sexta-feira, maio 26, 2006

Problemas da cidade de Loulé 23: Vírus do mau jornalismo ataca a cidade de Loulé

Não é novidade para ninguém que o mundo da informação se transformou num negócio de mercadoria.

Dar a notícia primeiro que o vizinho do lado tornou-se uma doença jornalistica do mundo pós-moderno e por vezes uma questão de sobrevivência pessoal e organizacional de quem vive do negócio da informação.

O assunto está na ordem do dia e os media da cidade de Loulé não estão imunes a este fenómeno.

Aqui vai o relato de um exemplo de péssimo jornalismo e de um mau serviço público prestado pelo jornal local A Voz de Loulé no dia 1 de Maio de 2006.

Afinal, estava ou não, o deputado do partido socialista Hugo Nunes presente na Assembleia da República, no dia em que uma boa parte dos deputados faltaram às suas obrigações não constituindo o quorum necessário à aprovação das leis da república?

É que qualquer leitor da Voz de Loulé de 1 de Maio de 2006 que queira ficar esclarecido sobre a verdade deste facto acaba por ficar incrédulo com a forma como este alto representante da nação foi tratado pelo editorial deste humilde jornal.

Vejamos como é abordada a notícia.

Numa das páginas centrais do jornal aparece um artigo de opinião de um comentador conhecido na nossa praça que após ter elaborado uma crítica pertinente à ausência dos deputados nesse referido dia, com a qual concordo inteiramente, passa de seguida a fazer um ataque pessoal ao Dr. Hugo Nunes, qual falácia ad hominem, injuriando-o com atributos muito pouco elegantes denegrindo agressivamente a imagem pessoal do mesmo.

Não teria eu nada a dizer, se não tivesse ficado estupefacto com o facto de na mesma página em que esta dura crítica pessoal é tecida, o mesmo jornal apresentar um desmentido do deputado em que este confirma que esteve presente no parlamento, inclusivé na hora em que iria decorrer a dita votação.

Pois é, para um humilde leitor como eu, que queira ficar esclarecido dos factos, podemos dizer que não bateu a bota com a perdigota.

É que se é verdade que o Dr. Hugo Nunes esteve presente no parlamento, o jornaleco local em causa, seguindo as regras da ética e da deontologia jornalísticas, só teria que ter tido o trabalho de verificar a veracidade da notícia com um simples pedido de esclarecimento à assembleia da república e então aí sim, faria a notícia de acordo com a verdade dos factos.

Evitaria assim fazer um péssimo serviço aos leitores louletanos e evitaria também estigmatizar o trabalho e a vida dos cidadãos manchando a imagem dos mesmos com danos que por vezes são difíceis de reparar.

Este é um belo exemplo do péssimo jornalismo que se faz em Portugal.

Fica no ar a minha dúvida. Estará a imprensa local assim tanto com a corda na garganta em termos da sua sobrevivência que precisa dos poderes instituidos para sobreviver?

Estará a ser instrumentalizada por algum partido político?

Se não o está, parece-me que tem que ter cuidado com a forma como informa os leitores.

É que se desta forma conquista os leitores de uma determinada cor política certamente que afugenta aqueles que querem uma informação isenta e credível.

Abraços a todo o pessoal e votos de uma boa vigilância à saúde da democracia.

João Martins

domingo, maio 21, 2006

Problemas da cidade de Loulé 22: A ideologia do fim das ideologias

A crise petrolifera do início dos anos 70 trouxe consigo o fim de um período de crescimento económico sem precedentes no mundo ocidental. Era o fim dos conhecidos "trinta gloriosos" anos e do compromisso político entre o sistema capitalista como sistema de trocas económicas legitimamente institucionalizado e a democracia representativa, consubstanciada no Walfare State, conhecido entre nós como Estado Providência, sendo este que assegurava uma maior equidade na distribuição da riqueza acumulada e que sustentou o crescimento das classes médias no mundo ocidental, impedindo assim que as profecias de Marx da revolta do proletariado face aos capitalistas se concretizassem.

Com a criação do Estado de Bem Estar na Europa os cidadãos dos países europeus institucionalizavam os direitos sociais, que tanto suor, sangue e lágrimas tinham custado às classes trabalhadoras e pela primeira vez na nossa história uma grande maioria da população usufruia de sistemas universais de Saúde, Educação, Segurança Social, apoio social aos mais desfavorecidos e portanto instaurava-se um contrato social colectivo em que o social era encarado como muito mais do que um mero somatório de individuos isolados e em que a solidariedade social era um compromisso assumido entre os cidadãos e o seu Estado.

No início dos anos 80, com a chegada de Margaret Tacher (a dama de ferro) ao poder em Inglaterra e de Ronald Reagan nos EUA, as políticas neoliberais assumem a supremacia, assim como a ideologia de que o mercado deve funcionar por si próprio, pois só desta forma se conseguirá um ajustamento perfeito da economia.
Associado a esta ideia, a crença tida como indiscutível,de que o Estado só atrapalha o funcionamento da mesma e portanto deve ser reduzido ao minímo, para que assim se substitua o governo dos homens pela administração natural das coisas.

Com a queda do muro de Berlim e a vitória do sistema capitalista sobre o sistema comunista estavam asseguradas as condições para que o "Pensamento único" traduzido no fundamentalismo neoliberal assumisse as funções de equivalente funcional dos dogmas de fé religiosos tipícos do tempo da inquisição.

Francis Fukuyama declara o"Fim da História" (o que só demonstra como também os intelectuais mais consagrados podem ser portadores de uma cegueira estupidificante) e outras grandes mentes iluminadas o "Fim das Ideologias".

O que restou então?

O fundamentalismo neoliberal, sob a forma de ideologia do fim das ideologias, que se consagra a si mesmo como forma de pensamento único e que é inculcado a partir das grandes instâncias internacionais como o Banco Mundial, O FMI, a OCDE, o Banco Central Europeu e algumas universidades de elite ligadas aos grandes negócios internacionais que alguns autores designam como o "consenso de Washinton" e que decretam o fim único para o qual devem caminhar a economia dos países de todo o mundo, matando a política, subordinando-a totalmente à economia.

Bem poderiamos dizer...é o DÉFICE ESTÚPIDO!

Só tenho pena que esta seja uma doença que contagia partidos à direita e à esquerda, convertendo-se estes últimos em prostitutas de ocasião, em busca dos eleitores imaginários de um "centro" que está em todo o lugar e em lugar nenhum.

Lamento também com profunda mágoa que o socialismo e a social-democracia, essenciais ao funcionamento da democracia em meu entender, estejam novamente metidos na gaveta.

A política de volta é preciso. Vários caminhos são possíveis...trata-se é de reinventar novas formas de viver em sociedade e de construir em harmonia o colectivo.

Abraços a todo o pessoal com votos de que a História nunca tenha fim.

João Martins

sexta-feira, maio 12, 2006

Problemas da cidade de Loulé 21: Uma forma social ligeiramente diferente da nossa

Numa época em que a interculturalidade atinge contornos de moda e de urgente necessidade e em que qualquer pacato cidadão da cidade de Loulé se encontra com pessoas provenientes de outros sítios do globo e de outras culturas a qualquer hora do dia, deixo-vos o conhecimento dos habitantes das ilhas Marquesas na Polinésia estudados pelo antropólogo Ralph Linton em 1920.

Sirvam-se e bom apetite;

"Os habitantes das ilhas Marquesas constituem um povo da Polinésia que vive numa ilha do Pacífico Central a mais ou menos dez graus a sul do Equador e que são de uma extrema beleza física, sobretudo as mulheres. Foram os últimos habitantes da Polinésia a serem cristianizados e resistiram muito tempo à influência dos brancos, chegando mesmo a escorraçar os missionários. Quando foram submetidos, reagiram não procriando...

Ilhas montanhosas, cercadas por falésias abruptas, as Marquesas são formadas por vales estreitos separados uns dos outros por esporões rochosos. De vez em quando, estas ilhas são vítimas de secas prolongadas e destruidoras que originam péssimas colheitas e escassez de água. Estas secas, que se prolongavam por vezes, durante três anos, provocavam verdadeiras fomes e podiam reduzir a população a um terço, levando por vezes, os indígenas a praticar o canibalismo.

A propriedade agrícola apenas consta de árvores ou jardins dispersos pelos vales. A terra é propriedade colectiva da tribo, administrada pelo chefe, mas as árvores e as colheitas são propriedade individual. Em cada nascimento planta-se uma árvore que será propriedade do recém-nascido. Apesar disso, a base da alimentação é fornecida pela pesca que se organiza numa base comunitária com a ajuda de redes gigantes colocadas entre os barcos.

Antigamente, os habitantes das ilhas Marquesas eram robustos canibais e, excepcionalmente, até as mulheres tinham autorização para comer carne humana. Persiste um canibalismo cerimonial destinado a incorporar as qualidades do indíviduo que se come (em geral, de uma outra tribo) com preferência pelas crianças.

O estatuto social é determinado pela primogenitura, independentemente do sexo. Pratica-se, regularmente a adopção. Através dos parentes que possuem em cada geração a posição social mais elevada, os habitantes das ilhas Marquesas estabelecem a sua genealogia (que, por vezes, recua até setenta ou oitenta gerações).

Os casamentos são endogâmicos à tribo, verificando-se uma grande mobilidade. Entre os habitantes das ilhas Marquesas, há duas vezes e meia mais homens do que mulheres. A causa deste fenómeno é desconhecida ou é escondida. Por isso, o lar marquesiano é poliândrico. Há um marido principal e maridos secundários, excepto nos lares mais pobres...Os lares mais abastados podem ter mais de quatro homens para uma mulher e a casa do chefe tem onze ou doze homens para três ou quatro mulheres. Todos os membros do grupo assim formado têm direitos sexuais uns sobre os outros, constituindo-se assim uma espécie de casamento de grupo..."

Ralph Linton in Claude Dubar "A socialização. Construção das identidades Sociais e Profissionais".

Pois é, numa época em que a empregada de limpeza lá de casa é Angolana, a empregada do café do vizinho é ucraniana, o dono do restaurante de fim de semana é chinês, o craque do clube da terra é brasileiro, o médico de família é espanhol e o vizinho da vivenda do lado é um reformado proveniente de Ingleterra convém pensar em como conviver harmoniosamente com "os outros", os "estranhos" e enriquecermo-nos mutuamente num processo contínuo de aprendizagem cultural.

Convém aprender a pensar para lá das "formas" em que fomos metidos desde pequeninos e que no Ocidente (e não só,claro) têm a forma de uma palas, como as orelhas dos burros, que (de)limitam o universo dos possíveis da nossa imaginação.

Contudo, já sabem...se o vizinho do lado for das ilhas Marquesas...garantam que ele está bem alimentado.

abraços

João Martins

domingo, maio 07, 2006

Problemas da cidade de Loulé 20: Quando dizer é fazer: Há coisas que um presidente não pode dizer

Segundo o jornal Expresso deste Sábado, Cavaco Silva, dignissímo e excelentíssimo Presidente da República Portuguesa afirmou que pensa que a situação da economia portuguesa está "condenada" até 2010 e que nem tem a certeza que a mesma melhor depois disso.

Este homem que raramente se engana e nunca tem dúvidas, se tivesse lido os filósofos da linguagem como Austin e seus pares saberia com toda a certeza que falar é agir e ao contrário do ditado que refere que palavras leva-as o vento, as nossas enunciações discursivas são actos que afectam a vida de todos nós.

Se tivesse lido ainda Bourdieu e a sua brilhante obra, saberia também com certeza que os lugares de onde se fala dão ao que se diz a magia da "verdade" dos factos, provocando um impacto tanto maior quanto maior a importância do lugar de onde se enuncia aquilo que se está a dizer.

Resumindo, deixando-nos de filosofar em torno dos actos de linguagem, o que eu quero dizer é que falar não é só dizer, mas também fazer. As nossas falas são actos que afectam e transformam as nossas interacções e a nossa vida social quotidiana.

Austin ilustra isto brilhantemente com o ritual do batizo e do casamento demonstrando que só quando o padre declara "eu te batizo" ou enuncia "declaro-vos marido e mulher" é que os actos de batizar e de casar se concretizam.

Isso quer dizer que se o pacato cidadão de Boliqueime, Aníbal Silva, disser que a economia está no "fundo", quando muito, provoca uma discussão entre amigos no café junto às bombas de gasolina desta pacata vila e não afecta a quantidade de moedas que os mesmos têm no bolso.

Se for o presidente Cavaco e Silva a dizer que a economia está no "fundo" isso arrasa a confiança completa dos investidores contribuindo para um maior afundamento dessa mesma economia.

Também Freitas do Amaral deveria ler Austin e Bourdieu pois sofre do mesmo problema de mau uso da palavra quando quem fala é o cargo e não o homem que o veste.

Disse Freitas do Amaral que está "cansado" por causa do desgaste do lugar de Ministro de Negócios Estrangeiros, pela elevada exigência do mesmo. Pois é, bela elocução performativa cujos efeitos sociais e políticos fazem as delícias da nossa praça, principalmente dos seus opositores.

A isto chama-se dar um tiro no pé...

Recomendo vivamente a leitura de Austin na sua obra "Quando dizer é fazer" e a de Bourdieu "O que falar quer dizer"...Pode ser que assim o mau uso da palavra diminua e que os tiros de caçadeira não acertem tantas vezes no dedo mindinho do "pé grande" dos nossos governantes...ops...disse "pé grande"? Desculpem, vou já a correr ler Austin e Bourdieu.

Abraços e beijinhos para a malta da blogosfera.

João Martins

segunda-feira, maio 01, 2006

Problemas da cidade de Loulé 19: Nuclear, não obrigado

A crise actual em torno do preço do petróleo devido aos disparates de George W. Bush e da administração Norte-Americana com as ameaças ao Irão, tem servido de pretexto para um poderoso lobbie económico forçar a entrada de centrais nucleares em Portugal.
É do conhecimento geral que o petróleo sendo uma fonte de energia não-renovável estará esgotado dentro dos próximos 50 anos.

É também do conhecimento geral que a implementação, funcionamento, manutenção e desmantelamento das centrais nucleares acarretam custos económicos, financeiros, sociais e ambientais que só uma forma de organização do trabalho de excelência pode evitar os riscos e perigos de desastre económico, ambiental e social.

O acidente de Chernobill na Ucrânia fez 20 anos na semana passada.
Da cidade só restaram os fantasmas e alguns velhos regressados ao seu chão natal, de cuja separação sentem que faria mais mal à sua existência social e pessoal do que qualquer morte lenta de médio e longo prazo por contaminação ambiental.

Chernobill deixou milhares de mortos, níveis elevadíssimos de radioactividade espalhados por várias partes do globo terrestre e milhares de pessoas marcadas por doenças associadas à libertação das radiações.

Os Espanhóis aqui ao nosso lado, começaram hoje a desmantelar a primeira das suas nove centrais nucleares prevendo fechar as outras oito nas próximas duas décadas.

Os nossos governantes porque, como sempre, acham que estamos "atrasados" nas questões do nuclear e porque a alta do preço do petróleo pressiona ainda mais o maldito "problema do défice nacional", começam a deixar-se namorar e a ser seduzidos pelos abutres económicos do negócio nuclear.

Mais uma vez a falta de cultura ambiental dos nosssos governantes pode vir a fazer com que a lógica meramente economicista possa vir a prevalecer.

Pela minha parte caros amigos, nuclear não obrigado!

Por muito que me argumentem com a o elevado nível de desenvolvimento técnico e com a sofisticação das novas centrais depois de Chernobill, aquilo de que tenho a certeza é que na maior parte dos acidentes de carácter técnico, são "erros humanos" que estão por detrás dos mesmos e esses são bem mais difíceis de controlar.

Porque não investir seriamente nas energias ditas "alternativas"? Porque não apostar em força na energia solar ?

No Algarve só mesmo a ignorância e a miopia ambiental permitem não apostar no belo sol com que os deuses nos permiaram.

Não teriam o governo central e as autarquias um papel fundamental para esta revolução cultural?

Poderia ser que assim a moda das Agendas 21 nas estratégias das autarquias não ficasse pelo mero ambientalismo prescrito e que passássemos a cuidar daquilo que mais precioso temos à nossa volta e que a mãe natureza nos deu.

A propósito, alguma mente iluminada da autarquia Louletana mandou cortar as árvores em frente ao Mercado Municipal de Loulé. Será ignorância política ou crime ambiental?

É que a lógica que leva a semear cimento e alcatrão nas nossas cidades destruindo arvores com largos anos de vida é a mesma que adere cegamente ao petróleo na costa algarvia e à paixão pelo nuclear.

Para quando o ambiente a incorporar a centralidade das políticas públicas nacionais e municipais?

Abraços e bom 1º de Maio. Comemorem bem o dia e já agora...reflitam sobre o significado histórico desta data, pois sem memória não há história que resista.

Abraços

João Martins