sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Problemas da cidade de Loulé 9: O desporto juvenil em Loulé: Entre o desenvolvimento de competências sociais e a produção de frustrações

É um facto social adquirido e que creio que reúne consenso que o desporto pode ser um fantástico mecanismo de integração social dos jovens.

Digo pode ser, porque a forma como pais, educadores, treinadores e directores desportivos encara o mesmo na prática dos jovens, pode fazer toda a diferença para que a pratica desportiva possa contribuir para a integração dos jovens na sociedade ou pelo contrário produza frustrações na juventude, que por vezes são irreparáveis e vão marcar toda a sua vida futura.

O futebol juvenil dos clubes de loulé é disto um bom exemplo. Vejamos então as duas faces da moeda.

Competencias de desenvolvimento social e pessoal que a prática do futebol jovem pode proporcionar:

- Aprender a trabalhar em equipa. Numa sociedade cada vez mais complexa, as competências de cooperação com os outros, de aprendizagem partilhada e de relação grupal são fundamentais e a educação escolar é muito limitada no desenvolvimento deste tipo de competências.

- Aprender a competir saudavelmente e aprender a ganhar e a perder jogos.
Também a vida social e profissional é feita de "derrotas" e "vitórias" e aprender que a vida é feita de coisas boas e outras menos boas é uma aprendizagem fundamental.

- Ganhar capacidade de resistencia à frustração. Os psicólogos falam de resiliência. E o aprender a perder, é hoje uma competência fundamental numa sociedade em que o capitalismo predador e selvagem pode tornar frágeis as identidades pessoais e sociais. O drama do desemprego e a competição selvagem nas empresas é disto um bom exemplo.

- Mas o futebol pode contribuir ainda para a integração na sociedade, produzindo redes sociais e de amizades, assim como o sentimento de pertença ao grupo e portanto de integração na comunidade.

- Competências de controlo de si, dominio do corpo, da relação com o espaço e de gestão do tempo são também adquiridas com o jogo e acompanham-nos pela vida fora e que preciosas podem ser.

- Aprender a escutar, a aceitar as decisões dos líderes, a ser disciplinado, a gerir o imprevisto, a expôr-se públicamente e a ser apreciado socialmente, assim como aprender a ser criticado e a saber aceitar a crítica pública.

Enfim, estas são apenas algumas das competências sociais que a prática do futebol produz e muitas outras poderia enumerar a partir da minha experiência como praticante de futebol federado, com quase vinte anos de prática da modalidade.

Mas a face negra da moeda também pode estar presente e vou destacar aqui os aspectos principais que têm a ver com a PRODUÇÃO DE FRUSTRAÇÕES E DE IDENTIDADES PESSOAIS FRUSTRADAS.

É muito frequente, assisti a isto inumeras vezes, por parte de pais, treinadores de futebol juvenil e directores, pôr-se a competição desportiva à frente da formação pessoal e social dos jovens.

Não digo que a competição não seja importante, o que digo, é que esta não se poderá impor nunca aos objectivos de formação pessoal e social e à função de integração dos jovens na sociedade.

Conheci muitos pais que queriam à força que os filhos fossem profissionais de futebol.
O sonho de mobilidade social ascendente, através de uma carreira artística e futebolistica está muito presente, sobretudo nas classes sociais mais pobres.

São estes que são sobretudo penalizados por expectativas irrealistas criadas a partir dos grupos de referência desportiva e não dos seus grupos de pertença.

"O meu filho ainda há-de jogar no Benfica".

Infelizmente treinadores e directores vão muitas vezes na mesma "onda" e contribuem para a elevação de expectativas quase sempre irrealistas pois criam os seus "craques" e as suas "vedetas" locais às vezes logo desde tenra idade.

Tudo isto não seria muito grave se a escola não ficásse para segundo plano, se a baixa escolaridade não se traduzisse em emprego desqualificado ou mesmo se a estrutura de oportunidades desportivas da região permitisse o acesso a tão desejadas carreiras.

Infelizmente a realidade é perversa e em cada 1000 futebolistas jovens talvez 4 ou 5 façam uma carreira futebolistica mediana.

O que quer dizer que para muitos outros, são sonhos destruidos que foram fabricados que ficam.

Alguns deles têm mesmo passagens e caídas na droga e em vidas de toxicodependencia e alguns ainda, ficam com a sensação de terem sido enganados por tais produtores de falsas expectativas.
"Se soubesse o que sei hoje, não tinha abandonado a escola tão cedo".

Fica o alerta para os pais, educadores, treinadores do futebol jovem e directores desportivos.

Para que o futebol juvenil de Loulé seja um extraordinário instrumento de integração social e para que os jovens não se divirtam a matar os sem abrigo como desporto, tal como aconteceu esta semana em Portugal.


Um abraços a todos e bom Carnaval.

João Martins

sábado, fevereiro 18, 2006

Problemas da cidade de Loulé 8: Existem horas melhores do que outras para levar a cultura à população de Loulé?

Hoje decidi falar-vos de cultura e do horário de funcionamento da biblioteca de Loulé.

Começo por reconhecer que a oferta cultural da cidade de Loulé teve progressos inequívocos na última década e meia.

Não que a considere suficiente para o desenvolvimento social e cultural da população Louletana, muito longe disso, mas reconheço que comparando o antes com o depois, numa perspectiva longitudinal, as melhorias são reais.

O mesmo já não posso dizer se a comparação tiver um carácter sincrónico, pois através deste método de comparação, as assimetrias culturais no acesso à cultura são evidentes, estando a provincia a anos luz da oferta cultural das grandes metrópoles do país.

As assimetrias sociais revelam também aqui as suas marcas e viver numa cidade como Loulé ou viver na capital do nosso país evidencia uma clara desigualdade social no acesso aos bens culturais e portanto na possibilidade de nos desenvolvermos como pessoas.

Disto isto, não posso deixar de felicitar os mentores da criação da Biblioteca Municipal de Loulé, pois é daqueles bens públicos cujos efeitos são decisivos no desenvolvimento económico, social e cultural de uma população, mas cujos efeitos sociais são de médio e longo prazo (e portanto não se traduzem em votos)e por isso são alvo de fraca aposta política.

A biblioteca já entrou no imáginário de uma parte da população (pelo menos aquela que é portadora de maior capital cultural) mas ainda funciona a meio gás em minha opinião.

O que penso que poderia ser feito para elevar os hábitos de leitura da população louletana através da bibloteca?

Um aspecto importante tem que ver com o horário de funcionamento da biblioteca. Se o horário de funcionamento for o mesmo que o horário de trabalho da maioria da população trabalhadora será possível atrair novos leitores?
Com certeza que não!
É ao fim de semana que as pessoas têm mais tempo para se dedicarem às coisas da cultura e é nesse período de tempo que as acções estratégicas deveriam ser elaboradas com o objectivo de captar novos públicos.

A biblioteca Municipal de Beja é um excelente exemplo de como foi possível democratizar o acesso aos bens culturais, cultivando o gosto pela leitura em públicos até então pouco habituados à mesma.
Quem passe em Beja ao Sabado à tarde terá o prazer de observar crinaças, jovens, adultos e idosos dos mais variados estratos sociais a fazerem fila à porta da biblioteca à espera que a mesma abra as portas.

O gosto cultural é algo que não é inato e que nasce com os indivíduos. É algo que tem que ser cultivado e em que a oferta cultural existente é crucial para que a procura cultural se desenvolva.
Se ao fim de semana só os bares e as discotecas abrirem em Loulé, será essa a procura cultural das nossas crianças e jovens...com todas as consequências previsíveis...

Parabéns para quem criou o projecto da Bibioteca Municipoal de Loulé...mas a infra-estrutura por si é um elemento inerte.
É necessário potencializá-la e criar dinâmicas onde elas ainda não existem...dá menos votos que a contrução de estádios de futebol ou de rotundas... mas contribui decisivamente para o enriquecimento social e cultural da população louletana.

Abraços a todo o pessoal.

João Martins

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Problemas da cidade de Loulé 7: O médico sapateiro no Centro de Saúde de Loulé

Como todos já percebemos o clima terrestre anda completamente às "avessas". Tsunamis, furacões, chuvas torrenciais nos momentos e locais onde menos se espera e fortíssimas oscilações entre períodos de calor e de frio são realidade com que passámos a conviver.
Existe hoje um consenso na comunidade científica de que este tipo de fenómenos tem vindo a ocorrer com cada vez maior frequência e maior intensidade, sendo plausível correlacioná-los com o crescimento das sociedades industriais e a sua capacidade poluente.

Loulé, porque não consegue escapar a este movimento de globalização das alterações climáticas, teve a semana passada uns dias em que o frio pouco habitual para um algarvio digno desse nome ultrapassou os padrões de normalidade da nossa praça.
Como todos sabemos nestas alturas em que o frio aperta, as principais vitímas são os cidadãos mais fragilizados, tais como,idosos e crianças.

É importante lembrar que apesar de sermos dos países da Europa (o primeiro se não estou em erro) com mais horas de sol, somos também aquele em que a probabilidade de morte por causa do frio é maior.
A explicação é fácil, confiamos tanto no nosso bom clima que descuramos completamente a construção dos edifícios em que habitamos (aqui estava um bom motivo de conversa entre políticos e construtores).

Mas não era disto que vos queria falar...o assunto é que o meu Pedrocas ficou com uma forte constipação, devido a esta "anormalidade" (por enquanto) climática.
Três da manhã e lá vou eu preocupado com o estado de saúde do meu bébe.
Centro de Saúde vazio (a esta hora e com este frio ninguém quer ficar doente). Primeiro cliente a ser atendido (coisa inedita) e o médico de serviço manda despir o Pedro...

Primeira perplexidade: O srº doutor "tenta" ver a garganta do Pedro e este recusa. Importante dizer que se trata de um bébé de um ano.

Nova investida do médico para tentar desempenhar competentemente o seu ofício...o Pedro volta a fugir...faz birra e recusa ser tocado por esta estranha criatura...O médico acaba de perceber que está perante um agente activo com vontade própria e fica com um ar entre o zangado e o frustrado...

Segunda perplexidade: O médico amuou e acaba por desistir temporariamente de auscultar o bébé. A sua comunicação verbal e não verbal indicia que a culpa é da mãe do bébé que não o sabe segurar correctamente...

Fiquei entretanto espantado, meio irritado e impávido perante tal deformação profissional...pensei...o médico parece um sapateiro (sem desprimor desta nobre profissão)...que incrível falta de jeito...e nem sequer é espanhol...

Por fim, lá se realizou a consulta com alguma normalidade e o Pedro veio para casa curar o resto da constipação.

Escrevo estas palavras pois quero só alertar para a importância de uma formação inicial e contínua de carácter humanista na formação em medicina.
Se o médico é um ser social que lida diariamente com outros seres sociais na sua vida profissional é inadmissível que a formação continue centrada no paradigma biomédico e numa perspectiva meramente tecnicista.

Só com uma formação humanista poderão estes profissionais perceber que um utente adulto não é o mesmo que uma criança e vice versa e que cada utente é um caso unico que implica um saber fazer específico...e um conjunto de competências sociais que estão para além da mera especialidade científico-técnica...

Talvez assim também os médicos aprendessem com os seus doentes e contríbuisssem para a melhoria da saúde dos mesmos...sim, porque a construção social da saúde e da doença é uma construção interactiva, onde o assumir do papel de doente pode ser tão ou mais importante no dignóstico e no tratamento do doente, do que a mera prescrição médica baseada no seu poder pericial.

Abraços a todo o pessoal

sábado, fevereiro 04, 2006

Problemas da Cidade de Loulé 6: Sobre a democracia e a ausência da mesma na vida das empresas

Revisitando a Experiência de Hawthorne que celebrizou Elton Mayo e deu início à Escola das Relações Humanas, encontro lá alguns dos pressupostos base da vida nas organizações, que não sendo receitas a aplicar "tout cour", deveriam ser elementos de reflexão de qualquer empresário digno desse nome.

1. O pressuposto que o ser humano não se seduz por motivações de carácter meramente económico e tem necessidade de ser reconhecido e apreciado socialmente por aquilo que faz e realiza no seu trabalho diário.

2. O pressuposto que o ser humano não é uma mera máquina adaptada ao sistema produtivo e necessita da vida de grupo e do sentimento de troca e de prazer das relações espontâneas e informais que se estabelecem entre colegas.

3. O pressuposto que o ser humano estará melhor integrado se participar de corpo inteiro na missão e nos objectivos da organização.

4. O pressuposto que a liderança democrática proporcionará um maior nível de satisfação (atenção que falo de satisfação e não de produtividade) no trabalho e no clima social das empresas.

5. Enfim, que se se conciliar os objectivos das organizações com os objectivos dos individuos (quando tal for possível claro) isso seria benéfico para a vida dos indivíduos e das empresas onde os mesmos trabalham.

Estes pressupostos infelizmente (com algumas raras excepções) são completamente ignorados pela "Gestão de Recursos Humanos" da maioria dos empresários da nossa praça.

Alguns amigos e conhecidos contam-me histórias do arco da velha.
Desde o medo de falar com os superiores hierárquicos temendo reprimendas, à desvalorização total de quem se dedica de corpo e alma á sua profissão (desvalorização mais frequente nas mulheres que nos homens diga-se de passagem), até a colegas que vão chorar nas casas de banho para esconder as lágrimas depois de enxovalhadas na sua dignidade pessoal e profissional pelos "patrões"...e poderia continuar estórias deste género até ao infinito...

Estes são sinais de pré-modernidade e de um tecido produtivo ainda "enquistado" e a funcionar à velha maneira portuguesa.

Presto a minha homenagem a todos os colaboradores de empresas que sofrem com estes comportamentos "bárbaros" e fico com a esperança para que as práticas de recursos (não confundir com a habitual gestão de pessoal) se institucionalizem o mais rapidamente possível também na nossa paróquia.

Para que tenhamos empresas mais produtivas e para que diminua o risco de doenças psicológicas nos colaboradores.

Em prole de pessoas e empresas mais felizes e da extensão da democracia à vida das empresas.

Bj e abraços para todos.