quinta-feira, janeiro 31, 2008

Os mecanismos da desigualdade no interior das escolas

O insucesso escolar é promovido, em muitas escolas, pela escolha dos alunos com base na origem social, aumentando as desigualdades sociais.

Esta é uma das conclusões de um estudo realizado por dois investigadores do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (CIES/ISCTE) sobre desigualdades na educação, apresentado ontem na comissão parlamentar de Educação.

Pedro Abrantes, um dos investigadores, visitou durante um ano cinco escolas de Lisboa (duas privadas), com 2.º e 3.º ciclos. “Apesar de próximas, têm ambientes muito distintos, o que se deve ao público diferenciado”.

Numa das escolas verificou a existência de turmas onde “se concentram alunos de meios mais favorecidos e outras só com alunos mais desfavorecidos e marginais”.

O trabalho comprova que há diferenças entre as turmas da manhã e da tarde. “É um mecanismo discriminatório para esses alunos, pois não se dá uma hipótese quando já têm dificuldade, e também para os professores, pois quem decide os horários é um grupo restrito, que decide ficar com as melhores turmas”.

Nas escolas analisadas os resultados escolares são bastante diferentes. “As famílias querem os filhos nas escolas com melhores alunos e essas acabam por ter mais candidatos do que vagas, o que permite seleccionar os estudantes.”

O outro investigador do CIES, João Sebastião, assinalou ser “rara a escola que não tem uma turma de elite” e deu como exemplo o estabelecimento frequentado pelo filho: “De manhã estão os meninos brancos, sem problemas, que vêm do jardim-de-infância; os outros foram para a tarde”.

Na opinião do sociólogo, seria “bom” repensar a oferta do pré-escolar nas cidades, pois as carências nesta área causam desigualdade “logo no início da escolaridade”.
Fonte: Correio da Manhã de 31/01/2008

Nós por cá em Loulé, já percebemos a importância da uma oferta do pré-escolar que não agrave as desigualdades sociais?

Bom carnaval para todos

quarta-feira, janeiro 30, 2008

O dia do aniversário da cidade como instrumento de propaganda política

1. A comunicação política não pode substituir a política que verdadeiramente influência a vida real das populações.

2. Deve o dia do aniversário da cidade servir para cortar fitas, assinar protocolos, autos de consignações e anúnciar obras públicas e requalificações ainda por fazer?

3. Estaremos perante meras estratégias de comunicação da política ou perante um poderoso aparelho de propaganda com a conivência de alguns meios de comunicação social locais?

4. Estarão as agências de comunicação tão do agrado do dr. Filipe Menezes já altamente profissionalizadas também em Loulé?

5. Não estaremos perante estratégias subtis de "manipulação" (ponho entre aspas não vá o diabo tecê-las) dos cidadãos locais com o objectivo de retirar vantagens eleitorais futuras?

6. E se comemorássemos o aniversário da Cidade com eventos culturais que envolvessem a participação dos cidadãos?

São questões que deixo para reflexão sobre a política cá do burgo.

Para aqueles com mais paciência para os meus "enfadonhos" textos deixo-vos um artigo do António Barreto escrito no Público do último Domingo intítulado "A Arte de Mentir"

A arte de mentir

Por António Barreto

TÊM VÁRIAS DESIGNAÇÕES. Assessores. Conselheiros. Encarregados de relações com a imprensa. Agentes de comunicação. Ou, depois do choque tecnológico, Press officers e Media consultants. Sem falar nos conselheiros de imagem. Povoam os gabinetes dos ministros, dos secretários de Estado, dos directores gerais, dos presidentes e dos gestores. Vivem agarrados aos telemóveis, aos BlackBerries, às Palms e aos computadores.

Falam todos os dias com os administradores, directores e jornalistas das televisões, das rádios e dos jornais. Dão, escolhem, programam e escondem notícias. Mostram aos políticos e aos gestores o que é do interesse deles. Planificam a informação. Calculam os efeitos e contam as referências feitas na imprensa. Tratam da imagem, compram camisas para os seus mestres, estudam-lhe as gravatas, preparam momentos espontâneos, formulam desabafos, encenam incidentes e organizam acasos. Revelam a intimidade que se pode ou deve revelar.

Calculam os efeitos negativos de uma decisão sobre os impostos, que articulam com as consequências positivas de um aumento de pensões. A fim de contrabalançar, colocam o anúncio de Alcochete logo a seguir ao do referendo europeu. Fazem uma planificação minuciosa das inaugurações. Escrevem notícias com todos os requisitos profissionais, de modo a facilitar a vida aos jornalistas. Mentem de vez em quando. Exageram quase sempre.

Organizam fugas de imprensa quando convém. Protestam contra as fugas de imprensa quando fica bem. Recompensam, com informação, os que se conformam. Castigam, com silêncio, os que prevaricaram. São as fontes. Que inundam ou secam.

OS JORNAIS PARECEM-SE UNS COM OS OUTROS. As notícias são quase iguais. As agendas das redacções são gémeas. Salva-se, desta uniformidade, aqui e ali, quem assina o que escreve. Os noticiários das televisões têm agendas iguais. E alinhamentos de notícias também. Os directos, grande vício da televisão portuguesa, são iguais em todos os canais.

Cada vez mais, a informação está previamente organizada, não pelas redacções, não pelos jornalistas, mas pelos agentes e pelos assessores. Quem tem informação manda em quem investiga, escreve e transmite. Grande parte da informação é encenada e manipulada, de acordo com as conveniências.

Há informação reservada para melhores momentos, informação programada para dramatizar, informação inventada para divertir e informação acelerada para consolar. Isto acontece há anos. Em Portugal e no mundo inteiro. Todos os anos, a situação piora. Com Sócrates, refinou. O poderio das organizações de comunicação é avassalador.

A opinião pública não tem meios para escolher e resistir. Só a independência dos jornalistas poderia fazer frente a este domínio inquietante. Mas esta é um bem raro. Até porque os empregos na informação são cada vez mais precários.

A RECENTE POLÉMICA SOBRE AS AGÊNCIAS DE COMUNICAÇÃO, novo episódio numa longa série, mostrou esta actividade no seu pior. As mesmas agências comunicam a favor dos adversários, da política e da economia, da polícia e do ladrão, do governo e da imprensa. Do atirador e do alvo, como disse Pacheco Pereira. Até a Entidade Reguladora para a Comunicação, sem ver os efeitos nefastos, achou por bem ter uma agência a tratar da sua informação.

O governo tem a sua. Luís Filipe Menezes também: em vez de denunciar a prática do governo, quis imitá-lo. Foi preciso Santana Lopes, em momento inspirado, opor-se a este despotismo: “O modo e o conteúdo da comunicação fazem parte do domínio da liberdade absolutamente inalienável de cada deputado”.

LUÍS MARQUES, JORNALISTA HÁ VÁRIAS DÉCADAS e com experiência da redacção, da direcção e da gestão da informação, em jornais e na televisão, fez há poucos anos um pequeno estudo sobre as “agendas” de informação. Chegou a resultados surpreendentes. Contando apenas os grandes órgãos de informação generalistas e nacionais, com exclusão das secções mundanas e outras, havia em Portugal cerca de 1.500 profissionais.

Para os alimentar de informações, os assessores, as agências de comunicação e outros somavam quase 3.000. Quer dizer, por cada jornalista em actividade na informação política e económica, dois profissionais preparavam as agendas e as notícias. É esta gente que inunda as redacções com “factos”, “eventos”, “oportunidades” e “situações”.

Qualquer redacção tem dificuldade em resistir-lhe. Se, às 20.00 horas, o Primeiro-ministro sai de um lar de idosos, entra numa creche ou produz uma declaração espontânea, como pode uma redacção decidir não estar presente? É este exército o responsável por grande parte das “entradas” que, durante a manhã, enchem as agendas das redacções. Num grande canal de televisão, essas entradas podem hoje chegar às 1.000 por dia, enquanto eram cerca de 100 há quinze ou vinte anos.

Na agenda diária da redacção de um canal de televisão, perto de um terço das entradas (mais de trezentas...) é feito directamente pelas agências de comunicação e pelos assessores dos gabinetes e das instituições. Mais ainda, é aquela brigada que, muitas vezes, sobretudo na informação económica, redige as notícias.

Nas redacções, povoadas hoje por jovens estagiários e inexperientes, mas também por seniores preguiçosos, publicar directamente as notícias assim preparadas, ainda por cima por jornalistas e antigos jornalistas treinados, é a solução mais simples. Por isso, é frequente vermos, sem menção de publicidade, notícias económicas absolutamente iguais em vários jornais.

HÁ QUEM PENSE QUE É ISTO A MODERNIDADE. A informação racional da época contemporânea. O sinal da eficácia. O instrumento da transparência. Mas desenganem-se os crédulos. O objectivo dos assessores e das agências de comunicação é sempre o de defender os interesses do autor da informação, nunca do destinatário, do cidadão.

A única preocupação do agente é a de vender o mais possível, nas melhores condições, bens ou ideias, mercadorias ou decisões. Os agentes de comunicação não defendem os interesses dos compradores, dos consumidores ou dos espectadores, mas tão só dos vendedores, dos produtores e dos autores.

Apesar de pagos pelos eleitores, servem para defender os eleitos. Este é o mundo em que vivemos: a mentira é uma arte. Esta é a nossa sociedade: o cenário substitui a realidade. Esta é a cultura em vigor: o engano tem mais valor do que a verdade.
«Retrato da Semana» - «Público» de 27 de Janeiro de 2008

O regresso em força da propaganda à política. E nós por cá? Era bom que andassemos de olho aberto.

Bom Carnaval.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Para um voyeur muito especial

Fernando Pessoa

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...



Seja sempre bem vindo e boa semana

domingo, janeiro 27, 2008

Afinal, há mais vida para além do orçamento: A falácia dos profetas do terceiro milénio

Afinal, a ciência utilizada como profecia, acaba sempre por dar mau resultado. É da ciência económica que vos falo e sobretudo da sua má utilização pelos novos profetas da política.

1. George Soros, Multimilionário Norte-Americano interpretava assim, aquilo que designa como a mais grave crise dos últimos 60 anos

"A actual crise financeira desencadeada pelo colapso da bolha imobiliária, nos Estados Unidos, marca também o fim de uma era de expansão do crédito assente no dólar como a moeda de reserva internacional. É uma tempestade muito maior do que qualquer outra ocorrida desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Para compreender o que está a acontecer, precisamos de um novo paradigma. Esse paradigma está disponível na teoria da reflectividade que propus pela primeira vez, há 20 anos, no meu livro "The Alchemy of Finance" (A Alquimia das Finanças). Esta teoria defende que os mercados financeiros não tendem para o equilíbrio. Opiniões tendenciosas e ideias erradas entre cooperadores dos mercados financeiros introduzem incerteza e maior imprevisibilidade não apenas relativamente aos preços do mercado, mas também aos princípios fundamentais que se espera que esses preços reflictam.

Entregues a si próprios, os mercados têm tendência para extremos de euforia e de desespero. Na realidade, devido à sua potencial instabilidade, os mercados financeiros não são deixados entregues a si próprios; estão a cargo de autoridades responsáveis cujo trabalho é manter os excessos dentro dos limites. Mas as autoridades também são humanas e sujeitas a opiniões tendenciosas e a ideias erradas, além de que a interacção entre os mercados financeiros e as autoridades que os controlam é também reflexiva.

Os ciclos económicos de altos e baixos (boom-bust) giram normalmente em torno do crédito e envolvem sempre um preconceito ou uma ideia errada– normalmente uma falha em reconhecer uma ligação circular reflexiva entre a pronta disponibilidade para emprestar e o valor da garantia. O recente boom imobiliário dos Estados Unidos é um bom pretexto. Mas o super boom dos últimos 60 anos é um caso mais complicado. Cada vez que a expansão do crédito causava problemas, as autoridades financeiras intervinham, injectando liquidez e descobrindo outras formas de estimular a economia.

Isso criou um sistema de incentivos assimétricos – também conhecido como perigo moral – que favorecia uma expansão cada vez maior do crédito. O sistema tinha tanto sucesso que as pessoas acabaram por acreditar naquilo a que o ex-Presidente Ronald Reagan chamou “a magia do mercado” e a que eu chamo fundamentalismo do mercado.

Os fundamentalistas crêem que os mercados tendem para o equilíbrio e que se serve melhor o interesse comum se se permitir que os participantes ajam em interesse próprio. Isso é um equívoco óbvio, porque foi a intervenção das autoridades que evitou que os mercados financeiros entrassem em colapso, não foram os próprios mercados. No entanto, o fundamentalismo de mercado instalou-se como ideologia dominante nos anos 1980, quando os mercados financeiros começaram a tornar-se globalizados e os Estados Unidos começaram a sofrer um défice de conta-corrente.

Desde 1980 que as regulamentações têm vindo progressivamente a afrouxar até que praticamente desapareceram. A globalização permitiu que os Estados Unidos absorvessem as poupanças do resto do mundo e consumissem mais do que aquilo que produziam, com o seu défice de conta-corrente a atingir os 6,2 por cento do PIB em 2006. Os mercados financeiros encorajavam os consumidores a pedir empréstimos introduzindo instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados e condições mais generosas. As autoridades financeiras ajudavam e estimulavam o processo intervindo sempre que o sistema financeiro global estava em risco.

O "superboom" ficou fora de controlo quando os novos produtos financeiros se tornaram tão complexos que as autoridades financeiras já não conseguiam calcular os riscos e começaram a contar com os métodos de gestão de risco dos próprios bancos. Do mesmo modo, as agências de "rating" contavam com a informação fornecida pelos criadores de produtos sintéticos. Era um abdicar de responsabilidades verdadeiramente chocante. Tudo o que podia correr mal, correu mal.

Começou com as hipotecas "subprime" (créditos hipotecários de alto risco), alastrou a todas as obrigações de dívida com garantia, pôs em perigo a mediação de seguros e resseguros municipais e hipotecários e ameaçou destruir o mercado de trocas com um incumprimento de crédito de vários milhões de milhões de dólares. Os compromissos dos bancos de investimento com aquisições alavancadas transformaram-se em passivos. Os fundos de cobertura sem risco acabaram por não ser sem risco e tiveram de ser postos de parte.

O mercado do papel comercial coberto por activos estagnou e os meios especiais de investimento estabelecidos por bancos para retirarem as hipotecas dos seus balanços já não conseguiam passar sem financiamento externo.O golpe de misericórdia aconteceu quando o empréstimo interbancário, vital no sistema financeiro, foi interrompido pelo facto de os bancos terem de gerir os seus recursos e não poderem confiarnos seus homólogos.

Os bancos centrais tiveram de injectar uma quantia sem precedentes e tiveram de alargar o crédito sobre títulos sem precedentes ao maior leque de instituições de sempre. Isso transformou a crise na mais grave desde a Segunda Guerra Mundial. À expansão do crédito deverá agora seguir-se um período de contracção, porque alguns dos novos instrumentos e práticas do crédito são perversos e insustentáveis. Além disso, a capacidade das autoridades financeiras de estimular a economia está limitada pela falta de vontade do resto do mundo para acumular reservas de dólares adicionais.

Até há pouco tempo os investidores esperavam que a Reserva Federal norte-americana fizesse o que fosse necessário para evitar uma recessão, porque foi o que fez em anteriores ocasiões. Agora são obrigados a reconhecer que a Fed pode já não estar em posição de o poder fazer. Com o petróleo, os alimentos e outros bens essenciais sem sofrer alteração e o renminbi [moeda chinesa, cuja unidade é o yuan] a valorizar-se um pouco mais rapidamente, a Fed tem também de se preocupar com a inflação.

Se as taxas de juro fossem diminuídas para além de um certo ponto, o dólar sofria nova pressão e as obrigações de longo prazo teriam de facto maior lucro. É impossível determinar qual é esse ponto, mas quando ele for atingido, chega ao fim a capacidade da Fed de estimular a economia. Embora seja agora mais ou menos inevitável a ocorrência de uma recessão no mundo desenvolvido, a tendência na China, na Índia e em alguns dos países produtores de petróleo é manifestamente oposta.

Consequentemente, é mais provável que a actual crise financeira cause um realinhamento radical da economia global do que uma recessão global, vindo a verificar-se um relativo declínio dos Estados Unidos e a ascensão da China e de outros países em vias de desenvolvimento. O perigo é que as tensões políticas daí resultantes, incluindo o proteccionismo norte-americano, possam causar o colapso da economia global e lançar o mundo numa recessão – ou pior."
Fonte: Jornal Público de 24/01/2008

2. Por sua vez o Director Executivo do FMI, uma das grandes intâncias transnacionais da gestão do mundo económico, promotora da Bíblia Neoliberal, defende agora a intervenção do Estado na economia. Alguém percebe? Talvez...
Fonte: Público, 27 de Janeiro de 2008:

"FMI surpreende e defende subida dos défices públicos para controlar a crise.

O director executivo do Fundo Monetário Internacional surpreendeu ontem os participantes no encontro anual de Davos com um apelo à aplicação de políticas orçamentais mais expansionistas para ajudar a resolver a actual situação de crise económica mundial. Uma declaração deste tipo, muito rara nos responsáveis do Fundo, foi vista como mais um indício claro de que a presente conjuntura é de grande gravidade.

Dominique Strauss-Kahn, que lidera o FMI há poucos meses, defendeu que "não se pode apenas depender da política monetária" para dar uma resposta ao forte abrandamento económico. E concretizou: "Alguns países não estão em posição de agravar os seus défices, mas outros têm espaço de manobra para algum estímulo orçamental".

Os comentários foram recebidos com surpresa pelos participantes do Forum Económico Mundial. Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro nos EUA, que falava na mesma sessão de Strauss-Kahn, assinalou o "momento histórico". É a primeira vez num quarto de século que o director executivo do FMI apela a uma subida dos défices. Tradicionalmente é sempre consolidação orçamental" afirmou, assinalando que via este "reconhecimento como um indicador da gravidade da situação que enfrentamos."

3. Resta-nos refletir, o que significou a "vitória" do governo de Sócrates da redução do défice, quando a sua política se centrou nesse mero dogma, à custa do agravamento das desigualdades sociais, da penalização das classes mais pobres e da "perseguição" às classes médias?

Deixo-vos com o primeiro embate parlamentar entre José Sócrates e Santana Lopes em 15 de Outubro de 2004 quando era Primeiro Ministro Santana Lopes:

José Sócrates - "Durante dois anos, a maioria e o Governo prometeram ao País uma política baseada na obsessão do défice orçamental e para isso congelou os salários, subiu os impostos e cortou no investimento público. Ao fim de dois anos, o que é que temos? Temos, crise, temos recessão, temos desemprego e não conseguiram baixar o défice abaixo dos 3%. Sr. primeiro-ministro, o que prometeu aos portugueses foi fazer gelo quente, mas – lamento desiludi-lo, sr. Primeiro-ministro – gelo quente não existe!..."

José Sócrates - “Sr. PM, - desculpe dizer-lhe – os portugueses vão ficando com a sensação, e nós também, de que verdadeiramente o dr. Santana Lopes não está no lugar certo, não tem jeito para isto!... A conclusão a que chegamos é que o dr. Santana Lopes não tem jeito para primeiro-ministro.”
Fonte: http://elevadordabica.blogspot.com/2007/11/santana-vs-scrates-o-primeiro-embate.html

Palavras para quê? Poderiámos inverter os nomes dos interlocutores e fazer o debate ao contrário? O que acham?

PS: Os sublinhados dos textos originais são nossos.

Boa Semana

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Os meninos obedientes e o retrocesso da democracia local à escala nacional

Existe um ethos antidemocrático nalgumas das elites que nos governam que se traduz em medidas legislativas que são um claro retrocesso para a democracia portuguesa.

Os ideais de governação, tais como, o reconhecimento da pluralidade de opiniões, a diversidade de representação dos vários interesses societais, a negociação política como forma de construção das decisões, são postos de lado por esta tecnocracia bem pensante, com custos dramáticos para as práticas democraticas que procuram fomentar a cidadania através da participação dos cidadãos.

Deixo-vos com mais uma opinião contracorrente, das poucas que ainda vão tendo acesso às páginas mais ocultas dos jornais nacionais e que vale a pena ler para reflectir sobre os efeitos antidemocráticos da nova lei eleitoral para as autarquias locais

Jornal Público de 23 de Janeiro de 2008;

O artigo intitula-se "Chapelada eleitoral" e é de autoria de António Vilarigues.

"O que se pretende é afastar da vereação de 87 % dos municípios portugueses os representantes dos partidos da oposição.

Os deputados da nação eleitos nas listas do PS e do PSD cozinharam, a toque de caixa, os mecanismos que vão permitir nas eleições autárquicas de 2009 uma tremenda chapelada eleitoral.

Ao fazê-lo revelam-se "meninos" obedientes de José Sócrates, Luís Filipe Meneses, Alberto Martins, Santana Lopes e tutti quanti. O pretexto é uma mentira esfarrapada, uma descarada aldrabice. A dita falta de "estabilidade governativa" das autarquias. Só que a realidade, essa "chata", aí está para os desmentir sem apelo nem agravo.

Desde o 25 de Abril de 1974, realizaram-se em Portugal por nove vezes eleições para as autarquias. Todas com o actual sistema eleitoral. Salvo erro ou omissão, nunca, em 31 anos de poder local democrático, um executivo camarário caiu por estar em minoria. O caso recente da C.M. de Lisboa, como é sabido, foi por opção própria do PSD.

Existem 308 câmaras municipais. Com base nos resultados das eleições de 2005, apenas 13 %, ou seja, 42, são governadas por maiorias relativas. Onde os problemas de funcionamento, em geral, se têm resolvido pelo conhecido e democrático método da negociação política. As outras, 87%, isto é, 266, são de maioria absoluta.

Onde está pois a "falta de estabilidade"? Acresce que só num país politicamente muito doente é que os dois maiores partidos (PS e PSD) podem defender que as maiorias absolutas são um quase insubstituível pilar da democracia. Na verdade, acordos, negociações, coligações e entendimentos entre diversas forças políticas têm, ou deviam ter, igual dignidade e naturalidade democráticas.

O que está, de facto, em causa nesta legislação não é tanto o garantir na secretaria maiorias absolutas. O que se pretende é afastar da vereação de 87 % dos municípios portugueses os representantes dos partidos da oposição.

PS e PSD enchem a boca com loas à participação dos cidadãos e à proximidade entre eleitos e eleitores. Não deixa de ser elucidativo que lhes neguem logo à partida o simples e inalienável direito de, com o seu voto, poderem escolher aqueles que melhor os representem.

Uma questão exige resposta clara. O número de vereadores do executivo é atribuído com base em quê? A resposta só pode ser uma - nos votos recebidos pelos partidos, coligações ou listas de cidadãos. Caso contrário, poder-se-ia afirmar que tinha acabado a democracia.

Como muito correctamente aqui escreveu Vital Moreira (2005/06/25), "(...) a eleição conjunta (câmara e AM) implicaria a natural "bipolarização" não somente na eleição do presidente da câmara municipal, garantindo, na maior parte dos casos, uma maioria fiel e obediente ao presidente, tanto mais que o candidato a presidente se encarregaria de controlar a composição da lista a que ele próprio irá presidir".

E mais adiante:"A ameaça à democracia municipal desta proposta de reforma está na inaudita concentração do poder nas mãos do presidente da câmara e na domesticação das assembleias municipais".

Não podíamos estar mais de acordo. PS e PSD, a direita dos interesses, querem-nos impingir uma concepão antidemocrática da gestão das autarquias. Que acentuará inevitávelmente o carácter unipessoal e presidencialista da governação camarária. Reduzindo ao mesmo tempo a sua colegialidade e transparência. Depois disso, ainda se poderá falar em "poder local democrático?"

Concordam com o António Vilarigues? Eu assino por baixo.

Os gémeos partidos do centro podem bem invocar a "responsabilidade" de quem governa, as "boas" práticas de gestão, uma maior "eficiência" e "eficácia" da governança, que o espírito da lei para as autarquias, aquilo que revela é uma concepção profundamente antidemocrata da vida social.

E nós por cá em Loulé? O PS, sorrateiro, silêncioso, seguidista das orientações do partido, obedecendo a lógicas que os interesses das populações e da democracia desconhecem, vão consentindo o retrocesso da democracia local.

O PSD, calado, esfregando as mãos, olha para o aniquilamento das oposições como uma dádiva dos deuses e como uma oferenda nacional para o reforço do já majestático poder do príncipe.

E os restantes cidadãos? Alguns alheados, outros, um pouco mais atentos, mas impotentes face a tais arruaças democráticas, outros revoltados e sem poder de intervenção, comum a todos eles, o aumento do divórcio face aos políticos e aos partidos nacionais.

Triste política e frágil democracia. Resta-nos a "realidade", que é sempre mais "chata" do que aquilo que queremos fazer com ela. E quando não se pode mudar de governo, resta a solução de mudar de povo. Restará?

Abraços democráticos

domingo, janeiro 20, 2008

Tristes Democratas: A nova lei eleitoral para as autarquias

O bloco central de interesses quer comer tudo e não deixar nada.

Em nome de princípios de gestão, a carecer urgentemente de demonstração empírica, tais como mais concentração e mais racionalização igual a melhor governação, PS e PSD vão aos poucos matando a já frágil democracia que temos.

Deixo-vos a leitura do artigo do Politólogo Luís de Sousa, investigador do CIES do ISCTE intítulado "O embuste democrático" públicado no jornal público de 18 de Janeiro:

"O embuste democrático

Anular a oposição ao nível dos executivos camarários significa eliminar o último reduto de confrontação política.

A exposição de motivos do projecto de lei nº. 431/X Lei Eleitoral dos Órgãos das Autarquias Locais é um emaranhado de pressupostos não corroborados empiricamente, aos quais se dá uma aura de bonismo reformista com o intuito de encobrir uma evidente (e bem sucedida) estratégia de bipartidarização do poder local, engendrada pelos dois maiores partidos (PS e PSD) desde a revisão constitucional de 1997.

Em teoria, a reforma visa potenciar a eficiência e a eficácia do poder local (governabilidade) e melhorar a qualidade do seu desempenho (democraticidade). Na prática, desenha-se um modelo de poder local avesso ao pluralismo e assente num conceito rudimentar de estabilidade governativa, entendida como resultante da concentração de poderes no presidente de câmara e de executivos (tendencialmente) "de uma só cor" (a do partido mais votado).

Ao retirar o direito de voto aos "vereadores em regime de não permanência" - único instrumento de actuação política num órgão executivo -, os defensores do projecto eliminam a relevância destes veto players. Os vereadores da oposição (mal amados nesta reforma) têm constituído o único contrapoder real ao nível local e o único mecanismo capaz de provocar algumas reacções nos órgãos de comunicação social, isto é, politização.

Supor que a assembleia municipal venha a desempenhar esta função, sem uma cultura parlamentar forte, sem poderes reais de fiscalização e tendo em conta as maiorias confortáveis existentes na maioria dos municípios, é pura ficção. Anular a oposição ao nível dos executivos camarários significa, para a maioria dos concelhos, eliminar o último reduto de confrontação política.

O argumento de que o actual sistema é pouco democrático, porque força os presidentes de câmara a "cooptar" vereadores da oposição para poder garantir uma maioria estável, pervertendo assim a escolha dos eleitores, não é corroborado pela evidência de 30 anos de poder local democrático.

Em primeiro lugar, se os eleitores decidem dispersar o voto (o que tendencialmente só acontece nos grandes municípios) é porque têm boas razões para fazê-lo. Governar não significa ter maioria. Coligações (pré e pós-eleitorais) também são formas de governo e bem mais comuns em Portugal (ainda que menosprezadas) do que maiorias de um só partido. Em segundo lugar, a alegada "falta de governabilidade" é um mito.

Num recente estudo, Meirinho Martins (ISCSP) deu conta de que, em 30 anos, apenas 21 executivos "caíram", e nenhum por "falta de governabilidade". Não só o actual sistema tem produzido executivos estáveis, como peca por uma excessiva concentração de poderes no presidente de câmara (a maioria dos executivos nunca funcionou como órgãos colegiais) e a longevidade no poder dos mesmos.

De acordo com outro estudo, da autoria de Maria Antónia Pires de Almeida (CIES-ISCTE), a maioria dos autarcas portugueses cumpre pelo menos dois mandatos. Se houve "estabilidade" e "eficácia" governativa neste país ao longo das últimas três décadas, foi ao nível autárquico.É precisamente essa concepção rudimentar de estabilidade pela concentração de poderes, e avessa a contrapoderes e ao pluralismo, que caracteriza o actual poder local e que esta reforma, em vez de contrariar, pretende reforçar.

Infelizmente, aquilo que o PS e o PSD classificam de "passo significativo para a modernização da administração territorial autárquica e para a qualificação da democracia local", trata-se, na realidade, de um embuste democrático. Politólogo (CIES-ISCTE)."

Tristes democratas.

Ps: Conto voltar localmente a este assunto.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

O faz de conta da política local para o pequeno comércio

A globalização neoliberal entranha-se nos corpos como o fundamentalismo religioso se entranha nas mentes.

A doutrina ideológica que defende, menos Estado, melhor Estado, e o livre funcionamento do mercado com o minímo residual de entraves políticos à economia, como forma da busca do "interesse geral", tem permitido a uns poucos interesses poderosos apoderar-se de uma boa parte da riqueza mundial.

A aprovação de mais uma empresa transnacional no concelho de Loulé vem contribuir para o agravamento da crise do já moribundo comércio local.

Noites Brancas, mercadinhos, música em alto e bom som, inclusivé aos Domingos, palhaços, marabilistas, acordeonistas, passadeiras vermelhas, tornam-se ridículos, quando de seguida se aprova mais um Hipermercado de grandes dimensões, neste caso, o Carrefour Continente.

É claro que todos os munícipios devem procurar atrair investimento externo. Mas podemos questionar. Será todo e qualquer tipo de investimento é benéfico para o concelho de Loulé?

Houve um estudo de impactos sociais antes da aprovação deste novo hipermercado? Os novos empregos criados vão compensar o emprego destruído?

O pequeno comércio é ou não considerado vital ao tecido social da cidade de Loulé? O interesse geral não é por vezes uma operação de nomeação que esconde verdadeiros benefícios só para alguns?

Não dúvido das boas intenções e da bondade religiosa de quem decide destas questões. Mas a realidade social não será tão complexa e algumas das medidas tomadas não estarão eivadas de interesses altamente contraditórios e isso não levará a termos que escolher de que lado nos situamos, sabendo que se optarmos em favor de determinados interesses económicos e sociais prejudicamos outras categorias socio-económicas da população?

Serão os interesses das grandes multinacionais os mesmos que os dos pequenos comerciantes das pequenas cidades da província?

E que sentido fazem os mercadinhos, festivais e arraiais para atrair gente para o pequeno comércio quando depois se opta claramente a favor dos grandes interesses económicos?

Parabéns à cidade pelo prémio do Mercado Local, é pena que se esqueça a vida de quem lá trabalha quando se tomam depois decisões que penalizam fortemente as famílias populares que vivem dos pequenos negócios.

Abraços alternativos

terça-feira, janeiro 15, 2008

A Saga dos Infantários

Post Elaborado por Ana Martins em Janeiro de 2006 no Blogue MacLoulé

"Num domingo igual a tantos outros, pelas três horas da tarde fui beber café num desses poucos estabelecimentos que estão abertos em Loulé.

Conversa para cá, conversa para lá e a páginas tantas estava um homem a comentar que era o número quinze da fila... da fila, pensei.... mas que fila? Uma fila numa tarde de Inverno de domingo em Loulé???.... Bilhetes para os U2 não era com certeza, e para o Mundial também é um pouco cedo....

Há medida que a conversa avançava, o senhor falou em dormir, saco cama, passar a noite.... A minha inquietação aumentou.... Descobri momentos depois que o senhor que bebia café estava na fila de uma creche / infantário para inscrever a sua criança no infantário!!!Não pode ser! (pensei).

Como Loulé é uma terra pequena, hoje encontrei um amigo que foi pai de uma criança há bem pouco tempo. Perguntei como estava o seu pequeno rebento e ele rapidamente começou a contar-me: olha, desde Sábado ao fim da tarde que estive na fila (do dito infantário) para a inscrever.

No Sábado ia lá só para deixar o carro, pensando que a tarefa árdua da espera seria no Domingo... mas quando lá chegou por volta das 20h já estavam pessoas nessa fantástica fila! Lá ficou.... (a criança ficou inscrita, mas a vaga não é garantida).

Parece-me a mim que há qualquer coisa de estranho em todo este aparato...a escassez de um serviço que deveria de estar disponível para todos faz com que pais corajosos esperem dois dias e duas noites para poderem inscrever (como já referi em cima, sem qualquer garantia) os seus rebentos numa instituição....Peço desculpa pela indignação, mas não poderia deixar de a partilhar convosco."

Porque não se fazem mais crianças em Portugal?

Janeiro de 2006. Hoje, Janeiro de 2008 continuamos a ter outras prioridades.

Boa Semana

domingo, janeiro 13, 2008

Roma:O racismo institucional no coração da Europa

Aconteceu em Janeiro de 2008:

O muncípio de Roma aprovou uma moção apresentada pelo partido Refundação Comunista em que é pedido ao conselheiro municipal que as escolas separem as crianças ciganas nos autocarros escolares, devido a confrontos registados nos últimos dias.
A moção foi aprovada com os votos da Refundação Comunista e da Esquerda Democrática (SD), enquanto que o Partido Democrata (PD), o mais importante da coligação no poder, votou contra.
O caso ocorreu no sector VII de Roma, um dos tradicionais feudos comunistas da capital italiana - que engloba os bairros operários populares de Centocelle, Prenestino, Quarticciolo e Alessandrino - e já levantou forte controvérsia.

A moção foi aprovada depois de um grupo de pais ter exigido a separação nos autocarros após uma luta registada recentemente.
De acordo com os pais, as crianças ciganas comportaram-se de maneira "demasiado enérgica" e embora no autocarro viajassem dois acompanhantes adultos, estes não conseguiram apaziguá-los.
Daí terem solicitado um regresso à situação de há anos, quando os estudantes ciganos viajavam para a escola num autocarro e os restantes noutro. Fonte: Observatório do Algarve.

Deixo-vos com a poesia de Martin Niemöller opositor do regime nazi na Alemanha:

Quando os Nazis vieram buscar os comunistas,
permaneci em silêncio; não era comunista.
Quando prenderam os Sociais Democratas,
permaneci em silêncio; não era Social Democrata.
Quando vieram buscar os sindicalistas,
nada disse, não era sindicalista.
Quando vieram buscar os Judeus,
permaneci em silêncio; não era Judeu.
Quando vieram buscar-me, ninguém restava para falar.

O eterno racismo contra os ciganos. Marcas de um tempo que dá sinais preocupantes!

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Ano novo, velha forma de fazer política

O arranque do ano de 2008 é um ano recheado de acontecimentos políticos em Portugal.

Sob a capa da ética da responsabilidade, começou o governo de Socrates por não cumprir a sua promessa eleitoral de referendar o novo Tratado Europeu.

A democracia ficou duplamente pobre e a distância entre eleitos e eleitorado com condições para aumentar o já enorme fosso que os separa.

O incumprimento de promessas eleitorais ao sabor das conveniências do momento aumenta o descrédito dos cidadãos na política e agrava a já grave crise de legitimidade da democracia representativa.

O presidente da república também não prestou grande serviço à democracia pressionando o governo a não referendar o tratado e recusando a participação dos cidadãos portugueses em algo que altera profundamente a relação de Portugal com a União Europeia.

Altera substancialmente a soberania nacional e a posição de Portugal na Europa. Temos consagrada legalmente uma Europa a várias velocidades e passámos para a segunda divisão europeia, ficando o comboio da frente com o seu poder reforçado. Se o nosso poder já era reduzido a situação em termos das relações de poder piorou. A partir de agora são a França, a Alemanha, a Inglaterra, a Itália e mais um ou outro dos poderosos a comandar os destinos dos Estados mais fracos. Quem quiser que se submeta, quem não quiser vais ter dificuldades em andar.

Perdeu-se uma excelente oportunidade de discutir a Europa, o Tratado de Lisboa, de informar e formar os cidadãos e desta forma contribuir para a aproximação dos mesmos ao projecto e à identidade europeia que se quer ver construída.

Sendo eu um europeísta convicto; pode não parecer mas sou, penso que se perdeu uma excelente oportunidade para se discutir que modelo de europa se deve construir.

Defendo uma europa social, não subordinada à europa dos negócios, inspirada no modelo neoliberal.
Infelizmente, foi este modelo "único", inevitável", "indiscutível" e a "única" via actualmente possível, neste momento histórico, que venceu, e a minha modesta opinião é que este modelo europeu dos eurocratas e dos tecnocratas construído à revelia dos cidadãos mais tarde ou mais cedo ir-se-á virar contra a tecnocracia europeia.

É de legitimidade e de democracia que se trata e essa tem sido permanente esquecida num projecto que nunca poderia ser construído à margem das populações dos países europeus.

Esta semana tivemos também a decisão sobre o novo aeroporto. Alcochete Jamais!

A margem Sul não tem escolas, não tem hospitais, não tem empresas, não tem gente, não tem nada. No deserto da margem sul jamais!

Mais um tiro na credibilidade da política, dos partidos políticos e do governo em funções. Ninguém se pode admirar das elevadas taxas de abstenção nos actos eleitorais de que foi bom exemplo as últimas eleições em Lisboa e do divórcio crescente entre os cidadãos nacionais e os partidos políticos.

Assistimos também nas últimas semanas ao capitalismo à Portuguesa.
A CGD, empresa de capitais públicos, empresta dinheiro a alguns capitalistas para reforçar as suas posições como accionistas em bancos privados. É o chamado capitalismo dependente do Estado e uma modalidade de risco minímo para alguns destes interesses poderosos privados que navegam nos meandros do Estado. Alguns deles são os grandes ideólogos da teoria que defende que o grande problema de desenvolvimento do país é o de termos Estado a mais.

A saída de administradores da CGD para um dos principais concorrentes privados não pode deixar de ser interpretado como forma de interferência política na gestão do maior banco privado português.
A guerra pelo poder quando traz à tona e torna visível a rede de interesses em torno do poder económico e financeiro deixa uma imagem frágil do capitalismo económico e financeiro nacional.

Ficamos também a saber esta semana quem pagou os estudos encomendados pela CIP sobre a localização do aeroporto que resultou como melhor decisão Alcochete. Pelo menos um dos financiadores sabemos que está ligado a uma empresa de grandes dimensões, que poderá vir a beneficiar indirectamente da construção de infraestruturas de que depende a região circundante ao aeroporto. O estudo do LNEC apontou também para Alcochete. Os usos políticos da ciência e da técnica contribuem para a desconfiança na ciência e na técnica. A decisão será sempre política, a legitimação será sempre de ordem técnica.

Ano novo, velha política!

O que vale, é que tal como as instituições se transformam, também os homens passam e é pena que nos últimos tempos estes tenham sido altamente rejeitados pelo voto das populações.
Mais do que votar em quem vem, torna-se hábito votar contra quem está. E isso não é nada bom para a democracia portuguesa.

Bom fim de semana.

domingo, janeiro 06, 2008

Sócrates e a Liberdade em Portugal

Sócrates e a liberdade por António Barreto, Público 06 de Janeiro de 2008

EM CONSEQUÊNCIA DA REVOLUÇÃO DE 1974, criou raízes entre nós a ideia de que qualquer forma de autoridade era fascista. Nem mais, nem menos. Um professor na escola exigia silêncio e cumprimento dos deveres? Fascista! Um engenheiro dava instruções precisas aos trabalhadores no estaleiro? Fascista! Um médico determinava procedimentos específicos no bloco operatório? Fascista! Até os pais que exerciam as suas funções educativas em casa eram tratados de fascistas.Pode parecer caricatura, mas essas tontices tiveram uma vida longa e inspiraram decisões, legislação e comportamentos públicos. Durante anos, sob a designação de diálogo democrático, a hesitação e o adiamento foram sendo cultivados, enquanto a autoridade ia sendo posta em causa. Na escola, muito especialmente, a autoridade do professor foi quase totalmente destruída.

EM TRAÇO GROSSO, esta moda tinha como princípio a liberdade. Os denunciadores dos “fascistas” faziam-no por causa da liberdade. Os demolidores da autoridade agiam em nome da liberdade. Sabemos que isso era aparência: muitos condenavam a autoridade dos outros, nunca a sua própria; ou defendiam a sua liberdade, jamais a dos outros. Mas enfim, a liberdade foi o santo e a senha da nova sociedade e das novas culturas. Como é costume com os excessos, toda a gente deixou de prestar atenção aos que, uma vez por outra, apareciam a defender a liberdade ou a denunciar formas abusivas de autoridade. A tal ponto que os candidatos a déspota começaram a sentir que era fácil atentar, aqui e ali, contra a liberdade: a capacidade de reacção da população estava no mais baixo.

POR ISSO SINTO INCÓMODO em vir discutir, em 2008, a questão da liberdade. Mas a verdade é que os últimos tempos têm revelado factos e tendências já mais do que simplesmente preocupantes. As causas desta evolução estão, umas, na vida internacional, outras na Europa, mas a maior parte residem no nosso país. Foram tomadas medidas e decisões que limitam injustificadamente a liberdade dos indivíduos. A expressão de opiniões e de crenças está hoje mais limitada do que há dez anos. A vigilância do Estado sobre os cidadãos é colossal e reforça-se. A acumulação, nas mãos do Estado, de informações sobre as pessoas e a vida privada cresce e organiza-se. O registo e o exame dos telefonemas, da correspondência e da navegação na Internet são legais e ilimitados. Por causa do fisco, do controlo pessoal e das despesas com a saúde, condiciona-se a vida de toda a população e tornam-se obrigatórios padrões de comportamento individual.

O CATÁLOGO É ENORME. De fora, chegam ameaças sem conta e que reduzem efectivamente as liberdades e os direitos dos indivíduos. A Al Qaeda, por exemplo, acaba de condicionar a vida de parte do continente africano, de uma organização europeia, de milhares de desportistas e de centenas de milhares de adeptos. Por causa das regulações do tráfego aéreo, as viagens de avião transformaram-se em rituais de humilhação e desconforto atentatórios da dignidade humana. Da União Europeia chegam, todos os dias, centenas de páginas de novas regulações e directivas que, sob a capa das melhores intenções do mundo, interferem com a vida privada e limitam as liberdades. Também da Europa nos veio esta extraordinária conspiração dos governos com o fim de evitar os referendos nacionais ao novo tratado da União.

MAS NEM É PRECISO IR LÁ FORA. A vida portuguesa oferece exemplos todos os dias. A nova lei de controlo do tráfego telefónico permite escutar e guardar os dados técnicos (origem e destino) de todos os telefonemas durante pelo menos um ano. Os novos modelos de bilhete de identidade e de carta de condução, com acumulação de dados pessoais e registos históricos, são meios intrusivos. A videovigilância, sem limites de situações, de espaços e de tempo, é um claro abuso. A repressão e as represálias exercidas sobre funcionários são já publicamente conhecidas e geralmente temidas. A politização dos serviços de informação e a sua dependência directa da Presidência do Conselho de Ministros revela as intenções e os apetites do Primeiro-ministro. A interdição de partidos com menos de 5.000 militantes inscritos e a necessidade de os partidos enviarem ao Estado a lista nominal dos seus membros é um acto de prepotência. A pesada mão do governo agiu na Caixa Geral de Depósitos e no Banco Comercial Português com intuitos evidentes de submeter essas empresas e de, através delas, condicionar os capitalistas, obrigando-os a gestos amistosos. A retirada dos nomes dos santos de centenas de escolas (e quem sabe se também, depois, de instituições, cidades e localidades) é um acto ridículo de fundamentalismo intolerante. As interferências do governo nos serviços de rádio e televisão, públicos ou privados, assim como na “comunicação social” em geral, sucedem-se. A legislação sobre a segurança alimentar e a actuação da ASAE ultrapassaram todos os limites imagináveis da decência e do respeito pelas pessoas. A lei contra o tabaco está destituída de qualquer equilíbrio e reduz a liberdade.

NÃO SEI SE SÓCRATES É FASCISTA. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições. Não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação. No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu governo. O Primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas.
TEMOS DE RECONHECER: tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos. A passividade de tanta gente. Será anestesia? Resignação? Acordo? Só se for medo...

«Retrato da Semana» - «Público» de 6 de Janeiro de 2008

Assino por baixo tudo o que foi escrito no artigo pois exprime os meus estados de alma sobre o assunto.

Abraços democráticos

sexta-feira, janeiro 04, 2008

José Luís Rodriguez Zapatero: A política como vocação

A política é a mais nobre de todas as artes e é fundamental ao bom funcionamento da vida social.
Todo o acto social é intrinsecamente político e até o ar que respiramos pode a determinada altura da vida societal ser objecto de discussão política.

Max Weber, sociólogo alemão dos finais do século XIX, início do século XX, num maravilhoso texto intitulado "A política como vocação", defendia que são três as qualidades decisivamente importantes para um político. Paixão, no sentido de amor às causas que defende, sentido de responsabilidade e tacto, no sentido de equilíbrio e moderação.

Weber via na complementaridade entre uma ética da responsabilidade e um ética da convição os ingredientes fundamentais à fabricação do homem político por excelência.

Agindo segundo a ética da convição, o político não teria que prestar contas das suas decisões pois a legitimidade das suas acções viria da crença numa determinada causa, sem ter em conta a relação entre meios e fins.

Agindo segundo a ética da responsabilidade, a relação meios e finalidades seria devidamente ponderada e a ética da responsabilidade exigiria que nem sempre os melhores meios justificam os melhores fins e que nem todas as causas que fazem mover a ética da convição resultariam nas melhores finalidades para o povo que se governa.

Seria o equilíbrio e a complementaridade entre a ética da convição e da ética da responsabilidade que faria a boa política.

José Rodrigues Zapatero prestou esta semana um hino à política, juntando admiravelmente a ética da convição à ética da responsabilidade.

Jornal Público, de Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

"Os socialistas espanhóis responderam às acusações da Igreja Católica que no Domingo tinha críticado o Governo ao afirmar que as suas políticas a favor dos direitos dos homossexuais e em relação ao divórcio representam "uma marcha atrás nos direitos humanos". Ontem o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) assegurou em comunicado que não dará "nenhum passo atrás" nas medidas sociais que propõe".

O chefe do governo socialista espanhol, Zapatero, considerou que "todas as pessoas têm direito aos seus direitos, quaisquer que sejam as suas crenças" e o membro da comissão executiva do PSOE, José Blanco, considerou as acusações feitas pelos bispos extremamente graves. E acrescentou que "só aqueles que deliberadamente ignoram e não respeitam os príncipios da liberdade se afastam dos fundamentos essenciais da democracia".

Admirável, senhor Zapatero!

Face ao ataque homofóbico da direita conservadora e dos altos representantes da Igreja Católica em Madrid e em Valência só um politico que alie a ética da convicção à ética da responsabilidade pode agir desta maneira.

Na era em que a política está subordinada aos grandes interesses económicos e aos grandes poderes corporativos existentes nas sociedades democráticas este é o tipo de comportamento que pode gerar a crença na legitimidade de um verdadeiro líder.

E nós por cá? Um estudo revelado pelo jornal Expresso há alguns anos atrás apontava para um milhão de homossexuais na sociedade portuguesa. Um em cada dez portugueses é homossexual. Um em cada dez portugueses não vê os seus direitos constitucionalmente consagrados serem respeitados e cumpridos.

Sobre estas questões em Loulé nem vale a pena comentar. Tal como no Irão de Mahmood Ahmadi-Najad, também em Loulé não existem homossexuais.

Já tinha ficado bem impressionado com o senhor Zapatero a quando da sua intervenção no incidente entre o Rei de Espanha e Hugo Chavez no célebre "Por que non te callas?".
Volta Zapatero a conquistar a minha admiração face à sua forma de estar na política.

Um verdadeira lição socrática!

Bom fim de semana

terça-feira, janeiro 01, 2008

Sonhos de uma noite de Ano Novo

Dia 01 de Janeiro de 2008.

Sonhei que o nível de vida dos portugueses ia melhorar.

Afinal de contas enganei-me. O preço do pão aumenta. Para comprar leite é preciso mais dinheiro. As consultas nos Centros de Saúde e nos Hospitais sobem. A electricidade está mais cara. Os transportes aumentam. Os combustíveis provavelmente continuarão a subir. Os salários crescem abaixo da inflação.

Sonhei que o maior ataque aos direitos económicos e sociais, após o 25 de Abril de 1974, levados a cabo por esta espécie de partido socialista iria parar.

Afinal enganei-me, os Centros de Saúde, as Urgências dos Hospitais, as maternidades, continuam a encerrar por esse país fora, essencialmente no interior do país e junto das populações mais pobres.
A Saúde ficou mais cara e os serviços públicos caminham a sua escalada de degradação. Por outro lado os negócios da Saúde prosperam. Nunca como hoje se ganhou tanto dinheiro com a vida e a morte de cada um dos cidadãos. Quem pode paga, quem não pode que vá ao Totta.

Sonhei que o desemprego diminuia, que a promessa dos cento e cinquenta mil empregos de Sócrates era verdade e que o emprego precário e a geração recibos verdes era para passar à história.
Afinal enganei-me, o desemprego provavelmente vai ter tendência a aumentar, os novos empregos criados não vão compensar o emprego destruído, o emprego precário e as novas formas "atípicas" de emprego estão aí para durar e a geração recibo verde tem um "futuro" hipotecado a prazo e sem confiança no que aí há-de vir.

Sonhei que a discussão sobre a flexigurança ia voltar para trás e o bom senso ia prevalecer face à realidade do nosso país.
Afinal enganei-me, num dos países da União Europeia com maiores desigualdades salariais, dos mais baixos salários da UE a 15, com um dos maiores indíces de desigualdade social da Europa, a tónica vai ser dada à "flexibilidade" e muito pouco à segurança.
Facilitou-se o despedimento e o capital aumenta o seu poder face ao trabalho. O medo instala-se nas empresas e organizações.

Sonhei que o Estado Social iria apoiar os mais pobres e necessitados e que tornaria menos dependentes os privilegiados.
Afinal enganei-me, as politicas neoliberais são a cartilha do governo de Sócrates e esse dogma de fé é para ser levado como uma doutrina inevitável até à destruição total do Estado.

Sonhei que as classes médias continuariam a crescer, pois isso é um sinal vital de dinamização da sociedade.

Afinal enganei-me, as classes médias vão continuar a encolher e a serem encaradas como inimigo a abater.
Os professores vão continuar a ser culpados pelos problemas da educação, os profissionais da saúde vão continuar a ser esmagados por cada vez mais magros orçamentos, a cultura faz notícia com a não renovação dos contratos dos profissionais da arqueologia, a justiça vai continuar a ser o maior cancro da sociedade portuguesa. As vítimas do caso Casa Pia continuam a ser as únicas que não são protagonistas da história.

Sonhei que a promessa eleitoral de referendar o Tratado Europeu não era uma mentira governativa.

Sonhei que Durão Barroso não tinha dito que foi enganado pelas imagens das armas de destruição maciça no Iraque e pelas informações que lhes deram os outros capangas.

Sonhei que Ramos Horta não tinha dito que iria propor Durão Barroso para Nobel da Paz.

Sonhei que Durão Barroso não era líder do PSD no caso de financiamento ilegal dos partidos conhecido pelo caso Somague. Era porreiro que não tivesse sonhado com isso.

Sonhei que George W. Bush e companhia tinham sido julgados pelo Tribunal Internacional de Haia por crimes de guerra contra a humanidade e pela carnificina que provocaram no Iraque.

Sonhei que as tendências autoritárias do Estado tinham sido coisas do tempo da velha senhora.

Sonhei que havia por aí uns novos empreendedores da moral que procuram regular como devemos viver, comer, amar e talvez até defecar.

Sonhei que a bica e a cerveja iam ser bebidos em copos de plástico e gordura humana um dia ia pagar imposto especial.

Sonhei que ia ser filmado trezentas vezes por dia desde que saía de casa até que entrava.

Sonhei que Mil Novecentos e Oitenta e Quatro e o Big Brother de Orwell afinal não tinha passado de um livro que toda a gente devia ler ao longo da sua vida.

Sonhei que a liberdade não é um estado, nem sequer uma essência, e que quando adormecemos em cima dela ela pode voltar a ser um sonho.

Sonhei que viviamos num mundo mais justo e a caminhar para a paz e a harmonia entre os seres que se dizem humanos.

Sonhei...foi apenas um sonho.

Feliz 2008 para todos