domingo, fevereiro 18, 2007

Contributos para a crise de legitimidade do poder político: O caos da Câmara de Lisboa

O caos está lançado na Câmara Municipal da capital Portuguesa.

Carmona Rodrigues ou é ingénuo, ou está demasiado agarrado ao poder ou está a ser conivente com a corrupção que gira à sua volta.

Será ingénuo, pois é de ingenuidade que se trata quando estamos rodeados de corrupção por todos os lados e continuamos a actuar como se vivessemos num mundo de virgindade divina.

Será sedento de poder, se perdendo toda a legitimidade política, que é o que acontece actualmente, não reconhecer que já não há condições para exercer o caso com credibilidade política ou de qualquer outro género.

Será conivente com a corrupção que o circunda se não criar condições para que tudo se investigue com a maior transparência possível.

Se o divórcio entre os cidadãos e a política atinge níveis elevadíssimos em quase todas as democracias ocidentais, o comportamento lamentável de uma boa parte dos nossos autarcas tem uma boa dose de responsabilidade no afastamento dos cidadãos face essencialmente aos partidos políticos e à vida partidária.

Talvez valesse a pena Maria José Morgado a seguir ao "apito dourado", virar-se para a corrupção nas autarquias e avançar com um processo do género "Autarquias, partidos e construções azulados".

É que se fizessemos o balanço dos casos de corrupção nas autarquias ficariamos espantados com a dimensão que o fenómeno da corrupção autarquica atingiu em Portugal.

Assim, de repente, recordo os casos do saco azul da dignissíma Fátima Felgueiras, do paraiso fiscal suíço de Isaltino Morais, as investigações ao Major Valentim Loureiro, o desvio de milhares de contos na Câmara Municipal de Silves, as investigações de corrupção à corte da Câmara Municipal de Lisboa e outras tantos que vamos tendo conhecimento por esse país fora...

Não será altura de a justiça portuguesa ajudar a pôr cobro a estas práticas de corrupção tão tipícas destes pequenos reinos de taifa e ajudar a recuperar a credibilidade da política portuguesa?

É que a não haver justiça em situações desta natureza, por muito que um regedor local seja sério, nunca afastará de si o rótulo de vigarista e isso não é nada bom para a democracia portuguesa.

Bom carnaval para todos!

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Este blog é pelo sim

Na véspera do referendo sobre o aborto em Portugal o blog MACL não poderia deixar de se posicionar face a esta importante questão.

De um assunto de extrema complexidade, que não nos parece poder ser abordado com a simplicidade de uma realidade a preto e branco, deixamos as seguintes reflexões:

1. É bom esclarecer que a pergunta referendada é esta e não qualquer outra como parecem propor os defensores do não:

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"

Se queremos que as mulheres não sejam criminalizadas pela interrupção "voluntária" da gravidez então só há um caminho possível. O voto no sim.
Só desta forma evitamos que o aparelho repressivo do Estado seja utilizado por determinados grupos sociais para impor a sua vontade a toda a população portuguesa.

2. O aborto, ou "desmancho", como lhe chamavamos antes de este ser um "problema social", é uma realidade social que existe, é conhecida e atinge milhares de pessoas todos os anos em Portugal.
Não falamos de uma fantasia imaginária sem qualquer correspondencia na realidade.

3. Existindo na cladestinidade, em larga escala, isso remete-nos para um claro problema de saúde pública. Os problemas de saúde e o risco de vida acrescido não são problemas menores a ignorar neste caso.

4. As desigualdades sociais no acesso ao "aborto clandestino" manifestam-se nas diferentes oportunidades sociais que têm as mulheres de diferentes classes sociais de fazerem aborto em condições de segurança.

Por outras palavras, quem tem dinheiro, vai rapidamente tratar do assunto em qualquer país europeu. Quem não tem, vai à primeira "canalizadora" que encontrar em qualquer vão de escada.

5. Poderiamos imaginar um Portugal em que o Estado apoia as famílias em situação de dificuldade. Podiamos imaginar um Estado cujas políticas de educação sexual, protecção da maternidade e apoio social é um Estado de um pais das maravilhas. Infelizmente essa realidade está muito distante de acontecer na sua plenitude e aquilo que temos assistido é que as mulheres que optam por não abortar ficarem na sua maioria entregues à sua sorte.

6. Last but not least, não cabe ao Estado, aos partidos políticos, à Igreja Católica ou qualquer outra, decidir, legislar ou condenar, àquilo que só aos homens e às mulheres dizem respeito.
São estes que pesando os constrangimentos da sua situação, poderão escolher em consciência aquilo que é melhor para eles e para a criança que do feto resultaria.

Ninguém me parece poder decidir por eles.

Eu, por mim, confio em cada homem (homem, sim, porque o feto tem um pai, ou não será assim?)e cada mulher que tiver perante a dramática situação da decisão de abortar.

Acredito que ninguém decide fazê-lo de ânimo leve, como argumentam os defensores do não, quando acenam com o bicho papão do "aborto livre".

Abraços a todos e votem de acordo com as vossas consciências por aquilo que são as vossas convições.

Eu cá não tenho dúvidas de que vou votar sim.