A minha Lista de blogues

domingo, novembro 26, 2006

Quando a Cultura é o parente pobre da política

A Cultura anda pelas ruas da amargura no nosso país.

Os orçamentos para a política cultural do país são praticamente inexistentes.

Os "profissionais" das artes e do espectáculo estão fortemente precarizados e com dificuldades de sobrevivencia.

A Festa da Música vai fechar para obras.

O Ballet da Gulbenkian foi extinto porque tido por muito "gastador".

O Rivoli foi entregue aos privados. Os Ruis Rios das nossas autarquias encaram a cultura como "mero" despesismo e cortam os apoios e financiamentos que a permitiam ainda respirar.

Ora a cultura é "só" a alma de um povo.Não há povo sem cultura.

Seja ela "erudita" ou "popular", de "elite" ou de "massas", a cultura é aquilo que permite a uma sociedade ou uma comunidade construir a sua identidade.

O Estado tem um papel social fundamental no desenvolvimento cultural dos povos e numa época em que a escola é acusada de reproduzir as desigualdades sociais reproduzindo no seu interior sobretudo os valores culturais da cultura burguesa, é ao Estado e às autarquias que cabe um papel de distribuidor cultural sobretudo da cultura dita erudita, que é aquela à qual as classes sociais mais desfavorecidas não têm acesso através da sua socialização familiar.

Se numa boa parte das nossas famílias não há o habitus de ir ao teatro, ao cinema, à ópera, ao museu, aos espectaculos de dança ou de música clássica.

Se na escola as artes são praticamente inexistentes no interior dos curriculos escolares. Quem teria a grande função de igualizar as oportunidades sociais de acesso aos bens culturais mais valiosos?

Só tenho um resposta. O Estado tem que ver as coisas da cultura como um investimento nas pessoas e não como uma mera despesa como é habitual constatarmos.

Numa altura em que o capitalismo predador reduz todas as esferas da vida social ao económico e à busca incessante do lucro (até a religião não escapa à mercadorização da vida social) vale a pena perguntar:

Mozart teria lugar no nosso mundo? Teria existência social? Seria "lucrativo"?

Miguel Ângelo teria pintado a Capela Sistina? Esta maravilha do mundo teria sido criada no nosso tempo?

Gaudi teria tido as dezenas de anos para construir a Sagrada Família?

Vivaldi teria composto as Quatro Estações?

Quem financiaria estes criadores não estando garantido o sucesso inicial em termos "lucrativos"?

Pode a cultura medir-se no número de espectadores e no lucro auferido à maneira de uma fita de Holywood?


Ps: Parabéns à Câmara de Loulé pelo esforço que parece estar a fazer na dinamização do Cine Teatro Louletano.
Sendo claramente insuficiente no desenvolvimento cultural da população louletana é justo dizer que parece haver um esforço para conseguir uma programação cultural interessante com alguma continuidade. A esquerda não fez melhor enquanto foi poder na autarquia.

Abraços culturais e bom fim de semana para todos vós.

João Martins

sábado, outubro 28, 2006

A farsa dos rankings

A divulgação por parte de alguns jornais nacionais dos rankings das escolas secundárias a partir exclusivamente dos resultados dos exames nacionais é uma autêntica farsa nacional.

Farsa, desde logo, porque os rankings são lançados em bruto, ou melhor, à bruta, pois como sabem os cidadãos mais atentos (que infelizmente não são muitos) não se pode comparar aquilo que não é comparável.

Não é comparavel, desde logo, porque os resultados dos exames são descontextualizados em relação à composição social das escolas e ao nível socioeconomico das famílias.

Não é comparável, porque as assimetrias sociais e territoriais transportadas para o interior das escolas não são levadas em conta na análise.

Não é comparável, porque as escolas privadas que aparecem no topo do ranking têm uma composição social claramente favorecida.

Não é comparável, porque as escolas de territórios desfavorecidos e em dificuldade ("problemáticas" como dizem os políticos e os jornalistas)não podem produzir os mesmos resultados das escolas das zonas favorecidas de Lisboa.

Não é comparável, pois comparar as escolas do litoral urbano e com elevado nível de vida, com as escolas do interior rural e com um nível de vida miserável é como comparar a performance de um Ferrari com a de um Mini-Morris dos anos sessenta.

Vale a pena desmistificar alguns questões em relação ao sucesso escolar para não iludirmos as populações e agravarmos ainda mais as desigualdades sociais face à escolarização:

1. Existe um consenso na comunidade cientifica de sociólogos da educação que o capital económico e sobretudo o capital cultural das famílias são quase determinantes no sucesso escolar dos filhos.

Digo quase, porque não havendo uma relação determinista, sabemos hoje que quanto maior o capital económico e cultural das famílias maior a propabilidade que os seus filhos têm de repetir, ou de abandonar precocemente a escola, ter melhores resultados escolares e escolher vias de escolarização que são prestigiadas e prestigiantes em termos dos destinos sociais futuros a atingir.

2. Directamente correlacionado com isto, sabemos também, que a composição social das escolas medida pelo perfil do seu público condiciona fortemente os resultados escolares. Quer isto dizer que numa escola de classes médias e superiores os alunos têm vantagens sobre os alunos de escolas de composição social desfavorecida.

3. Existem estudos que indicam que os próprios professores "fogem" das escolas com composição social desfavorecida como quem foge da lepra, o que quer dizer que os "melhores" professores vão leccionar para as "melhores" escolas agravando ainda mais as desigualdades.

4. Os próprios resultados do ranking, feitos em bruto e à bruta, mesmo descontextualizados evidenciam claramente as assimetrias sociais face à escolarização e alguns factores que contribuem para a forte diferenciação e deigualdade de resultados.

Podemos constatar, com raras excepções, que as escolas do litoral estão em clara vantagem sobre as escolas do interior.

Podemos constactar que as escolas das grandes metropoles estão sobrerepresentadas nas escolas com melhores resultados em detrimento das escolas da provincia.

Podemos constactar que as escolas em meio rural e no interior do país (com raras excepções) têm piores resultados nos exames.

Podemos constatar que as escolas ditas "problemáticas" aparecem quase todas em posições pouco prestigiantes.

Enfim, nada disto seria problemático se as escolas pior classificadas não ficassem estigmatizadas negativamente, "culpabilizando-se" subtilmente os maus resultados com o "mau" trabalho dos professores.

Não seria problemático se os paizinhos não saissem a correr para matricular os filhos nas "boas" escolas que são aquelas que estão no topo do ranking.

Não seria grave se as determinantes sociais não fossem ocultadas e se não fosse a "ideologia do dom" que é agora usada pelos professores das "boas" escolas. O bom resultado não é julgado pela composição social favorecida dos alunos mas sim pelo bom trabalho com os seus alunos.
Viva a mentira social!

Para terminar, gostava de dizer que poderia concordar com os rankings desde que estes fossem devidamente contextualizados com variaveis de caracterização socio-económica (como tentou fazer o ministro David Justino) e desde que isso contribuisse para os pais fazerem as suas escolhas de forma mais informada e equitativa (sabendo que os pais estão em situação clara de desigualdade face à escolha dependendo da suas distãncia cultural à escola).

Lamento é que "conceituados" jornalistas da nossa praça e não posso deixar de referir o director do jornal o público, sejam cegos (porque é de cegueira e de ignorância que se trata) na análise que fazem dos resultados do ranking em prole da sua ideologia que defende a mercadorização pura e dura da educação portuguesa.

Pelo lugar que ocupam e pela responsabilidade que têm como opinion makers no espaço público e estando este hoje largamente colonizados pelso media, estes senhores deviam ser seriamente penalizados pois condicionam negativamente a vida de muitas famílias e beneficiam claramente algumas delas!

Um abraço e votos para que um dia a Escola Secundária de Loulé seja um dia a primeira do ranking...seria sinal que já não havia por lá pobres.

domingo, outubro 15, 2006

A crise acabou. A vida do ministro confundida com a vida do comum dos portugueses

Manuel Pinho no auge da histeresis.
A crise acabou! Agora só precisamnos de saber qual vai ser a velocidade do crescimento económico.

Não há pachorra para este tipo de barbaridades.

Num país com dois milhões de pobres. Num país em que as classes médias estão a perder poder de compra e a baixar o seu nível de vida. Numa época em que o desemprego atinge contornos dramáticos. Em que as desigualdades não param de crescer.
Quase na mesma hora em que milhares de professores descem as ruas de Lisboa assim como uma boa parte dos funcionários públicos.

Na mesma altura em que direitos sociais conquistados com muito sangue, suor e lágrimas são atacados como nunca desde o 25 de Abril.

Numa altura em que a saúde vai ser semi-privatizada e quem não tiver dinheiro vai morrer mais rapidamente. Em que a segurança social vai no sentido da privatização e a maioria da população arrisca-se a não recebê-la; o ministro Pinho transporta o seu óptimo nível de vida, que talvez nunca tenha tido situação pessoal tão boa, para a história de vida da maioria dos portugueses.

A crise acabou...já não há pachorra!!!

Nem o Conde de Abranhos celebrizado por Eça de Queirós diria tamanho disparate.

Como o poder cega!

abraços e que se vá depressa a crise e já agora...

...que nunca mais volte...

quarta-feira, outubro 04, 2006

O Muro da vergonha do Ocidente

A globalização intensificou as relações de interdependência à escala global. Nas sociedades contemporaneas a rede é a palavra chave. Queiramos ou não todos estamos conectados.

O capital financeiro circula à velocidade do som ao click do botão direito do rato. O capital económico abandona zonas do globo onde sente que os custos de produção não geram as mais valias que as grandes multinacionais acham aceitavel do ponto de vista da lógica do lucro.

Atentados terroristas em determinadas zonas do mundo são possíveis de ser visualizados em toda a "aldeia global" no exacto momento em que ocorrem até pelo habitante da aldeia mais remota do Casaquistão.

A guerra do Iraque pode ser assistida em directo e on-line e os próprios militares vão acompanhando os desenvolvimentos da mesma pela televisão sabendo através desta primeiro que das suas chefias as consequências das suas acções no terreno.

As relações sociais, amorosas e conjugais atravessam todas as fronteiras do globo terrestre através das novas tecnologias da informação e da comunicação.

Os governos caiem ao sabor de mensagens de sms e das capacidades fantásticas da comunicação via satélite, quem não se recorda da recente queda de José Maria Aznar aqui na vizinha Espanha e paradoxo dos paradoxos numa era em que as desigualdades sociais se agravam quase à mesma velocidade com que o crescimento da riqueza dos mais poderosos atinge valores históricos inigualáveis eis que os povos que querem partir dos seus territórios abandonando as suas raízes à procura de melhores condições de vida atraidos pela ilusão do modo de vida "Ocidental" são impedidos de o fazer.

O muro de mil e cem kilómetros que o senado norte-americano aprovou quase na sua totalidade!!! para impedir os emigrantes mexicanos de entrarem nos EUA são um retrocesso histórico absolutamente inacredítável na história, cultura e nos valores ditos ocidentais.

A democracia tem destas coisas. Sendo um outorgação legal ela é incrivelmente imoral. A rejeição do "outro" como forma de assegurarmos o nosso bem estar e segurança social infelizmente está aí para legitimar as novas atrocidades sociais.

Primeiro começamos por rejeitar a cultura do outro e um dia descobriremos que à sempre algum "outro" para nos rejeitar a nós.

sábado, setembro 23, 2006

O papa e o Islão

Todas as religiões são exclusivistas, fechadas sobre si mesmas e recusam os dogmas que não entram nos seus dogmas de fé.

Ser cristão implica não professar a religião muçulmana, ser muculmano significa não aderir às crenças religiosas dos judeus e ser budista implica que não se seguem os principios do protestantismo calvinista.

Estes mundos sociais exclusivistas não implicam que a visão do "outro" como "ele" não permita a convivência pacífica.

A tese absurda sobre a "guerra de civilizações" entre o "Ocidente" e o "Oriente" à força de tanta enunciação discursiva na palavra de muitos pseudo intelectuais do mundo dito Ocidental ainda se torna numa profecia auto-realizadora. Tanto se deseja que aconteça que ela corre o risco de se tornar real.

O Papa Bento XVI esqueceu-se de vestir o papel social de Papa e por momentos interpretou o seu papel na pele de cardeal Ratzinger.

É que se as interpretações intelectualistas do Islão são permitidas ao cardeal Ratzinger, ao papa Bento XVI trata-se de brincar com o fogo quando numa passagem claramente infeliz se rotula a religião islamica de culto do belicismo e da Jihad.

Estudos históricos sobre o mundo islâmico revelam um percurso histórico de elevada tolerãncia religiosa e de elevada convivencia pacífica nas mais variadas partes do mundo entre o Islão e outras comunidades religiosas.

Sabendo que como papa as suas palavras são armas de fogo, ou de paz, que podem salvar, ou destruir milhares de vidas, Bento XVI teria que ter mais cuidado nas suas reflexões e intrusões na cultura do "outro"...sob pena de no actual contexto deitar gasolina num barril de pólvora.

Como alguém em tempos diria...não havia nexessidade.

Abraços a todo o pessoal.

domingo, setembro 03, 2006

O novo espírito do capitalismo

O capitalismo como sistema económico, político e social é um sistema que se baseia desde sempre na exploração do homem pelo homem.

Karl Marx, o teórico por excelência da análise do sistema capitalista pôs a nu o confronto entre o capital e o trabalho e a fabricação de mais valias a partir da exploração do proletariado como a essência que produzia a dominação dos capitalistas.

Em jeito de profecia Marx protagonizava o fim da história com a revolução do proletariado e a abolição da sociedade de classes.

Marx falhou redondamente a sua análise onde a sua interpretação científica (brilhante para a época) cedeu lugar às suas pretenssões ideológicas.

Mas se Marx passou de moda, sendo olhado de "lado" mesmo no interior das Universidades (pelo menos daquelas mais comprometidas e dependentes do poder do capital) o sistema teórico de Marx continua fundamental para percebermos os sistemas sociais em que vivemos e sobretudo o capitalismo tal como ele hoje se manifesta.

Afinal ainda nos dias de hoje constatamos que as classes sociais são como as bruxas "não sei se elas existem mas que as há...há".

Afinal, as desigualdades crescem como nunca nas últimas décadas.

Afinal, a concentração de riqueza do capital atinge valores nunca atingidos na nossa história.

Afinal ,a pauperização da sociedade constatada por Marx traduz-se hoje na pobreza crescente e na "naturalização" da exclusão social.

Afinal o que mudou é que o sistema capitalista numa nova busca de legitimação procura novas legitimidades para que os seus efeitos negativos apareçam como a "ordem natural das coisas".

É assim que nasce uma nova concepção de indivíduo ajustável aos interesses do capital.

Hoje temos que ser obviamente "competentes" - sendo a competência definida como a capacidade "individual" que cada um deve ter ou adquirir por conta própria, à revelia do papel da produção social da sua competência. Desresponsabiliza-se os sistemas socias que produzem desigualdades e legitima-se o valor dos mais "competentes" que por norma são os mais previligiados.

Os desempregados deixam de ser "despedidos" e passam a ser "dispensados" - se no despedimento a culpa é por norma atribuída ao empregador, na "dispensa" a culpa é do trabalhador pois não se "actualizou" como seria de esperar, logo não tem valor como valor de troca no mercado do capital.

Os "trabalhadores" passaram a ser "colaboradores" - A visão dicotómica do conflito de interesses entre capital e trabalho passou para uma visão harmónica do trabalho e do funcionamento das empresas. Ser "colaborador" implica que os interesses são "comuns" e o que é bom para a classe empresarial é óptimo e serve na perfeição o interesse das categorias profissionais intermédias ou da base das organizações. Óptimo sistema ideológico como estratégia de esgotamento dos conflitos e dos interesses conflituais.
O mundo do trabalho e das empresas é o mundo da harmonia social!

Os indíviduos devem ser "flexíveis" - Se o capital é global e circula à escala do planeta à velocidade do som, não vêem os ideologos do sistema como não podem ser os indíviduos flexibilizados e melhor ainda "deslocalizados".

Os indivíduos devem ser também "empreendedores" - Numa época em que o capitalismo entra em crise de legitimidade, em que é possível crescer a economia e simultaneamente crescer o desemprego e o fecho de empresas, é provável que com indivíduos "empreendedores" a culpa dos disfuncionamentos do sistema seja da falta de empreendedorismo, pois o que não pode ser posto em causa é a ideologia neoliberal predadora que substitui políticas de pleno emprego por políticas de pleno interesse do capital.

O capitalismo "naturaliza" também o desemprego como uma "fatalidade" social - O que não falta por aí no nosso sistema mediático são afirmações do género: "São as empresas que criam emprego, isso de criar emprego não é coisa de políticos nem de políticas sociais".

A ignorância neoliberal tem a crença interesseira de que o económico é uma esfera da vida social desligada do político e do social. A divina crença do mercado livre, a funcionar no interesse de todos, adia qualquer tipo de intervenção do Estado pois mais tarde ou mais cedo "os mercados" vão responder...há que esperar... um ano, dois anos, cinco anos, dez anos, trinta anos, cinquenta anos...um dia o interesse pessoal transformar-se-á no interesse geral.
É a profecia de Marx ao contrário!

Mas o sistema capitalista na sua recente modalidade de funcionamento também "corrói o caracter" dos indíviduos. Richard Sennett, sociólogo Norte-Americano, demonstrou na sua obra "A corrosão do carácter" como o novo capitalismo destrói a possibilidade de uma vida pessoal e familiar harmónica, fazendo com que os indivíduos andem uma vida inteira "precarizados", "flexibilizados", à procura de uma carreira que demora em ser estável, pois é a turbulência identitária o que define a personalidade de cada um. O futuro, algures, um dia depois da morte, tratá alguma estabilidade e segurança ontológica.

Boa semana para o pessoal da blogosfera.

João Martins

sábado, agosto 26, 2006

A culpa é da chuva

Já vamos estando habituados a este tipo de incompetências e irresponsabilidades por parte de alguns dos políticos da nossa praça.

Como já aqui fiz referência a ausência de sensibilidade ambiental da maior parte dos nossos autarcas tem resultado numa catástrofe ambiental para o ordenamento do território na região do Algarve.

Numa época em que siglas como PROTAL,PDM,REN,RAN e outras que tais entraram no vocabulário até do cidadão menos informado, continuamos a recusarmo-nos do ponto de vista político a respeitar as prescrições e as proscrições que tais documentos recomendam e/ou obrigam.

Isso é comprovável pelo continuo abuso de construção em cima das dunas e da água do mar numa boa parte da nossa costa, coisa que me faz uma terrível "confusão" do ponto de vista das decisões e autorizações políticas.

É claro que tal depravação urbana tem que resultar em consequências danosas em termos ambientais.

Desta vez foi em Vale do Lobo. Uma descarga poluente em plena época balnear levou as autoridades ambientais (e muito bem!!!) a retirar a bandeira azul à respectiva praia.

Do lado económico, Van Gelder, o proprietário do empreendimento Vale do Lobo lavou desde logo as suas mãos fazendo como Pôncio Pilatos fez a Jesus Cristo: "Isto é um crime ambiental, temos que apurar responsabilidades e encontrar os responsáveis".

Da autarquia Louletana fez-se como o ministro Sócrates: "A gestão do silêncio é de ouro"..."pelo que nos toca informamos que as ETARS estão a funcionar em pleno".

Os responsáveis pela CCDR ultrapassaram-se a si próprios: "A culpa é da chuva que isto de chover no verão é um ultrage a todos os algarvios".

Para completar o cambalacho, Vale do Lobo, porque acha impensável ficar sem a tão apetitosa bandeira azul encontrou a solução encantatória para o problema: "A malta coloca a bandeira da União Europeia que por acaso também é azul e enganamos os parolos que aqui venham à nossa praia".

Pois é...é o reino da macacada!!!

Mas agora pergunto eu, quem se responsabiliza pelos impactos económicos, ambientais e...de saúde (saúde sim, porque estes não são visíveis nos cálculos económicos e políticos)para as populações que tomam o seu banho em àguas tão agradáveis?

A moda política é passar a mensagem que os defensores do ambiente são os "fundamentalistas" que travam o desenvolvimento económico dito "sustentável" mas parece que os "fundamentalistas" deveriam ser levados em conta em muitas mais situações.

Felizmente os estudos sociológicos indicam que as novas gerações são muito mais inteligentes do ponto de vista ambiental.

Pode ser que por aí o ambiente um dia ganhe o estatuto de cidadania em portugal.

Um abraço ambiental para todos

João Martins

sábado, agosto 12, 2006

A era dos danos "colaterais"

O mundo está mais perigoso do que nunca.

A guerra continua a ser uma instituição social total e com os meios tecnológicos e militares hoje disponíveis a capacidade de destruição em massa e inclusivé o risco de se acabar com a espécie humana é uma probabilidade comtemporânea bem real.

Norbert Elias, sociólogo Alemão, que percorreu em vida quase todo o século XX e assistiu aos horrores da segunda guerra mundial já tinha avisado.

Progredimos espantosamente na capacidade tecnológica e no aparente domínio sobre a natureza não humana, mas pouco evoluimos na capacidade de estabelecermos um entendimento entre os seres humanos.

A capacidade de vivermos harmoniosamente como seres humanos sem fazermos a separação entre um "nós" e os "outros" é infinitamente mais limitada do que a capacidade de destruição nuclear.

O 11 de Setembro de 2001 e as políticas seguidas pela administração Bush de combate ao "terrorismo", atacando estados e nações inteiras, onde se deveria combater apenas os grupos terroristas altamente organizados, veio potencializar o ódio ao "ocidente" e o consequente aumento da capacidade de recrutamento humano dos grupos terroristas espalhados por todo o mundo.

De toda a forma não se percebe muito bem se foram as guerras no Medio Oriente que potencializaram os actos terroristas ou se pelo contrário foi o terrorismo que deu origem à escalada da guerra. Provavelmente a relação é de causalidade circular.

Uma coisa é certa, o mundo mudou. Os actuais acontecimentos, entre os quais o mais recente no aeroporto de Heathrow, vão legitimar políticas de privação das liberdades individuais.

Bilhetes de identidade genéticos. Câmaras de video-vigilância nas casas de banho públicas, centros comerciais, auto-estradas, jogos de futebol, teatros, na ópera e outros que tais. Redes de satélite vigilantes dos mais pequenos movimentos individuais.
Sistemas de vigilância que visualizam seres humanos como vieram ao mundo.

Aviões carregados de civis abatidos em pleno ar pelas autoridades oficiais sempre que houver movimentos suspeitos e violação de espaço aéreo provocando danos "colaterais" (o que só legitima mais a causa dos terroristas que podem sempre dizer que foram "eles" que destruiram os aviões com civis voltando as populações contra os Estados)....o caminho está a ser traçado.


Existe uma visão política mais conservadora que só precisa do pretexto que agora está a ser dado. O Estado Totalitário severamente critícado por George Orwell em 1984 na sua visão do Big Bhother veio para ficar.

Ia para Londres esta semana em férias. Felizmente a agência de viagem conseguiu a alteração de destino a meu pedido.

O paradoxo acentuou-se na minha memória.

Segurança pessoal e colectiva ou liberdades individuais inalienáveis?

Não sei, tenho muitas dúvidas. Raramente tenho certezas e engano-me muitas vezes. Mas estarei disposto a abdicar das minhas liberdades tão duramente conquistadas ao longo da história da humanidade? Não valerá a pena sofrer a infima e dramática probabilidade de um dia, algures no globo terrestre sofrer um atentado?

E o terror será melhor combatido com o terrorismo de Estado?

A assunto está na ordem do dia e esta é uma discussão política em que os cidadãos têm que participar.

Bom fim de semana a todos os cibernautas.

João Martins

terça-feira, agosto 01, 2006

Sinais preocupantes da democracia portuguesa

Os regimes democráticos não sendo isentos de imperfeições caracterizam-se por um tipo de dominação racional-legal como nos ensinou o grande sociólogo Max Weber.

Quer isto dizer que o que legitima a dominação dos dominantes sobre os dominados é a crença na legalidade e nos regulamentos instítuidos pela lei do Estado de Direito.

A separação do cargo do homem que o ocupa é assim uma das traves mestras da legitimidade dos regimes democráticos.

Infelizmente assim não o entendem alguns dos nossos mais conceituados autarcas que têm vindo a público recentemente com afirmações discursivas e práticas sociais muito preocupantes do ponto de vista da vida democrática, demonstrando alguns comportamentos mais conformes com as práticas políticas dos regimes autoritários.

Senão vejamos, Rui Rio "proíbe" a crítica social e política às entidades que sejam apoiadas financeiramente pela autarquia do Porto. Promove desta forma um rebanho de cordeirinhos obedientes pois se dizem o que pensam o "subsídio" da autarquia com toda a certeza que será retirado.

Alberto João Jardim quer um jardim exclusivamente para heterossexuais. Para este "dinossauro" da política portuguesa Sócrates anda a enganar os portugueses pois faz de conta que quer resolver os problemas económico-financeiros do país, mas o que ele quer mesmo fazer, qual visão conspirativa, é legalizar o casamento dos homossexuais sem que os portugueses se apercebam, quase como o fez com a substituição do Ministro dos Negócios Estrangeiros, contribuindo assim segundo o omnipotente Jardim para a "degradação moral da vida portuguesa".

Fernando Ruas quer "expulsar os fiscais do ambiente à paulada" "valorizando" desta forma as preocupações ambientais dos portugueses e aderindo ainda ao "apanhem-no vivo ou morto" tão do agrado de George W. Bush.

Pois é, é a democracia que vamos tendo. Se isto continua assim começa a ser preocupante e de certa forma um retrocesso em relação às conquistas de Abril de que tanto estes senhores acima referidos apregoam ter contribuido.

Boa semana e lembrem-se que a democracia não é um estado adquirido de uma vez por todas mas sim um processo em constante transformação.

João Martins

domingo, julho 23, 2006

O Ethos ambiental dos nossos autarcas

Fernando Ruas, presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses mostrou em todo o seu esplendor o pensamento comum à maior parte dos autarcas portugueses sobre as questões ambientais.

Diz-nos este senhor para não hesitarmos e "corrermos com os fiscais do ambiente à pedrada".

É lamentável que este senhor represente os autarcas portugueses e ainda mais lamentável que esta seja a visão do mundo que predomina na cabeça da maior parte dos nossos autarcas.

Não tomando a nuvem por Juno nem a àrvore pela floresta, o desordenamento do território em todo o país é tal que deixa envergonhado qualquer cidadão de um país que se queira civilizado.

Numa altura em que o PROTAL está em cima da mesa das negociações, aquilo de que mais se queixam os nossos autarcas é dessa "moda do ambiente" como entrave ao desenvolvimento económico, sendo que na óptica da maioria desses senhores desenvolvimento é igual a crescimento económico.

Basta dar um passeio pelo litoral e vemos que é possível em Quarteira construir prédios de dez andares dentro da areia (caso da última construção antes de chegar ao Forte Novo).
É possível ver vivendas a caírem para dentro de àgua na praia de Vale do Lobo (num claro atentado ambiental à erosão costeira).
É possível ainda nas Dunas Douradas construir vinte apartamentos a cinco metros das dunas de areia (coisa só possível com "compadrios" na aprovação das licenças de construção).

Entre projectos estruturantes e de interesse "vital" para a "Região" e a construção de Marinas ao longo da costa algarvia o caminho que se está a seguir não é claramente o do ordenamento da Orla Costeira, mas sim o de continuar a "betanização" do que falta cimentar em cima das àguas algarvias.

Pelo menos houve o decoro dos custos económicos do desinvestimento ambiental em Vale de Lobo terem desta vez sido suportados pelos próprios privados que exploram essa costa, pois da última intervenção tinham sido em parte os dinheiros públicos a custear os interesses privados que lucram com o negócio.

Hoje, dia 23/07/2006 fui expulso por um segurança da empresa Prosecom das Dunas Douradas quando tentava estacionar o carro para ir à praia.
Os senhores estão a construir 10 apartamentos em "cima" da àgua do mar e já se sentem donos da antiga praia "As Três Marias".

É mais um caso grave de apropriação privada do espaço público e a tentativa de apropriação da praia para "ricos" clientes expulsando o "povo" da dita cuja.

Grave do ponto de vista da democracia. Não acha, senhor Presidente da Câmara Municipal de Loulé?

João Martins

sexta-feira, julho 14, 2006

Proposta indecente

Gilberto Madail no seu melhor! Depois da catarse nacional e do bom desempenho da selecção portuguesa, há que reconhecê-lo, eis que aparece o caciquismo futebolistico no seu esplendor.

A proposta feita pelo senhor presidente da federação portuguesa de futebol no sentido de isentar de impostos os "pobres" trabalhadores do mundo da bola ultrapassou todas as expectativas de bom senso ao alcance do cidadão comum.

Num país em que o salário mínimo "nacional" ronda a miserável quantia de 350 euros por mês, o senhor Madail acha por bem que os nossos milionários futebolistas sejam "beneficiados" pelo bom serviço de salvação da pátria lusitana.

Eis uma proposta que diz tudo sobre quem a faz e que diz muito mais sobre como pensam e vêem o mundo os caciques do mundo da bola.

O futebol até há bem pouco tempo sempre foi um Estado Paralelo, qualquer coisa como um Estado dentro do Estado, onde a fuga ao fisco, a lavagem de dinheiro vindo de negócios escuros e os conluíos entre construtores civis, câmaras municipais e dirigentes desportivos adquiriam contornos de "normalidade". É o "sistema" a funcionar pois não pode ser de outra maneira já que todos fazem assim.

Se o meu vizinho compra os árbitros eu também tenho que comprar e este círculo vicioso alimentou-se desta "naturalidade" até à meia duzia de anos. Pena que aqui em Portugal o "apito dourado" não tenha qualquer repercussão social pois a nossa justiça infelizmente é tremendamente injusta.

Provavelmente temendo aquilo que acontece neste momento no futebol Italiano, onde a corrupção futebolistica já não passa impune, o senhor Madail decidiu fazer esta proposta legal e imoral simultaneamente.

Eu faço uma proposta decente. Por favor não tomem o dito "povo" por idiota, despeçam já esse senhor.

Quem assim pensa não pode continuar a desempenhar o lugar que ocupa.

Em nome dos impostos dos portugueses, de forma a que não precisem tanto de "apertar o cinto" para que afinal de contas o Estado Social vá passando a ser apenas uma parcela dos livros de História de Portugal.

Abraços e beijinhos

João Martins

terça-feira, julho 04, 2006

Lésbicas pois. Onde está o problema?

O canal dois da RTP está a fazer história com a transmissão da série "Lésbicas".

História, porque esta é uma categoria social estigmatizada e marginalizada ao longo dos tempos na sociedade portuguesa.

História porque está a tornar visível aquilo que é oculto no dia a dia de muitos cidadãos que vivem entre nós e a quem são escamoteados os seus direitos.

A homossexualidade é entendida na maioria das sociedades contemporãneas como "contra-natura", rejeitada e condenada pela igreja católica como um pecado divino e os homossexuais têm direito à sua existência social desde que se mantenham na sua invisibilidade.

Uma sondagem publicada pelo jornal Expresso há alguns meses atrás revelava que existem em Portugal perto de um milhão de homossexuais, o que quer dizer que existe a probabilidade de 1 em cada dez pessoas que conhecemos pertencerem a esta categoria sexual.

A sexualidade de cada um só ao mesmo diz respeito e o heterossexualismo saloio que vê a norma heterossexual como a única legitima não raras vezes resvala para a homofobia social. Que o digam os miúdos que no nosso país se "divertiam" a espancar um transsexual, terminando a "brincadeira" por lhe acabar com a vida.

Mais uma vez os nossos vizinhos Espanhóis já levam vantagem naquilo que são a defesa dos direitos das minorias sexuais e avançaram este ano com a legalização do casamento entre homossexuais.

Parabéns à RTP pelo contributo que ajuda a desmistificar este lado oculto da vida social e que condena tanta gente ao isolamento e à descriminação.

Para quando a legalização do casamento dos homossexuais em Portugal e o reconhecimento dos mesmos a uma via socialmente condigna?

Abraços
João Martins