domingo, novembro 02, 2014

Entrevista de Interesse Público, António Sampaio da Nóvoa

Este Outono pode ser encarado como um começo de fim de ciclo?
Espero que sim. Creio que Portugal precisa de abrir um tempo novo na sua história, na sua vida política. Este tempo da troika está esgotado.

O tempo da troika ou o tempo deste Governo?
É igual. Não consigo separar este Governo da troika nem a troika deste Governo. O Governo já não devia existir. Parece-me óbvio que já devia ter sido demitido.

Qual foi o momento agónico, para si?
Depois do momento Vítor Gaspar, este Governo perdeu grande parte da sua legitimidade e da sua capacidade de governar. Estamos a assistir a um desmantelar do Governo em muitos sectores. Era qualquer coisa que devia ter tido consequências. Consequências do ponto de vista dos órgãos do poder, do Presidente da República.

Mantém-se até ao final da legislatura?
Claro que o Governo vai procurar manter-se até ao final da legislatura, mas espero que haja a capacidade de reagrupar uma energia de mudança.

Os portugueses parecem amedrontados, apáticos, desesperançados. Como é que a sociedade, globalmente, se agrega para operar a mudança?
É um enorme desafio. É um desafio em Portugal, é um desafio na Europa, é um desafio no mundo. Essas energias de mudança não coincidem necessariamente com a tradicional clivagem entre a esquerda e a direita. Elas têm outras configurações que temos que perceber neste século XXI.

Quais são as outras grandes configurações? Ricos e pobres?
Não. Há dois elementos importantes: um são as pessoas que já não aceitam um mundo regulado por um capitalismo financeiro completamente selvagem, sem nenhum controlo, especulativo. Que está a destruir as sociedades. A criar cada vez mais pobreza, mais desigualdade. Desta crise resultam mais ricos e resultam mais pobres. Não podemos deixar de voltar aos vampiros de que falou o Zeca Afonso. São outros vampiros, mas é impressionante como se relê aquela letra...

"Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada".
E há a parte: "Senhores à força, mandadores sem lei"... Levam-nos a tombar, vencidos. É preciso fazer um trabalho para tornar isto insuportável.

http://www.jornaldenegocios.pt/especiais/weekend/detalhe/antonio_sampaio_da_novoa_nunca_tivemos
_uma_politica_educativa_tao_extremista_e_tao_fundamentalista_pelo_menos_desde_os_anos_50.html
 

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