segunda-feira, abril 24, 2006

Problemas da cidade de Loulé 18: Loulé, 32 anos depois de Abril

Nasci em Abril de 1970. No ano em que Salazar morreu.

Sou de uma geração que herdou o salazarismo como ponte de construção para o futuro.
Em 1974, a Revolução dos Cravos mudou por completo a sociedade portuguesa, Loulé não podia ficar imune a isso.

Lembro-me, acabado de aprender a dar os primeiros passos, que Loulé era uma sociedade tipicamente rural, tal como a maior parte do país.
Do Parragil, de Boliqueime, de Salir, do Ameixial, de Almancil e mesmo de Quarteira, as pessoas vinham à "Vila" montados na mulas e nos burros, deixando estes o rasto do "escremento" como denúncia dos trajectos percorridos pela população do "campo".

Hoje os burros são uma espécie em vias de extinção e a maior parte das famílias andam no seu automóvel.

As famílias reuniam-se em épocas festivas. Avós,pais, netos, tios e tias, primos e primas partilhavam a mesma mesa, num sinal que a família extensa ainda predominava. O divórcio era uma espécie de "crime" moral e o valores comunitários em torno da solidariedade familiar ainda predominavam.

Hoje a família complexificou-se. Um em cada dois casamentos resulta em divórcio, as famílias monoparentais expandem-se, assim como as uniões de facto e os filhos fora do casamento (os designados filhos "ilegitimos", antes de Abril)e as familías recompostas (casais divorciados de segundos e terceiros casamentos que constituem novas famílias) adquirem carácter de "normalidade". Os casamentos católicos entram em regressão e aumentam progressivamente os casamentos civis.

A minha avó frequentes vezes me dizia "vem já para casa que vem aí a PIDE" como forma de me assustar e de me fazer obedecer ao que ela queria. Namorar na rua era um dos "pecados" originais e beijos em público era sinónimo de depravação e de vergonha cultural. Hoje já não há polícia política e a sexualidade ficou quase reduzida à questão do sexo.

Na escola primária, a minha professora da escola "paga" obrigava-me a escrever com a mão direita, eu que era esquerdino, pois escrever à "canhota" significava adesão às concepções comunistas. A régua era utilizada diariamente e a gestão do medo e da obediência era a estratégia pedagógica preferencial.

Hoje as pedagogias activas põem a liberdade a circular nas salas de aula e bastantes vezes os professores têm dificuldade no controlo disciplinar dos seus alunos.

No desporto, fui jogar futebol para o Louletano e nos infantis tive que comprar o meu primeiro equipamento, a minha mãe lavava a roupa do clube em casa, e os campos de futebol no Inverno eram um verdadeiro lamaçal. Hoje, o futebol entrou na era das SAD e é uma verdadeira indústria do capitalismo global.

A imprensa era controlada pelo Estado, nos anos 60 havia 40% de analfabetos e a passividade e obediência à trilogia Deus, Pátria, Família era um dogma fundamental do regime.

Hoje a globalização informativa entra-nos pela casa dentro e a internet torna mais difícil o controlo estatal da informação. As populações estão mais educadas embora o descrédito pela política e pelos partidos encontre um descrédito nunca visto.

As mulheres não votavam, eram mal vista nos cafés e outros espaços públicos, eram uma "desvairadas" se fumassem e demonstrassem comportamentos tidos como monopólio do mundo masculino.

Hoje libertaram-se de uma boa parte da dominação masculina e negoceiam os seus papeis sociais com os seus pares democratizando a relação conjugal.

Na cultura, Loulé na minha infância era um deserto cultural. Havia um único cinema, os bombeiros vigiavam sala para que a mesma não pegasse fogo e ver um filme por semana era um acontecimento digno de um "abastado cultural".

Hoje começa a haver uma interessante oferta cultural em Loulé(muito frágil comparada com o resto do país).

25 de Abril de 1974,
Não tenho dúvidas, esta é uma data que merece ser comemorada em todo o seu esplendor. Lamentavelmente é uma data que tem vindo a "esmurecer", tudo se passando como se a democracia não precisasse de alimento contínuo.

Hoje temos o drama do desemprego, a ausência de futuro no horizonte dos jovens, os velhos são tratados como trapos, os poderes políticos estão desligados como nunca da realidade da vida das pessoas, os problemas ambientais estão a degradar a qualidade de vida dos cidadãos, a droga afecta quase todas as famílias, o tráfico humano ligado à prostituição prolifera... O mundo de hoje tem claramente novos problemas associados aos níveis de "desenvolvimento" conquistado, mesmo assim não posso deixar de concordar...

25 de Abril, sempre...uma data ímpar na história da sociedade Portuguesa...que convém não apagar da memória, nem das "velhas", nem das "jovens" gerações...também Loulé deve alimentar "sempre" este pedaço de memória da história portuguesa, para que as ditaduras fiquem onde nunca deveriam de sair, no cemitério dos factos do passado.


Um grande abraço e bom feriado.

João Martins

terça-feira, abril 18, 2006

Problemas da cidade de Loulé 17: George W. Bush e o retrocesso civilizacional

Os tempos actuais são claramente tempos de retrocesso civilizacional, com riscos de regresso à barbarie que caracterizou os tempos da segunda guerra mundial.
Não tenho dúvidas que o 11 de Setembro contribuiu para legitimar novos atentados às liberdades dos cidadãos por parte dos Estados mais poderosos e hegemónicos.

O que significa o conceito de "guerra preventiva" promovido pela administração de Bush?

O que significa a célebre expressão "Apanhem-no vivo ou morto" (expressão digna do Faroeste) proferida pelo actual presidente Norte-americano a seguir aos atentados às Twin Towers, atropelando espantosamente as regras do Estado de Direito e dos estados que se dizem democráticos?

O que significou a guerra contra o Iraque decidida à revelia do Conselho de Segurança da ONU, legitimada sucessivamente como sendo em nome do combate ao terrorismo, em nome da restauração (será mais correcto "imposição") da democracia e em nome das armas de destruição maciça? (Que sabemos que nunca existiram e que os media através de montagens divulgaram por todo o mundo).

O que significa a "política do medo" instaurada na opinião pública inventando frequentemente inimigos fantasma? (E que conveniente é para desviar a atenção dos problemas internos das nações!!!)

O que significa o crescente controlo social dos cidadãos por parte dos Estados procurando colocar uma camara de filmar em cada canto de circulação das cidades?(Nunca sonharia George Orwell a que ponto a sua visão do Big Brother se poderia tornar real).

O que significa as afirmações de personagens como Bush de que se encontram preparados para atacar nuclearmente o Irão?

Um verdadeiro retrocesso civilizacional. Lamento dizê-lo, mas isto não é democracia.

Sinto-me impotente como cidadão para fazer face a estes poderes cuja capacidade militar e de destruição maciça nunca foi tão poderosa como nos dias de hoje.

Resta-me juntar a minha voz a quem possa ter alguma voz de protesto...e ter esperança que a barbárie não se venha a concretizar...mas ter esperança não significa ser optimista e neste momento só vejo cores negras ao fundo do túnel.

Parem a preparação da opinião pública para atacar o Irão já!!!

Até porque o petróleo já atingiu o recorde histórico de 72 dolares e isso não faz bem à saúde de ninguém...(a não ser de quem o vende claro!).

abraços

João Martins

quarta-feira, abril 12, 2006

Problemas da cidade de Loulé 16: Pode a democracia ser um regime pouco democrático?

Considero que a democracia é o menos mau dos sistemas de governo.

Se etimologicamente "demo" "cracia" significa o "governo do povo" e "para o povo", na realidade, a democracia não é mais do que o governo das elites sobre o povo, apesar da ideologia da governação em nome do "interesse geral" de inspiração Rousseauniana.

Robert Michels, célebre sociólogo italiano, demonstrou, através do que denominou de "lei de ferro da oligarquia dos partidos", que apesar dos partidos serem organizações fundamentais à vida democrática, tinham no seu seio uma lógica de funcionamento muito pouco democrática e que os partidos tinham portanto uma tendência para serem controlados por uma pequena oligarquia.

E este é claramente um dos maiores paradoxos da democracia. Sendo fundamentais à vida democrática os partidos tem um funcionamento interno muito pouco democrático.

Aos cidadãos nas democracias representativas resta-lhes hoje e apenas o direito ao voto ( o que historicamente é uma conquista civilizacional fantástica), mas que nas sociedades contemporâneas se torna muito pouco, perante a vontade crescente de participação dos mesmos e a constatação do esgotamento dos partidos como instâncias legitimas de participação política.

Contudo, o direito ao voto, limitadissímo como forma de expressão da vida democrática, em meu entender, tem sido um instrumento fundamental de rejeição de políticas e políticos que os cidadãos manifestamente repudiam, sendo portanto, fundamental, na regulação dos poderes assimétricos que regulam a vida das populações.

Foi assim com a rejeição massiva do governo de Cavaco e Silva.
Foi assim com a rejeição massiva de António Guterres (que soube tirar ilações disso mesmo e não foi comprendido por ninguém).
Foi assim com a rejeição de Santana Lopes(uma verdadeira "aberração" política que foi autenticamente pontapeado pelo dito "povo").
Foi assim com José Maria Aznar em Espanha (que quis enganar autenticamente as populações quanto aos atentados terroristas de Madrid)
E espero, deliciado, que seja assim com Silvio Berlusconi.

Este último, é a evidência de que a democracia pode ser um regime bem pouco democratico.

Controlou os canais públicos e privados de comunicação. Tornou a política um mero negócio de ocasião ao serviço dos seus interesses privados. Fez aprovar leis no parlamento italiano que lhe garantiram imunidade face aos crimes de corrupção de que estava a ser julgado, modificando o sistema júrudico em seu proveito próprio...coisa incrível num país que se diz democrático!!! Quem controla estes desvios da democracia???

Apesar disso, continuo a achar que a democracia é o melhor dos sistemas políticos, mesmo com todas as suas imperfeições...lamento é que a mesma não progrida na direcção do alargamento da democracia política, que não se extenda ao social, ao económico e ao cultural.

Que se vá Berlusconi!!!
Para que as preversões democráticas vão desaparecendo e para que o estado de direito não seja utilizado a favor dos interesses de algumas personagens para usurpação da coisa publica.

Um abraço

João Martins

sexta-feira, abril 07, 2006

Problemas da cidade de Loulé 15: O calor está a chegar e a época dos incêndios também

Desde que se deu no Algarve a maravilhosa "invenção social" do turismo que temos a já famosa "época balnear".
Com a crescente desertificação e despovoamento do interior do país e da nossa região descobrimos a "época dos incêndios".

A vaga de incendios que têm varrido o nosso país nos últimos verões têm induzido a pensar que se trata de uma "inevitabilidade" da mãe natureza.

Os próprios meios de comunicação social centram as suas coberturas mediáticas nas "espectaculares" imagens dos incêndios e na luta inglória do combate aos mesmos.

Fazendo isto mais uma vez os mass media distraem os cidadãos das questões centrais na discussão do problema dos incendios.

Ora aqui recordo alguns aspectos importantes, para que não se caia no erro de "naturalizar" a ideia que os incendios são uma "ira dos deuses", ou mesmo o resultado "irremediável" das vagas de calor.

E aqui, mais uma vez, não podemos ignorar as responsabilidades da inacção do poder político ao não tentar contrairar um modelo de desenvolvimento económico e social que agravou progressivamente as assimetrias sociais, contribuiu para a crescente litoralização do país (o país está a cair para o mar), a progressiva urbanização e o abandono total das regiões e povoações do interior.

Como resultado o território ganhou enormes desiquilibrios, os campos ficaram desabitados, as florestas e as matas sem gente para cuidar das mesmas e em vastas zonas do nosso país, nada restou a não ser enormes eucaliptais (verdadeiros "seca-vidas" verdade seja dita)acelerando-se assim a geral desertificação do nosso país assim como da região do Algarve.

O debate sobre o "problema" dos incêndios têm-se centrado de forma "miope" no combate aos mesmos e nos meios materiais e humanos mais ou menos escassos que haveriam ou não ao dispor dos bombeiros.

Todos sabemos que o combate aos incêndios é importante mas aquilo que verdadeiramente poderia mudar alguma coisa é mesmo a PREVENÇÃO.

E quanto à prevenção o que têm feito os nossos políticos?

Nada ou muito pouco.

As matas têm sido limpas? Muito pouco. A maioria dos proprietários não tem dinheiro, nem apoios para tal.

Existe uma política de desenvolvimento das populações e localidades do interior?
Muito pouco ou nada tem sido feito.

Pelo contrário, alguns bens e serviços que poderiam manter a fraca população que ainda vai existindo nas aldeias estão a ser "extintos" por motivos de "racionalidade" económica.

Sócrates anunciou o fecho de escolas, de centros de saúde, e de outros serviços em que o número de habitantes não justifica a sua continuidade (do ponto de vista meramente económico claro).

Foram contratados guardas-florestais para vigiar, limpar e cuidar das florestas?
Não me parece que o "défice" o permita.

Sintetizando, apostamos em atacar as "consequências" e negligênciamos completamente as "causas".

Enfim, espero que minha previsão esteja errada e que o resto que sobra das paradisíacas serras de Monchique e do Caldeirão (verdadeiros pulmões da nossa região)não tenha o mesmo destino que nos últimos anos.

E que os poderes políticos depois não retirem ainda vantagens políticas das campanhas de solidariedade de "bom coração", com estas desgraças para as quais contribuem...mesmo que seja por inacção.

Porque por vezes, mais importante do que aquilo que se faz, é aquilo que não se faz, e que deveria ter sido feito...

Boa Pascoa e abraços para todos os algarvios.

João Martins