domingo, novembro 30, 2008

1 de Dezembro de 1640: Restauração da Independência

Dá-se o nome de Restauração ao regresso de Portugal à sua completa independência em relação a Castela em 1640, depois de sessenta anos de regime de monarquia dualista (1580-1640) em que as coroas dos dois países couberam ambas a Filipe II, Filipe III e Filipe IV de Castela. Nos anos imediatamente anteriores a 1640 começou a intensificar-se o descontentamento em relação ao regime dualista em parte dos membros da classe aristocrática, dos eclesiásticos (principalmente os jesuítas, que exploraram nesse sentido as crenças sebastianistas – e, em geral, «encobertistas») e acaso também entre os interessados no comércio com as províncias ultramarinas do Atlântico. (…) A má administração do governo espanhol constituía uma grande causa de insatisfação dos Portugueses em relação à união com Castela. Dessa má administração provinha o agravamento dos impostos. (…) A 6-VII-1628 era expedida a carta régia que, sem o voto das Cortes (por tradição, indispensável para que se criassem novos tributos), mandava levantar, por meio de empréstimo forçado, as quantias necessárias para a defesa, durante seis anos, de todos os lugares dos nossos domínios ameaçados pelos estrangeiros. A população mostrou logo a sua má vontade. (…) A tensão agravou-se quando o clero (cujos privilégios o isentavam de tais imposições) se viu também incluído na colecta geral. (…) Também no Ultramar surgiram protestos. (…) Em 1635 era estendido a todo o reino o imposto do «real de água», bem como o aumento do das sisas. Em 1634 confiava Olivares o governo de Portugal a uma prima co-irmã de Filipe IV, a princesa Margarida, viúva de Vicêncio Gonzaga, duque de Mântua. Ao mesmo tempo (fins de 1634) Miguel de Vasconcelos era transferido do seu posto de escrivão da Fazenda para as elevadíssimas funções de secretário de Estado, em Lisboa, junto da duquesa, cargo em que teve ensejo de desagradar muito aos Portugueses não partidários de Castela. (…) Num escrito editado em 1641, sob o título Relação de tudo o que se passou na felice aclamação, declara-se que D. António de Mascarenhas «fora a Évora a amoestar aos cabeças daquela parcialidade que não desistissem do começado e que, para que a empresa tivesse bom sucesso, pedissem amparo à Casa de Bragança». Era no duque, com efeito, que se pensava para chefe da insurreição e futuro monarca de Portugal independente; mas ele não achava oportuno o momento para tão grande aventura, e tratou de dar provas públicas de que reprovava a ideia. É de notar, todavia, que aos incitamentos internos se acrescentava um exterior, provindo da França, (…) então em luta com a Espanha, [que] se empenhava em impelir Portugal e a Catalunha contra o governo de Madrid. (…) Em 1638 tomou o conde-duque uma outra resolução que descontentou a nossa gente: a pretexto de os consultar sobre uma projectada reforma da administração do nosso País, convocou a Madrid grande número de fidalgos, e ordenou levas de tropas para servir nas guerras que a monarquia espanhola sustentava, sangrando assim Portugal das suas maiores forças. (…) O que veio dar mais impulso à ideia da independência foram as novas exigências do conde-duque. Em Junho de 1640, com efeito, insurgia-se a Catalunha, e Olivares pensou em mandar portugueses a combater os catalães revoltados, ao mesmo tempo que se anunciavam novos impostos. (…) Aderiram à conjura o juiz do povo, os Vinte e Quatro dos mesteres e vários eclesiásticos, entre os quais o arcebispo de Lisboa, D. Rodrigo da Cunha. Deram também a sua colaboração o doutor Estêvão da Cunha, deputado do Santo Ofício, e D. António Telo. Em Outubro realizou-se uma reunião conspiratória no jardim do palácio de D. Antão de Almada, a S. Domingos, em Lisboa. Assistiram, além dele, D. Miguel de Almeida, Francisco de Melo, Jorge de Melo, Pêro de Mendonça e João Pinto Ribeiro. (…) Teve também influxo na resolução a mulher do futuro Monarca, D. Luísa de Gusmão. (…) Chegado a Lisboa a 21-XI-1640, João Pinto Ribeiro convocou os conspiradores para uma reunião num palácio que o duque tinha em Lisboa e onde ele, João Pinto, residia. Decidiu-se estudar em pormenor o plano do levantamento, amiudando-se as reuniões. Por fim, marcou-se o momento de sublevação: 9 horas da manhã de sábado, 1.º de Dezembro. Na noite de 28 para 29 surgiram complicações, por haver quem julgasse que eram poucos os conjurados; mas João Pinto Ribeiro, a quem quiseram encarregar de transmitir ao duque o intuito de se adiar, opôs-se tenazmente a tal ideia, numa discussão que se prolongou até as 3 horas da manhã. (…) O dia 1.º de Dezembro amanheceu de atmosfera clara e muito serena. Tinham-se os conjurados confessado e comungado, e alguns deles fizeram testamento. Antes das 9 horas foram convergindo para o Terreiro do Paço os fidalgos e os populares que o padre Nicolau da Maia aliciara. Soadas as nove horas, dirigiram-se os fidalgos para a escadaria e subiram por ela a toda a pressa. Um grupo especial, composto por Jorge de Melo, Estêvão da Cunha, António de Melo, padre Nicolau da Maia e alguns populares, tinha por objectivo assaltar o forte contíguo ao palácio e dominar a guarnição castelhana, apenas os que deveriam investir no paço iniciassem o seu ataque. Estes rapidamente venceram a resistência dos alabardeiros que acudiram ao perigo e D. Miguel de Almeida assomou a uma varanda de onde falou ao povo. Estava restaurada a independência…

Bibliografia: In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia, Limitada, Vol. 25, Lisboa/Rio de Janeiro, 1978, pp. 317-319.


Orgulho no Continente: Quem é o Loulé?

Quem é Loulé?



A relação entre as palavras que nomeiam a realidade e as coisas que essas palavras nomeiam sempre foi utilizada por políticos, homens de negócios, publicitários e especialistas de marketing para manipular consciências e levar a sua água ao moinho.

Quando oiço na publicidade que Loulé tem orgulho no Continente não posso deixar de morrer de curiosidade por saber quem é o Loulé.

A primeira coisa que me ocorre é que o Loulé seria o senhor Presidente da Câmara Municipal de Loulé. Com todo o seu amor pelo comércio, pelas noites brancas, que um dia o haverão de salvar e pela parada de horrores cujo destino é salvar esse mesmo comércio da "Baixa Louletana", foi a primeira coisa que me ocorreu. Pensei com os meus botões "este senhor é o Loulé".

Depois achei que seria pouca gente; o Continente gastar rios de dinheiro em publicidade para uma só pessoa pareceu-me coisa de estranhar. Loulé, talvez fosse então, para além do seu presidente, toda a equipa do governo local. Já me pareceu com mais sentido. O governo local é Loulé e tem orgulho no Continente.

Veio-me depois à memória se a oposição PS, seria ela, toda, ou só uma parte, esse Loulé. Ah...e lembrei-me espontaneamente dos pequenos comerciantes. Esses são Loulé de certeza e em cada montra de loja aposto que afixarão um cartaz a dizer "Eu tenho orgulho no Continente".

Alguém ainda me chamou a atenção para os trabalhadores do mercado e os que vivem da actividade do mercado. Esses, sem dúvida, que são Loulé e de cada vez que o mercado aparece na públicidade do Continente vão de certeza rejubilar: "Tá ali, tá ali! O mercado onde eu trabalho, na públicidade do Continente. Ainda diziam que o mercado era um mero objecto estético para políticos ganharem eleições. Tá ali, é ali que eu ganho a vida!"

Mas falta ainda uma parte do Loulé. São os novos Louletanos, quais novos ricos, em busca do reconhecimento social que o tempo da miséria da pobreza nunca lhes tinha dado. Esses já abdicaram da sua condição de cidadãos, nem sequer são eleitores e regozijam-se com o admirável estatuto de consumidores.

Eu cá sou de Loulé e que me desculpe o senhor Belmiro de Azevedo não tenho orgulho no Continente!

Tenho orgulho na Biblioteca Municipal de Loulé, tenho orgulho nos homens e nas mulheres que fazem Teatro na Casa da Cultura, tenho orgulho nas piscinas municipais e no Pavilhão Desportivo Municipal que ajudaram a melhorar a qualidade de vida na cidade, tenho orgulho nas quadras do António Aleixo, tenho orgulho nas pessoas que todos os dias anonimamente fazem existir a terra onde nasci. Tenho orgulho no magnífico monumento que é o Castelo de Loulé. Teria orgulho num presidente de Câmara que cuidasse do património arbóreo da minha terra. Teria orgulho no poder político local se pela segunda vez em que vou ter um filho não tivesse que dispensar uma elevada parte do meu salário para pagar um infantário.

Assim, tenho que dizer, que não devo ser Loulé, pois não tenho orgulho no Continente. Lamento dizê-lo, mas não sou um mero eleitor, muito menos me reduzo ao estatuto de consumidor e por muito que isso custe aos actuais democratas, sou um cidadão do mundo.

sábado, novembro 29, 2008

Contra a fome: Tolerância Zero

Colabore na recolha do Banco Alimentar Contra a Fome

Agarre num saquinho e compre leite, azeite, açucar, óleo, atum, bolachas, grão, feijão, massas, cereais ou salsichas.

Não resolve os problemas da fome e da pobreza mas sem peixe nunca haverá força para um dia se poder pescar.

Ajude quem precisa. Todos juntos podemos fazer alguma coisa.

Parabéns ao Banco Alimentar por mais esta iniciativa.

sexta-feira, novembro 28, 2008

Quando for grande quero ser do PS

Maria de Lurdes Rodrigues descreve hoje um dos "muitos" bons momentos que teve como Ministra da Educação:

"Uma carta que recebi de um menino que recebeu um computador para ter em casa, não sei já em que circunstância, e escreveu-me a dizer: "Quando for grande, vou inscrever-me no PS". É tocante."

Público de Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Memórias da Cidade: Largo do Chafariz

Largo do Chafariz - Praça Dom Afonso III


Avivar memórias

quinta-feira, novembro 27, 2008

O Idalécio das Ovelhas

Morreu o Idalécio das Ovelhas. Nascido e criado no seios das classes populares e numa situação de claro desfavorecimento social, numa época em que se intensificou o processo de globalização social e o agudizamento das relações de exploração capitalista, o Idalécio fazia parte daquilo que hoje os cientistas sociais designam de subclasse, onde se encontram os sem abrigo, toxicodependentes e outros sem nada, que crescem um pouco por todo lado, associados às dinamicas das sociedades capitalistas no seu estádio de evolução actual.

O que me faz falar do Idalécio das Ovelhas, é perceber que as condições sociais de existência continuam a marcar claramente os destinos sociais dos indivíduos. Eu tive a possibilidade, ocupando uma zona do espaço social à nascença muito próxima da que fazia existir o Idalécio, de construir uma vida considerada minimamente condigna e que assegura uma existência social com um mínimo de decencia. Os meus pais, que sempre me asseguraram o fundamental e incutiram na minha pessoa a sensibilidade para a importância da escolarização nos destinos sociais dos indíviduos, foram também essenciais na transmissão de valores e estiveram sempre na retaguarda sempre que precisei do apoio necessário.

O Idalécio cedo entrou em trajéctórias desviantes, roubou e foi preso. Entrou pois, noutra escola, de outra vida, escola essa que tem sido um autêntico desastre no seu objectivo da reinsersão social. O estigma, sim, o estigma, é aquela terrível marca que se cola ao rosto e que nos acompanha por toda a vida.

Depois do estigma nada ficará como dantes. Todas as semanas me pedia o Idalécio uma moedinha e todas as semanas lhe dava eu a moedinha. Nem pensava para que serviria. Isso também não interessava. Quando atingimos certas formas de vida é a nossa dignidade que já se foi à vida. É o sinal que apenas vamos existindo. É sinal de que a sociedade convive bem com a indiferença e a desgraça dos outros. Quantas vezes não senti o incómodo que gera a interacção que solicita a moedinha. Quantas vezes os sentimentos contraditórios não se apoderaram de mim.

A última vez que o vi, o Idalécio sentou-se na minha mesa do café e contou que estava desgostoso porque os peritos da medicina o queriam internar no hospital dos "malucos".

Depois, depois foi o fim. Foi a foto que marca a nossa passagem para o além, exposta numa das paredes do mercado. Um dia, serei eu a estar ali.

Tinha quarenta anos. E a estória do Idalécio é a história da sociedade que todos os dias vamos construíndo.

quarta-feira, novembro 26, 2008

Quem quer RAN ou REN quando se tem PIN?

Esta noticiazinha já tem algumas semanas...

...mas é tão actual...tão actual...


Ora, leiam lá por favor:

LPN ataca “regime PIN”

A construção de um empreendimento turístico em Altura, Castro Marim, levou ao abate de uma vasta área de pinhal na Praia Verde. O projecto assenta num PIN – Potencial Interesse Nacional. A Liga para a Protecção da Natureza não poupa críticas ao Governo. A figura PIN criada pelo actual Governo atropela toda e qualquer lei de ordenamento do território com base num critério, o volume de investimento. “Ultrapassada determinada fasquia, há luz verde, quase como que por decreto-régio, para o que quer que seja”, comenta a LPN. E reforça: “Na prática, trata-se de uma «venda», neste caso, uma destruição da coerência territorial em termos de ordenamento, a retalho”. Este abate de árvores na zona criou, diz a liga, “um cenário dantesco”. O empreendimento é “perfeitamente legal, mas talvez não legítimo, com a respectiva «palmadinha nas costas» que um PIN representa, arrasou parcialmente uma mancha de pinhal que, em tempos, constituiu o ex-libris da Praia Verde” considera a liga. “Não se pretende, de modo algum, «demonizar» este empreendimento, mas sim alertar para o modelo que se perpetua e, pior, se incentiva com a política PIN”, alerta a LPN, considerando que “num Estado de Direito sério, é impensável a ultrapassagem do edifício legislativo nacional pelo mero acenar de milhões. Não podemos crer numa tal «sul-americanização»”. A LPN defende que turismo e preservação ecológica “não são antagonistas, mas carecem da aplicação de modelos que os conciliem e harmonizem, não de facilitismos e irresponsabilidade”, deixando a questão: “será possível que os tiros no pé do turismo algarvio (e nacional) não conheçam um fim?”.

In http://www.regiao-sul.pt/noticia.php?refnoticia=89420

terça-feira, novembro 25, 2008

Memórias: O Largo do Chafariz

Largo Do Chafariz


Onde o processo de urbanização e de "modernização" da cidade levou à construção de um parque de estacionamento, em que cabem três tristes simbolos do sucesso social do mundo contemporâneo, o mesmo é dizer, três tristes automóveis, ficava o chafariz, no centro do largo.

Aquilo que noutros contextos sociais e temporais seria considerado património histórico, memória da história e da vida de uma cidade ou vila, foi, por e simplesmente cilindrado há anos atrás pela fúria modernizadora.

Este chafariz, com uma função social importantíssima até pelo menos à década de 80 do século XX, era aqui que se concentravam os burros, as mulas e as "bestas" que vinham dos mais variados sítios dos arredores da cidade e era aqui que os animais saciavam a sede a quando da sua chegada à vila de Loulé, é também parte das minhas memórias pessoais e da minha vida passada.

Quantas vezes não fui aqui dar água às mulas e aos burros no "chafariz" e quantas vezes o meu avô que as ferrava e calçava, em condições, como hoje se diria, de excelência, me levava a partir daqui aos mais diversos recantos do interior algarvio para "ferrar" os animais.

Onde hoje é a frente do Castelo (e que magnífico monumento é este no centro da cidade de Loulé) ficava, para quem já não se lembra, a barbearia do Daniel, lugar onde cortei o cabelo quase toda a minha vida, ou não fossemos nós animais de rotinas. À direita, ficava a casa do correeiro Zé de Almeida e ao lado da barbearia, uma magnífica residência que acabou por ser demolida.

A "recuperação" do chafariz, a ser feita, um dia, é a recuperação de memórias que o tempo procura apagar. Não só de memórias da vila e da cidade, mas também memórias de gente honrada que nela viveu.

segunda-feira, novembro 24, 2008

Debate Ambiental em Loulé

Parque Municipal de Loulé

Novembro de 2008


Na sequência do debate levado a cabo pela Almargem sobre Espaços Verdes e Árvores Ornamentais com a participação esclarecedora, informativa e formativa do Arquitecto Fernando Pessoa, o blogue Macloulé deixa aqui um pequeno contributo reflexivo sobre a forma como tem decorrido a intervenção desta problemática na cidade de Loulé e deixa algumas sugestões para o futuro:

1.Começava por enquadrar o meu modesto contributo para este debate recordando que um dos maiores desafios da actualidade reconhecido na comunidade científica internacional é o problema ambiental.

O Planeta Terra está em risco e portanto, todos temos o dever de cuidar da casa onde vivemos, uma vez que os problemas globais são hoje eminentemente locais e os problemas locais são problemas de foro global.

Isto quer dizer que, nós, cidadãos de Loulé, temos o dever de contribuir para a melhoria da qualidade de vida da nossa cidade, sabendo que ao fazer isso, estamos a contribuir para a melhoria de qualidade de vida do nosso planeta.

Sendo assim, autarquias, cidadãos, organizações ambientais, empresas, Estado Central, organizações internacionais, todos, somos poucos, para melhorar a qualidade de vida da casa onde vivemos.

2. Importa ainda recordar esta coisa simples que todos já sabemos, de que o Algarve e o Concelho de Loulé, sofrem uma elevada pressão demográfica, um processo de litoralização e urbanização crescentes, um processo de desertificação acentuado e recordar também que continuamos ao nível das políticas e práticas sociais formatados hegemonicamente por uma concepção de desenvolvimento que continua a confundir desenvolvimento com crescimento económico.

3. Dito isto, temos vindo a assistir incrédulos e indignados um pouco por todo esse país fora (basta visitar o blogue Sombra Verde do colega Pedro Nuno Santos para confirmar isso), e infelizmente, também no Concelho e na Cidade de Loulé, a abates arbóreos e podas desastrosas (à falta de melhor adjectivação) numa espécie de Bullying Ambiental (agressão continuada e sistemática dos mais fortes sobre os mais fracos à imagem do que sucede no interior das nossas escolas com a violência escolar) que evidentemente em nada contribui para a qualidade de vida e a qualidade dos espaços das nossas cidades.

4. Parece-me muito importante os poderes públicos fomentarem uma discussão participada (e é claro que isso não tem acontecido) de cada vez que se equaciona uma intervenção pública que altere os espaços verdes das cidades e que nos casos onde as situações de abate eventualmente se possam vir a justificar, porque valores mais altos se levantam, que se tome a decisão de plantar novas árvores em espaços próximos.

5. Parece-me também que estas decisões devem estar assentes em informação clara e transparente, fornecida aos cidadãos e assentes em relatórios técnico-científicos que legitimem a intervenção nos espaços verdes da cidade.

6. Parece-me da maior importância também a sensibilização ambiental para a importância destas temáticas, dos órgãos de gestão autárquica e a formação dos profissionais que intervém nos espaços verdes da cidade, isto para evitar situações como as que há dias assisti em directo e ao vivo, em que um funcionário para ultrapassar o seu obstáculo na colocação da iluminação de Natal, encontrou como melhor solução arrancar os ramos da árvore que atrapalhavam a sua vida. As podas a que assistimos um pouco por todo o lado deixam qualquer cidadão leigo no assunto completamente arrepiado (queiram ver por exemplo a poda realizada há poucas semanas atrás, numa das árvores do parque infantil do Parque Municipal da cidade de Loulé e digam por favor de vossa justiça).

7. Penso que deveria ser elaborada uma estratégia de desenvolvimento sustentável que não ficasse meramente no papel (tendo na autarquia o actor fundamental em parceria com Associações Ambientais e outros actores sociais) no sentido de que intervenções futuras possam levar a melhorias nos espaços verdes da cidade e para que não volte a acontecer o que se passou na Avenida José da Costa Mealha ou com as árvores em frente ao mercado municipal de Loulé ou ainda na Avenida Carlos Mota Pinto em Quarteira. ( Sob este aspecto cabe-me dizer que estou relativamente preocupado e apreensivo enquanto cidadão, tendo em conta que os factos passados não são muito abonatórios para a relação de confiança nos poderes públicos, com a dita “requalificação” que se vai fazer no Parque Municipal de Loulé).

8. Penso que uma gestão autárquica mais participada, envolvendo activamente os cidadãos e outros actores sociais fundamentais na tomada de decisões a quando da intervenção no espaço público, aumentaria certamente o nível de confiança dos cidadãos nos decisores e aumentaria quer o grau de legitimidade dessas intervenções, quer a qualidade dos próprios processos.

João Martins
24/11/2008

domingo, novembro 23, 2008

Loulé Debate Ambiente

Loulé, Maio de 2008

Avenida José da Costa Mealha


Nota: Clique em cima da imagem para ampliação.

Será possível ficar indiferente a um abate de árvores desta dimensão?

Um filme a não perder...

Ensaio Sobre a Cegueira



Reacção de Saramago ao filme Ensaio Sobre a Cegueira



O filme conta a história de uma inédita epidemia de cegueira, inexplicável, que se abate sobre uma cidade não identificada. Tal "cegueira branca" — assim chamada, pois as pessoas infectadas passam a ver apenas uma superfície leitosa — manifesta-se primeiramente num homem no trânsito e, lentamente, espalha-se pelo país. Aos poucos, todos acabam cegos e reduzidos a meros seres lutando por suas necessidades básicas, expondo os seus instintos primários. À medida que os afectados pela epidemia são colocados em quarentena e os serviços do Estado começam a falhar, a trama segue a mulher de um médico, a única pessoa que não é afetada pela doença.

Um filme maravilhoso sobre a condição humana...

sexta-feira, novembro 21, 2008

Leituras...

LA CRISE DE L'INTELLIGENCE. Essai sur l'impuissance des élites à se réformer

La crise que nous vivons est d'abord une crise morale et intellectuelle. Nous sommes en désarroi parce que nous n'avons plus confiance en nos élites qui nous semblent désormais impuissantes, prisonnières qu'elles sont de leur langue de bois technocratique. Moins ces élites sont efficaces, moins elles supportent la critique. Il est proprement inconcevable que des gouvernants responsables, des dirigeants d'institutions puissent déclarer sans vergogne qu'ils sont incapables d'effectuer la moindre réforme profonde à cause des rigidités, des cloisonnements et du conservatisme de la société ou des organisations qu'ils dirigent. La tragédie de la société française de ces années quatre-vingt-dix, c'est que personne n'ose le leur reprocher. Des réformes véritables sont possibles un peu partout, pourvu qu'on arrête de parachuter d'en haut des solutions toutes faites aussi brillantes qu'inefficaces, car elles ne tiennent pas compte de la réalité que vivent les gens à la base. L'expérience montre qu'une réforme bien conduite, c'est-à-dire qui s'appuie sur une écoute en profondeur des acteurs concernés et qui s'attache à reconnaître leurs problèmes, permet de transformer en même temps les mentalités et le système. Mais il faut, pour cela, changer notre mode de raisonnement et préférer à l'intelligence stérile des solutions la compréhension pragmatique des problèmes. La société française est bloquée par une crise profonde de l'intelligence à la française. Il n'y a pas un mal français mais un mal des élites françaises. C'est donc à une véritable révolution intellectuelle qu'appelle ce livre, pour que nous puissions affronter sereinement le siècle qui vient.

MICHEL CROZIER é sociólogo e investigador do CNRS.

Livro de leitura obrigatória para quem quer perceber o falhanço político na concretização de reformas estruturais.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Tristes Democratas: Da incompetência política dos políticos que vamos tendo

A mais nobre actividade da vida social, a arte de governar as populações e contribuir para o bem comum, anda pelas ruas da amargura. Citando alguém que se coloca a si próprio, de forma pouco humilde, do lado da boa moeda: "a má moeda expulsa a boa moeda" e ficamos limitados tristemente ao governo dos incompetentes.

A política tornou-se uma profissão e uma "carreira" (não foi há toa que Sócrates dizia ainda este ano no parlamento que a sua "carreira" política estava em jogo) e o governo do bem comum foi substituído pela satisfação de interesses pessoais e da clientela dos partidos.

A crise de legitimidade do sistema político actual leva a que os governados desconfiem "deles", os governantes, o que, conjuntamente com a enorme distância ao poder que caracteriza a relação dos cidadãos com a "gentinha" que percorre os partidos, faz com que a democracia portuguesa seja de baixissíma intensidade. Depois, para ajudar à festa, há algumas personagens políticas caricatas, que socializadas políticamente numa parte da sua vida no regime de Salazar, não incorporaram nas práticas sociais e políticas aquilo que também nunca assumiram nos discursos.

É assim que Manuela Ferreira Leite, líder do principal partido da oposição em Portugal, consegue dizer em público aquilo que verdadeiramente pensa (não, não foi um lapso) e vem sugerir que se suspenda a democracia em Portugal: "Vamos lá fazer uma ditadurazinha de 6 meses, e então depois sim, se necessário e a muito custo, depois de toda a gente estar na "ordem" (ou à minha ordem) vamos lá viver em " democrática ditadura".
Disse ainda a mulher que não conseguiu estar calada (como lhe ficava bem o silêncio!), que "não é possível fazer reformas em democracia". Ficámos então a saber que a incapacidade de fazer reformas não tem que ver com a incompetência política dos políticos, mas tem que ver sobretudo com a "maldita democracia" que não deixa os políticos governar.
O segredo de Manuela para a execução das reformas é o regresso da PIDE, da censura (não esqueçamos que ela disse que "não podem ser os media a definir a agenda mediática"), da disciplina e da obediência no local de trabalho e já agora do regresso da inculcação dos valores
Deus, Pátria e Família nas nossas escolas e nos manuais escolares.

Mas não é só Manuela. Sócrates, nós já sabemos como é e nem vale a pena insistir mais na postura que promove a "claustrofobia democrática" e a Maria, sim, a Maria, aquela que não quis lojas de chineses (ou será que eram também os chineses?) na baixa lisboeta, acha também que "...dar 80 euros a um idoso é um ultraje, é um insulto" pois "eles não precisam de 80 euros para ir beber cervejas, para ir comer doces que são diabéticos e ficam doentes, para serem roubados pelos filhos".
É caso para dizer: - Daquilo que nós não precisamos mesmo é de "gentinha" desta nos partidos políticos.

Mas não pensem que eu penso que "todos os políticos são iguais", e que à semelhança do comum dos portugueses, entre os quais me situo, que confundo a árvore com a floresta. Não, não penso assim. Aquilo que verdadeiramente penso é que "eles" são quase todos iguais. Quase todos, a minha grande diferença do que pensa o comum dos portugueses, é no "quase". Quase todos já não defendem o bem comum e o interesse dito geral.

Para completar a festa, vem o Banco de Portugal, essa magnífica agência de emprego, que faz de conta que regula o sistema financeiro, a dizer que o subsídio de desemprego em Portugal é muito "generoso".
É assim, esta "gentinha" que nos governa. Triste democracia.


quarta-feira, novembro 19, 2008

Loulé debate Ambiente

Associação Almargem promove debate sobre Espaços Verdes e Árvores Ornamentais


Dia 24 de Novembro na Biblioteca Municipal de Loulé

Quando reclamar vale a pena

Em 26 de Dezembro de 2007, um dia depois do dia de Natal, dirigi-me por motivos de saúde ao Centro de Saúde de Loulé e dessa visita resultou uma reclamação e o seguinte post:

"O estado da Saúde no Centro de Saúde de Loulé

Dia 26 de Dezembro de 2007. A gripe anda no ar e deixei-me apanhar por ela. Quinze horas da tarde. Chego ao Centro de Saúde de Loulé. O marcador assinala a senha 28. Pago a consulta. A funcionária dá-me a senha 48. Percebo imediatamente que a tarde vai ser dolorosa. Dezassete horas da tarde, Centro de Saúde a abarrotar, a lentidão do atendimento dá a entender que o rácio médico/utente é profundamente desiquilibrado. Mais de metade das pessoas não têm sequer cadeira para se sentar. Dou o lugar a uma senhora idosa que percebo em maior sofrimento do que o meu. Fico uma hora e um quarto em pé. Como eu, perto de metade das pessoas. O acolhimento não é minimamente condigno. Faz frio lá fora e as ambulâncias vão chegando. É claro que os utentes das ambulâncias têm prioridade. A fila de espera vai engrossando. Para lá do meio da tarde, já arrependido de ter tomado tão má decisão, pensei se não estaria a agravar a minha situação de saúde. Perto das dezassete e quinze, assisto em directo, à arrogância tipíca dos funcionários públicos do passado que ainda estão em acção no presente. Um pobre emigrante de Leste pede uma informação com o filho ao colo. Resposta dura da funcionária. Se quiser espere, se não quiser pode ir embora. Não me contive, pedi o livro de reclamações. A minha primeira reclamação foi a desumanidade de uma tarde de espera para ser atendido. Claramente, trata-se de uma questão de organização dos serviços de saúde. Face à procura acrescida dos serviços de saúde nestas alturas, manter um ou dois médicos de serviço que seja, é altamente disfuncional. A segunda reclamação teve a ver com a desumanidade que é esperar de pé, horas, uma vez que as cadeiras disponíveis não eram suficientes para todos os utentes. Impensável fazer esperar de pé quem está a sofrer de uma enfermidade. Claro que quando a organização do trabalho não é pensada, a tendência é para o caos se instalar. As pessoas mais descontentes vão protestando e a miníma situação é um rastilho que alimenta a confusão. Perante a impaciência legitíma dos utentes, a funcionária ainda teve o "azar" de usar de alguma arbitrariedade na triagem dos doentes. Um senhor de meia idade com um problema num olho direito passou à frente de um jovem rapaz com igual problema num olho esquerdo. A revolta instalou-se e a violação do princípio de igualdade de tratamento alastrou a indignação. Ofensas de parte a parte e nova confusão instalada. A meu lado, uma senhora ex-emigrante em França, escandalizada com a situação do sistema de saúde português, dizia; bem me disseram que era assim, mas só vendo com os meus próprios olhos. Passou a fazer ela própria a triagem da gravidade das doenças. Esta menina tem asma, esta menina tem que entrar. E a menina entrou mesmo. A funcionária perdeu o controlo momentaneamente. Aqui quem faz a triagem sou eu! Dizia a funcionária indignada pela inesperada substituição de funções. À minha frente soprava um senhor de idade já avançada. Dizia ele; em vez de construírem aquele estádio do Algarve tinham feito bem em construir um hospital. Entretando o rapaz do olho preenchia o livro de reclamações. Dezanove horas, discutia-se o caso da senhora que tinha caído do escadote e que tinha tido prioridade na triagem, mas que afinal não estava tão mal quanto isso. A "fingida" tinha enganado os demais utentes e funcionários. Dezanove e vinte, quatro horas e pouco depois de ter chegado, saía do Centro de Saúde. Por pouco não escapava de lá vivo! A minha senha era o 48, à minha frente uma senhora com ar de dona de casa tinha a senha 84. Não queria estar no lugar dela...Felicidades e bom Ano Novo para todos!"

Na sequência da reclamação, recebi um telefonema de uma profissional do Centro de Saúde de Loulé, que numa postura muito assertiva, me informou que a reclamação estava a ser levada em conta e que os serviços iam proceder em conformidade.

Por motivos de necessidade de tratamento médico regressei hoje, dia 18 de Novembro de 2008, a este local e fiquei muito bem impressionado pela positiva. O espaço de entrada permite maior conforto aos utentes. Há um serviço de triagem que organiza e racionaliza o trabalho dos profissionais, existe uma televisão (agora virada para os utentes na sala de espera), os serviços de triagem estão informatizados e pasme-se a receita médica é imprimida informaticamente, o que nos permite perceber o que os médicos escrevem.

Se penso que devemos reclamar quando o serviço público não serve os cidadãos, também é justo agradecer quando se vê interesse e preocupação em fazer bom serviço público. Parabéns a quem reorganizou os serviços.


segunda-feira, novembro 17, 2008

Memória Ambiental da Cidade: Das árvores ornamentais

Espaços verdes e árvores ornamentais

Nota: Clique em cima da imagem para ampliação.

Irá decorrer em Loulé, no próximo dia 24 de Novembro, um debate subordinado ao tema "Espaços Verdes e Árvores Ornamentais", numa organização da associação ambientalista Almargem.

O evento, com a presença do arquitecto Fernando Pessoa, decorrerá no Auditório da Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner Andresen, a partir das 17 h e 30 min.

Ver in
http://sombra-verde.blogspot.com/ e http://www.box.net/shared/tz7hq1ojzs

O tema parece que começa a entrar na agenda ambiental. Mais vale tarde...

domingo, novembro 16, 2008

É a Rua Estupido!

O texto que hoje reproduzo é da autoria do Professor Elísio Estanque da Universidade de Coimbra e foi escrito há alguns meses atrás. Pela sua actualidade e pela sua pertinência faço questão de lhe dar destaque aqui no macloulé. Pode ser que as mentes retrogadas que ainda abundam na sociedade portuguesa percebam que o direito de manifestação e de protesto é um direito básico da democracia portuguesa.

Boa Leitura!

Pelas ruas da democracia

As recentes manifestações públicas serviram de pretexto a alguns cronistas de serviço para destilarem todo o seu ódio ao chamado poder da "rua", que é como quem diz, o seu assumido desprezo pelo povo. O texto de Rui Ramos ("Pelas ruas da amargura", Público, 12/03/2008; e em parte também o de Vasco Pulido Valente, 22/03/08), ostentando o mais evidente elitismo "snob", protesta contra a "multidão uniforme", o "espectáculo fabricado", a "negação do espaço público democrático" e caricatura as acções de luta como uma simples "ocupação temporária entre dois prédios", onde não há lugar para a razão, etc, etc. Esta visão redutora e demagógica merece, pois, ser contestada.

Em democracia, as manifestações constituem meios – legítimos – de dar vazão ao descontentamento colectivo perante injustiças de índole diversa. Tal como as greves, são um último recurso, ou seja, são a continuação da negociação "por outros meios". Exprimem a indignação dos cidadãos e o pulsar da sociedade perante o poder político. Constituem momentos de emergência de novos actores e protagonistas do conflito social de que se alimenta o sistema democrático. Imagine-se o que seria da nossa democracia se tudo fosse deixado às instituições. Se as mudanças e reformas se fizessem apenas através da actividade legislativa e dos actores políticos convencionais, num mar de cidadãos apáticos, provavelmente ainda estaríamos na idade média. E quando se trata de uma sociedade com flagrantes défices de desenvolvimento e de cidadania – como a portuguesa –, o que é ridículo é ridicularizar as manifestações.

A rua pode ser o lugar de nascimento e também da morte da democracia. Como sabemos, também os movimentos nazi e fascista, por exemplo, passaram por fortes manifestações de massas. Mas por isso mesmo é que, antes de se tecerem juízos quanto à "rua" e às manifestações em abstracto, é conveniente sabermos de que tipo de acções colectivas estamos a falar. É que, por muito que se queira confundir as coisas, continua a haver uma diferença fundamental entre os protestos que injectam mais democracia à democracia e os que apostam em combatê-la. Entre os movimentos progressistas e os de carácter anti-democrático ou – para usar uma palavra fora de moda – "reaccionários", persistem diferenças e projectos políticos marcados pelo antagonismo. Percebe-se bem de que lado está o autor do citado texto.

Além disso, é demagógico colocar no mesmo saco as lutas de trabalhadores e sindicatos e as iniciativas políticas do governo ou do partido que o apoia. Por outro lado, clamar contra a rua em geral é ignorar o significado histórico de movimentos sociais fundadores do próprio modelo democrático (a começar pelo movimento operário). O que, vindo de um historiador, é particularmente grave. Será preciso lembrar que antes de existirem instituições existem movimentos? E que até a mudança institucional passa por eles? Claro que numa manifestação ou num comício pode criar-se uma identificação uniforme entre a multidão e o seu líder, susceptível de manipulação (e onde é que ela não existe?...). Porém, o que se perde em racionalidade individual ganha-se em identidade colectiva, em solidariedade e em capacidade de agir para a mudança.

É na acção colectiva que se forjam os sentimentos de comunhão e de partilha sem os quais o espaço público e a própria política seriam apenas conceitos inócuos. De resto, as democracias parlamentares e as reformas sociais dos últimos dois séculos sempre resultaram da permanente tensão entre as instituições e a mobilização de rua. Acresce que, no caso português, se podemos falar do 25 de Abril como uma revolução é porque aquela "ocupação temporária de um espaço entre dois prédios" (sic) se espalhou a muitas ruas e a muitos prédios e cidades por esse país fora, obrigando o poder a ouvir as vozes da rua. Foi a rua que garantiu a liberdade que hoje temos, inclusive para podermos falar contra a "rua".

Elísio Estanque in http://www.ces.uc.pt/opiniao/ee/045en.php

sábado, novembro 15, 2008

O Pântano

Infelizmente, Portugal não espera neste momento por nenhum Dom Sebastião e não tem a sorte que tiveram os americanos em ter Obama. Não se vislumbra no fundo no túnel nenhuma luz que possa vir a guiar os portugueses.

O posso, quero e mando, do autocrata Sócrates, já não se consegue confundir mais com "determinação" e a crise económica e social do país, já não se compadece com o mais vigoroso ataque aos direitos sociais conquistados desde Abril de 1974, sem que a rua se manifeste.

Sócrates atacou a dignidade profissional dos professores no seu âmago profundo. Perdeu a guerra do ataque aos direitos das populações do interior do país, face ao acesso à saúde. Atacou juízes, militares e outros que tais. Quis destruir as classes médias e quase o conseguiu. Atacou a liberdade de imprensa e alguns jornalistas e directores de jornais, como ninguém. Foi acusado, e bem, de causar "claustrofobia democrática" no país. Pôs o professor Charrua de castigo na escola. Processou blogues de cidadãos comuns. Andou de braço dado com os interesses do grande capital. Aumentou o centralismo asfixiante do país, numa espiral de concentração de poder nunca vista.

Criou o polícia dos polícias na sua directa dependência. Aprovou o novo código do trabalho, contríbuíndo desta forma para o agravamento da precarização das relações de trabalho. Nacionalizou o prejuízo dos criminosos banqueiros que levaram o BPN à falência, recorrendo ao dinheiro que o Estado não tinha para as universidades, saúde, segurança social, combate à pobreza e às desigualdades sociais.

Andou a recusar a crise económica, que já era evidente que nos iria bater à porta e agora quere-nos fazer passar a todos por parvos prometendo e tomando algumas medidas que simulam uma viragem à esquerda. Sócrates, é, por tudo isto, um líder com os dias contados. A vassoura nas mãos do povo, o mesmo é dizer, a democracia representativa, que o mesmo gosta de apregoar como o melhor dos mundos (quando se defendem novas formas de democracia participativa e o aprofundamento da democracia), vai fazer com que através da democracia reduzida ao direito de voto, isso seja suficiente para o pôr a andar. Tenho dúvidas se o PS obterá mesmo a maioria relativa. Perante a subida nas tendências de voto do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda, para valores para além dos 20%, com um PSD esclesorado, mas que vai tirar partido do descontentamento dos eleitores, é o pântano que está instalado.


O mais inteligente dos políticos (não o melhor necessariamente) do partido que se diz socialista, António Costa, percebeu há meses, que quando não os podes vencer, mais vale juntares-te a eles e perante a percepção da decadência progressiva do governo de Sócrates, começou a fazer alianças à esquerda com Helena Roseta e Sá Fernandes, antecipando o futuro que aí se aproxima. Esta semana admitia explicitamente nos media que há um divórcio do PS com o seu eleitorado. É caso para dizer, elementar meu caro Watson.

O pântano que proximamente vai ficar instalado na vida política e na sociedade portuguesa deve-se ao facto das duas opções que se irão apresentar aos portugueses e aos partidos serem ambas soluções de instabilidade política. De um lado, a hipótese do Bloco Central (a mais verosímel), do outro, alianças do PS com a sua esquerda ( de difícil imaginação nos tempos que correm) e restaria ainda a improvável aliança do PS ou do PSD com o partido de Portas.

Trata-se apenas de um exercício de futurologia. Mas a teoria do pântano numa se avizinhou tão expectável. O futuro, esse, a Deus pertence.

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Uma mosca sem valor
Poisa c'o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

António Aleixo

E pronto, com esta magnífica quadra de António Aleixo terminamos a semana da poesia, do amor e da felicidade.

Por aqui passaram alguns dos mais belos poemas de nomes como Luís Vaz de Camões, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, José Carlos Ary dos Santos, Manuel Alegre, António Aleixo, José Régio, António Gedeão, António Botto, Florbela Espanca e como não podia deixar de ser, porque o campo é meu e a bola é minha, João Martins (num figurino do género: Dizem que é uma espécie de poeta).

Novos eventos o macloulé agenda para os próximos tempos, ligados à música, à arte, aos livros, e como não podia deixar de ser, contamos em breve levar a cabo uma magnífica exposição ambiental.

Votos de um bom resto de fim de semana a todos os nossos visitantes.

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Ligações

Sorte é estar conectado
Ligado a todo o lado
Azar é estar desconectado
Sem saber do outro lado

Mundo pequeno
Mundo sem fim
Tudo tão perto
Tão longe de mim

Mundo que se abre
Para tantas e tantas vidas
Mundo que foge
Do tempo de Midas

Ligados por ondas
Por links e por cabos
De Silicon Valley
Aos deuses marados

Mundo tão longe
E tão perto de mim
Da aldeia de Alte
À Costa do Marfim

Mundo tão pequeno
E tão grande para mim
É melhor estar ligado
É muito melhor assim


João Martins









Semana da poesia, do amor e da felicidade

Coisas que não controlamos

Há coisas nas nossas vidas
que não nos podem acusar de não controlar
Há coisas nas nossas vidas
que estão para lá do nosso alcance

Há coisas nas nossas vidas
que são os sábios que sabem melhor do que nós
Há coisas das nossas vidas
Que se decidem onde nós não estamos

Há coisas nas nossas vidas
que não sabemos que estão nas nossas vidas
Há coisas nas nossas vidas
Que deveriam passar por nós

João Martins

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Crianças na nossa vida

Elas sorriem, sem ser preciso sorrir
Elas vivem, sem serem obrigadas a viver
Elas dão alegria, sem ninguém lhes pedir
Por elas, ninguém se importaria de morrer

Elas são o presente, o passado e o futuro
Com elas, as rugas ficam belas
Com elas, os lábios redefinem os seus traços
Com elas, não há olhos sem ramelas
Com elas, nunca mais o quadrado da hipotenusa

É igual à soma do quadrado dos catetos.

João Martins

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Identidade

Quem sou eu, amigo meu?
Quem és tu, amigo meu?
Todos dias somos a mesma coisa
Todos os dias somos coisas diferentes
Quem sou eu, amigo meu?

Sou pai, sou filho, sou amigo,
Sou irmão, marido,
amante enternecido,
Sou poeta, sou boémio,
sou um magano,
Sou tudo e não sou nada,
Sou vizinho, sou louletano,
Sou rural, sou citadino
Quem sou eu? Quem és tu?
Diz-me lá, meu caro amigo.

Já fui de tudo um pouco,
Fui aprendiz, fui maluco, tramouco,
Fiz-me no caminho do ser,
Sou o que já fui
neste mundo louco.

Não ser nada já é ser tudo
Ir sendo faz-me existir
Sozinho não teria sentido
Em mim, há pois, bocados
da humanidade que habita
em cada um de vós.

João Martins

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
que se chama o coração.

Fernando Pessoa

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Raízes da minha alma

Raízes, são memórias
Restos, de indignas estórias
São testemunhos e lembretes
Aos senhores dos palacetes

São belas, de tanto horror
São prova de actos de terror
Sob os olhares de quem passa
Lembram os ódios da raça

Tudo se perde, tudo se transforma
Também belas raízes mudam de forma
Deus não quer ficar com a graça
Da culpa bárbara, de tamanha desgraça

Raízes, belas, mesmo cortadas
Sem seiva, do mundo, desconectadas
Chorando, mágoas, de tristeza e de dor
Sem sangue, sem raiva e sem amor

João Martins

Semana da poesia, do amor e da felicidade

O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,


E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.


Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu'rer um mundo novo a sério.

António Aleixo

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Rosas que murcham

Foram outrora, belas
cheias de esperança e de futuro
São hoje, flores murchas
sem memórias do passado
sobrevivendo ao presente
talvez, condenadas no futuro

O dilúvio, vai voltar por aí
A barca, Noé vai encher
A escolha da espécie
com a ajuda de Deus
um dia, inevitável, acontecer

E as rosas, outrora murchas
resnascerão noutras terras
com outras vidas, agora

Com a presença do passado
bem fresca na memória
de modo a que a sua história
não seja de uma rosa triste
que não tem alma, nem vida
e que sabe que nessa tristeza

um dia voltará a murchar

João Martins

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Cantiga de abril

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste país,

e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raíz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura.
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim, altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Jorge de Sena

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão

sexta-feira, novembro 14, 2008

Semana da poesia, do amor e da felicidade

O Relógio de São Francisco

Não peçam a São Francisco
Que chegue a tempo e a horas
Pois ele está entretido
A comer avelãs e amoras

Não peçam a São Francisco
Que acerte o passo à freguesia
Nem peçam um jantar ou petisco
Pelas horas do meio dia

Não peçam a São Francisco
Horas que os outros já têm
Contentem-se em São Francisco
Com as horas que os vossos olhos vêem

Não peçam a São Francisco
Para apanhar a camionete
Não peçam a São Francisco
Que seja um quarto para as sete

Peçam a São Francisco
Um novo relógio no Natal
Que traga novas horas
Que respeitem o pessoal

Peçam a São Francisco
Que vos trate com respeito
Uma vez que todos pagamos
A isso temos direito

Peçam, peçam, a São Francisco

João Martins




Semana da poesia, do amor e da felicidade

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.


E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Maduras aguardam a hora

Maduras aguardam a hora
Não são tidas, nem achadas
Serenas, secas ou molhadas
Respeitando a fauna e a flora

Anos de vida e anos de dor
À escuta de vozes, outras
Ouvem estórias de intriga e amor
Não tendo culpa, nem ódio
De mentes humanas e loucas

Não sabem se vão, nem sabem se ficam
Sabem que nada fizeram para não ficar
Nem Deus, nem os homens, lhes explicam
O porquê de tanto ódio a destilar

Não, não são modernas
Mas são vivas e de vida sabem
São tão antigas como ameaças hodiernas
São tão belas que encantam a respirar

Esperam desesperadamente, desesperadas
Pelos arbítrios da razão humana
Disfrutam cada dia, enamoradas
Até ao dia do Juízo Final

João Martins

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Não sou esperto nem bruto
Nem bem nem mal educado
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado

António Aleixo

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Passeando na cidade

Há vida na cidade
Há vidas na cidade
Sintam a vida da cidade
Não queiram uma cidade sem vida
Que a vida na cidade
É o que dá sentido à vida

João Martins

quinta-feira, novembro 13, 2008

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis
(heterónimo de Fernando Pessoa)

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Ser ou não ser

«Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?

Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah, se não ser é submissão, ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.»

Manuel Alegre

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Soneto

Se, para possuir o que me é dado,
Tudo perdi e eu própio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.


Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!


Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Àquilo que nos fez ser infelizes!


E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento

António Botto

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!


É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!


E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca

quarta-feira, novembro 12, 2008

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís Vaz de Camões

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Cantares

Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão

Gosto de ver-los pintar-se
de sol e graná voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se...

Nunca persegui a glória

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar...

Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar"...

Golpe a golpe, verso a verso...

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe vieram chorar
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.

António Machado

(Poeta Espanhol)

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos
como estes pinheiros altos
que em verde e ouro se agitam
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma. é fermento,
bichinho alacre e sedento.
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel.
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra som televisão
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre a mãos de uma criança.

António Gedeão

terça-feira, novembro 11, 2008

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma nao é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Fernando Pessoa

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Poeta castrado, não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Ary dos Santos

Semana da poesia, do amor e da felicidade

Farto de cumprir ordens emanadas do Estado central, através de leis, regulamentos, despachos, circulares, directivas, directórios, regras de trânsito, regras da moral e dos bons costumes e outras que tais, o blogue macloulé, num acto de recusa pelo cumprimento das leis da república, decreta para o resto desta semana, a semana da poesia, do amor e da felicidade. Começamos hoje a nossa selecção daqueles que consideramos alguns dos mais belos poemas da poesia portuguesa.

Cântico Negro

"Vem por aqui" --- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí!

José Régio

Das Boas Práticas Ambientais

Loulé, Maio de 2008

Avenida José da Costa Mealha

"Com vista a sensibilizar a população para as questões ligadas à preservação ambiental, a autarquia louletana lançou recentemente um “Guia Ambiental” que possui uma componente informativa e educativa, disponibilizando algumas dicas, conselhos e eco sugestões."

in http://www.regiao-sul.pt/noticia.php?refnoticia=89519

Não sei se ria, não sei se chore...

segunda-feira, novembro 10, 2008

A Voz da Rua

Orgulho Ferido



Fossem os professores uma classe social e teriamos o perfeito exemplo marxista da passagem de uma classe em si para uma classe para si.

Unir perto de 120 mil professores nas ruas de Lisboa é obra.

E Sócrates o que disse?

"O secretário-geral do PS, José Sócrates, lamentou domingo, em Coimbra, o “oportunismo político” dos partidos da oposição, sobretudo do PSD, nas reacções à manifestação de milhares de professores sábado em Lisboa, contra o processo de avaliação.
Intervindo no XIII Congresso Distrital do PS de Coimbra, José Sócrates considerou “lamentável o oportunismo dos partidos”, que “devem servir defender o interesse do geral do país e não para se colarem a reivindicações corporativas na esperança de ganhar uns míseros votos”.

“Os partidos da oposição sem tema e sem discurso andam à procura é de qualquer manifestação ou descontentamento para então poderem liderar. O que ficou visível foi que os partidos fizeram um lamentável aproveitamento político da manifestação”, criticou o dirigente socialista e líder do Governo.

Já não esperava nada dos partidos à nossa esquerda, que têm a habitual estratégia do protesto, mas que o principal partido da oposição, que ainda há uns meses atrás aquando da outra manifestação dizia ao PS que se recuasse era um vergonha, venha agora dizer que o Governo deve recuar”, enfatizou José Sócrates, bastante aplaudido pelos congressistas.

Salientando que o Governo se mantém firme para “defender o interesse nacional”, o secretário-geral do PS afirmou que a “avaliação de professores é essencial para que [se possa] garantir um sistema justo e também uma escola pública de qualidade que se orgulhe dos seus professores”.

“O que é que o maior partido da oposição quer? Que o Governo desista da avaliação, que voltemos à situação da promoção automática, à situação em que os professores são todos iguais, não é possível distingui-los”, disse.

“Tenho a certeza que todos compreendem que o pior que existia em Portugal era o sistema que se baseava apenas a promoção automática”, sublinhou, convicto de que “o perfil da situação social dos professores será melhorado quando os portugueses souberem que, tal como outros profissionais, também eles são avaliados”.

Para José Sócrates, o modelo de avaliação é “acto de justiça e de reconhecimento”.

Na sua intervenção, o líder socialista não poupou também os sindicatos de professores, a quem acusou de não respeitaram o memorando de entendimento assinado este ano com o Ministério da Educação."

in
http://www.maraoonline.com/MARAO/MARAO_online/EBF15149-DAF2-4436-BC8D-17E4CFD51B75.html

Sócrates não entende o lugar dos protestos na democracia. Não distingue o que é a luta pela dignidade de uma profissão, que passa por um processo de desprofissionalização crescente, de uma "reinvindicação corporativa". Não tem uma cultura democrática que lhe permita viver bem com a crítica política. Tem raiva dos partidos políticos à sua esquerda (que lhe vão tirar a maioria absoluta) e se pudesse extinguia os sindicatos pois não percebe o seu papel nas sociedades democráticas.

Sócrates no fundo, no fundo, quer governar um país como quem administra uma grande empresa. O governo da nação substituido pela administração das coisas. Eis o sonho de Sócrates.