terça-feira, agosto 30, 2016

Sobre A Exploração Hidrocarbonetos No Algarve, A Voz Da Escritora Lídia Jorge

"De facto não se trata de uma simples brincadeira de mau gosto. Neste inesperado envolvimento existe uma questão de calendário. É sabido que a dependência dos hidrocarbonetos começa a ficar mais lassa, mas está ainda longe do verdadeiro declínio. Tudo indica que a energia fóssil vai conviver, durante anos, com as novas fontes renováveis, e porque entretanto a consciência ecológica se expande de forma exponencial, sobretudo nos países mais desenvolvidos, convém às petrolíferas manterem reservas em países onde o grau financeiro de dependência energética seja alto, o nível de vida seja baixo, a cidadania seja pouca, o temperamento dos povos seja manso, e os regimes democráticos, débeis. Portugal tem tudo isso, e muito mais. Nesta fase descendente do ciclo, enquanto não se asseguram novos estilos de vida, as companhias petrolíferas preparam-se para varrer os restos da casa fóssil nos quintais dos mais frágeis. Por isso, os contratos de concessão assinados com Portugal podem ser humilhantes, estar blindados e comprometerem o futuro de três gerações, e o mais que se sabe, que tudo encaixa no plano de fim de ciclo. Foram assinados com a devida descrição e recato. Felizmente que houve pessoas, grupos, associações e autarcas que fizeram sair esses documentos fatais do seu esconderijo. As crianças portuguesas do futuro nunca saberão quanto lhes ficam a dever."
 

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