"A universidade contemporânea sofre aquilo que Habermas designou como colonização do mundo-da-vida pelo sistema. Imperativos económicos e burocráticos invadiram esferas que operavam segundo lógicas comunicativas e éticas, transformando a instituição numa empresa prestadora de serviços educativos. A linguagem tornou-se reveladora: estudantes transformaram-se em "clientes"; programas de estudo, em "produtos"; investigação, em "transferência de conhecimento"; pensamento crítico, em "competências transversais". Bill Readings (Universidade em Ruínas,1996) dissecou esta reconfiguração: a cultura cede lugar ao discurso da "excelência", conceito cuja genialidade perversa reside na vacuidade semântica. Não possui referente externo nem conteúdo interno; todos concordam com a sua necessidade porque não significa rigorosamente nada. Serve apenas como denominador administrativo que permite quantificar o inquantificável, auditar o que não deveria ser auditável.
Pensamos através da linguagem. E quando o nosso próprio uso linguístico é corrompido pelo discurso dominante, a ideologia que tudo é um mercado torna-se reinscrita nas práticas quotidianas, operando ao nível mais fundamental da consciência. A universidade não foi conquistada de fora para dentro; foi colonizada de dentro para fora, pela adoção voluntária de uma gramática que lhe é estranha.
O projeto tem êxito notável: a universidade neoliberal não falha em educar. Produz exatamente a subjetividade de que o capitalismo financeirizado necessita. Se a lógica sistémica mina o terreno do mundo-da-vida, o resultado é um sistema que fabrica sujeitos neoliberais perfeitamente ajustados: indivíduos hipercompetitivos, perpetuamente endividados, obcecados com métricas quantificáveis, incapazes de valorizar o que não pode ser monetizado, desinteressados de solidariedades coletivas não instrumentais."
Pensamos através da linguagem. E quando o nosso próprio uso linguístico é corrompido pelo discurso dominante, a ideologia que tudo é um mercado torna-se reinscrita nas práticas quotidianas, operando ao nível mais fundamental da consciência. A universidade não foi conquistada de fora para dentro; foi colonizada de dentro para fora, pela adoção voluntária de uma gramática que lhe é estranha.
O projeto tem êxito notável: a universidade neoliberal não falha em educar. Produz exatamente a subjetividade de que o capitalismo financeirizado necessita. Se a lógica sistémica mina o terreno do mundo-da-vida, o resultado é um sistema que fabrica sujeitos neoliberais perfeitamente ajustados: indivíduos hipercompetitivos, perpetuamente endividados, obcecados com métricas quantificáveis, incapazes de valorizar o que não pode ser monetizado, desinteressados de solidariedades coletivas não instrumentais."
https://expresso.pt/opiniao/2026-05-20-fabrica-de-conformistas-como-a-universidade-trocou-o-pensamento-pelo-mercado-80adb3e4?