sexta-feira, novembro 25, 2011

Imagens Da Manifestação Em Dia De Greve Geral: Lisboa 24 de Novembro - II



Não sei quantas pessoas fizeram greve nem quantas se manifestaram em direcção à Assembleia da República, talvez isso nem seja o mais importante do dia de ontem. Sei que estive lá e que a percepção de quem está implicado por dentro é necessariamente diferente dos comentadores de ocasião que no conforto dos seus gabinetes de imprensa conseguem produzir à distância os discursos mais incríveis sobre a greve e a manifestação. A imprensa portuguesa dos dias de hoje deveria fazer uma reflexão profunda sobre o seu papel na intermediação para o mundo. Os novos cães de guarda do capitalismo estão na sua maioria ao serviço dos interesses bem defendidos pela Troika.

A vivência de uma manifestação por dentro é uma vivência ímpar de experenciação do agir colectivo. É a segunda manifestação em que participo junto dos "indignados". Este rótulo serve para ocultar uma extraordinária diversidade de características sociais pautada por alguns interesses comuns. Professores, estudantes, artistas, desempregados, precarizados, reformados, homens, mulheres (muitas e de todas as idades) jovens, menos jovens, crianças, pequena burguesia citadina em geral, formam um compósito heterogéneo com interesses de classe em comum. Em algumas coisas nucleares estão de acordo. Não querem cá a Troika, rejeitam as políticas de austeridade, questionam o capitalismo selvagem, apontam baterias à banca e aos políticos do sistema, reclamam um futuro que percebem estar a ser hipotecado, exigem a mudança, defendem que outro mundo é possível, rejeitam todo o tipo de inevitabilidades.

Uma simples análise de conteúdo das palavras de ordem e das mensagens fortes dos cartazes permitiriam constatar isso. Trata-se de recusar com veemência as políticas de empobrecimento e defender com consciência social o bem precioso que é a democracia. Quem circular no meio dos "indignados" percebe que está junto do Portugal mais informado, mais consciente políticamente e com pleno esclarecimento dos direitos e deveres inerentes ao viver em democracia. Deste ponto de vista o movimento dos "indignados" representa talvez uma nova forma de relação com a política e a causa pública totalmente distinta das manifestações dos sindicatos. Se muitos dos interesses de ambos os movimentos são comuns, o movimento dos "indignados" está marcado pela subida das singularidades societais enquanto os tradicionais movimentos dos sindicatos apagam de certo modo essas mesmas singularidades.

Do lado dos "indignados" cada um faz o seu cartaz dando asas à sua criatividade. Em cada cidadão existe um partido político. Nos cartazes nas paredes podia-se ler: "sê o teu sindicato". Do lado dos sindicatos cada um dos manifestantes leva a bandeira vermelha do movimento sindical com o qual se confunde e se funde. O cruzamento das duas manifestações na chegada à Assembleia da República foi o cruzamento do colorido do arco-íris com o vermelho monocolor. A junção dos dois movimentos independentemente das cores com que cada um se pinta ainda é aquilo que pode vir a dar alguma esperança ao futuro dos portugueses.

Foto: João Martins

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