexuais têm direito à sua existência social desde que se mantenham na sua invisibilidade.

Uma sondagem publicada pelo jornal Expresso há alguns meses atrás revelava que existem em Portugal perto de um milhão de homossexuais, o que quer dizer que existe a probabilidade de 1 em cada dez pessoas que conhecemos pertencerem a esta categoria sexual.

A sexualidade de cada um só ao mesmo diz respeito e o heterossexualismo saloio que vê a norma heterossexual como a única legitima não raras vezes resvala para a homofobia social. Que o digam os miúdos que no nosso país se "divertiam" a espancar um transsexual, terminando a "brincadeira" por lhe acabar com a vida.

Mais uma vez os nossos vizinhos Espanhóis já levam vantagem naquilo que são a defesa dos direitos das minorias sexuais e avançaram este ano com a legalização do casamento entre homossexuais.

Parabéns à RTP pelo contributo que ajuda a desmistificar este lado oculto da vida social e que condena tanta gente ao isolamento e à descriminação.

Para quando a legalização do casamento dos homossexuais em Portugal e o reconhecimento dos mesmos a uma via socialmente condigna?

Abraços
João Martins

quinta-feira, junho 22, 2006

O mundial dentro de casa

Pois é, a globalização tem destas coisas. Não vou à Alemanha ver o mundial, mas não tem problema, já que o mundial vem até mim.
Abençoada globalização.

Infelizmente porque não sou doente da bola e preciso de dinheiro para gastar em coisas mais úteis, tenho TV Cabo, mas não tenho Sport TV. Já agora aproveito e digo, não tenho, nem quero ter.

Mas este fenómeno social da monopolização privada do acesso à visualização dos jogos de futebol gerou um fenómeno interessante e simultaneamente discriminatório.
É que estamos a assitir a uma mudança na composição social dos espectadores dos espectáculos de futebol.

Este que sempre foi "o" desporto por excelência das classes populares está a sofrer uma recomposição classista. O seu público está-se a emburguesar.
Desde logo pelo preço dos bilhetes para assistir aos jogos de alto nível, só acessíveis aos bolsos de alguns e depois porque o acesso às transmissões televisivas está a ficar também só ao alcance de uns quantos.

Felizmente o pessoal da hotelaria recusou os planos do monopólio do capital e o bom povo pode sempre ir até ao café do bairro ver o que se vai passando na Alemanha.

Mas falemos dos principais protagonistas do espectáculo, as equipas e os seus jogadores.

A terminar a primeira fase, posso-vos dizer que gostei do bom futebol praticado pela Argentina, a Holanda e a Espanha.

Parece-me que vamos ter que contar com a Alemanha que joga em casa e está a jogar benzinho e também com a Inglaterra (meio campo fortíssimo)como potenciais candidatos.

O Brasil está a meio gás e vai ganhando sem grandes problemas. Não têm deixado jogar o "quadrado mágico".
O problema (para os seus adversários claro) é que quando estes tiverem que jogar o jogo pelo jogo, ai o Brasil vai sambar.

Portugal, não estando num grupo forte, cumpriu a sua missão. Em mundiais não há jogos fáceis e três vitórias em três jogos é um feito digno de registar.
Agora vem aí o "mata mata" como diz o mister Scolari e a partir daqui tudo é possível. Como alguém do mundo da bola disse um dia "deixem-nos sonhar".

Parabéns ao Equador e ao Gana que fugiram ao socialmente esperado e já ganharam o seu mundial.

Dos craques destaco Saviola, Riquelme, Messi e Crespo da Argentina. Fernando Torres de Espanha, Figo de Portugal (já sem velocidade mas com uma inteligência superior, o que é suficiente para o seu futebol continuar a encantar). Tivesse o Cristiano Ronaldo metade da inteligência de Figo... mas infelizmente o que lhe sobra noutras qualidades falta-lhe na capacidade de pensar o jogo.

Da Inglaterra há os que nunca jogam mal porque não sabem fazê-lo, são eles Lampard, Gerrard e Joe Cole.

Do Brasil claro, Ronaldinho Gaúcho e Kaka que quando lhes darem espaço vão desgraçar as defesas adversárias.

Balanço positivo desta primeira fase com muitos jogos agradáveis de se ver e com a tónica positiva de os árbitros até agora não se fazerem notar.

Suspeito que nesta fase do "mata-mata" a qualidade dos jogos vai piorar pois com equipas muitos equilibradas os sistemas tácticos fechados e defensivos vão imperar.

Abraços a todo o pessoal e boa sorte mister Scolari.

João Martins

domingo, junho 11, 2006

Futebol, media e nacionalismo bacoco

Já lá vai o tempo da célebre trilogia Fado, Futebol e Fátima. A Época Salazarista utilizou o futebol como instrumento de reprodução da ideologia dominante e como instrumento de legitimação do estado.

Slogans como "Nada contra a nação, tudo pela nação" ou "Portugal indiviso de Minho a Timor" serviam para a legitimação da dominação colonial e para provocar a ilusão de unanimidade onde existia a divisão e a conflitualidade.

A inculcação do nacionalismo pelo Estado servia de instrumento de legitimação do próprio Estado assegurando a dominação da elite dirigente do Estado Novo.

Hoje, já não temos Eusébio, mas temos os media que provocam a catarse nacionalista fomentando a histerese colectiva de um povo perdido de causas.

Em época de globalização, em que os Estados Nação perdem a sua soberania, em que ser cidadão do mundo pareceria ser uma evidência, temos aí a criação de uma identidade defensiva (o nacionalismo bacoco), que resiste à invasão do global tido como ameaçador e gerador de incertezas quanto ao nosso lugar do mundo.

Com a multiplicidade de referências identitárias com que somos bombardeados a partir da aldeia global, os individuos entram em crise de identidade.

A nacionalidade é um elemento identitário facil de agarrar e o futebol e os media têm todos os ingredientes para a alimentar.

O pior, é que se os nossos "heróis" contemporâneos não corresponderem às nossas expectativas, passamos rapidamente de um sentimento de orgulho na nação a uma nação depressiva.

Pois eu lamento, mas não tenho bandeira à janela, nem tenciono colocá-la.

Sou Louletano, Algarvio, Português, Europeu e sobretudo "Não sou Grego nem Ateniense, Sou um Cidadão do Mundo".

Cuidado com os nacionalismos bacocos em época de globalização...é que se nos fecharmos muito sobre nós próprios acabamos por despertar fenómenos como o racismo e a xenofobia. E estes estão aí mortinhos por despertar.

Boa sorte Portugal, que ganhe o melhor e que esse seja aquele que praticar melhor futebol.

Abraços
João Martins

domingo, junho 04, 2006

A Educação de Sócrates

Fantástica a afirmação de Socrates sobre o estado da educação nacional.
Diz-nos este brilhante cientista da educação que a educação nacional daquilo que precisa é de "menos ideologia" e de "mais resultados".

Para espanto meu, é possível um primeiro ministro em Portugal dizer uma barbaridade destas sem qualquer ponta de perplexidade e o mínimo questionamento por parte dos experts dominantes no status quo do espaço jornalistico nacional.

Vale a pena desmontar estas evidências de senso comum político e questionar afinal se poderá a educação não ser ideológica.

A questão de fundo será então:

- Pode a educação ser não ideológica?

E a resposta clara só pode ser, obviamente que Não.

A educação por natureza é ideológica pois é inevitavelmente um campo de lutas sociais e políticas. Educar é por definição ajudar a escolher futuros possíveis na vida dos indivíduos e não pode ser nunca apenas percorrer um caminho já traçado pelo 1º ministro do país e que se resume este a educar para a competitividade, numa lógica acrítica de submissão ao mercado capitalista neoliberal.

Deve a educação ser laica ou religiosa? A decisão é política e ideológica.

Deve a educação estar centrada nas artes ou nas ciências? A decisão é política e ideológica.

Homens e mulheres devem estudar juntos nas mesmas escolas e universidades? A decisão é política e ideológica.

O curriculo deve ser uniforme e estandardizado para os alunos de todo o território nacional ou deve ser adequado às especificidades dos locais e dos alunos? A decisão é política e ideológica.

A educação deve ser teórica e abstrata ou deve ser prática e concreta? A decisão é política e ideológica.

Os pais devem avaliar os docentes e as escolas ou afinal não devem porque se acha que não têm competência para tal? A decisão é política e ideológica.

O retrato de Salazar, Cavaco e Sócrates devem estar afixados por cima do quadro negro no interior das salas de aula ou não deve porque a vida partidária não deve estar presente na sala de aula? A decisão é política e ideológica.

O manual escolar deve ser único e o mesmo para todos os alunos ou pelo contrário deve ser diversificado permitindo aos actores escolares a escolha dos mesmos? A decisão é política e ideológica.

A gestão das escolas deve ser privada e feita por gestores ou pelo contrário pública e feita por professores? A decisão é política e ideológica.

A escola deve ser para todos e democrática ou só para alguns e elitista? A decisão é política e ideológica.

As famílias podem escolher as escolas e pagarem a sua qualidade ou não podem escolher e devem matricular os filhos nas escolas dos territórios ditos "problemáticos"? A decisão é política e ideológica.

O véu dito islâmico pode entrar nas escolas laicas ou pelo contrário deve ficar à sua porta e ser objecto de exclusão do espaço escolar? A decisão é política e ideológica.

As artes e o desporto deveriam ter mais horas no curriculo escolar e serem de aproveitamento obrigatório para se transitar de ano ou devem ocupar uma posição de saberes subalternos no espaço escolar e não contarem para transitar de ano? A decisão é política e ideológica.

Pois é senhor Sócrates "menos ideologia" e mais "resultados" porque afinal as escolhas fundamentais o senhor já as fez, quanto ao resto o senhor ensina-nos como lá chegar.

Olhe deixo-lhe uma passagem de Émile Durkheim, brilhante sociólogo da educação de finais do século XIX para que possa meditar no assunto:

“Quando estudamos historicamente a forma pela qual se formaram e desenvolveram os sistemas educacionais, apercebemo-nos de que os mesmos dependem da religião, da organização politica, do grau de desenvolvimento das ciências, do estado da indústria, etc. Se os desligarmos de todas estas causas históricas, eles tornam-se incompreensíveis” (Émile Durkheim in Educação e Sociologia,1922).

Abraços e beijinhos para o pessoal da blogoesfera.

João Martins

sexta-feira, maio 26, 2006

Problemas da cidade de Loulé 23: Vírus do mau jornalismo ataca a cidade de Loulé

Não é novidade para ninguém que o mundo da informação se transformou num negócio de mercadoria.

Dar a notícia primeiro que o vizinho do lado tornou-se uma doença jornalistica do mundo pós-moderno e por vezes uma questão de sobrevivência pessoal e organizacional de quem vive do negócio da informação.

O assunto está na ordem do dia e os media da cidade de Loulé não estão imunes a este fenómeno.

Aqui vai o relato de um exemplo de péssimo jornalismo e de um mau serviço público prestado pelo jornal local A Voz de Loulé no dia 1 de Maio de 2006.

Afinal, estava ou não, o deputado do partido socialista Hugo Nunes presente na Assembleia da República, no dia em que uma boa parte dos deputados faltaram às suas obrigações não constituindo o quorum necessário à aprovação das leis da república?

É que qualquer leitor da Voz de Loulé de 1 de Maio de 2006 que queira ficar esclarecido sobre a verdade deste facto acaba por ficar incrédulo com a forma como este alto representante da nação foi tratado pelo editorial deste humilde jornal.

Vejamos como é abordada a notícia.

Numa das páginas centrais do jornal aparece um artigo de opinião de um comentador conhecido na nossa praça que após ter elaborado uma crítica pertinente à ausência dos deputados nesse referido dia, com a qual concordo inteiramente, passa de seguida a fazer um ataque pessoal ao Dr. Hugo Nunes, qual falácia ad hominem, injuriando-o com atributos muito pouco elegantes denegrindo agressivamente a imagem pessoal do mesmo.

Não teria eu nada a dizer, se não tivesse ficado estupefacto com o facto de na mesma página em que esta dura crítica pessoal é tecida, o mesmo jornal apresentar um desmentido do deputado em que este confirma que esteve presente no parlamento, inclusivé na hora em que iria decorrer a dita votação.

Pois é, para um humilde leitor como eu, que queira ficar esclarecido dos factos, podemos dizer que não bateu a bota com a perdigota.

É que se é verdade que o Dr. Hugo Nunes esteve presente no parlamento, o jornaleco local em causa, seguindo as regras da ética e da deontologia jornalísticas, só teria que ter tido o trabalho de verificar a veracidade da notícia com um simples pedido de esclarecimento à assembleia da república e então aí sim, faria a notícia de acordo com a verdade dos factos.

Evitaria assim fazer um péssimo serviço aos leitores louletanos e evitaria também estigmatizar o trabalho e a vida dos cidadãos manchando a imagem dos mesmos com danos que por vezes são difíceis de reparar.

Este é um belo exemplo do péssimo jornalismo que se faz em Portugal.

Fica no ar a minha dúvida. Estará a imprensa local assim tanto com a corda na garganta em termos da sua sobrevivência que precisa dos poderes instituidos para sobreviver?

Estará a ser instrumentalizada por algum partido político?

Se não o está, parece-me que tem que ter cuidado com a forma como informa os leitores.

É que se desta forma conquista os leitores de uma determinada cor política certamente que afugenta aqueles que querem uma informação isenta e credível.

Abraços a todo o pessoal e votos de uma boa vigilância à saúde da democracia.

João Martins

domingo, maio 21, 2006

Problemas da cidade de Loulé 22: A ideologia do fim das ideologias

A crise petrolifera do início dos anos 70 trouxe consigo o fim de um período de crescimento económico sem precedentes no mundo ocidental. Era o fim dos conhecidos "trinta gloriosos" anos e do compromisso político entre o sistema capitalista como sistema de trocas económicas legitimamente institucionalizado e a democracia representativa, consubstanciada no Walfare State, conhecido entre nós como Estado Providência, sendo este que assegurava uma maior equidade na distribuição da riqueza acumulada e que sustentou o crescimento das classes médias no mundo ocidental, impedindo assim que as profecias de Marx da revolta do proletariado face aos capitalistas se concretizassem.

Com a criação do Estado de Bem Estar na Europa os cidadãos dos países europeus institucionalizavam os direitos sociais, que tanto suor, sangue e lágrimas tinham custado às classes trabalhadoras e pela primeira vez na nossa história uma grande maioria da população usufruia de sistemas universais de Saúde, Educação, Segurança Social, apoio social aos mais desfavorecidos e portanto instaurava-se um contrato social colectivo em que o social era encarado como muito mais do que um mero somatório de individuos isolados e em que a solidariedade social era um compromisso assumido entre os cidadãos e o seu Estado.

No início dos anos 80, com a chegada de Margaret Tacher (a dama de ferro) ao poder em Inglaterra e de Ronald Reagan nos EUA, as políticas neoliberais assumem a supremacia, assim como a ideologia de que o mercado deve funcionar por si próprio, pois só desta forma se conseguirá um ajustamento perfeito da economia.
Associado a esta ideia, a crença tida como indiscutível,de que o Estado só atrapalha o funcionamento da mesma e portanto deve ser reduzido ao minímo, para que assim se substitua o governo dos homens pela administração natural das coisas.

Com a queda do muro de Berlim e a vitória do sistema capitalista sobre o sistema comunista estavam asseguradas as condições para que o "Pensamento único" traduzido no fundamentalismo neoliberal assumisse as funções de equivalente funcional dos dogmas de fé religiosos tipícos do tempo da inquisição.

Francis Fukuyama declara o"Fim da História" (o que só demonstra como também os intelectuais mais consagrados podem ser portadores de uma cegueira estupidificante) e outras grandes mentes iluminadas o "Fim das Ideologias".

O que restou então?

O fundamentalismo neoliberal, sob a forma de ideologia do fim das ideologias, que se consagra a si mesmo como forma de pensamento único e que é inculcado a partir das grandes instâncias internacionais como o Banco Mundial, O FMI, a OCDE, o Banco Central Europeu e algumas universidades de elite ligadas aos grandes negócios internacionais que alguns autores designam como o "consenso de Washinton" e que decretam o fim único para o qual devem caminhar a economia dos países de todo o mundo, matando a política, subordinando-a totalmente à economia.

Bem poderiamos dizer...é o DÉFICE ESTÚPIDO!

Só tenho pena que esta seja uma doença que contagia partidos à direita e à esquerda, convertendo-se estes últimos em prostitutas de ocasião, em busca dos eleitores imaginários de um "centro" que está em todo o lugar e em lugar nenhum.

Lamento também com profunda mágoa que o socialismo e a social-democracia, essenciais ao funcionamento da democracia em meu entender, estejam novamente metidos na gaveta.

A política de volta é preciso. Vários caminhos são possíveis...trata-se é de reinventar novas formas de viver em sociedade e de construir em harmonia o colectivo.

Abraços a todo o pessoal com votos de que a História nunca tenha fim.

João Martins

sexta-feira, maio 12, 2006

Problemas da cidade de Loulé 21: Uma forma social ligeiramente diferente da nossa

Numa época em que a interculturalidade atinge contornos de moda e de urgente necessidade e em que qualquer pacato cidadão da cidade de Loulé se encontra com pessoas provenientes de outros sítios do globo e de outras culturas a qualquer hora do dia, deixo-vos o conhecimento dos habitantes das ilhas Marquesas na Polinésia estudados pelo antropólogo Ralph Linton em 1920.

Sirvam-se e bom apetite;

"Os habitantes das ilhas Marquesas constituem um povo da Polinésia que vive numa ilha do Pacífico Central a mais ou menos dez graus a sul do Equador e que são de uma extrema beleza física, sobretudo as mulheres. Foram os últimos habitantes da Polinésia a serem cristianizados e resistiram muito tempo à influência dos brancos, chegando mesmo a escorraçar os missionários. Quando foram submetidos, reagiram não procriando...

Ilhas montanhosas, cercadas por falésias abruptas, as Marquesas são formadas por vales estreitos separados uns dos outros por esporões rochosos. De vez em quando, estas ilhas são vítimas de secas prolongadas e destruidoras que originam péssimas colheitas e escassez de água. Estas secas, que se prolongavam por vezes, durante três anos, provocavam verdadeiras fomes e podiam reduzir a população a um terço, levando por vezes, os indígenas a praticar o canibalismo.

A propriedade agrícola apenas consta de árvores ou jardins dispersos pelos vales. A terra é propriedade colectiva da tribo, administrada pelo chefe, mas as árvores e as colheitas são propriedade individual. Em cada nascimento planta-se uma árvore que será propriedade do recém-nascido. Apesar disso, a base da alimentação é fornecida pela pesca que se organiza numa base comunitária com a ajuda de redes gigantes colocadas entre os barcos.

Antigamente, os habitantes das ilhas Marquesas eram robustos canibais e, excepcionalmente, até as mulheres tinham autorização para comer carne humana. Persiste um canibalismo cerimonial destinado a incorporar as qualidades do indíviduo que se come (em geral, de uma outra tribo) com preferência pelas crianças.

O estatuto social é determinado pela primogenitura, independentemente do sexo. Pratica-se, regularmente a adopção. Através dos parentes que possuem em cada geração a posição social mais elevada, os habitantes das ilhas Marquesas estabelecem a sua genealogia (que, por vezes, recua até setenta ou oitenta gerações).

Os casamentos são endogâmicos à tribo, verificando-se uma grande mobilidade. Entre os habitantes das ilhas Marquesas, há duas vezes e meia mais homens do que mulheres. A causa deste fenómeno é desconhecida ou é escondida. Por isso, o lar marquesiano é poliândrico. Há um marido principal e maridos secundários, excepto nos lares mais pobres...Os lares mais abastados podem ter mais de quatro homens para uma mulher e a casa do chefe tem onze ou doze homens para três ou quatro mulheres. Todos os membros do grupo assim formado têm direitos sexuais uns sobre os outros, constituindo-se assim uma espécie de casamento de grupo..."

Ralph Linton in Claude Dubar "A socialização. Construção das identidades Sociais e Profissionais".

Pois é, numa época em que a empregada de limpeza lá de casa é Angolana, a empregada do café do vizinho é ucraniana, o dono do restaurante de fim de semana é chinês, o craque do clube da terra é brasileiro, o médico de família é espanhol e o vizinho da vivenda do lado é um reformado proveniente de Ingleterra convém pensar em como conviver harmoniosamente com "os outros", os "estranhos" e enriquecermo-nos mutuamente num processo contínuo de aprendizagem cultural.

Convém aprender a pensar para lá das "formas" em que fomos metidos desde pequeninos e que no Ocidente (e não só,claro) têm a forma de uma palas, como as orelhas dos burros, que (de)limitam o universo dos possíveis da nossa imaginação.

Contudo, já sabem...se o vizinho do lado for das ilhas Marquesas...garantam que ele está bem alimentado.

abraços

João Martins

domingo, maio 07, 2006

Problemas da cidade de Loulé 20: Quando dizer é fazer: Há coisas que um presidente não pode dizer

Segundo o jornal Expresso deste Sábado, Cavaco Silva, dignissímo e excelentíssimo Presidente da República Portuguesa afirmou que pensa que a situação da economia portuguesa está "condenada" até 2010 e que nem tem a certeza que a mesma melhor depois disso.

Este homem que raramente se engana e nunca tem dúvidas, se tivesse lido os filósofos da linguagem como Austin e seus pares saberia com toda a certeza que falar é agir e ao contrário do ditado que refere que palavras leva-as o vento, as nossas enunciações discursivas são actos que afectam a vida de todos nós.

Se tivesse lido ainda Bourdieu e a sua brilhante obra, saberia também com certeza que os lugares de onde se fala dão ao que se diz a magia da "verdade" dos factos, provocando um impacto tanto maior quanto maior a importância do lugar de onde se enuncia aquilo que se está a dizer.

Resumindo, deixando-nos de filosofar em torno dos actos de linguagem, o que eu quero dizer é que falar não é só dizer, mas também fazer. As nossas falas são actos que afectam e transformam as nossas interacções e a nossa vida social quotidiana.

Austin ilustra isto brilhantemente com o ritual do batizo e do casamento demonstrando que só quando o padre declara "eu te batizo" ou enuncia "declaro-vos marido e mulher" é que os actos de batizar e de casar se concretizam.

Isso quer dizer que se o pacato cidadão de Boliqueime, Aníbal Silva, disser que a economia está no "fundo", quando muito, provoca uma discussão entre amigos no café junto às bombas de gasolina desta pacata vila e não afecta a quantidade de moedas que os mesmos têm no bolso.

Se for o presidente Cavaco e Silva a dizer que a economia está no "fundo" isso arrasa a confiança completa dos investidores contribuindo para um maior afundamento dessa mesma economia.

Também Freitas do Amaral deveria ler Austin e Bourdieu pois sofre do mesmo problema de mau uso da palavra quando quem fala é o cargo e não o homem que o veste.

Disse Freitas do Amaral que está "cansado" por causa do desgaste do lugar de Ministro de Negócios Estrangeiros, pela elevada exigência do mesmo. Pois é, bela elocução performativa cujos efeitos sociais e políticos fazem as delícias da nossa praça, principalmente dos seus opositores.

A isto chama-se dar um tiro no pé...

Recomendo vivamente a leitura de Austin na sua obra "Quando dizer é fazer" e a de Bourdieu "O que falar quer dizer"...Pode ser que assim o mau uso da palavra diminua e que os tiros de caçadeira não acertem tantas vezes no dedo mindinho do "pé grande" dos nossos governantes...ops...disse "pé grande"? Desculpem, vou já a correr ler Austin e Bourdieu.

Abraços e beijinhos para a malta da blogosfera.

João Martins

segunda-feira, maio 01, 2006

Problemas da cidade de Loulé 19: Nuclear, não obrigado

A crise actual em torno do preço do petróleo devido aos disparates de George W. Bush e da administração Norte-Americana com as ameaças ao Irão, tem servido de pretexto para um poderoso lobbie económico forçar a entrada de centrais nucleares em Portugal.
É do conhecimento geral que o petróleo sendo uma fonte de energia não-renovável estará esgotado dentro dos próximos 50 anos.

É também do conhecimento geral que a implementação, funcionamento, manutenção e desmantelamento das centrais nucleares acarretam custos económicos, financeiros, sociais e ambientais que só uma forma de organização do trabalho de excelência pode evitar os riscos e perigos de desastre económico, ambiental e social.

O acidente de Chernobill na Ucrânia fez 20 anos na semana passada.
Da cidade só restaram os fantasmas e alguns velhos regressados ao seu chão natal, de cuja separação sentem que faria mais mal à sua existência social e pessoal do que qualquer morte lenta de médio e longo prazo por contaminação ambiental.

Chernobill deixou milhares de mortos, níveis elevadíssimos de radioactividade espalhados por várias partes do globo terrestre e milhares de pessoas marcadas por doenças associadas à libertação das radiações.

Os Espanhóis aqui ao nosso lado, começaram hoje a desmantelar a primeira das suas nove centrais nucleares prevendo fechar as outras oito nas próximas duas décadas.

Os nossos governantes porque, como sempre, acham que estamos "atrasados" nas questões do nuclear e porque a alta do preço do petróleo pressiona ainda mais o maldito "problema do défice nacional", começam a deixar-se namorar e a ser seduzidos pelos abutres económicos do negócio nuclear.

Mais uma vez a falta de cultura ambiental dos nosssos governantes pode vir a fazer com que a lógica meramente economicista possa vir a prevalecer.

Pela minha parte caros amigos, nuclear não obrigado!

Por muito que me argumentem com a o elevado nível de desenvolvimento técnico e com a sofisticação das novas centrais depois de Chernobill, aquilo de que tenho a certeza é que na maior parte dos acidentes de carácter técnico, são "erros humanos" que estão por detrás dos mesmos e esses são bem mais difíceis de controlar.

Porque não investir seriamente nas energias ditas "alternativas"? Porque não apostar em força na energia solar ?

No Algarve só mesmo a ignorância e a miopia ambiental permitem não apostar no belo sol com que os deuses nos permiaram.

Não teriam o governo central e as autarquias um papel fundamental para esta revolução cultural?

Poderia ser que assim a moda das Agendas 21 nas estratégias das autarquias não ficasse pelo mero ambientalismo prescrito e que passássemos a cuidar daquilo que mais precioso temos à nossa volta e que a mãe natureza nos deu.

A propósito, alguma mente iluminada da autarquia Louletana mandou cortar as árvores em frente ao Mercado Municipal de Loulé. Será ignorância política ou crime ambiental?

É que a lógica que leva a semear cimento e alcatrão nas nossas cidades destruindo arvores com largos anos de vida é a mesma que adere cegamente ao petróleo na costa algarvia e à paixão pelo nuclear.

Para quando o ambiente a incorporar a centralidade das políticas públicas nacionais e municipais?

Abraços e bom 1º de Maio. Comemorem bem o dia e já agora...reflitam sobre o significado histórico desta data, pois sem memória não há história que resista.

Abraços

João Martins

segunda-feira, abril 24, 2006

Problemas da cidade de Loulé 18: Loulé, 32 anos depois de Abril

Nasci em Abril de 1970. No ano em que Salazar morreu.

Sou de uma geração que herdou o salazarismo como ponte de construção para o futuro.
Em 1974, a Revolução dos Cravos mudou por completo a sociedade portuguesa, Loulé não podia ficar imune a isso.

Lembro-me, acabado de aprender a dar os primeiros passos, que Loulé era uma sociedade tipicamente rural, tal como a maior parte do país.
Do Parragil, de Boliqueime, de Salir, do Ameixial, de Almancil e mesmo de Quarteira, as pessoas vinham à "Vila" montados na mulas e nos burros, deixando estes o rasto do "escremento" como denúncia dos trajectos percorridos pela população do "campo".

Hoje os burros são uma espécie em vias de extinção e a maior parte das famílias andam no seu automóvel.

As famílias reuniam-se em épocas festivas. Avós,pais, netos, tios e tias, primos e primas partilhavam a mesma mesa, num sinal que a família extensa ainda predominava. O divórcio era uma espécie de "crime" moral e o valores comunitários em torno da solidariedade familiar ainda predominavam.

Hoje a família complexificou-se. Um em cada dois casamentos resulta em divórcio, as famílias monoparentais expandem-se, assim como as uniões de facto e os filhos fora do casamento (os designados filhos "ilegitimos", antes de Abril)e as familías recompostas (casais divorciados de segundos e terceiros casamentos que constituem novas famílias) adquirem carácter de "normalidade". Os casamentos católicos entram em regressão e aumentam progressivamente os casamentos civis.

A minha avó frequentes vezes me dizia "vem já para casa que vem aí a PIDE" como forma de me assustar e de me fazer obedecer ao que ela queria. Namorar na rua era um dos "pecados" originais e beijos em público era sinónimo de depravação e de vergonha cultural. Hoje já não há polícia política e a sexualidade ficou quase reduzida à questão do sexo.

Na escola primária, a minha professora da escola "paga" obrigava-me a escrever com a mão direita, eu que era esquerdino, pois escrever à "canhota" significava adesão às concepções comunistas. A régua era utilizada diariamente e a gestão do medo e da obediência era a estratégia pedagógica preferencial.

Hoje as pedagogias activas põem a liberdade a circular nas salas de aula e bastantes vezes os professores têm dificuldade no controlo disciplinar dos seus alunos.

No desporto, fui jogar futebol para o Louletano e nos infantis tive que comprar o meu primeiro equipamento, a minha mãe lavava a roupa do clube em casa, e os campos de futebol no Inverno eram um verdadeiro lamaçal. Hoje, o futebol entrou na era das SAD e é uma verdadeira indústria do capitalismo global.

A imprensa era controlada pelo Estado, nos anos 60 havia 40% de analfabetos e a passividade e obediência à trilogia Deus, Pátria, Família era um dogma fundamental do regime.

Hoje a globalização informativa entra-nos pela casa dentro e a internet torna mais difícil o controlo estatal da informação. As populações estão mais educadas embora o descrédito pela política e pelos partidos encontre um descrédito nunca visto.

As mulheres não votavam, eram mal vista nos cafés e outros espaços públicos, eram uma "desvairadas" se fumassem e demonstrassem comportamentos tidos como monopólio do mundo masculino.

Hoje libertaram-se de uma boa parte da dominação masculina e negoceiam os seus papeis sociais com os seus pares democratizando a relação conjugal.

Na cultura, Loulé na minha infância era um deserto cultural. Havia um único cinema, os bombeiros vigiavam sala para que a mesma não pegasse fogo e ver um filme por semana era um acontecimento digno de um "abastado cultural".

Hoje começa a haver uma interessante oferta cultural em Loulé(muito frágil comparada com o resto do país).

25 de Abril de 1974,
Não tenho dúvidas, esta é uma data que merece ser comemorada em todo o seu esplendor. Lamentavelmente é uma data que tem vindo a "esmurecer", tudo se passando como se a democracia não precisasse de alimento contínuo.

Hoje temos o drama do desemprego, a ausência de futuro no horizonte dos jovens, os velhos são tratados como trapos, os poderes políticos estão desligados como nunca da realidade da vida das pessoas, os problemas ambientais estão a degradar a qualidade de vida dos cidadãos, a droga afecta quase todas as famílias, o tráfico humano ligado à prostituição prolifera... O mundo de hoje tem claramente novos problemas associados aos níveis de "desenvolvimento" conquistado, mesmo assim não posso deixar de concordar...

25 de Abril, sempre...uma data ímpar na história da sociedade Portuguesa...que convém não apagar da memória, nem das "velhas", nem das "jovens" gerações...também Loulé deve alimentar "sempre" este pedaço de memória da história portuguesa, para que as ditaduras fiquem onde nunca deveriam de sair, no cemitério dos factos do passado.


Um grande abraço e bom feriado.

João Martins

terça-feira, abril 18, 2006

Problemas da cidade de Loulé 17: George W. Bush e o retrocesso civilizacional

Os tempos actuais são claramente tempos de retrocesso civilizacional, com riscos de regresso à barbarie que caracterizou os tempos da segunda guerra mundial.
Não tenho dúvidas que o 11 de Setembro contribuiu para legitimar novos atentados às liberdades dos cidadãos por parte dos Estados mais poderosos e hegemónicos.

O que significa o conceito de "guerra preventiva" promovido pela administração de Bush?

O que significa a célebre expressão "Apanhem-no vivo ou morto" (expressão digna do Faroeste) proferida pelo actual presidente Norte-americano a seguir aos atentados às Twin Towers, atropelando espantosamente as regras do Estado de Direito e dos estados que se dizem democráticos?

O que significou a guerra contra o Iraque decidida à revelia do Conselho de Segurança da ONU, legitimada sucessivamente como sendo em nome do combate ao terrorismo, em nome da restauração (será mais correcto "imposição") da democracia e em nome das armas de destruição maciça? (Que sabemos que nunca existiram e que os media através de montagens divulgaram por todo o mundo).

O que significa a "política do medo" instaurada na opinião pública inventando frequentemente inimigos fantasma? (E que conveniente é para desviar a atenção dos problemas internos das nações!!!)

O que significa o crescente controlo social dos cidadãos por parte dos Estados procurando colocar uma camara de filmar em cada canto de circulação das cidades?(Nunca sonharia George Orwell a que ponto a sua visão do Big Brother se poderia tornar real).

O que significa as afirmações de personagens como Bush de que se encontram preparados para atacar nuclearmente o Irão?

Um verdadeiro retrocesso civilizacional. Lamento dizê-lo, mas isto não é democracia.

Sinto-me impotente como cidadão para fazer face a estes poderes cuja capacidade militar e de destruição maciça nunca foi tão poderosa como nos dias de hoje.

Resta-me juntar a minha voz a quem possa ter alguma voz de protesto...e ter esperança que a barbárie não se venha a concretizar...mas ter esperança não significa ser optimista e neste momento só vejo cores negras ao fundo do túnel.

Parem a preparação da opinião pública para atacar o Irão já!!!

Até porque o petróleo já atingiu o recorde histórico de 72 dolares e isso não faz bem à saúde de ninguém...(a não ser de quem o vende claro!).

abraços

João Martins

quarta-feira, abril 12, 2006

Problemas da cidade de Loulé 16: Pode a democracia ser um regime pouco democrático?

Considero que a democracia é o menos mau dos sistemas de governo.

Se etimologicamente "demo" "cracia" significa o "governo do povo" e "para o povo", na realidade, a democracia não é mais do que o governo das elites sobre o povo, apesar da ideologia da governação em nome do "interesse geral" de inspiração Rousseauniana.

Robert Michels, célebre sociólogo italiano, demonstrou, através do que denominou de "lei de ferro da oligarquia dos partidos", que apesar dos partidos serem organizações fundamentais à vida democrática, tinham no seu seio uma lógica de funcionamento muito pouco democrática e que os partidos tinham portanto uma tendência para serem controlados por uma pequena oligarquia.

E este é claramente um dos maiores paradoxos da democracia. Sendo fundamentais à vida democrática os partidos tem um funcionamento interno muito pouco democrático.

Aos cidadãos nas democracias representativas resta-lhes hoje e apenas o direito ao voto ( o que historicamente é uma conquista civilizacional fantástica), mas que nas sociedades contemporâneas se torna muito pouco, perante a vontade crescente de participação dos mesmos e a constatação do esgotamento dos partidos como instâncias legitimas de participação política.

Contudo, o direito ao voto, limitadissímo como forma de expressão da vida democrática, em meu entender, tem sido um instrumento fundamental de rejeição de políticas e políticos que os cidadãos manifestamente repudiam, sendo portanto, fundamental, na regulação dos poderes assimétricos que regulam a vida das populações.

Foi assim com a rejeição massiva do governo de Cavaco e Silva.
Foi assim com a rejeição massiva de António Guterres (que soube tirar ilações disso mesmo e não foi comprendido por ninguém).
Foi assim com a rejeição de Santana Lopes(uma verdadeira "aberração" política que foi autenticamente pontapeado pelo dito "povo").
Foi assim com José Maria Aznar em Espanha (que quis enganar autenticamente as populações quanto aos atentados terroristas de Madrid)
E espero, deliciado, que seja assim com Silvio Berlusconi.

Este último, é a evidência de que a democracia pode ser um regime bem pouco democratico.

Controlou os canais públicos e privados de comunicação. Tornou a política um mero negócio de ocasião ao serviço dos seus interesses privados. Fez aprovar leis no parlamento italiano que lhe garantiram imunidade face aos crimes de corrupção de que estava a ser julgado, modificando o sistema júrudico em seu proveito próprio...coisa incrível num país que se diz democrático!!! Quem controla estes desvios da democracia???

Apesar disso, continuo a achar que a democracia é o melhor dos sistemas políticos, mesmo com todas as suas imperfeições...lamento é que a mesma não progrida na direcção do alargamento da democracia política, que não se extenda ao social, ao económico e ao cultural.

Que se vá Berlusconi!!!
Para que as preversões democráticas vão desaparecendo e para que o estado de direito não seja utilizado a favor dos interesses de algumas personagens para usurpação da coisa publica.

Um abraço

João Martins

sexta-feira, abril 07, 2006

Problemas da cidade de Loulé 15: O calor está a chegar e a época dos incêndios também

Desde que se deu no Algarve a maravilhosa "invenção social" do turismo que temos a já famosa "época balnear".
Com a crescente desertificação e despovoamento do interior do país e da nossa região descobrimos a "época dos incêndios".

A vaga de incendios que têm varrido o nosso país nos últimos verões têm induzido a pensar que se trata de uma "inevitabilidade" da mãe natureza.

Os próprios meios de comunicação social centram as suas coberturas mediáticas nas "espectaculares" imagens dos incêndios e na luta inglória do combate aos mesmos.

Fazendo isto mais uma vez os mass media distraem os cidadãos das questões centrais na discussão do problema dos incendios.

Ora aqui recordo alguns aspectos importantes, para que não se caia no erro de "naturalizar" a ideia que os incendios são uma "ira dos deuses", ou mesmo o resultado "irremediável" das vagas de calor.

E aqui, mais uma vez, não podemos ignorar as responsabilidades da inacção do poder político ao não tentar contrairar um modelo de desenvolvimento económico e social que agravou progressivamente as assimetrias sociais, contribuiu para a crescente litoralização do país (o país está a cair para o mar), a progressiva urbanização e o abandono total das regiões e povoações do interior.

Como resultado o território ganhou enormes desiquilibrios, os campos ficaram desabitados, as florestas e as matas sem gente para cuidar das mesmas e em vastas zonas do nosso país, nada restou a não ser enormes eucaliptais (verdadeiros "seca-vidas" verdade seja dita)acelerando-se assim a geral desertificação do nosso país assim como da região do Algarve.

O debate sobre o "problema" dos incêndios têm-se centrado de forma "miope" no combate aos mesmos e nos meios materiais e humanos mais ou menos escassos que haveriam ou não ao dispor dos bombeiros.

Todos sabemos que o combate aos incêndios é importante mas aquilo que verdadeiramente poderia mudar alguma coisa é mesmo a PREVENÇÃO.

E quanto à prevenção o que têm feito os nossos políticos?

Nada ou muito pouco.

As matas têm sido limpas? Muito pouco. A maioria dos proprietários não tem dinheiro, nem apoios para tal.

Existe uma política de desenvolvimento das populações e localidades do interior?
Muito pouco ou nada tem sido feito.

Pelo contrário, alguns bens e serviços que poderiam manter a fraca população que ainda vai existindo nas aldeias estão a ser "extintos" por motivos de "racionalidade" económica.

Sócrates anunciou o fecho de escolas, de centros de saúde, e de outros serviços em que o número de habitantes não justifica a sua continuidade (do ponto de vista meramente económico claro).

Foram contratados guardas-florestais para vigiar, limpar e cuidar das florestas?
Não me parece que o "défice" o permita.

Sintetizando, apostamos em atacar as "consequências" e negligênciamos completamente as "causas".

Enfim, espero que minha previsão esteja errada e que o resto que sobra das paradisíacas serras de Monchique e do Caldeirão (verdadeiros pulmões da nossa região)não tenha o mesmo destino que nos últimos anos.

E que os poderes políticos depois não retirem ainda vantagens políticas das campanhas de solidariedade de "bom coração", com estas desgraças para as quais contribuem...mesmo que seja por inacção.

Porque por vezes, mais importante do que aquilo que se faz, é aquilo que não se faz, e que deveria ter sido feito...

Boa Pascoa e abraços para todos os algarvios.

João Martins

sexta-feira, março 31, 2006

Problemas da cidade de Loulé 14: Elas, as cotas e a democracia

Não tenho qualquer dúvida de que elas são mais descriminadas do que eles.
Elas esfregam o fogão, eles nem por isso. Elas mudam as fraldas aos bébés, eles nem por isso. Elas lavam a sanita, eles nem por isso. Elas cuidam dos idosos, eles nem por isso. Elas têm em geral uma dupla jornada de trabalho, eles nem por isso.
Elas executam trabalho remunerado e não remunerado (trabalho doméstico visto como não trabalho e por isso não pago, que bem serve à reprodução do sistema capitalista e à sua mais fácil acumulação).

Elas, mesmo quando eles estão desempregados, é que tratam dos afazeres domésticos. Elas, para o mesmo tipo de actividade profissional, em média, ganham menos do que eles.
Elas, ocupam os empregos menos prestigiantes e pior remunerados em geral. Elas, à medida que vamos para o topo da hierarquia das empresas vão perdendo representatividade estatística.
Elas, no interior do sistema político e dos cargos de poder são quase inexistentes.

Elas, para serem reconhecidas como competentes por eles têm que ser duplamente melhores que eles.
Elas estão em maioria nas escolas e nas universidades e em média têm melhores notas que eles.

Elas ao longo da história conseguiram progressos notáveis em direcção à igualdade social.
Elas já foram muito mais discriminadas do que nos dias de hoje, mas hoje é que fazem ouvir a sua voz com força. Quem não se recorda da autorização prévia dos maridos para elas saírem para fora do país durante o Estado Novo!

Mesmo assim tenho dúvidas, muitas dúvidas sobre as cotas. Mais á frente explico porquê.

Mas neste debate das desigualdades de género, habitualmente no discurso político e nas ideias de senso comum existe uma grande falácia!!!

E a falácia é a seguinte;

É que elas não são só elas!

Elas situam-se numa determinada classe social, são brancas, pretas ou amarelas, são jovens ou idosas, são deficientes ou muçulmanas e isto baralha todas as contas políticas possíveis sobre as desigualdades entre homens e mulheres.

Os estudos sociológicos sobre as desigualdades de género são concludentes:
Elas, quando pertencem a um lugar de classe previligiado atenuam bastante as desigualdades.
Ocupam também cargos de topo e intermédios, apesar de mais ligados à educação e ao cuidar dos outros, eles dominam mais do lado económico e político.

Elas quando previligiadas, têm uma divisão do trabalho doméstico mais equilibrado e a "ajuda" deles (ou então recorrem à contratação de trabalho doméstico feminino, elas, quando previligiadas, têm um forte poder nas decisões familiares e nas externas à vida familiar.

Elas, quando previligiadas socialmente, têm independência, autonomia e são senhoras da sua vida.

O problema é quando elas estão situadas nos lugares de classe mais desfavorecidos. Aí, elas, são duplamente desfavorecidas. Esfregam por eles, cozinham por eles, educam os filhos por eles, cuidam dos idosos por eles, estão dominadas por eles.

A variável classe social baralha todas as contas das desigualdades de género.

Sobre as cotas...o que alimenta as minhas dúvidas é simplesmente isto...

- Estão as classes socias igualmente representadas no parlamento e na vida política???...os pobres, o dito "povo", não está com certeza. Ok...um terço de quotas para o pobre povo.

- Estão os africanos, os chineses, os imigrantes de leste, representados no parlamento??? Não estão. Ok...cotas para os coloridos "não brancos".

- Estão os jovens representados nos orgãos de poder político equitativamente??? Não estão...ok...cotas para os jovens.

- Estão os deficientes representados nos pricipais orgãos políticos onde se tomam decisões??? Não estão...ok...cotas para os deficientes de todos os tipos.

Já agora, vale a pena dizer, embora seja políticamente pouco correcto, que as maiores desigualdades da nossa sociedade, são as desigualdades de classe, mas essas estão claramente despolitizadas.

É como se o capitalismo para se alimentar a si próprio incessantemente, precisa-se de ocultar que é um sistema fortemente desigualitário, legitimando-se as desigualdades de classe como uma "inevitabilidade" da vida social, uma espécie de destino de Deus, que quiz que uns fossem ricos e outros pobres...pobres mas honrados diria Salazar.

Esta "naturalização" da desiguadade em relação às classes sociais valia a pena voltar à ordem do dia.

Mas eles e elas, quando ambos pobres, não têm a voz reindivicativa que têm elas, quando mais favorecidas.

Quotas...não sei, continuo com dúvidas e aberto à discussão.

Um abraço e bom fim de semana

João Martins

domingo, março 26, 2006

Problemas da cidade de Loulé 13: Entre o público e o privado. Autarcas e resquícios do ethos salazarista

Rui Rio é o seu nome. É presidente da Câmara Municipal do Porto e revelou em todo o seu esplendor como o salazarismo está incorporado na alma de uma boa parte dos autarcas da sua geração.

Só um génio poderia decretar que a partir de agora só os problemas dos cidadãos considerados como de carácter público pela autarquia serão atendidos por este esplendido autarca.

Brilhante...nenhum regime ditaturial faria melhor.

O problema agora é definir o que é que é um problema público e o que é um problema privado.

Penso que no Porto a autarquia resolverá bem o caso...criará a categoria profissional de "Técnicos de Selecção dos Problema Públicos e Privados" e impõe uma ordem de prioridades cuja primeira imagino que será a seguinte:

- Se for um cidadão com um problema importuno para as políticas da autarquia é "problema privado", logo não atendível porque incómodo...se for um problema oportuno para a situação, é problema público pois não põe em causa o status quo.

Pierre Bourdieu, grande sociólogo Francês que morreu recentemente utiliza o conceito de Habitus para significar as condutas sociais, as maneiras de ver e de julgar os outros e as coisas da vida que são herdadas pelo passado, pela nossa socialização anterior e que por vezes estão tão incorporadas em nós, que se "naturalizam" e nos fazem mover e agir de acordo com as nossas aprendizagens passadas.

No caso de uma boa parte dos nossos autarcas isto é claro como a água, foram socializados num regime fechado, autoritário e pouco aberto ao confronto de pontos de vista inerentes à vida democrática. Logo o seu habitus contribuiu para a construção de personalidades predominantemente autoritárias.

O caso do Porto é evidente.

Já agora...no castelo de Loulé colocaram uma bandeira nacional que em noites de ventos fortes impede os meus pais de descansarem com a tranquilidade necessária levando-os quase á loucura.

Isto é um problema público ou privado?

Eu dou a resposta: - Depende da concepção de democracia de cada um dos nossos autarcas...no Porto será privado com toda a certeza...


Abraços e boa semana

João Martins

domingo, março 19, 2006

Problemas da cidade de Loulé 12: Sobre os cidadãos invisiveis e ausentes da vida social

Existem algumas categorias de "cidadãos" que são invisíveis no espaço social.

São invisibilisados pela sociedade, rotulados de "anormais", estigmatizados e não poucas vezes segregados dos principais espaços de acesso à cidadania e de uma vida social minimamente condigna. Este é o caso das pessoas com os mais variados tipos de deficiência.

São cidadãos apenas diferentes e com diferentes necessidades sociais, mas a quem são muitas vezes negados os direitos sociais elementares, tais como o acesso à educação e à aprendizagem ao longo da vida, ao trabalho, à eliminação das barreiras físicas e sociais, que permitiriam o desenvolvimento das suas capacidades na sua plenitude.

As políticas estatais de apoio às populações deficientes não têm caminhado no sentido da igualização de oportunidades sociais desta categoria de cidadãos.

Também aqui, como noutras dimensões da nossa vida social, a prática legislativa é muito mais avançada do que as práticas sociais.

Se a legislação em Portugal prima por traços de modernidade Europeia, já ao nível das praticas de apoio às populações deficientes, estamos a anos luz das necessidades sociais existentes.

Mais uma vez aqui é preciso responsabilizar não só todos nós cidadãos, mas também o poder político quer a nível central, quer regional, quer local.

Sejamos sinceros, as políticas de apoio à deficiência têm sido um fiasco total e as populações deficientes não têm sido objecto de prioridades por parte do diferentes governos que têm passado pelo poder no nosso país.

Os deficiêntes têm estado entregues a si próprios e têm sido algumas associações comunitárias que têm tido um papel fundamental no "remediar" (sejamos objectivos, chamemos-lhe assim) da qualidade de vida desta categoria de cidadãos.

Quanto à educação escolar, o Estado a determinada altura diminuiu o apoio às instituições especializadas e apostou ("discursivamente") na integração dos estudantes com necessidades especiais, nas estruturas educativas do ensino regular.

O problema é que não preparou as infraestruturas existentes, materiais e humanas, para que essa integração tivesse sucesso.

Agrava esta situação a pressão social neoliberal para a retirada do Estado na intervenção do social e a "ditadura" política da governação em função do "déficit".

A economização e mercadorização da vida social penaliza claramente a população mais desfavorecida socialmente e a população deficiente em geral fica ainda mais penalizada na sua existência social.

Felizmente existem alguns exemplos brilhantes de intervenção social por este tipo de causas que não resolvendo o problema de fundo, muito pelo contrário, fazem um trabalho notável no atendimento e na melhoria de condições de vida dos individuos portadores de deficiência e das suas famílias.

Em Loulé, uma dessas instituições designa-se de UNIR e trabalha no apoio aos cidadãos com deficiência mental.

Funciona com a corda na garganta, mas faz um trabalho social notável...parabéns para os seus responsáveis...que são verdadeiros heróis incógnitos, muitas vezes, da vida da nossa polis.

Deixo aqui um apelo para que sempre que puderem ajudem este tipo de associações...das maneiras que acharem pertinentes...todos os contributos serão poucos...

Em prole de uma democracia que proporcione uma verdadeira igualdade de oportunidades para todos os seus cidadãos e que não descrimine aqueles que são apenas diferentes das pessoas que consideramos normais.

A propósito...estou gordíssimo...peso quase 100 quilos...tenho 1 metro e setenta...e não tenho dois dentes molares.

Serei "normal"?

Um abraço e boa semana e não se esqueçam...sempre que puderem ajudem que eu vou fazer o mesmo.

domingo, março 12, 2006

Problemas da cidade de Loulé 11: Anda um espectro pela Europa - o espectro do fundamentalismo neoliberal

Em 1848, numa obra que viria a contribuir para mudar o mundo "O Manifesto do Partido Comunista", Karl Marx começava assim as suas ideias:

"Anda um espectro sobre a Europa - o espectro do Comunismo".

Hoje, passados 158 anos, nunca imaginaria Marx que o espectro que paira sobre todo o mundo é o do fundamentalismo neoliberal.

A que propósito vem esta questão?

Quem tenha estado atento ao que se tem passado em França na última semana, constata facilmente como a vaga fundamentalista neoliberal procura espalhar-se por todo o globo como uma inevitabilidade das "necessidades do mercado".

O governo Francês quer impor à sociedade Francesa e aos jovens em particular uma medida de "combate" ao desemprego que consiste em precarizar a precarização.

É o já famoso CPE - Contrato de Primeiro Emprego - que prevê que os jovens possam ser despedidos, sem quaisquer indemenizações, a qualquer momento, pelos empregadores nos primeiros dois anos de contrato, instaurando uma precarização total da vida laboral e social dos jovens.

Esta é a receita encontrada pelo governo Francês para fazer face à já elevadíssima taxa de desemprego dos jovens em França.

A vaga neoliberal, agora contemporaneamente instaurada subtilmente em "inevitabilidade" da "globalização" e a ideologia do mercado que defende este funcionar por si próprio num ajustamento perfeito, tem contribuido para um ataque aos direitos sociais conquistados pelo movimento operário ao longo da história Ocidental. A ideologia "menos Estado, melhor Estado" tem vindo a galgar terreno em todo o mundo ocidental.

O desemprego juvenil é alarmante e a escola tem funcionado como um "parque de estacionamento" e uma "almofada social" da contestação e da revolta políticas.

Quando as políticas de precarização passam a ter conteúdos explicitos na lei formal a revolta dos jovens adquire contornos significativos.

Não é um Maio de 68 o que assistimos em França, mas não deixa de ser um sintoma de doença grave da organização das sociedades ocidentais.

Agora pergunto eu, se cada vez se é "jovem" até mais tarde, se a transição para a vida "adulta" considerada com a passagem à vida "activa" é feita cada vez mais tarde e em situação mais precária...

Se cada vez mais somos "velhos" para o trabalho cada vez mais cedo, reduzindo o tempo de trabalho a um período cada vez mais curto e precário...

O que vai impedir uma explosão social de uma maioria cada vez mais precarizada, angústiada e com expectativas sociais bloqueadas?

Fica a pergunta, chamando a atenção para o caso da sociedade Francesa onde a revolta dos suburbios é um sinal dos tempos que aí se aproximam.

Boa semana e vigiem os vossos direitos...estes custaram muito sangue, suor e lágrimas para que se concretizassem...

João Martins

domingo, março 05, 2006

Problemas da cidade de Loulé 10: O Estado, Sócrates, os bons pobres e os maus pobres

A medida agora anunciada por José Socrates de combate à pobreza através do apoio aos idosos é uma decisão política que merece todo o meu aplauso.

Nenhum ser humano digno desse nome,"humano", negará que os idosos são das categorias sociais mais penalisadas em termos de desigualdades sociais e onde a pobreza em Portugal está mais concentrada.

Para além de ser uma inteligente medida política de caça ao voto, uma vez que com o envelhecimento da população concentra cada vez mais eleitores no topo da pirâmide demográfica, são este tipo de medidas que acabam por distinguir hoje a esquerda da direita, pondo em causa aqueles que dizem que hoje esta distinção não faz sentido.

Contudo...e porque há sempre um mas...esta medida sofre de uma miopia que tem atravessado diversos regimes políticos, sejam eles monarquicos, repúblicanos, Salazaristas ou democráticos.

E o problema é este...é que os nossos governantes teimam em distinguir os "bons pobres", merecedores da caridade do Estado e os "maus pobres" de quem há que desconfiar e agir em conformidade.
Temos então um Estado que decide em função de dois tipos de cidadãos, os "merecedores" porque honestos e os "malvados" porque não são cidadãos de bem.

Trago-vos um texto de Eça de Queiróz na sua obra "O Conde de Abranhos" para que reflitam sobre o assunto e que vejam que o mesmo já não é novo, pois esta obra é de finais do século XIX.

Sem comentários... deliciem-se por favor, passo a citar:

"Além disso, ele reconhecia que a caridade era a melhor instituição do Estado. Quanto ao pauperismo, tinha-o como uma fatalidade social: fossem quais fossem as reformas sociais, dizia, haveria sempre pobres e ricos: a fortuna pública deveria estar naturalmente toda nas mãos de uma classe, da classe ilustrada, educada, bem nascida. Só deste modo se podem manter os Estados, formar as grandes indústrias, ter uma classe dirigente forte, por possuir o ouro e base da ordem social.

Isto fazia necessariamente que parte da população "tiritasse de frio e rabiasse de fome".

Era certamente lamentável, e ele, com o seu grande e vasto coração que palpitava a todo o sofrimento, lamentava-o.

Mas a essa classe devia ser dada a esmola com método e discernimento:

- e ao Estado pertencia organizar a esmola. Porque o Conde censurava muito a caridade privada, sentimental, toda de espontaneidade. A caridade devia ser disciplinada, e, por amor dos desprotegidos regulamentada: por isso queria o Asilo, o Recolhimento dos Desvalidos, onde os pobres, tendo provado com bons documentos a sua miséria, tendo atestado bons atestados de moralidade, recebessem do Estado, sob a superintendência de homens práticos e despidos de vãs piedades, um tecto contra a chuva e um caldo contra a fome.

O pobre devia viver ali, separado, isolado da sociedade, e não ser admitido a vir perturbar com a expressão da sua face magra e com narração exagerada das suas necessidades, as ruas da cidade.

"Isole-se o Pobre!" dizia ele um dia na Câmara dos Deputados, sintetizando o seu magnifico projecto para a criação dos Recolhimentos do Trabalho. O Estado forneceria grandes casarões, com celas providas de uma enxerga, onde seriam acolhidos os miseráveis.

Para conseguir a admissão, deveriam provar serem maiores de idade, haverem cumprido os seus deveres religiosos, não terem sido condenados pelos tribunais (isto para evitar que operários de ideias suversivas que, pela greve e pelo deboche, tramam a destruição do Estado, viessem em dia de miséria, pedir a esse mesmo Estado que os recolhesse).
Deveriam ainda provar a sobriedade dos seus costumes, nunca terem vivido amancebados nem possuírem o hábito de praguejar e blafesmar. Reconhecidas estas qualidades elevadas com documentos dos párocos, dos regedores, etc.; seria dada a cada miserável uma cela e uma ração de caldo igual à que têm os presos"

Eça de Queiróz em "O Conde de Abranhos" pag.34 e 35.

Pois é, continuamos no séc. XIX. O Conde agora tem é outro nome...

Um abraço e boa semana.