sexta-feira, janeiro 09, 2015

Confundir a lógica das coisas com as coisas da lógica

As televisões têm como comentadores sobre o atentado, generais, directores da polícia, coordenadores dos grupos anti terroristas e chefes de operações especiais. Entrevistam ministros da administração interna, chefes de serviços secretos. Um deles explica agora na SIC Notícias a necessidade de suspender as liberdades, como a livre circulação, por "boas razões", temporariamente. Eu, aqui no meu facebook, vou ouvindo estes fantasmas com um olho e com o outro lendo com atenção e pausadamente os artigos que em Portugal e por este mundo escrevem os filósofos, antropólogos, sociólogos, historiadores, especialistas em religiões, imigração, desigualdade social, geopolítica e que levantam tantas questões, uma parte das quais sem resposta, ainda. Estamos em directo a ser convencidos que, que matando estes 2 loucos, estes bábaros, o dia a dia retomará a normalidade. Um dia disse a um dos meus filhos, então com 9 anos, que ele não tinha já idade para dormir de peluche, era uma vergonha, e ele respondeu-me "se não contares a ninguém, é como se eu dormisse sem ele". Disse-lhe que não era bem assim, era preferível ele dormir sem ele e continuar a pensar que dormia com ele porque a realidade tem mais força do que as palavras, se fazemos coisas absurdas não mudamos a realidade com palavras, a realidade vai-se tornar absurda com o tempo. E contei-lhe então um dos meus poemas preferidos, tentando explicar-lhe o meu ponto de vista, porque estava convencida que a maioria das pessoas não identifica os problemas e cuidadosamente inventa outros. É aquele da Natália Correia: "Temos fantasmas tão educados, que adormecemos no seu ombro, sonhos vazios, despovoados, de personagens do assombro…".
 
Texto de Raquel Varela, publicado no seu facebook. O título do post é do macloulé.

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