domingo, outubro 31, 2010

Leituras

Sinopse

Melhor do que qualquer outra imagem, a menina da capa, desenhada por Paula Rego, ilustra a forma como me sinto defronte do Estado Português. Ele, o Estado, é o bicharoco peludo, de cabeça angélica sobre um corpo disforme, de onde saem braços tentaculares; eu, a menina de meias até ao joelho e colarinho bem comportado, olhando, frágil e assustada, para o animal. Não é tanto a dimensão do bicho que me aterra, mas a ideia de que alguém, papão ou instituição, me possa prender numa rede de onde eu seja incapaz de fugir.

Nota: Comprei as Visitas ao Poder, de Maria Filomena Mónica, por quatro euros, ontem à tarde em Lisboa e já cansado, de regresso no autocarro, ia devorando o livro durante o tempo da viagem. É talvez a escrita feminina mais perspicaz da sociedade portuguesa. Espírito livre, clareza de ideias, escrita envolvente. Já tinha sido absorvido pelo seu Bilhete de Identidade. Há nela qualquer coisa do Eça. O maior de sempre.


sexta-feira, outubro 29, 2010

O Dr. Emídio e a Subdemocracia

1. O doutor Emídio em nome da "requalificação" da Praça da República, fabricou o efeito perverso de fazer de Loulé uma cidade onde circular de automóvel se tornou insustentável. Entrar, circular e sair da cidade de Loulé, a horas de ponta ou a quaisquer outras, tornou-se uma tarefa hercúlea digna de uma grande metrópole como a capital de Portugal. Quem entre em Loulé vindo de Quarteira e se desloque para o centro da cidade já não evita ficar "engarrafado". Tudo em nome da qualidade de vida. Sugiro que se renomeie a toponímia da Praça da Republica para Praça Dr. Emídio. É que, em Era de catástrofe económica, era mesmo essa a "requalificação" que Loulé estava a precisar.

2. O "velho" Parque Municipal da cidade de Loulé, designado pelos próprios autarcas de "Pulmão da Cidade" desapareceu há mais de um ano e ainda não surgiu o "novo" Parque Municipal de Loulé. Sugiro que se renomeie a toponímia do parque para "Parque Dr. Emídio". É que nunca ninguém fez tanto pela qualidade de vida da cidade.

3. O editorial da Voz de Loulé na sua última edição é todo ele uma prosápia em nome da isenção e da independência jornalistica. Lá dentro, no corpo do jornal, um dos seus principais colaboradores vilipendia todos aqueles que se atrevem a chamar "Hospital dos Ricos" ao velho "Hospital dos Pobres". Entre a voz de Loulé, a voz dos Louletanos e a voz da Câmara de Loulé, nunca em Loulé se viu tanta independência.

4. O PS de Hugo Nunes foi de uma existência e de uma invisibilidade quase nula. A herança pesada do ex-líder de um partido em estado de decomposição também não facilitou nada a tarefa da sua existência. O PS de um tal de Farias, não só não existe, como é de uma autêntica nulidade para todos os louletanos. A oposição resume-se a um deputado do Bloco de Esquerda.

5. Resta de política no concelho a blogosfera. O Calçadão continua o blogue político por excelência, com uma função crítica muito para além do que deveria ser o papel da imprensa local. O Sebastião oscila entre a independência (sempre difícil de conseguir é preciso dizê-lo), os compromissos silênciosos, a viragem subita para os problemas do estrangeiro e a excelente intervenção cívica sobre os problemas de Loulé. Nesta última função política é um serviço público que presta aos louletanos. O que resta de política por aí na blogosfera, sendo muito, é tão pouco, que nunca poderá compensar uma imprensa apática e uma oposição residual.

6. A democracia em Loulé, como em muitos outros sítios dos tempos actuais, também ela se singe a colocar o voto na urna de quatro em quatro anos. As exigências dos tempos actuais não são compativeís com este estado de subdemocracia.

quinta-feira, outubro 28, 2010

Commedia dell'Arte Orçamental

O mais dramático desta Commedia dell'Arte em torno do orçamento de Estado de 2011 é que todos estão de acordo que o orçamento é mau. Mas mesmo a palavra "mau", como qualquer outra palavra, quando usada ad nauseum nos discursos do senso comum político, de tão saturada de sentidos, fica ela própria esvaziada de sentidos. Vamos ser claros, "mau" significa aqui o maior ataque ao "Estado Social" de que há memória desde o 25 de Abril de 1974, altura em que o dito Estado Social era quase inexistente. "Mau" significa aqui, maior desprezo pelos desempregados, aumento significativo da pobreza e da fome em Portugal. "Mau" significa aqui, estagnação ou mesmo recessão económica, quebra significativa do débil nível de vida de boa parte dos portugueses e a hipoteca do futuro das actuais e das futuras gerações. "Mau" não pode ser aqui um rótulo algodão doce que cola a uma qualquer realidade, como se ela fosse uma qualquer outra tirada a tiracolo de um conto de fadas. Desculpem a minha imbecilidade apátrida. Mas quando algo é "mau" ao ponto de significar um verdadeiro horror económico eu não sei como poderia não votar contra. A solução é votar contra e formular um novo orçamento. Alguém sabe quanto tempo tiveram os Belgas, recentemente, sem conseguir formar governo? Sim, em pleno coração da União Europeia. Não consta que a Belgica tenha chegado ao fim da sua História. Mais dramático do que a não aprovação deste orçamento é o uso da cultura do medo, das ilegitimas pressões vindas de todos os lados e da ameaça e da chantagem permanente sobre as populações para que estas aceitem passivamente e "responsavelmente" as decisões deste bloco central de interesses altamente irresponsável. Essa é a verdadeira Commedia dell'Arte. É mais do que altura de acabar com ela.

Sobre o Jornalismo de Polichinelo

Por José Vitor Malheiros no jornal Público:

Memórias de uma imprensa bem comportada

Os jornalistas realizam diferentes tarefas e preenchem diferentes funções sociais. Uma dessas tarefas consiste em produzir e difundir notícias. Outra função consiste em alimentar o debate de ideias no seio da sociedade.

Porém, aquilo que, aos meus olhos, é a função essencial do jornalista é o que se chama vulgarmente a “fiscalização dos poderes” e a que os anglo-saxónicos chamam de forma mais colorida a função de watchdog – servir de cão de guarda das liberdades cívicas, revelar todas as actividades de todos os poderes e de todos os poderosos e denunciar abusos.

Esta é a função que só os media levam a cabo de forma independente e constitui o coração do ethos jornalístico. Isto não quer dizer que não possa haver uma organização não-mediática que funcione dessa forma, mas a prossecução desse objectivo de forma independente – sem qualquer agenda predefinida, sem defender interesses particulares – é a marca de água da actividade jornalística.

Tivemos há dias um exemplo de grande impacto do que pode ser essa fiscalização dos poderes com a publicação pelo site WikiLeaks de milhares de casos de abusos perpetrados pelas tropas americanas e iraquianas no Iraque.

Curiosamente, o líder do WikiLeaks, Julian Assange, não só não se considera um jornalista como recusa com veemência o rótulo, que considera “ofensivo”. Porquê? Porque Assange pensa que a esmagadora maioria da imprensa, premeditadamente ou não, não só não fiscaliza os poderes como colabora activamente com eles, escamoteando ou maquilhando as suas práticas mais criticáveis. Um exagero? Talvez. Mas vale a pena, no actual panorama de crise e recessão, quando todos os portugueses têm uma lista de perguntas que gostariam de ver respondidas pelo Governo (sobre as empresas que não pagam impostos, sobre os impostos da banca, sobre a nacionalização do BPN, a política fiscal, o real funcionamento da economia, as razões para o optimismo com que nos regalaram nos últimos dois anos) podemos perguntar-nos a quantas dessas perguntas os media conseguiram responder. Ou quantos nomes foram responsabilizados. Ou quais foram as denúncias que vimos nas páginas dos jornais e nos ecrãs dos noticiários. Existem pequenas excepções singulares, mas contam-se pelos dedos de uma mão. No geral, a imprensa limita-se a reproduzir os discursos existentes na cena política ou económica. Claro que isso significa citar o Governo e a oposição, os patrões e (esporadicamente) os sindicatos, mas a verdade é que isso é dramaticamente insuficiente.

Mais do que saber qual é a mensagem que os protagonistas querem transmitir, o que os cidadãos gostariam de ter é um retrato fiel da situação. Esta crise seria uma ocasião excelente para os media provarem a sua utilidade – para além do consabido “este disse, aquele disse”. Todos gostaríamos de saber o que de facto aconteceu com o PEC I e II. Quais as contas reais do país. O que está a acontecer com as parcerias público-privadas (os factos, e não as leituras ideológicas). Com as empresas que não pagam impostos. Com o off-shore da madeira, com as mil e tal fundações privadas que recebem dinheiro dos nossos impostos, com os privilegiados que acumulam pensões e salários, etc. A verdade é que a maioria dos media se encontra ou acantonada num confortável comodismo ou numa quase paralisia imposta por uma draconiana redução de despesas, que impede qualquer investigação. Só que, sem essa investigação, sem essa função irreverente de watchdog, os media apenas repetem as versões que interessam aos poderes. Sobrevivem, mas isso não é vida. A crise que os media estão a atravessar não é alheia a esta situação. Os media parecem empenhados em provar a sua irrelevância, sem perceberem que é esse o caminho que os está a levar à cova.

Ver por exemplo aqui:

segunda-feira, outubro 25, 2010

Da Democratura ou da Ditamole

Por Boaventura Sousa Santos
Artigo publicado na revista Visão

A "ditamole"

Se nada fizermos para corrigir o curso das coisas, dentro de alguns anos se dirá que a sociedade portuguesa viveu, entre o final do século XX e começo do século XXI, um luminoso mas breve interregno democrático. Durou menos de 40 anos, entre 1974 e 2010. Nos 48 anos que precederam a revolução de 25 de abril de 1974, viveu sob uma ditadura civil nacionalista, personalizada na figura de Oliveira Salazar. A partir de 2010, entrou num outro período de ditadura civil, desta vez internacionalista e despersonalizada, conduzida por uma entidade abstrata chamada "mercados".

As duas ditaduras começaram por razões financeiras e depois criaram as suas próprias razões para se manterem. Ambas conduziram ao empobrecimento do povo português, que deixaram na cauda dos povos europeus. Mas enquanto a primeira eliminou o jogo democrático, destruiu as liberdades e instaurou um regime de fascismo político, a segunda manteve o jogo democrático mas reduziu ao mínimo as opções ideológicas, manteve as liberdades mas destruiu as possibilidades de serem efetivamente exercidas e instaurou um regime de democracia política combinado com fascismo social. Por esta razão, a segunda ditadura pode ser designada como "ditamole".

Os sinais mais preocupantes da atual conjuntura são os seguintes. Primeiro, está a aumentar a desigualdade social numa sociedade que é já a mais desigual da Europa. Entre 2006 e 2009 aumentou em 38,5% o número de trabalhadores por conta de outrem abrangidos pelo salário mínimo (450 euros): são agora 804 mil, isto é, cerca de 15% da população ativa; em 2008, um pequeno grupo de cidadãos ricos (4051 agregados fiscais) tinham um rendimento semelhante ao de um vastíssimo número de cidadãos pobres (634 836 agregados fiscais). Se é verdade que as democracias europeias valem o que valem as suas classes médias, a democracia portuguesa pode estar a cometer o suicídio.

Segundo, o Estado social, que permite corrigir em parte os efeitos sociais da desigualdade, é em Portugal muito débil e mesmo assim está sob ataque cerrado. A opinião pública portuguesa está a ser intoxicada por comentaristas políticos e económicos conservadores - dominam os media como em nenhum outro país europeu - para quem o Estado social se reduz a impostos: os seus filhos são educados em colégios privados, têm bons seguros de saúde, sentir-se-iam em perigo de vida se tivessem que recorrer "à choldra dos hospitais públicos", não usam transportes públicos, auferem chorudos salários ou acumulam chorudas pensões. O Estado social deve ser abatido. Com um sadismo revoltante e um monolitismo ensurdecedor, vão insultando os portugueses empobrecidos com as ladainhas liberais de que vivem acima das suas posses e que a festa acabou. Como se aspirar a uma vida digna e decente e comer três refeições mediterrânicas por dia fosse um luxo repreensível.

Terceiro, Portugal transformou-se numa pequena ilha de luxo para especuladores internacionais. Fazem outro sentido os atuais juros da dívida soberana num país do euro e membro da UE? Onde está o princípio da coesão do projeto europeu? Para gáudio dos trauliteiros da desgraça nacional, o FMI já está cá dentro e em breve, aquando do PEC 4 ou 5, anunciará o que os governantes não querem anunciar: que este projeto europeu acabou.

Inverter este curso é difícil mas possível. Muito terá de ser feito a nível europeu e a médio prazo. A curto prazo, os cidadãos terão de dizer basta! Ao fascismo difuso instalado nas suas vidas, reaprendendo a defender a democracia e a solidariedade tanto nas ruas como nos parlamentos. A greve geral será tanto mais eficaz quanto mais gente vier para a rua manifestar o seu protesto. O crescimento ambientalmente sustentável, a promoção do emprego, o investimento público, a justiça fiscal, a defesa do Estado social terão de voltar ao vocabulário político através de entendimentos eficazes entre o Bloco de Esquerda, o PCP e os socialistas que apoiam convictamente o projeto alternativo de Manuel Alegre.

Ver aqui o original: http://aeiou.visao.pt/a-ditamole=f576344

domingo, outubro 24, 2010

O Estado Social de Sócrates

"As novas regras do abono de família vão atingir cerca de 1,4 milhões de crianças já a partir do próximo mês. No total, entre o corte no aumento extraordinário (um milhão de beneficiários) e a exclusão do quarto e do quinto escalões (um total de 383 mil), o Governo quer poupar 250 milhões de euros.

Na prática, um casal com um filho perde já a partir do próximo mês o abono de 22,59 euros, bastando para isso que cada um receba, em média, mais de 630 euros por mês. A perda pode atingir os 67,77 euros mensais no caso de um casal com três filhos em que cada elemento ganhe em média mais do que 1260 euros"

Ver mais aqui:
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/exclusivo-cm/14-milhoes-de-criancas-com-natal-mais-pobre

sábado, outubro 23, 2010

Sócrates

Alguém por ai pode dizer ao homem que a propaganda já enjoa...nem que alguém lhe telefone daqui da freguesia de São Sebastião...é indecente e já não há pachorra...mesmo nenhuma...façamos como os Islandeses pois...sabem do que falo, não é...é que ele continua, e continua, e continua, irresponsavelmente a discursar, como se nada se passasse...como se eu não tivesse levado um rombo brutal na minha qualidade de vida, rombo esse decretado ministerialmente...tenho um ligeiro pressentimento que toda a vida política portuguesa se tornava mais suportável sem José Sócrates e talvez até mesmo o partido que por estes tempos se diz socialista...era assim qualquer coisa como o começar de novo após um divórcio de um casamento insuportável...tão a ver...vida nova após o divórcio...quem sabe mesmo uma libertação...

Da Democracia e das Decisões Estratosféricas

quarta-feira, outubro 20, 2010

Da Novilíngua

A destruição do dito Estado Social faz-se com o discurso da "necessidade" de preservação e "salvação" do dito Estado Social. Sócrates assume as "inevitabilidades" em nome da necessidade de manutenção do Estado Social e o governo Inglês vai despedir perto de 450000 (sim, com quatro zeros) funcionários públicos em nome do Estado Social. Os primeiros a explodir com a "salvação" do Estado Social foram os Gregos, agora com mais energia os Franceses e mais dia menos dia, os Ingleses. Um pouco por todo o lado as pessoas reagem à reacção dessa entidade abstracta que está em todo o lado e em lugar nenhum que se convencionou chamar de "mercados". É a democracia que está em causa. No novo paradigma governativo protestar em massa aparentemente não serve de grande coisa. Um fantasma percorre toda a Europa, o fantasma do autoritarismo. O protesto global não é parte do problema. Estou altamente convencido que é parte da solução. Guerra é paz. Crítica política é maledicência. Transparência democrática é conspiração. Neoliberalismo é Estado Social. Não, não estamos em 1984.

Do Nupemproletariado

Totalmente de acordo com o Helder Raimundo no diagnóstico. Tenho muitas dúvidas sobre a ilação tirada. Tenho cá para mim que a exploração capitalista de hoje vive bem com a individualização fragmentada do protesto. Nem há identidade de classe e muito menos classe para si. Faltam organizadores e porta vozes da crítica da desgraça. O capital convive bem com a miséria que varre para debaixo do tapete e que lhe é perfeitamente dispensável à acumulação...fica o post do Helder que vale mais que mil tratados sobre a nova escravatura contemporânea.

Operário protesta nu na 125

A luta dos operários contra a fome, ao longo da história, já deu muitos exemplos de criatividade e de desespero. Na 6ª passada um operário imigrante ucraniano protestou nu, contra os 6 meses de salário que a empresa VDV Protrata (responsável pela construção do Hotel Conrad Algarve Palácio da Quinta, na Quinta do Lago) lhes deve, bem como a mais operários que também protestaram em Almancil, junto da sede da empresa.

Já se percebeu que a situação de crise económica e financeira que o país vive é sobretudo uma crise estrutural do capitalismo, que tem vivido da exploração de mão de obra dos trabalhadores no mundo inteiro. Por outro lado, sabemos que as respostas às situações de desemprego, fome e exploração, se começam em pequenos laivos de protesto, localizado e individualizado, rapidamente engrossam para explosões sociais incontroláveis. A tendência presente pode ser espontânea e desorganizada, mas depressa surgirão organizações e movimentos que aglutinam e organizam a revolta latente em muita gente explorada. Todos os trabalhadores conhecem (ou conhecerão) esta história.

Ver original aqui: http://contrasensus.blogspot.com/2010/10/operario-protesta-nu-na-125.html

sábado, outubro 16, 2010

O Grande Cerco e a Socratinização da Vida Política

1. O cerco totalitário à qualidade de vida dos portugueses atingiu o seu auge com a aprovação deste novo orçamento de Estado para 2011. Baixa de salários, aumento do IVA, subida do IRS, diminuição dos subsídios para os desempregados, diminuição das prestações sociais para os mais desfavorecidos, corte e vigilância pidesca no RSI, diminuição das deduções fiscais com bens essenciais como a saúde a a educação, aumento dos bens essenciais de consumo, subida do preço dos transportes e da energia, erosão total do processo de confiança política governamental. Como se isso não bastasse, a bestialidade da decisão política para fazer face à "crise" (poderemos chamar crise a uma mudança estrutural de difícil retrocesso?) encontra "soluções" no pagamento de impostos a vulso com estradas parecidas com autoestradas e pelas Terras de Loulé cerca-se mesmo a cidade com novas árvores artificiais em forma de parquímetros. Suspeito que a maior crise da actualidade é a crise de inteligência política.

2. Durante anos, os media, os fiéis de Sócrates, o próprio Sócrates (este foi o grande responsável pelo novo paradigma centrado na psicologização da política) e mesmo alguns dos seus adversários psicologizaram a vida política portuguesa a uma escala sem precedentes. Sócrates era o grande "reformador". Não interessava a direcção das "reformas". Sócrates era "determinado". Não interessava "determinado" a fazer o quê e ao serviço de quem ou do quê. A política tornou-se uma questão de "atitude". Não se sabia muito bem para que direcção apontava esta "atitude". Não havia então "alternativa" a Sócrates porque isto da política é coisa para "predestinados" que sabem sozinhos dos "bons" caminhos de condução da nação. Sócrates ao olhos de uma boa parte dos portugueses foi o Mourinho da política.

3. Em simultâneo com o culto do autoritarismo do pequeno ditador, instalou-se uma cultura anti-democrática que procurou transformar a crítica política num obstáculo à democracia e ao desenvolvimento sócio económico. Opiniões divergentes cairam na categoria da "maledicência" e do "negativismo". Quem ousasse colocar em causa, quer à esquerda, quer à direita do PS, as orientações de Sócrates e do seu governo mais não fazia do que entrar num discurso "bota abaixista". A salutar crítica política, essencial ao desenvolvimento e à vitalidade da democracia caiu no jugo acusatório de isso ser coisa dos "Velhos do Restelo".

4. Os sindicatos foram atacados, ridicularizados e vistos como parceiros ilegítimos. Os mais diversos grupos profissionais foram estigmatizados como "corporações de interesses" que mais não são do que um "obstáculo" ao desenvolvimento económico e social da nação. A salutar transparência e escrutínio democráticos cairam na categoria de "conspiração". As instituições políticas, jurídicas e mediática foram colocadas em causa na sua profunda credibilidade. Um poderoso aparelho de propaganda e desinformação actuou em Portugal ao serviço da manutenção do poder do aparelho socrático como não se via desde os tempos do dr. Salazar. Não deixa de ser uma ironia da história que uma boa parte dos jornalistas e opinion makers que no panorama mediático português afirmavam à boca cheia que não viam alternativa à "determinação" e ao "espírito reformista" de Sócrates sejam agora alguns dos seus mais ferozes opositores. Veja-se o que diz o Ricardo Costa de antes e o de alguns tempos a esta parte. Veja-se o que um dos grandes mentores do socialismo moderno, Pedro Adão e Silva, dizia há alguns tempos a esta parte e as lamúrias que agora passa ao papel.

5. O carneirismo acrítico do partido socialista ao longo desta temporalidade longa também não o deixa nada bem nesta estória infeliz. Felizmente, a maioria dos portugueses que sofre o impacto destas barbaridades políticas ao contrário do que se possa pensar não a vai apagar da sua memória. Infelizmente, é o nível e a qualidade vida de todo um povo e sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos que leva um rombo monumental não recuperável nas próximas décadas. Estou tentado a afirmar que a única forma de evitarmos esta brutal regressão social é irmos já, rapidamente e em força, para doudécimos. O drama maior é a continuação do governo de Sócrates.

sexta-feira, outubro 15, 2010

Alummé le Feu



NON, JE NE REGRETTE RIEN

Não, nada de nada...
Não! Eu não lamento nada...
Está pago, varrido, esquecido
Não me importa o passado!
Com minhas lembranças
Acendi o fogo
Minhas mágoas, meus prazeres
Não preciso mais deles!

Varridos os amores
E todos os seus "tremolos"
Varridos para sempre
Recomeço do zero.

Não! Nada de nada...
Não! Não lamento nada...!
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal, isso tudo me é bem igual!

Não! Nada de nada...
Não! Não lamento nada...
Pois, minha vida, pois, minhas alegrias
Hoje, começam com você!

Bom fim de semana!

Deprimente

Deprimente o debate de hoje na Assembleia da República de Portugal. Deprimente as intervenções do "Chefe de Governo" que não responde a nenhuma das questões com que é confrontado. Deprimente a discussão sobre quem "mente" e quem diz "verdade". Deprimente o desânimo que se instalou entre os deputados na Assembleia da República. Deprimente para quem assiste estupefacto a tanta descrença governamental. A não aprovação do orçamento de Estado pode levar o país a entrar em bancarrota, mas tenho uma leve suspeita que manter este primeiro ministro e este governo em funções nos levará em breve não só à bancarrota económica e financeira mas também à bancarrota da confiança no sistema político português.

quinta-feira, outubro 14, 2010

Deus Quer, O Homem Sonha, A Obra Nasce



Absolutamente fantástico o empenho de todos os actores envolvidos. Um caso exemplar de luta pela dignidade humana.

domingo, outubro 10, 2010

O Estado da Nação



Não quero alimentar discursos catrastofistas tão típicos dos profetas da desgraça. mas apetece-me mesmo dizer: Ai, Portugal, Portugal, aonde é que tu vais parar...

Dos Mortos Vivos

John Lennon - Stand by me



Fez ontem 70 anos...Happy birthday.

Alegre Esquizofrenia

1. É maravilhosamente delirante ouvir Manuel Alegre a questionar a direcção das medidas do PEC III impostas pelo primeiro ministro que o apoia nas eleições Presidenciais que aí estão a chegar. Há dias em que as medidas são muitos duras e não podem prejudicar sempre os que menos têm e que menos podem. Outros dias, temos que ser "responsáveis" porque as medidas socialistas são "inevitáveis" e não haveria "alternativa" (quem diria?) ao pacote de medidas de direita "socialista". Outros dias ainda, é um silêncio aterrador perante grotescas injustiças praticadas pelo seu partido. Quem quiser perceber porque afundou a política partidária o país em que vivemos não poderia ter melhor espelho.

2. Cavaco e Silva. Peço desculpa pelo atrevimento. O dr. Cavaco e Silva, é mestre na arte de passar a responsabilidade para cima da vida alheia. Para o homem que raramente se engana e nunca tem dúvidas e que afirmou um dia que dois homens na posse da mesma informação, só por má fé, tomariam uma decisão diferente da do outro, a política em épocas de crise é uma coisa "irresponsável". O que conta são as coisas da vida das pessoas que isso da política é coisa que só atrapalha, presumo eu, a "vida do orçamento". O que Portugal precisa é de "consensos", de "responsabilidade", de uma espécie de "união nacional" que nos conduza a todos ao caminho da "salvação". O doutor Cavaco e Silva é um símbolo da II República. Não demitiu o pior governo dos últimos 36 anos nas inúmeras possibilidades que teve à mão em nome concerteza da salarazenta "estabilidade nacional", agora não há "estabilidade" que nos valha.

3. Última nota para o Bloco de Esquerda. A alegre e precipitada escolha do alegre candidato presidencial que saiu lado a lado com Sócrates em Coimbra, em vésperas das eleições legislativas de 2009, fez das eleições de 2011 um alegre passeio do homem da pequena e alegre vila de Boliqueime. O povo português não merecia tamanha esquizofrenia.

sexta-feira, outubro 08, 2010

Há Mais Vida Para Além do Capital

Nobel da Paz 2010 - Liu Xiaobo



A gente enche-se de orgulho e satisfação quando vê que as instituições funcionam. Com esta atribuição do Nobel da paz, a Democracia e os Direitos Humanos obtêm uma vitória histórica sobre o capitalismo de Estado desumanizado. Se a Europa quer competir no espaço mundial em época de globalização económica, fez mais o Comité do Nobel com esta atribuição para isso, do que as últimas dezenas de anos de política externa Europeia convertida à globalização neoliberal.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Do Aparelho Ideológico ou do Omo Lava Mais Branco: Assinem lá essa coisa aí em baixo

"As medidas de austeridade recentemente anunciadas pelo governo vieram mostrar, uma vez mais, a persistência de um fenómeno que corrói as bases de um sistema democrático. Nas horas e dias que se seguiram à conferência de imprensa de José Sócrates e de Teixeira dos Santos, os órgãos de comunicação social, nomeadamente as televisões, empenharam-se mais em tornar as referidas medidas inevitáveis do que em promover efectivos espaços de debate em torno das grandes opções político-económicas.

De facto, os diferentes painéis de comentadores televisivos convidados para analisar o chamado PEC III foram sistematicamente constituídos a partir de um leque apertado e tendencialmente redundante de opiniões, que oscilou entre os que concordam e os que concordam, mas querem mais sangue; ou entre os que acham que o PEC III vem tarde e os que defendem ter surgido no timing certo. Para lá destas balizas estreitas do debate, parece continuar a não haver lugar para quem conteste, critique ou problematize o quadro conceptual que está em jogo e as intenções de fundo, ou o sentido e racionalidade dos caminhos que Portugal e a Europa têm vindo a seguir, em matéria de governação económica.

Por ignorância, preguiça, hábito, desconsideração deliberada ou manifesto servilismo, os canais televisivos têm sistematicamente tratado a análise da crise económica como se o intenso debate quanto aos fundamentos doutrinários e às opções políticas que estão em jogo pura e simplesmente não existisse. Com a particular agravante de a crise financeira, iniciada em 2008, ter permitido uma consciencialização crescente em relação às diferentes perspectivas, no seio do próprio pensamento económico, no que concerne às responsabilidades da disciplina na génese e eclosão da crise.

Com efeito, diversos sectores político-sociais e reputados economistas têm contestado a lógica das medidas adoptadas, alertando para o resultado nefasto de receitas semelhantes aplicadas em outros países e denunciado a injusta repartição dos sacrifícios feita por politicas que privilegiam os interesses dos mercados financeiros liberalizados. Mas a sua voz permanece, em grande medida, ausente dos meios de comunicação de massas.

Não se trata de criticar o monolitismo das opiniões convocadas para o debate, partindo do ponto de vista de quem nelas não se revê. Uma exclusão daqueles que têm tido o privilégio quase exclusivo de acesso aos meios de comunicação seria igualmente preocupante. O problema de fundo reside em ignorar, nos dias que correm, o pluralismo de interpretações e perspectivas sobre a crise, sobre os seus impactos e sobre as opções de superação.

Somos cidadãos e cidadãs preocupados com este silenciamento e monolitismo. E por isso exigimos aos órgãos de comunicação social – em particular às televisões, e sobretudo àquela a quem compete prestar “serviço público” – que respeitem o pluralismo no debate político-económico de modo a que se possa construir uma opinião pública mais activa e informada. Menos do que isso é ficar aquém da democracia e do esclarecimento.

Será dado conhecimento da presente petição, e dos respectivos subscritores, às direcções de informação dos canais televisivos portugueses e restantes meios de comunicação social; a responsáveis por programas de televisão que abordam questões político-económicas; aos grupos parlamentares com representação na Assembleia da República e à Entidade Reguladora para a Comunicação Social."

Assinar aqui:
http://www.petitiononline.com/babytv/petition.html

quarta-feira, outubro 06, 2010

Tristes Autarcas

Os autarcas da região do algarve reuniram de propósito para decidir que "não saiem para a rua" e para afirmar que defendem o adiamento do pagamento das portagens na Via do Infante "até que se acabem as obras de requalificação da Estrada Nacional 125". A forma histórica como os autarcas estão comprometidos com os seus partidos em detrimento dos interesses da população algarvia não levaria a esperar outra coisa. Entre os políticos que não "saiem à rua" há mesmo um tal de Miguel Freitas, que vive numa encruzilhada de psicanálise política quase paranóica entre o temor das críticas dos algarvios e a necessidade da sua aceitação política e a necessidade de adorar o chefe que se sabe não gostar de ser contrariado. Só quem circulou toda uma vida na rua nacional 125 e não a distingue de uma qualquer autoestrada nacional, pode alguma vez pensar que esta pode ser uma estrada de circulação prioritária à escala regional. Durante anos fiquei preso nas "filas de quilómetros de automóveis" da Armação de Pera sem conseguir chegar a horas a qualquer zona que fosse perto da cidade de Portimão. Durante anos decidi que não iria mais à aventura por terras de Barlavento, funcionando as filas de trânsito da EN 125 como que se de uma "barreira psicológica" se tratasse. Neste assunto os algarvios não podem hesitar nas suas escolhas. Se estiverem à espera do "empenho" dos autarcas nesta "matéria", verão mais uma vez frustada a sua ambição de uma melhor qualidade de vida nas terras algarvias. O Algarve pela sua dimensão não pode ser remetido a circular numa rua.

terça-feira, outubro 05, 2010

Há Lugar Para o Socialismo Num Futuro Próximo?

Os irresponsáveis responsáveis pela situação em que nos encontramos apelam agora, como quase sempre, em nome da salvação da sua própria posição, à "responsabilidade". As medidas que nos levam ao fundo do poço são apresentadas como "inevitáveis" e "sem alternativa" e a pressão política para amordaçar o povo e para travar a contestação social atingiu o seu rubro. O rótulo da "maledicência" em cima do que mais não é do que salutar crítica política vai ficar na História como imagem de marca de um Primeiro Ministro que sufocou um partido, pôs o socialismo democrático na gaveta e arruinou o futuro de um país. Haverá lugar para o socialismo no futuro?

segunda-feira, outubro 04, 2010

100 anos da República



Mais do que profissões de fé de um certo foro religioso nada melhor do que mergulhar nos anais da história. Se a valorização dos ideais de igualdade, liberdade e fraternidade por si só já não são pouca coisa, a I República não foi concerteza o melhor dos mundos. Que o diga o clero.

sábado, outubro 02, 2010

Tempos de Incerteza

Depois da política ter hipotecado o futuro das futuras gerações e de nada nos garantir um futuro melhor do que o passado (bem pelo contrário) não é de descartar a hipótese de assistirmos a convulsões sociais inimagináveis desde o 25 de abril de 74. Não se pode pôr de parte os perigos de um golpe militar, do regresso de uma ditadura, do poder cair na rua ou mesmo da hipótese de uma possível guerra civil. Não sou futurólogo, mas as estórias da história humana permitem-nos tudo menos dormir descansados. Desculpem lá o pessimismo, mas entre o optimismo da vontade e o pessimismo da razão é este último que parece estar no topo do ranking da miséria política contemporânea.

sexta-feira, outubro 01, 2010

Leviandades Económicas



1. É absolutamente espantoso a forma como os novos cães de guarda ideológicos vêm para as televisões, em massa, utilizar a "ciência económica" para legitimar as suas posições ideológicas. Gostava que me provassem empiricamente (não bastam as profecias de fé retóricas) que a baixa de salários resultaria necessariamente em mais competitividade e produtividade das empresas e dos trabalhadores. É muito triste que a "salvação" proposta pelos novos profetas da economia, para levantar a moral dos trabalhadores do nosso país, tenha como principal proposta a baixa de salários. Num país com salários baixissímos em comparação com a média europeia e com um tecido produtivo que funciona essencialmente à base de mão de obra intensiva e fracamente qualificada não deixa de ser um atestado de incompetência analítica a quem usa a "ciência económica" para mais não fazer do que profissões de fé de carácter retórico, não assentes em qualquer evidência empírica.

2. É absolutamente espantoso como são escolhidos a dedo os "especialistas" que têm acesso à tribuna mediática no panorama geral televisivo, geradores de um falso senso comum homogeneizador digno de um coro dominical. No contexto da maior crise económica jamais vista nas últimas largas décadas, o pluralismo democrático mediático anda também pelas ruas da amargura.