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terça-feira, abril 18, 2006

Problemas da cidade de Loulé 17: George W. Bush e o retrocesso civilizacional

Os tempos actuais são claramente tempos de retrocesso civilizacional, com riscos de regresso à barbarie que caracterizou os tempos da segunda guerra mundial.
Não tenho dúvidas que o 11 de Setembro contribuiu para legitimar novos atentados às liberdades dos cidadãos por parte dos Estados mais poderosos e hegemónicos.

O que significa o conceito de "guerra preventiva" promovido pela administração de Bush?

O que significa a célebre expressão "Apanhem-no vivo ou morto" (expressão digna do Faroeste) proferida pelo actual presidente Norte-americano a seguir aos atentados às Twin Towers, atropelando espantosamente as regras do Estado de Direito e dos estados que se dizem democráticos?

O que significou a guerra contra o Iraque decidida à revelia do Conselho de Segurança da ONU, legitimada sucessivamente como sendo em nome do combate ao terrorismo, em nome da restauração (será mais correcto "imposição") da democracia e em nome das armas de destruição maciça? (Que sabemos que nunca existiram e que os media através de montagens divulgaram por todo o mundo).

O que significa a "política do medo" instaurada na opinião pública inventando frequentemente inimigos fantasma? (E que conveniente é para desviar a atenção dos problemas internos das nações!!!)

O que significa o crescente controlo social dos cidadãos por parte dos Estados procurando colocar uma camara de filmar em cada canto de circulação das cidades?(Nunca sonharia George Orwell a que ponto a sua visão do Big Brother se poderia tornar real).

O que significa as afirmações de personagens como Bush de que se encontram preparados para atacar nuclearmente o Irão?

Um verdadeiro retrocesso civilizacional. Lamento dizê-lo, mas isto não é democracia.

Sinto-me impotente como cidadão para fazer face a estes poderes cuja capacidade militar e de destruição maciça nunca foi tão poderosa como nos dias de hoje.

Resta-me juntar a minha voz a quem possa ter alguma voz de protesto...e ter esperança que a barbárie não se venha a concretizar...mas ter esperança não significa ser optimista e neste momento só vejo cores negras ao fundo do túnel.

Parem a preparação da opinião pública para atacar o Irão já!!!

Até porque o petróleo já atingiu o recorde histórico de 72 dolares e isso não faz bem à saúde de ninguém...(a não ser de quem o vende claro!).

abraços

João Martins

quarta-feira, abril 12, 2006

Problemas da cidade de Loulé 16: Pode a democracia ser um regime pouco democrático?

Considero que a democracia é o menos mau dos sistemas de governo.

Se etimologicamente "demo" "cracia" significa o "governo do povo" e "para o povo", na realidade, a democracia não é mais do que o governo das elites sobre o povo, apesar da ideologia da governação em nome do "interesse geral" de inspiração Rousseauniana.

Robert Michels, célebre sociólogo italiano, demonstrou, através do que denominou de "lei de ferro da oligarquia dos partidos", que apesar dos partidos serem organizações fundamentais à vida democrática, tinham no seu seio uma lógica de funcionamento muito pouco democrática e que os partidos tinham portanto uma tendência para serem controlados por uma pequena oligarquia.

E este é claramente um dos maiores paradoxos da democracia. Sendo fundamentais à vida democrática os partidos tem um funcionamento interno muito pouco democrático.

Aos cidadãos nas democracias representativas resta-lhes hoje e apenas o direito ao voto ( o que historicamente é uma conquista civilizacional fantástica), mas que nas sociedades contemporâneas se torna muito pouco, perante a vontade crescente de participação dos mesmos e a constatação do esgotamento dos partidos como instâncias legitimas de participação política.

Contudo, o direito ao voto, limitadissímo como forma de expressão da vida democrática, em meu entender, tem sido um instrumento fundamental de rejeição de políticas e políticos que os cidadãos manifestamente repudiam, sendo portanto, fundamental, na regulação dos poderes assimétricos que regulam a vida das populações.

Foi assim com a rejeição massiva do governo de Cavaco e Silva.
Foi assim com a rejeição massiva de António Guterres (que soube tirar ilações disso mesmo e não foi comprendido por ninguém).
Foi assim com a rejeição de Santana Lopes(uma verdadeira "aberração" política que foi autenticamente pontapeado pelo dito "povo").
Foi assim com José Maria Aznar em Espanha (que quis enganar autenticamente as populações quanto aos atentados terroristas de Madrid)
E espero, deliciado, que seja assim com Silvio Berlusconi.

Este último, é a evidência de que a democracia pode ser um regime bem pouco democratico.

Controlou os canais públicos e privados de comunicação. Tornou a política um mero negócio de ocasião ao serviço dos seus interesses privados. Fez aprovar leis no parlamento italiano que lhe garantiram imunidade face aos crimes de corrupção de que estava a ser julgado, modificando o sistema júrudico em seu proveito próprio...coisa incrível num país que se diz democrático!!! Quem controla estes desvios da democracia???

Apesar disso, continuo a achar que a democracia é o melhor dos sistemas políticos, mesmo com todas as suas imperfeições...lamento é que a mesma não progrida na direcção do alargamento da democracia política, que não se extenda ao social, ao económico e ao cultural.

Que se vá Berlusconi!!!
Para que as preversões democráticas vão desaparecendo e para que o estado de direito não seja utilizado a favor dos interesses de algumas personagens para usurpação da coisa publica.

Um abraço

João Martins

sexta-feira, abril 07, 2006

Problemas da cidade de Loulé 15: O calor está a chegar e a época dos incêndios também

Desde que se deu no Algarve a maravilhosa "invenção social" do turismo que temos a já famosa "época balnear".
Com a crescente desertificação e despovoamento do interior do país e da nossa região descobrimos a "época dos incêndios".

A vaga de incendios que têm varrido o nosso país nos últimos verões têm induzido a pensar que se trata de uma "inevitabilidade" da mãe natureza.

Os próprios meios de comunicação social centram as suas coberturas mediáticas nas "espectaculares" imagens dos incêndios e na luta inglória do combate aos mesmos.

Fazendo isto mais uma vez os mass media distraem os cidadãos das questões centrais na discussão do problema dos incendios.

Ora aqui recordo alguns aspectos importantes, para que não se caia no erro de "naturalizar" a ideia que os incendios são uma "ira dos deuses", ou mesmo o resultado "irremediável" das vagas de calor.

E aqui, mais uma vez, não podemos ignorar as responsabilidades da inacção do poder político ao não tentar contrairar um modelo de desenvolvimento económico e social que agravou progressivamente as assimetrias sociais, contribuiu para a crescente litoralização do país (o país está a cair para o mar), a progressiva urbanização e o abandono total das regiões e povoações do interior.

Como resultado o território ganhou enormes desiquilibrios, os campos ficaram desabitados, as florestas e as matas sem gente para cuidar das mesmas e em vastas zonas do nosso país, nada restou a não ser enormes eucaliptais (verdadeiros "seca-vidas" verdade seja dita)acelerando-se assim a geral desertificação do nosso país assim como da região do Algarve.

O debate sobre o "problema" dos incêndios têm-se centrado de forma "miope" no combate aos mesmos e nos meios materiais e humanos mais ou menos escassos que haveriam ou não ao dispor dos bombeiros.

Todos sabemos que o combate aos incêndios é importante mas aquilo que verdadeiramente poderia mudar alguma coisa é mesmo a PREVENÇÃO.

E quanto à prevenção o que têm feito os nossos políticos?

Nada ou muito pouco.

As matas têm sido limpas? Muito pouco. A maioria dos proprietários não tem dinheiro, nem apoios para tal.

Existe uma política de desenvolvimento das populações e localidades do interior?
Muito pouco ou nada tem sido feito.

Pelo contrário, alguns bens e serviços que poderiam manter a fraca população que ainda vai existindo nas aldeias estão a ser "extintos" por motivos de "racionalidade" económica.

Sócrates anunciou o fecho de escolas, de centros de saúde, e de outros serviços em que o número de habitantes não justifica a sua continuidade (do ponto de vista meramente económico claro).

Foram contratados guardas-florestais para vigiar, limpar e cuidar das florestas?
Não me parece que o "défice" o permita.

Sintetizando, apostamos em atacar as "consequências" e negligênciamos completamente as "causas".

Enfim, espero que minha previsão esteja errada e que o resto que sobra das paradisíacas serras de Monchique e do Caldeirão (verdadeiros pulmões da nossa região)não tenha o mesmo destino que nos últimos anos.

E que os poderes políticos depois não retirem ainda vantagens políticas das campanhas de solidariedade de "bom coração", com estas desgraças para as quais contribuem...mesmo que seja por inacção.

Porque por vezes, mais importante do que aquilo que se faz, é aquilo que não se faz, e que deveria ter sido feito...

Boa Pascoa e abraços para todos os algarvios.

João Martins

sexta-feira, março 31, 2006

Problemas da cidade de Loulé 14: Elas, as cotas e a democracia

Não tenho qualquer dúvida de que elas são mais descriminadas do que eles.
Elas esfregam o fogão, eles nem por isso. Elas mudam as fraldas aos bébés, eles nem por isso. Elas lavam a sanita, eles nem por isso. Elas cuidam dos idosos, eles nem por isso. Elas têm em geral uma dupla jornada de trabalho, eles nem por isso.
Elas executam trabalho remunerado e não remunerado (trabalho doméstico visto como não trabalho e por isso não pago, que bem serve à reprodução do sistema capitalista e à sua mais fácil acumulação).

Elas, mesmo quando eles estão desempregados, é que tratam dos afazeres domésticos. Elas, para o mesmo tipo de actividade profissional, em média, ganham menos do que eles.
Elas, ocupam os empregos menos prestigiantes e pior remunerados em geral. Elas, à medida que vamos para o topo da hierarquia das empresas vão perdendo representatividade estatística.
Elas, no interior do sistema político e dos cargos de poder são quase inexistentes.

Elas, para serem reconhecidas como competentes por eles têm que ser duplamente melhores que eles.
Elas estão em maioria nas escolas e nas universidades e em média têm melhores notas que eles.

Elas ao longo da história conseguiram progressos notáveis em direcção à igualdade social.
Elas já foram muito mais discriminadas do que nos dias de hoje, mas hoje é que fazem ouvir a sua voz com força. Quem não se recorda da autorização prévia dos maridos para elas saírem para fora do país durante o Estado Novo!

Mesmo assim tenho dúvidas, muitas dúvidas sobre as cotas. Mais á frente explico porquê.

Mas neste debate das desigualdades de género, habitualmente no discurso político e nas ideias de senso comum existe uma grande falácia!!!

E a falácia é a seguinte;

É que elas não são só elas!

Elas situam-se numa determinada classe social, são brancas, pretas ou amarelas, são jovens ou idosas, são deficientes ou muçulmanas e isto baralha todas as contas políticas possíveis sobre as desigualdades entre homens e mulheres.

Os estudos sociológicos sobre as desigualdades de género são concludentes:
Elas, quando pertencem a um lugar de classe previligiado atenuam bastante as desigualdades.
Ocupam também cargos de topo e intermédios, apesar de mais ligados à educação e ao cuidar dos outros, eles dominam mais do lado económico e político.

Elas quando previligiadas, têm uma divisão do trabalho doméstico mais equilibrado e a "ajuda" deles (ou então recorrem à contratação de trabalho doméstico feminino, elas, quando previligiadas, têm um forte poder nas decisões familiares e nas externas à vida familiar.

Elas, quando previligiadas socialmente, têm independência, autonomia e são senhoras da sua vida.

O problema é quando elas estão situadas nos lugares de classe mais desfavorecidos. Aí, elas, são duplamente desfavorecidas. Esfregam por eles, cozinham por eles, educam os filhos por eles, cuidam dos idosos por eles, estão dominadas por eles.

A variável classe social baralha todas as contas das desigualdades de género.

Sobre as cotas...o que alimenta as minhas dúvidas é simplesmente isto...

- Estão as classes socias igualmente representadas no parlamento e na vida política???...os pobres, o dito "povo", não está com certeza. Ok...um terço de quotas para o pobre povo.

- Estão os africanos, os chineses, os imigrantes de leste, representados no parlamento??? Não estão. Ok...cotas para os coloridos "não brancos".

- Estão os jovens representados nos orgãos de poder político equitativamente??? Não estão...ok...cotas para os jovens.

- Estão os deficientes representados nos pricipais orgãos políticos onde se tomam decisões??? Não estão...ok...cotas para os deficientes de todos os tipos.

Já agora, vale a pena dizer, embora seja políticamente pouco correcto, que as maiores desigualdades da nossa sociedade, são as desigualdades de classe, mas essas estão claramente despolitizadas.

É como se o capitalismo para se alimentar a si próprio incessantemente, precisa-se de ocultar que é um sistema fortemente desigualitário, legitimando-se as desigualdades de classe como uma "inevitabilidade" da vida social, uma espécie de destino de Deus, que quiz que uns fossem ricos e outros pobres...pobres mas honrados diria Salazar.

Esta "naturalização" da desiguadade em relação às classes sociais valia a pena voltar à ordem do dia.

Mas eles e elas, quando ambos pobres, não têm a voz reindivicativa que têm elas, quando mais favorecidas.

Quotas...não sei, continuo com dúvidas e aberto à discussão.

Um abraço e bom fim de semana

João Martins

domingo, março 26, 2006

Problemas da cidade de Loulé 13: Entre o público e o privado. Autarcas e resquícios do ethos salazarista

Rui Rio é o seu nome. É presidente da Câmara Municipal do Porto e revelou em todo o seu esplendor como o salazarismo está incorporado na alma de uma boa parte dos autarcas da sua geração.

Só um génio poderia decretar que a partir de agora só os problemas dos cidadãos considerados como de carácter público pela autarquia serão atendidos por este esplendido autarca.

Brilhante...nenhum regime ditaturial faria melhor.

O problema agora é definir o que é que é um problema público e o que é um problema privado.

Penso que no Porto a autarquia resolverá bem o caso...criará a categoria profissional de "Técnicos de Selecção dos Problema Públicos e Privados" e impõe uma ordem de prioridades cuja primeira imagino que será a seguinte:

- Se for um cidadão com um problema importuno para as políticas da autarquia é "problema privado", logo não atendível porque incómodo...se for um problema oportuno para a situação, é problema público pois não põe em causa o status quo.

Pierre Bourdieu, grande sociólogo Francês que morreu recentemente utiliza o conceito de Habitus para significar as condutas sociais, as maneiras de ver e de julgar os outros e as coisas da vida que são herdadas pelo passado, pela nossa socialização anterior e que por vezes estão tão incorporadas em nós, que se "naturalizam" e nos fazem mover e agir de acordo com as nossas aprendizagens passadas.

No caso de uma boa parte dos nossos autarcas isto é claro como a água, foram socializados num regime fechado, autoritário e pouco aberto ao confronto de pontos de vista inerentes à vida democrática. Logo o seu habitus contribuiu para a construção de personalidades predominantemente autoritárias.

O caso do Porto é evidente.

Já agora...no castelo de Loulé colocaram uma bandeira nacional que em noites de ventos fortes impede os meus pais de descansarem com a tranquilidade necessária levando-os quase á loucura.

Isto é um problema público ou privado?

Eu dou a resposta: - Depende da concepção de democracia de cada um dos nossos autarcas...no Porto será privado com toda a certeza...


Abraços e boa semana

João Martins

domingo, março 19, 2006

Problemas da cidade de Loulé 12: Sobre os cidadãos invisiveis e ausentes da vida social

Existem algumas categorias de "cidadãos" que são invisíveis no espaço social.

São invisibilisados pela sociedade, rotulados de "anormais", estigmatizados e não poucas vezes segregados dos principais espaços de acesso à cidadania e de uma vida social minimamente condigna. Este é o caso das pessoas com os mais variados tipos de deficiência.

São cidadãos apenas diferentes e com diferentes necessidades sociais, mas a quem são muitas vezes negados os direitos sociais elementares, tais como o acesso à educação e à aprendizagem ao longo da vida, ao trabalho, à eliminação das barreiras físicas e sociais, que permitiriam o desenvolvimento das suas capacidades na sua plenitude.

As políticas estatais de apoio às populações deficientes não têm caminhado no sentido da igualização de oportunidades sociais desta categoria de cidadãos.

Também aqui, como noutras dimensões da nossa vida social, a prática legislativa é muito mais avançada do que as práticas sociais.

Se a legislação em Portugal prima por traços de modernidade Europeia, já ao nível das praticas de apoio às populações deficientes, estamos a anos luz das necessidades sociais existentes.

Mais uma vez aqui é preciso responsabilizar não só todos nós cidadãos, mas também o poder político quer a nível central, quer regional, quer local.

Sejamos sinceros, as políticas de apoio à deficiência têm sido um fiasco total e as populações deficientes não têm sido objecto de prioridades por parte do diferentes governos que têm passado pelo poder no nosso país.

Os deficiêntes têm estado entregues a si próprios e têm sido algumas associações comunitárias que têm tido um papel fundamental no "remediar" (sejamos objectivos, chamemos-lhe assim) da qualidade de vida desta categoria de cidadãos.

Quanto à educação escolar, o Estado a determinada altura diminuiu o apoio às instituições especializadas e apostou ("discursivamente") na integração dos estudantes com necessidades especiais, nas estruturas educativas do ensino regular.

O problema é que não preparou as infraestruturas existentes, materiais e humanas, para que essa integração tivesse sucesso.

Agrava esta situação a pressão social neoliberal para a retirada do Estado na intervenção do social e a "ditadura" política da governação em função do "déficit".

A economização e mercadorização da vida social penaliza claramente a população mais desfavorecida socialmente e a população deficiente em geral fica ainda mais penalizada na sua existência social.

Felizmente existem alguns exemplos brilhantes de intervenção social por este tipo de causas que não resolvendo o problema de fundo, muito pelo contrário, fazem um trabalho notável no atendimento e na melhoria de condições de vida dos individuos portadores de deficiência e das suas famílias.

Em Loulé, uma dessas instituições designa-se de UNIR e trabalha no apoio aos cidadãos com deficiência mental.

Funciona com a corda na garganta, mas faz um trabalho social notável...parabéns para os seus responsáveis...que são verdadeiros heróis incógnitos, muitas vezes, da vida da nossa polis.

Deixo aqui um apelo para que sempre que puderem ajudem este tipo de associações...das maneiras que acharem pertinentes...todos os contributos serão poucos...

Em prole de uma democracia que proporcione uma verdadeira igualdade de oportunidades para todos os seus cidadãos e que não descrimine aqueles que são apenas diferentes das pessoas que consideramos normais.

A propósito...estou gordíssimo...peso quase 100 quilos...tenho 1 metro e setenta...e não tenho dois dentes molares.

Serei "normal"?

Um abraço e boa semana e não se esqueçam...sempre que puderem ajudem que eu vou fazer o mesmo.

domingo, março 12, 2006

Problemas da cidade de Loulé 11: Anda um espectro pela Europa - o espectro do fundamentalismo neoliberal

Em 1848, numa obra que viria a contribuir para mudar o mundo "O Manifesto do Partido Comunista", Karl Marx começava assim as suas ideias:

"Anda um espectro sobre a Europa - o espectro do Comunismo".

Hoje, passados 158 anos, nunca imaginaria Marx que o espectro que paira sobre todo o mundo é o do fundamentalismo neoliberal.

A que propósito vem esta questão?

Quem tenha estado atento ao que se tem passado em França na última semana, constata facilmente como a vaga fundamentalista neoliberal procura espalhar-se por todo o globo como uma inevitabilidade das "necessidades do mercado".

O governo Francês quer impor à sociedade Francesa e aos jovens em particular uma medida de "combate" ao desemprego que consiste em precarizar a precarização.

É o já famoso CPE - Contrato de Primeiro Emprego - que prevê que os jovens possam ser despedidos, sem quaisquer indemenizações, a qualquer momento, pelos empregadores nos primeiros dois anos de contrato, instaurando uma precarização total da vida laboral e social dos jovens.

Esta é a receita encontrada pelo governo Francês para fazer face à já elevadíssima taxa de desemprego dos jovens em França.

A vaga neoliberal, agora contemporaneamente instaurada subtilmente em "inevitabilidade" da "globalização" e a ideologia do mercado que defende este funcionar por si próprio num ajustamento perfeito, tem contribuido para um ataque aos direitos sociais conquistados pelo movimento operário ao longo da história Ocidental. A ideologia "menos Estado, melhor Estado" tem vindo a galgar terreno em todo o mundo ocidental.

O desemprego juvenil é alarmante e a escola tem funcionado como um "parque de estacionamento" e uma "almofada social" da contestação e da revolta políticas.

Quando as políticas de precarização passam a ter conteúdos explicitos na lei formal a revolta dos jovens adquire contornos significativos.

Não é um Maio de 68 o que assistimos em França, mas não deixa de ser um sintoma de doença grave da organização das sociedades ocidentais.

Agora pergunto eu, se cada vez se é "jovem" até mais tarde, se a transição para a vida "adulta" considerada com a passagem à vida "activa" é feita cada vez mais tarde e em situação mais precária...

Se cada vez mais somos "velhos" para o trabalho cada vez mais cedo, reduzindo o tempo de trabalho a um período cada vez mais curto e precário...

O que vai impedir uma explosão social de uma maioria cada vez mais precarizada, angústiada e com expectativas sociais bloqueadas?

Fica a pergunta, chamando a atenção para o caso da sociedade Francesa onde a revolta dos suburbios é um sinal dos tempos que aí se aproximam.

Boa semana e vigiem os vossos direitos...estes custaram muito sangue, suor e lágrimas para que se concretizassem...

João Martins

domingo, março 05, 2006

Problemas da cidade de Loulé 10: O Estado, Sócrates, os bons pobres e os maus pobres

A medida agora anunciada por José Socrates de combate à pobreza através do apoio aos idosos é uma decisão política que merece todo o meu aplauso.

Nenhum ser humano digno desse nome,"humano", negará que os idosos são das categorias sociais mais penalisadas em termos de desigualdades sociais e onde a pobreza em Portugal está mais concentrada.

Para além de ser uma inteligente medida política de caça ao voto, uma vez que com o envelhecimento da população concentra cada vez mais eleitores no topo da pirâmide demográfica, são este tipo de medidas que acabam por distinguir hoje a esquerda da direita, pondo em causa aqueles que dizem que hoje esta distinção não faz sentido.

Contudo...e porque há sempre um mas...esta medida sofre de uma miopia que tem atravessado diversos regimes políticos, sejam eles monarquicos, repúblicanos, Salazaristas ou democráticos.

E o problema é este...é que os nossos governantes teimam em distinguir os "bons pobres", merecedores da caridade do Estado e os "maus pobres" de quem há que desconfiar e agir em conformidade.
Temos então um Estado que decide em função de dois tipos de cidadãos, os "merecedores" porque honestos e os "malvados" porque não são cidadãos de bem.

Trago-vos um texto de Eça de Queiróz na sua obra "O Conde de Abranhos" para que reflitam sobre o assunto e que vejam que o mesmo já não é novo, pois esta obra é de finais do século XIX.

Sem comentários... deliciem-se por favor, passo a citar:

"Além disso, ele reconhecia que a caridade era a melhor instituição do Estado. Quanto ao pauperismo, tinha-o como uma fatalidade social: fossem quais fossem as reformas sociais, dizia, haveria sempre pobres e ricos: a fortuna pública deveria estar naturalmente toda nas mãos de uma classe, da classe ilustrada, educada, bem nascida. Só deste modo se podem manter os Estados, formar as grandes indústrias, ter uma classe dirigente forte, por possuir o ouro e base da ordem social.

Isto fazia necessariamente que parte da população "tiritasse de frio e rabiasse de fome".

Era certamente lamentável, e ele, com o seu grande e vasto coração que palpitava a todo o sofrimento, lamentava-o.

Mas a essa classe devia ser dada a esmola com método e discernimento:

- e ao Estado pertencia organizar a esmola. Porque o Conde censurava muito a caridade privada, sentimental, toda de espontaneidade. A caridade devia ser disciplinada, e, por amor dos desprotegidos regulamentada: por isso queria o Asilo, o Recolhimento dos Desvalidos, onde os pobres, tendo provado com bons documentos a sua miséria, tendo atestado bons atestados de moralidade, recebessem do Estado, sob a superintendência de homens práticos e despidos de vãs piedades, um tecto contra a chuva e um caldo contra a fome.

O pobre devia viver ali, separado, isolado da sociedade, e não ser admitido a vir perturbar com a expressão da sua face magra e com narração exagerada das suas necessidades, as ruas da cidade.

"Isole-se o Pobre!" dizia ele um dia na Câmara dos Deputados, sintetizando o seu magnifico projecto para a criação dos Recolhimentos do Trabalho. O Estado forneceria grandes casarões, com celas providas de uma enxerga, onde seriam acolhidos os miseráveis.

Para conseguir a admissão, deveriam provar serem maiores de idade, haverem cumprido os seus deveres religiosos, não terem sido condenados pelos tribunais (isto para evitar que operários de ideias suversivas que, pela greve e pelo deboche, tramam a destruição do Estado, viessem em dia de miséria, pedir a esse mesmo Estado que os recolhesse).
Deveriam ainda provar a sobriedade dos seus costumes, nunca terem vivido amancebados nem possuírem o hábito de praguejar e blafesmar. Reconhecidas estas qualidades elevadas com documentos dos párocos, dos regedores, etc.; seria dada a cada miserável uma cela e uma ração de caldo igual à que têm os presos"

Eça de Queiróz em "O Conde de Abranhos" pag.34 e 35.

Pois é, continuamos no séc. XIX. O Conde agora tem é outro nome...

Um abraço e boa semana.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Problemas da cidade de Loulé 9: O desporto juvenil em Loulé: Entre o desenvolvimento de competências sociais e a produção de frustrações

É um facto social adquirido e que creio que reúne consenso que o desporto pode ser um fantástico mecanismo de integração social dos jovens.

Digo pode ser, porque a forma como pais, educadores, treinadores e directores desportivos encara o mesmo na prática dos jovens, pode fazer toda a diferença para que a pratica desportiva possa contribuir para a integração dos jovens na sociedade ou pelo contrário produza frustrações na juventude, que por vezes são irreparáveis e vão marcar toda a sua vida futura.

O futebol juvenil dos clubes de loulé é disto um bom exemplo. Vejamos então as duas faces da moeda.

Competencias de desenvolvimento social e pessoal que a prática do futebol jovem pode proporcionar:

- Aprender a trabalhar em equipa. Numa sociedade cada vez mais complexa, as competências de cooperação com os outros, de aprendizagem partilhada e de relação grupal são fundamentais e a educação escolar é muito limitada no desenvolvimento deste tipo de competências.

- Aprender a competir saudavelmente e aprender a ganhar e a perder jogos.
Também a vida social e profissional é feita de "derrotas" e "vitórias" e aprender que a vida é feita de coisas boas e outras menos boas é uma aprendizagem fundamental.

- Ganhar capacidade de resistencia à frustração. Os psicólogos falam de resiliência. E o aprender a perder, é hoje uma competência fundamental numa sociedade em que o capitalismo predador e selvagem pode tornar frágeis as identidades pessoais e sociais. O drama do desemprego e a competição selvagem nas empresas é disto um bom exemplo.

- Mas o futebol pode contribuir ainda para a integração na sociedade, produzindo redes sociais e de amizades, assim como o sentimento de pertença ao grupo e portanto de integração na comunidade.

- Competências de controlo de si, dominio do corpo, da relação com o espaço e de gestão do tempo são também adquiridas com o jogo e acompanham-nos pela vida fora e que preciosas podem ser.

- Aprender a escutar, a aceitar as decisões dos líderes, a ser disciplinado, a gerir o imprevisto, a expôr-se públicamente e a ser apreciado socialmente, assim como aprender a ser criticado e a saber aceitar a crítica pública.

Enfim, estas são apenas algumas das competências sociais que a prática do futebol produz e muitas outras poderia enumerar a partir da minha experiência como praticante de futebol federado, com quase vinte anos de prática da modalidade.

Mas a face negra da moeda também pode estar presente e vou destacar aqui os aspectos principais que têm a ver com a PRODUÇÃO DE FRUSTRAÇÕES E DE IDENTIDADES PESSOAIS FRUSTRADAS.

É muito frequente, assisti a isto inumeras vezes, por parte de pais, treinadores de futebol juvenil e directores, pôr-se a competição desportiva à frente da formação pessoal e social dos jovens.

Não digo que a competição não seja importante, o que digo, é que esta não se poderá impor nunca aos objectivos de formação pessoal e social e à função de integração dos jovens na sociedade.

Conheci muitos pais que queriam à força que os filhos fossem profissionais de futebol.
O sonho de mobilidade social ascendente, através de uma carreira artística e futebolistica está muito presente, sobretudo nas classes sociais mais pobres.

São estes que são sobretudo penalizados por expectativas irrealistas criadas a partir dos grupos de referência desportiva e não dos seus grupos de pertença.

"O meu filho ainda há-de jogar no Benfica".

Infelizmente treinadores e directores vão muitas vezes na mesma "onda" e contribuem para a elevação de expectativas quase sempre irrealistas pois criam os seus "craques" e as suas "vedetas" locais às vezes logo desde tenra idade.

Tudo isto não seria muito grave se a escola não ficásse para segundo plano, se a baixa escolaridade não se traduzisse em emprego desqualificado ou mesmo se a estrutura de oportunidades desportivas da região permitisse o acesso a tão desejadas carreiras.

Infelizmente a realidade é perversa e em cada 1000 futebolistas jovens talvez 4 ou 5 façam uma carreira futebolistica mediana.

O que quer dizer que para muitos outros, são sonhos destruidos que foram fabricados que ficam.

Alguns deles têm mesmo passagens e caídas na droga e em vidas de toxicodependencia e alguns ainda, ficam com a sensação de terem sido enganados por tais produtores de falsas expectativas.
"Se soubesse o que sei hoje, não tinha abandonado a escola tão cedo".

Fica o alerta para os pais, educadores, treinadores do futebol jovem e directores desportivos.

Para que o futebol juvenil de Loulé seja um extraordinário instrumento de integração social e para que os jovens não se divirtam a matar os sem abrigo como desporto, tal como aconteceu esta semana em Portugal.


Um abraços a todos e bom Carnaval.

João Martins

sábado, fevereiro 18, 2006

Problemas da cidade de Loulé 8: Existem horas melhores do que outras para levar a cultura à população de Loulé?

Hoje decidi falar-vos de cultura e do horário de funcionamento da biblioteca de Loulé.

Começo por reconhecer que a oferta cultural da cidade de Loulé teve progressos inequívocos na última década e meia.

Não que a considere suficiente para o desenvolvimento social e cultural da população Louletana, muito longe disso, mas reconheço que comparando o antes com o depois, numa perspectiva longitudinal, as melhorias são reais.

O mesmo já não posso dizer se a comparação tiver um carácter sincrónico, pois através deste método de comparação, as assimetrias culturais no acesso à cultura são evidentes, estando a provincia a anos luz da oferta cultural das grandes metrópoles do país.

As assimetrias sociais revelam também aqui as suas marcas e viver numa cidade como Loulé ou viver na capital do nosso país evidencia uma clara desigualdade social no acesso aos bens culturais e portanto na possibilidade de nos desenvolvermos como pessoas.

Disto isto, não posso deixar de felicitar os mentores da criação da Biblioteca Municipal de Loulé, pois é daqueles bens públicos cujos efeitos são decisivos no desenvolvimento económico, social e cultural de uma população, mas cujos efeitos sociais são de médio e longo prazo (e portanto não se traduzem em votos)e por isso são alvo de fraca aposta política.

A biblioteca já entrou no imáginário de uma parte da população (pelo menos aquela que é portadora de maior capital cultural) mas ainda funciona a meio gás em minha opinião.

O que penso que poderia ser feito para elevar os hábitos de leitura da população louletana através da bibloteca?

Um aspecto importante tem que ver com o horário de funcionamento da biblioteca. Se o horário de funcionamento for o mesmo que o horário de trabalho da maioria da população trabalhadora será possível atrair novos leitores?
Com certeza que não!
É ao fim de semana que as pessoas têm mais tempo para se dedicarem às coisas da cultura e é nesse período de tempo que as acções estratégicas deveriam ser elaboradas com o objectivo de captar novos públicos.

A biblioteca Municipal de Beja é um excelente exemplo de como foi possível democratizar o acesso aos bens culturais, cultivando o gosto pela leitura em públicos até então pouco habituados à mesma.
Quem passe em Beja ao Sabado à tarde terá o prazer de observar crinaças, jovens, adultos e idosos dos mais variados estratos sociais a fazerem fila à porta da biblioteca à espera que a mesma abra as portas.

O gosto cultural é algo que não é inato e que nasce com os indivíduos. É algo que tem que ser cultivado e em que a oferta cultural existente é crucial para que a procura cultural se desenvolva.
Se ao fim de semana só os bares e as discotecas abrirem em Loulé, será essa a procura cultural das nossas crianças e jovens...com todas as consequências previsíveis...

Parabéns para quem criou o projecto da Bibioteca Municipoal de Loulé...mas a infra-estrutura por si é um elemento inerte.
É necessário potencializá-la e criar dinâmicas onde elas ainda não existem...dá menos votos que a contrução de estádios de futebol ou de rotundas... mas contribui decisivamente para o enriquecimento social e cultural da população louletana.

Abraços a todo o pessoal.

João Martins

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Problemas da cidade de Loulé 7: O médico sapateiro no Centro de Saúde de Loulé

Como todos já percebemos o clima terrestre anda completamente às "avessas". Tsunamis, furacões, chuvas torrenciais nos momentos e locais onde menos se espera e fortíssimas oscilações entre períodos de calor e de frio são realidade com que passámos a conviver.
Existe hoje um consenso na comunidade científica de que este tipo de fenómenos tem vindo a ocorrer com cada vez maior frequência e maior intensidade, sendo plausível correlacioná-los com o crescimento das sociedades industriais e a sua capacidade poluente.

Loulé, porque não consegue escapar a este movimento de globalização das alterações climáticas, teve a semana passada uns dias em que o frio pouco habitual para um algarvio digno desse nome ultrapassou os padrões de normalidade da nossa praça.
Como todos sabemos nestas alturas em que o frio aperta, as principais vitímas são os cidadãos mais fragilizados, tais como,idosos e crianças.

É importante lembrar que apesar de sermos dos países da Europa (o primeiro se não estou em erro) com mais horas de sol, somos também aquele em que a probabilidade de morte por causa do frio é maior.
A explicação é fácil, confiamos tanto no nosso bom clima que descuramos completamente a construção dos edifícios em que habitamos (aqui estava um bom motivo de conversa entre políticos e construtores).

Mas não era disto que vos queria falar...o assunto é que o meu Pedrocas ficou com uma forte constipação, devido a esta "anormalidade" (por enquanto) climática.
Três da manhã e lá vou eu preocupado com o estado de saúde do meu bébe.
Centro de Saúde vazio (a esta hora e com este frio ninguém quer ficar doente). Primeiro cliente a ser atendido (coisa inedita) e o médico de serviço manda despir o Pedro...

Primeira perplexidade: O srº doutor "tenta" ver a garganta do Pedro e este recusa. Importante dizer que se trata de um bébé de um ano.

Nova investida do médico para tentar desempenhar competentemente o seu ofício...o Pedro volta a fugir...faz birra e recusa ser tocado por esta estranha criatura...O médico acaba de perceber que está perante um agente activo com vontade própria e fica com um ar entre o zangado e o frustrado...

Segunda perplexidade: O médico amuou e acaba por desistir temporariamente de auscultar o bébé. A sua comunicação verbal e não verbal indicia que a culpa é da mãe do bébé que não o sabe segurar correctamente...

Fiquei entretanto espantado, meio irritado e impávido perante tal deformação profissional...pensei...o médico parece um sapateiro (sem desprimor desta nobre profissão)...que incrível falta de jeito...e nem sequer é espanhol...

Por fim, lá se realizou a consulta com alguma normalidade e o Pedro veio para casa curar o resto da constipação.

Escrevo estas palavras pois quero só alertar para a importância de uma formação inicial e contínua de carácter humanista na formação em medicina.
Se o médico é um ser social que lida diariamente com outros seres sociais na sua vida profissional é inadmissível que a formação continue centrada no paradigma biomédico e numa perspectiva meramente tecnicista.

Só com uma formação humanista poderão estes profissionais perceber que um utente adulto não é o mesmo que uma criança e vice versa e que cada utente é um caso unico que implica um saber fazer específico...e um conjunto de competências sociais que estão para além da mera especialidade científico-técnica...

Talvez assim também os médicos aprendessem com os seus doentes e contríbuisssem para a melhoria da saúde dos mesmos...sim, porque a construção social da saúde e da doença é uma construção interactiva, onde o assumir do papel de doente pode ser tão ou mais importante no dignóstico e no tratamento do doente, do que a mera prescrição médica baseada no seu poder pericial.

Abraços a todo o pessoal

sábado, fevereiro 04, 2006

Problemas da Cidade de Loulé 6: Sobre a democracia e a ausência da mesma na vida das empresas

Revisitando a Experiência de Hawthorne que celebrizou Elton Mayo e deu início à Escola das Relações Humanas, encontro lá alguns dos pressupostos base da vida nas organizações, que não sendo receitas a aplicar "tout cour", deveriam ser elementos de reflexão de qualquer empresário digno desse nome.

1. O pressuposto que o ser humano não se seduz por motivações de carácter meramente económico e tem necessidade de ser reconhecido e apreciado socialmente por aquilo que faz e realiza no seu trabalho diário.

2. O pressuposto que o ser humano não é uma mera máquina adaptada ao sistema produtivo e necessita da vida de grupo e do sentimento de troca e de prazer das relações espontâneas e informais que se estabelecem entre colegas.

3. O pressuposto que o ser humano estará melhor integrado se participar de corpo inteiro na missão e nos objectivos da organização.

4. O pressuposto que a liderança democrática proporcionará um maior nível de satisfação (atenção que falo de satisfação e não de produtividade) no trabalho e no clima social das empresas.

5. Enfim, que se se conciliar os objectivos das organizações com os objectivos dos individuos (quando tal for possível claro) isso seria benéfico para a vida dos indivíduos e das empresas onde os mesmos trabalham.

Estes pressupostos infelizmente (com algumas raras excepções) são completamente ignorados pela "Gestão de Recursos Humanos" da maioria dos empresários da nossa praça.

Alguns amigos e conhecidos contam-me histórias do arco da velha.
Desde o medo de falar com os superiores hierárquicos temendo reprimendas, à desvalorização total de quem se dedica de corpo e alma á sua profissão (desvalorização mais frequente nas mulheres que nos homens diga-se de passagem), até a colegas que vão chorar nas casas de banho para esconder as lágrimas depois de enxovalhadas na sua dignidade pessoal e profissional pelos "patrões"...e poderia continuar estórias deste género até ao infinito...

Estes são sinais de pré-modernidade e de um tecido produtivo ainda "enquistado" e a funcionar à velha maneira portuguesa.

Presto a minha homenagem a todos os colaboradores de empresas que sofrem com estes comportamentos "bárbaros" e fico com a esperança para que as práticas de recursos (não confundir com a habitual gestão de pessoal) se institucionalizem o mais rapidamente possível também na nossa paróquia.

Para que tenhamos empresas mais produtivas e para que diminua o risco de doenças psicológicas nos colaboradores.

Em prole de pessoas e empresas mais felizes e da extensão da democracia à vida das empresas.

Bj e abraços para todos.