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sábado, novembro 17, 2007

Competência, cordeirinhos e pertença ao rebanho

Segui os telejornais da RTP desta semana com muito interesse e expectactiva.

"A Administração da RTP deu indicações aos responsáveis pela condução do processo contra o jornalista José Rodrigues dos Santos para que o pivot do Telejornal seja demitido custe o que custar".
Fonte: Público de 15/11/2007

Expectativa, porque seria o máximo da ironia ver o Pivot José Rodrigues dos Santos abrir o jornal da noite, com a notícia do anúncio do despedimento, do pivot José Rodrigues dos Santos.

Afinal é uma não-notícia. Ou pelo menos assim o entendem os directores de programação do telejornal da televisão pública.

Mas porque poderá ser despedido Rodrigues dos Santos?

Por ser um péssimo apresentador de telejornais e as audiências estarem a baixar? Não consta que seja por isso.

Será que é por ser das pessoas em Portugal que mais sabem de jornalismo e comunicação e com obra universitária de referência publicada? Não consta que seja por isso.

Será que alguma coisa do seu passado como jornalista de guerra e a importante experiência como jornalista de investigação estarão a prejudicar o seu desempenho como apresentador do Jornal da Noite? Não consta que seja isso.

Será que a obra literária como romancista, extremamente meritória, construída para além da sua profissão de jornalista, o prejudica no seu estatuto de apresentador da RTP? Não consta que seja isso.

Será que o caso Rosa Veloso e as suas declarações de ingerências externas na designação desta correspondente para Madrid terá sido o motivo principal que levará à sua demissão futura? Segundo consta, não consta que seja isso.

Será o facto de ter referido haver ingerência governativa numa televisão que se pretende pública e independente? Não consta que seja isso.

Será que é por estar a faltar ao incumprimento dos horários estabelecidos, com certeza escrupolosamente e zelozamente estabelecidos e cumpridos, pela administração da RTP? Consta que será por isso mesmo que a Administração da RTP quer despedir Rodrigues dos Santos.

Quantos de nós em Portugal, segundo este critério de incompetência, ainda estariamos no emprego? Que atire a primeira pedra quem em Portugal cumpre os horários...não serão muitas pedras que por aí vão voar.

Este caso demonstra mais uma vez como os administradores preferem a obediência, à discussão livre.

Demonstra como preferem a submissão à liberdade de expressão.

Demonstra como preferem o conformismo à liberdade criativa.

Demonstra como preferem o seguidismo lambe-botas, ao pôr em questão que faz avançar o mundo.

Demonstra como a democracia nas empresas ainda é uma miragem.

Demonstra um "air du temps" que o 25 de Abril não eliminou de todo.

Demonstra que mais que a competência é o culto do chefe que ainda predomina na sociedade portuguesa.

Demonstra que é por estas e por outras que o "atraso" português e a "cauda da europa" é um fenómeno societal difícil de transformar.

Abraços solidários ao professor José Rodrigues dos Santos, porque não é todos os dias que a competência e a simpatia, nos entra pela casa a dentro. Seja na cozinha, no quarto ou na sala de estar.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Aconteceu no Algarve em Novembro de 2007: Para mais tarde recordar

1. A invasão da propriedade privada, pelos manifestantes ambientalistas, ocorrida este verão, em protesto contra a forma de agricultura geneticamente modificada, gerou um mundo de pavores a nível nacional, com as mais diversas mentes bem pensantes a ficarem horrorizadas com o atentado ao direito de propriedade.

A indignação percebe-se, na era do capitalilmo neoliberal na sua forma mais selvagem, o sentimento de que podia ter sido na minha casa, com as minhas coisas, assustou o comum dos mortais.

Muito interessante, o facto de pouca gente se ter questionado sobre a causa dos "vandalos" e o facto de estes se manifestarem contra uma forma de alimentação de que não há prova científica de que não fará mal à nossa saúde.

Em Quarteira, a autarquia louletana ocupou "distraidamente" um terreno privado, plantando largos metros de alcatrão, sem qualquer consulta prévia ou negociação com o proprietário do terreno.
Da imprensa pouco se ouviu e a "invasão" não chocou ninguém.
Pode ter sido apenas distração, mas o facto é que o proprietário só deu por ela depois do alcatrão lá estar plantado.

Vejamos a notícia do Correio da Manhã sobre o assunto:

"Pedro Almeida foi surpreendido quando, na sexta-feira, notou que uma estrada estava a ser feita no terreno da família, junto ao porto de pesca de Quarteira. “O terreno é privado e como está abrangido pelo POOC Vilamoura – Vila Real de Santo António nem nós podemos fazer o que quer que seja aqui”, explicou ao CM Pedro Almeida. Entretanto soube que a estrada estava a ser feita pela Câmara Municipal de Loulé, o que aumentou a indignação: “Este terreno está vazio há anos e até aceitamos que seja utilizado para o bem de Quarteira”, afirma, “podem fazer um jardim, uma biblioteca ou a lota mas falem connosco primeiro”.
Seruca Emídio, presidente da autarquia reconhece a razão de Pedro Almeida e disse, ao CM “que de facto houve o problema de não se falar com a família primeiro e segunda-feira será feita uma reunião para resolver tudo”.A solução passará, agora, por pagar à família a expropriação do terreno, à semelhança do que já aconteceu com uma parte do mesmo terreno que foi expropriada para as obras do porto de pesca, da responsabilidade do Instituto Portuário de Transportes Marítimos (IPTM).A estrada em construção, que Seruca Emídio classifica como apenas “a colocação de betuminoso num terreno que já era utilizado para passagem”, serve, precisamente, para substituir a que vai ser destruída pelas obras do IPTM."
in http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=264411&idCanal=10


2. O segundo momento histórico é sobre a história da Saúde do Algarve.

Pedido de demissão em massa no Hospital Distrital de Faro. Dezanove chefes de equipa, repito, dezanove chefes de equipa, apontam as condições "degradantes" em que se encontram os doentes e o "incrivel" risco de infecção hospitalar que contraria todas as normas minímas.

Vejamos a notícia avançada pelo observatório do Algarve:

"Na carta de demissão, dirigida à direcção clínica e administração do hospital, os profissionais denunciam as condições "degradantes" em que se encontram os doentes nos corredores daquele serviço e o risco de infecção hospitalar a que estão sujeitos devido à proximidade física entre si.
"Macas contíguas em filas paralelas, onde sem um mínimo de respeitabilidade pela pessoa humana, homens e mulheres, lado a lado, são despidos, higienizados, alimentados, medicados", lê-se na carta.
Os 19 chefes de equipa subscritores da carta questionaram ainda como poderão aceitar que os doentes sejam sujeitos a tão degradante situação e alertam para o "incrível" risco de infecção hospitalar, que contraria "todas as normas mínimas".
Ainda na sexta-feira, a directora clínica do Hospital de Faro reconheceu que alguns doentes corriam risco ao deslocarem-se às urgências da unidade, mas esclareceu que esse risco se restringe aos idosos, obrigados a ficar demasiado tempo em contacto com outros doentes".
http://www.observatoriodoalgarve.com/cna/noticias_ver.asp?noticia=17612

Resposta política dos deputados do PS eleitos pelo Algarve:

"Não acreditamos que isso [demissões] vá acontecer", disse hoje à Lusa Aldemira Pinho (Faro), considerando "uma encenação" as 19 demissões anunciadas sexta-feira numa carta enviada à administração e direcção clínica do Hospital de Faro.
"Toda esta encenação é obviamente inserida num espaço de campanha para a eleição do bastonário da Ordem dos Médicos", afirmou Aldemira Pinho, sem querer avançar com mais explicações sobre as posições políticas dos médicos.
Aldemira Pinho e os restantes deputados do PS/Algarve estiveram hoje reunidos duas horas com a administração e direcção clínica do Hospital de Faro e no final, em declarações à Lusa, afirmaram estar tranquilos sobre o processo dos 19 médicos que anunciaram demissão.
"A situação no Hospital de Faro não é nova, é uma situação que não está pior do que estava há uns anos e estamos tranquilos em relação a todo o processo que tem vindo a ser trabalhado no sentido de minimizar os problemas existentes".
http://www.observatoriodoalgarve.com/cna/noticias_ver.asp?noticia=17612


Trata-se então de uma "encenação" demagógica da parte dos médicos e ficamos a saber que todos temos motivos para estar "tranquilos" porque o hospital não está pior do que estava.

Os doentes parece que estão em condições "degradantes" e o risco de infenção é "incrível" mas podemos estar descansados que tudo não passa de demagogia política.
Da parte de quem é a demagogia é que fica por descobrir...

3. Parece que as coisas na Assembleia Municipal de Loulé entre poder local e oposição andam azedas.
Ficamos a saber que a luta política agora é feita a partir da mobilização dos atributos pessoais e profissionais dos protagonistas. Devem ser os frutos das visitas aos States, terra onde as questões pessoais são altamente mobilizadas politicamente para denegrir os adversários políticos.

Aqui o poder é laranja, em Lisboa o poder é rosa. Os "tiques", esses, parece que têm tonalidades semelhantes.

Abraços cibernautas de um "desses" tipos que escreve coisas nos blogs.

sábado, novembro 03, 2007

Será possível mudar a escola sem mudar a sociedade?

O ritual veio para ficar e tem o mérito de lançar a discussão sobre a qualidade das nossas escolas e as funções sociais exercidas pela instituição escolar.

A divulgação dos rankings das escolas, a partir dos resultados dos exames, desta vez alargada também ao ensino básico, apesar de ser um exercício altemente imperfeito na sua metodologia, vem lançar de novo no espaço público, uma série de interrogações sobre as desigualdades sociais face à escolarização e a possibilidade de a mesma poder funcionar, ou não, como instrumento de igualização de oportunidades sociais.

Deixo aqui algumas reflexões que os rankings das escolas básicas e secundárias me permitem alimentar:

1. É de crucial importância que se divulgue informação rigorosa e credível sobre a qualidade educativa das nossas escolas.
Só com produção de conhecimento sobre o funcionamento das nossas escolas e com a divulgação democrática desse mesmo conhecimento, é possível os alunos e as suas famílias escolherem os percursos escolares que melhor correspondam às suas "vocações", assim como perceberem antecipadamente as consequências para os seus destinos sociais e profissionais futuros que resultam das suas escolhas. Uma escolha mais informada é uma escolha mais democrática.

2. Os rankings agora divulgados, porque não levam em conta as condições económicas e sociais de partida dos alunos, que são muito desigualmente repartidas consoante as suas origens sociais, são um instrumento altamente falacioso do desempenho das escolas.

3. Desde a década de 60 do século XX, que os sociólogos da educação puseram em evidência um conjunto de determinismos sociais, que pesam muito desigualmente sobre os resultados escolares e que são variáveis consoante a posição ocupada pelos indivíduos e suas famílias na hierarquia do espaço social.

3.1. Os resultados têm tido ligeira variações em quase todos os países ocidentais ditos desenvolvidos, mas revelam as seguintes tendências dominantes:

- Quanto maior o capital económico e cultural das familías melhor em média os resultados escolares dos alunos.

- O capital cultural, sobre a forma do capital escolar, sobrepõe-se mesmo ao capital económico.
O mesmo é dizer que para alunos provenientes de familias com idêntico capital económico, quando os pais têm um maior nível de escolaridade, melhoram significativamente os resultados dos seus filhos.
Recordo, que falo de tendências e de regularidades sociais e que não se deve confundir isso com determinismo social.

- Esta constatação é importante para a análise dos rankings, pois existe a tendência em confundir as escolas que aparecem no topo do ranking como as que melhor trabalham e com a boa performance de professores e alunos, esquecendo que ao não se considerar a composição social dos seus públicos, as comparações tornam-se ilegítimas do ponto de vista científico.

4. Os rankings agora divulgados permitem-nos, mesmo altamente imperfeitos, constactar de que forma as assimetrias sociais presentes na sociedade portuguesa se refletem nas nossas escolas.

Assim, é possível constactar que existe uma sobrerepresentação clara das escolas privadas no topo do ranking e uma subrepresentação das escolas públicas.

No fundo da tabela a representação é inversa, estando as escolas privadas subrepresentadas e as escolas públicas sobrerepresentadas.

Podiamos perguntar: será porque as escolas públicas são piores que as privadas? Resposta clara: Não; as escolas privadas têm em geral melhores resultados devido à composição social dos seus públicos, com as classes médias e altas claramente sobrepresentadas nas escolas privadas.

5. As assimetrias ao nível dos diferentes territórios do nosso país que se manifestam em desigualdades assinaláveis face aos níveis de vida, nas diferentes oportunidades sociais de acesso à cultura e aos diversos bens culturais e sociais estão bem desenhadas nos rankings divulgados.

As escolas do interior, em geral, têm piores resultados do que as do litoral e as do centro do país têm, em geral, melhores resultados do que as da periferia.

A tendência dominante é a de que há medida que cresce o nível socio-económico de um dado território melhoram os resultados escolares dos alunos.

5.1. Também aqui a relação não é totalmente determinista. Ou seja, há escolas (são excepções) em territórios desfavorecidos social e culturalmente que conseguem bons resultados.

Nestes casos, o efeito escola provavelmente far-se-á notar. Sabemos hoje que a organização de uma escola, o papel da gestão escolar, as práticas pedagógicas dos professores, a colaboração dos pais com a escola e da escola com os pais, ou a intervenção mais próxima da comunidade educativa no espaço escolar, pode fazer toda a diferença.
Estes casos de excepção era interessante serem observados de perto.

6. Uma das desigualdades mais presentes e persistentes nas nossas escolas é a desigualdade de género.
Elas (mulheres) são hoje, em geral, mais escolarizadas do que eles (homens) e tiram melhores resultados escolares em todos os graus de ensino. Os rankings trazem elementos de reflexão interessantes a este nível.
No ranking deste ano, elas apresentam melhores resultados do que eles a Português e eles tiram melhores resultados do que elas a Matemática.
Aspectos da socialização primária diferentes em ambos os géneros, ou a interacção entre eles e elas (professores e alunos) poderão ajudar a compreender estas diferenças.

7. Por último, dizer que os rankings, mesmo altamente imperfeitos, volto a sublinhá-lo, permitem constatar o papel da escola como instrumento de reprodução das desigualdades sociais na sociedade portuguesa e como um instrumento legitimador por excelência das hierarquias constítuidas no espaço social.

Deixo uma última pergunta no ar:
A quem servem estes rankings? E que efeitos perversos ou que virtudes poderão trazer para a organização das nossas escolas, numa época em que o Estado Social se retira das suas obrigações como instrumento de fomento da igualdade de oportunidades sociais?

Bom fim de semana e espero que tenha sido boa a festa das bruxas...porque as bruxas são como as desigualdades sociais face à escola...eu não sei se elas existem...mas que as há, há...

sábado, outubro 27, 2007

É a blogoesfera estupido!

A internet transformou por completo as sociedades contemporâneas.

Na era da sociedade em rede, a economia, a cultura, a educação, o ambiente, o trabalho, a família, as relações sociais em geral e a política, nunca mais serão as mesmas.

É da política que vos quero falar e da relação entre os cidadãos e os poderes instítuidos.

Numa era em que a democracia representativa entrou em grave crise de legitimidade devido ao fosso crescente entre os interesses dos cidadãos e dos poderes que eram suposto representarem os mesmos e face ao progressivo encolhimento da res pública democrática, a blogosfera pode ser uma lufada de ar fresco na discussão das coisas da vida da polis.

A discussão da vida da coisa pública deixou de ter lugar apenas nos espaços de monopolização da representação política legitíma e institucionalizada e saltou novamente para o espaço público.

Já o tinha escrito aqui em post anterior, a blogoesfera é um instrumento de emancipação social fantástico porque alimenta de novo a discussão sobre a vida da cidade.

Nos últimos meses, vários têm sido os blogues que têm sido críticados por políticos nacionais e locais, normalmente com pouca sustentação nas suas queixas e reveladores de uma cultura "democrática" a necessitar de ser democratizada.

Depois de décadas em que o poder da palavra e da acção foi sendo progressivamente retirado aos cidadãos (fenómeno que se dá alguns anos após a reconquista do espaço público na sequência do 25 de Abril de 1974), a blogosfera assinala uma época de transformação democrática revolucionária.

Não há volta a dar a este fenómeno, ele veio para ficar. Os poderes políticos não estão habituados a lidar com a crítica democrática na sua expressão mais livre. Os que não se adaptarem serão trucidados por este fenómeno.

Era importante que as novas tecnologias deste admirável mundo novo fossem postas ao serviço da democracia para bem dos governantes e dos governados. E não estou a falar de certeza do e-governement tal como o actual paradigma governativo o encara numa mera lógica de "informação" aos cidadãos.

É da necessidade de democratizar a democracia aquilo a que certamente me refiro, mas essa é uma luta cuja história muito provavelmente não tem fim.

Ps: Era importante que se regula-se aquilo que se pode dizer ou não sob as costas quentes do anonimato na blogosfera, mas isso não é uma questão de censura...é uma questão de aplicação das leis do Estado de Direito democrático, para bem de todos e da própria liberdade de expressão tão duramente conquistada. E a bem da protecção da imagem e dignidade dos cidadãos em geral.

Bom fim de semana e um abraço para o pessoal da blogosfera.

domingo, outubro 21, 2007

E se a pobreza não fosse uma inevitabilidade social?

As sociedades modernas ocidentais foram construídas sobre os valores da igualdade, da liberdade e da fraternidade.

Fenómenos como as abíssais desigualdades sociais que hoje se agravam na sociedade portuguesa e os 20% de população em risco de pobreza constatados neste início de milénio, não podem mais ser sentidos como legítimos e aceitáveis à luz dos valores consagrados na constituição da república portuguesa.

Se as causas da pobreza são multiplas e remetem em última instância, para a manutenção e reprodução de desigualdades económicas e culturais estruturantes da sociedade portuguesa, continua a existir uma parte da pobreza difícil de erradicar, derivado às representações sociais dominantes na população portuguesa sobre este fenómeno, que assumem contornos ideológicos.

A herança ideológica de legitimação do fenómeno da pobreza sob a forma do lema "somos pobres, mas honrados" ou ainda o peso da ética catolicista do "repartir o pão pelos pobres" deixaram marcas na sociedade portuguesa que em nada ajudam a diminuir a dimensão deste fenómeno social.

Inquirida recentemente a população portuguesa sobre o fenómeno da pobreza, um terço dos portugueses, respondeu que a pobreza existe por causa do "destino" infeliz de alguns e outro terço dos inquiridos respondeu que a pobreza tem que ver com a "preguiça" dos homens e mulheres de Portugal.

Sintetizando, dois terços dos portugueses atribui culpas aos próprios pobres, pela situação desfavorecida em que se encontram, o mesmo é dizer que os dois milhões de pobres existentes em portugal, corresponderiam a dois milhões de "preguiçosos".

Dos inquéritos recentes sobre a pobreza, ficamos também a perceber o importante papel do Estado Social na diminuição da pobreza em portugal, uma vez que retirados os apoios do Estado às populações em situação de maior vulnerabilidade social os números da pobreza disparavam exponêncialmente.

Numa época em que se assiste a uma agressiva retirada do Estado Social, nas suas funções essenciais de protecção das populações mais desfavorecidas, como compatibilizar isso com mais justiça social?

A discussão política e ideológica, o mesmo é dizer, interesseira e interessada, sobre as funções fundamentais do Estado, numa época de crise do Estado Providência, está por fazer.

E era bom que os partidos mais à esquerda não se deixassem levar pela evidência que se quer "naturalizada" das funções essenciais do Estado serem a segurança, as relações externas e a soberania nacional, o mesmo é dizer que são as funções do estado neoliberal na sua forma mais dura.

Porque a retirada do Estado Social significará "inevitavelmente" o agravamento das desigualdades sociais.

Bom resto de fim de semana.

domingo, outubro 14, 2007

A União Europeia contra os povos da Europa

É inacreditavelmente espantoso o que a quase totalidade dos governos da União Europeia e a Comissão têm vindo a defender a propósito do futuro Tratado da União que substituirá o "fracasso" da anteriormente desejada Constituição Europeia.

A União Europeia presidida por Sócrates e a Comissão Europeia presidida por Barroso mandaram a democracia às urtigas.

Tudo tem sido feito para evitar referendar o tratado que tem sido elaborado nos "secretos" gabinetes dos burocratas europeus.

Depois do rotundo não no referendo da Constituição Europeia pela França e pela Holanda, o "receio" e o "perigo" que aos olhos dos tecnocratas europeus representa a consulta popular, tem sido o mobil que leva os políticos europeus a querer aprovar o novo Tratado Europeu o mais rapidamente possivel.

A presidência do governo português sob a batuta do pragmatismo de Sócrates vem mesmo a calhar. É preciso é aprovar, seja lá o que isso representa para o futuro da Europa e dos portugueses.
O pragmatismo é assim, joga toda a reflexão ideológica às urtigas e dá um chega para lá nisso que se chama democracia.

A europa tem sido construída continuamente à margem dos povos, a maioria dos "cidadãos europeus", se é que isso existe, desconhece profundamente as instituições europeias, os seus poderes e o modo como as mesmas afectam as suas vidas quotidianas.

Quantos de nós sabe o nome de um comissário europeu para além de Durão Barroso? Quantos de nós sabe dizer o nome dos deputados europeus que foram eleitos para o parlamento europeu? Quantos de nós leram ou tem uma ideia do que está escrito na anterior constituição europeia referendada na França e na Holanda? Quantos de nós têm um verdadeiro sentimento de pertença à União que se quer construir? Quantos de nós conhecem o tratado actual que a União Europeia quer aprovar à revelia dos cidadãos?

As concepções de democracia das nossas elites não se podem basear numa concepção de democracia "quanto baste".

Se os povos europeus representam um "perigo" para a democracia europeia e por isso não devem ser consultados, porque razão deverão ter direito de voto nas legislativas, nas autárquicas ou em qualquer outro tipo de consulta popular?

A União Europeia contra os povos Europeus, um dia entrará em crise de legitimidade, sobretudo se não se tornar transparente a discussão pública, se não se trouxerem os cidadãos nacionais para a discussão e se se continuar com o actual brutal défice de democracia e de participação nas questões europeias e que a todos nós dizem respeito.

Nota final: E as autarquias e as instituições políticas locais deveriam ou não ter um papel no incremento destas questões na vida pública da cidade? Deixo a questão para que cada um reflicta nisso.

Boa semana para todos vós.

sábado, outubro 06, 2007

A globalização económica dentro de casa e o fecho da UNICER

A globalização económica, hegemónica e neoliberal é assim. Cega, movida exclusivamente pelo valor mercadoria e ansiosa por expandir continuamente a acumulação de capital.

Desta vez foi mesmo aqui dentro de casa. O Centro de Produção da UNICER de Loulé vai fechar portas e deslocalizar para outras bandas, onde as vantagens comparativas sejam maiores e as mais valias sejam crescentes.

O problema é que se o capital é global, o trabalho ainda não o é e o drama dos trabalhadores e das suas famílias fica connosco ao lado da porta.

O filme já é conhecido e a tragédia é sempre a mesma. De início os trabalhadores resistem, tentam por tudo que a empresa não feche portas, até que o tempo e o desencanto os faz perder as energias.

Alguns deles vão procurar soluções individuais, procurando novo trabalho, outros, cairão na categoria de desempregados de longa duração e talvez alguns deles procurem soluções na formação profissional de reconversão, à espera de melhores dias.

Os sindicatos vão estrebuchar e pouco poderão fazer. A sua força já é de outros tempos. As autoridades vão fazer o que podem, mas o que podem é muito pouco.

A justiça, como sempre, vai demorar anos a dar o seu veredito, até que um dia os trabalhadores tenham a sua justa indeminização. Quando os Farrajotas faliram, os tribunais demoraram 14 anos a repôr a justiça face aos direitos dos trabalhadores. Catorze anos depois, quando a indeminização devida chegou, alguns trabalhadores estavam à beira da morte, ou já teria passado o período mais enérgico das suas vidas.

O neoloberalismo reinante, que João Cravinho, na revista Visão desta semana, diz reinar em Portugal há várias décadas e que se intensificou claramente com o governo actual, é predatório face aos menos poderosos, cego face aos direitos dos cidadãos e dos trabalhadores e soberano face ao poder político.

Enquanto o poder político for um mero prolongamento dos poderes económicos dominantes nenhuma Unicer poderá por cá ficar.

Marx já tinha avisado, a lógica expansiva do capital é a da busca incessante do lucro. Seja nas Quatro Estradas, em Angola, na China, no fundo do mar da Noroega, ou em Marte.

Só uma globalização mais justa e solidária pode alterar estas lógicas predadoras. E isso não vai mudar de um dia para o outro.

É importante que os governantes e os empresários locais, ajudem à reconversão profissional destes trabalhadores e não os encarem como um mero exército de reserva do sistema capitalista global.

sexta-feira, setembro 28, 2007

O Poder dos media, a crise da democracia e a atitude de Santana Lopes

Santana Lopes, juntou a razão à emoção e recusou-se a continuar a entrevista da SIC Notícias realizada pela jornalista Ana Lourenço.

Poderia ser mais uma birra emocional do ex-primeiro ministro de Portugal, mas é sobretudo uma lufada de ar fresco na arrogância mediática com que os jornalistas televisivos tratam uma boa parte dos cidadãos-audiência de que necessitam.

Os media colonizaram o espaço público e a arena política e social. Só existe quem aparece, e aparecer é mais importante do que ser.
A chave da existência social está colonizada pelo poder mediático.

Karl Popper já tinha avisado que a televisão poderia ser um perigo para a democracia e Bourdieu vai mais longe e defende que o pouco que se pode dizer na televisão deveria ser altamente negociado nas suas condições de utilização da palavra.

Os jornalistas, na maior parte das vezes, dão, e tiram a palavra, a quem querem, quando querem e nas condições que querem.

O caso Maddie foi um caso escandaloso de "jornalismo de sarjeta", para utilizar um termo celebrizado pelo Ministro Augusto Santos Silva, em que a maior parte das notícias sobre o desaparecimento da criança foram baseadas em não acontecimentos.

A máxima que nos diz que o cão que mordeu o homem não é notícia, mas o homem que mordeu o cão certamente que já o é está claramente ultrapassada. O que prevalece como paradigma é a máxima "se o jornalista mordeu o homem e o cão" então temos notícia e podem crer que em nome da sacrossanta audiência, o jornalista morde as canelas de ambos.

Demasiadas vezes, jornalistas consagrados, em vez de escutarem os entrevistados, impedem que os mesmos exponham o seu racíocio até ao fim, não permitindo aos teleespectadores perceber o ponto de vista do entrevistado.
Um exemplo claro destas tristes situações é o programa prós e contras, onde a jornalista-estrela, coloca as questões, responde em vez do entrevistado, tira-lhe a palavra quando lhe apetece e não se inibe a produzir em massa juízos de valor, que dizem mais dos preconceitos e estereótipos que lhe vão na alma sobre os problemas em análise, do que esclarecem o teleespectador.

O "Incidente" com Santana Lopes seria uma excelente oportunidade dos media se pensarem a si próprios e partir para novos mecanismos reguladores, que travassem a escalada de sensacionalismo.
E isto é tanto mais importante para os próprios media, porque depois, não têm que se queixar das "ingerências" governativas no "controlo" dos meios de comunicação social.

Vale a pena relembrar que a blogosfera foge ao controlo da palavra mediática oficial e até isso deveria fazer repensar as práticas jornalisticas em vigor, pois o controlo dos cidadãos sobre a qualidade do jornalismo profissional é maior do que nunca.
É que o critério audiências não justifica tudo e nem sequer talvez garanta a sustentabilidade a médio e longo prazo das empresas de comunicação.

Bom fim de semana

domingo, setembro 23, 2007

A Crise de Inteligência Política e o Falhanço das Reformas Governativas

Michel Crozier, conhecido sociólogo francês das organizações há muito que nos esclareceu sobre o assunto. A sociedade não muda por decreto.

Por muitas boas leis que se façam e com as melhores intenções políticas, a law in books em Portugal tem uma distância abíssal da law in action.

A realidade social e as práticas sociais não se resolvem somente com boas soluções legislativas. Nenhuma lei por si só impele os cidadãos a mudarem as suas práticas, os seus hábitos e os seus costumes.

Mas as reformas também não se fazem à martelada.

Nenhuma reforma, mudança social ou processo de inovação é possivel de fazer com êxito, sendo aplicada de cima para baixo, ou de fora para dentro, impondo-se aos actores sociais nas organizações, aquilo que os nossos governantes consideram ser bom para as pessoas (e que as mesmas não consideram bom para elas) e o "bom" caminho de "racionalização", de "eficácia" e de "eficiência".
Nem sempre aquilo que aprioristicamente achamos que é bom para os outros é aquilo que os outros consideram bom para eles. Se acham mau não há reforma que resista.

Não se fazem reformas sem as pessoas e muito menos contra as pessoas.

Quando as reformas são feitas à "paulada", como o faz o actual governo socrático, o mais frequente para justificar o insucesso dos resultados das mesmas, é dizer, que o governo não é eficaz a comunicar a sua mensagem e as suas boas decisões (seria um mero problema de eficácia comunicativa), ou então, alegar que são os interesses corporativos que "resistem" às boas mudanças impostas por tão sábia decisão ministerial.

O resultado está à vista.

Os professores altamente descontentes pelas atitudes e discursos da senhora ministra da educação.
Os utentes e os profissionais de saúde a protestar na rua contra a destruição do sistema nacional de saúde.
Os jornalistas num coro de protestos contra a coartação da liberdade de informação.
Os magistrados descontentes com a reforma do processo penal.
Os funcionários públicos culpabilizados pela crise do Estado temem que o seu lugar profissional esteja ameaçado.
Os militares, sobretudo os sargentos reclamam da degradação das suas condições laborais.
As classes médias e as classes populares altamente penalizadas com o "esforço" e o "sacrifício" que lhe é constantemente pedido estão afogadas pelo crescente endividamento e pela baixa do seu nível de vida e sem predisposição para mais sacrifícios.

Tudo se passa como se as reformas pudessem ser feitas sem as pessoas. E ainda menos se percebe quando elas são feitas contra as pessoas.

Se os próprios interessados e aqueles que serão objecto da execução das mudanças não participarem nessas mesmas mudanças que se lhes pede que efectuem, qual o sentido dessas reformas?

Bom resto de fim de semana

sexta-feira, setembro 14, 2007

Porque não defende o governo português os direitos humanos?

O governo de Sócrates e o Presidente Cavaco não recebem o prémio Nobel da Paz, Dalai Lama, conhecido pelas suas posições como defensor dos direitos humanos, da paz e da liberdade religiosa.

Supondo com elevada ingenuidade que a China nada teria a ver com estas decisões, quais os motivos que fundamentam a recusa da visita do grande líder Tibetano?

Os interesses de Estado e a a real politick não podem ser sustentandos por uma visão política míope que reduz as relações internacionais aos grandes interesses económicos.

O silêncio político sobre a violação dos direitos humanos na China, à luz da miragem miraculosa do crescimento económico de dois digitos é uma clara hipócrisia ao nível das relações internacionais.

É claro que seria do interesse dos empresários portugueses entrarem na China, sobretudo os grandes empresários, mas também é fortemente penalizante para as pequenas empresas portuguesas que não têm a capacidade de produzir e colocar produtos no mercado a preços que resultam da nova escravidão do terceiro milénio.

Aos trabalhadores europeus não interessa a não denúncia da violação dos direitos humanos na China, pelo contrário é uma óptima justificação para o capital manter os salários dos portugueses num nível miserável.

Como vou explicar ao meu filho porque recusou o Governo Português e o Presidente da República a visita do Prémio Nobel da Paz?

Bom fim de semana e sê bem vindo Dalai Lama.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Os chineses, o pequeno comércio e a demagogia política no seu esplendor

A política tem destas coisas. A necessidade de votos faz com que por vezes os actores políticos não resistam e resvalem para a demagogia pura e dura.

Maria José Nogueira Pinto, a "zezinha", como a rotulam alguns jornais nacionais, quer "expulsar" as lojas chinesas da Baixa Lisboeta.

Para a "independente" ex-partido popular, os chineses têm o seu lugar, mas é num bairro tipo chinatown, pois isto de ocupar o espaço daquilo que é dos lisboetas, para além de lhe retirar votos, com certeza, também arruína o pequeno comércio local.

O alimentar dos sentimentos xenófobos começa por vezes nestas "boas intenções" políticas. É claro que não é o comércio dos chineses o principal problema do pequeno comércio.
Em época de globalização económica e num contexto de livre comércio incentivado pelos governos Europeus, não podemos ter dois pesos e duas medidas. Livre comércio para "nós" e proteccionismo face aos "outros".

É pela denuncia do abuso dos direitos humanos que se deve seguir caminho e por aí pouco se ouvem as vozes dos políticos europeus.

E nós por cá, em Loulé, não ouvimos tantas vezes que os chineses "dão cabo do negócio"?
Espero que os políticos locais nunca caiam nesta tentação demagógica, pois contexto favorável não lhes falta.

Abraços interculturais

domingo, setembro 02, 2007

O poder da palavra. Um país, dois sistemas: até quando?

Não há ditaduras boas e outras más, sejam elas de direita ou de esquerda.
O regime fascista de Mussolini, o Nacional Socialismo de Hitler, o comunismo de Estaline ou de Mao, todos eles, sem excepção, cometeram atrocidades e violaram brutalmente os direitos humanos básicos e a dignidade humana dos seus povos.

A China actual é, nos últimos anos olhada com uma certa "admiração" por alguns intelectuais jornalistas da nossa praça, sobretudo situados no campo do jornalismo económico; devido aos seus fantásticos níveis de crescimento económico de dois digitos, que chegam à fantástica cifra de mais de 10% ao ano.

Convém não esquecer, que para além do apetecível mercado de milhões de consumidores potênciais, o que gera ainda mais "admiração" às forças económicas do capitalismo ocidental, ansiosas por se expandir para oriente, a China continua a violar barbaramente os direitos humanos tão valorizados nos países que se apelidam de "civilizados".

Para além de mão de obra escrava, que sem dúvida ajuda a suportar as suas exportações a preços imbatíveis pelas democracias ocidentais, é bom não esquecer episódios como o massacre da Praça de Tianamem, na capital Pequim, e a vergonhosa limitação à liberdade de expressão e às liberdades em geral que a ditadura chinesa continua a perpetuar.

A última novidade censória é de uma capacidade criativa fantástica. Tráta-se de controlar o incontrolável, o admirável novo mundo do espaço virtual global.

Polícias virtuais procuram informação e opiniões subversivas à ordem política e moral do regime, nos mais diversos sítios on-line, exercendo sansões às opiniões consideradas dissidentes.

Trata-se de uma barbaridade anacrónica das sociedades de modernidade avançada, pois nenhuma força política conseguirá controlar o que dizem os seus cidadãos no espaço virtual.

Nem quero pensar nas atrocidades que estarão a ser cometidas pelo regime chinês à entrada do terceiro milénio.

Um país dois sistemas. Até quando?
E se de repente o gigante chinês de desmorona?

Um capítulo a ver nos desenvolvimentos futuros do circo mundial global.

Ps: E se os governos europeus denunciassem devidamente as violações de direitos humanos à escala mundial? Uma boa parte dos trabalhadores chineses certamente agradeceriam.

Abraços cibernautas