segunda-feira, fevereiro 09, 2015

O Costa Dos Múrmurios

Aqui há umas semanas, o PS anunciou a criação de um "gabinete de estudos", como eles lhe chamam, com a tarefa de explicar às pessoas "a diferença entre as propostas do PS e a governação do PSD e CDS". Eu ainda sou do tempo em que não havia necessidade de explicar diferenças, mas hoje em dia já não é assim. De tal forma que uma pessoa se pergunta se o "gabinete de estudos" vai ter algum êxito na sua missão. Isto porque António Costa, pouco depois, deu uma entrevista ao jornal Público, no fim da qual uma pessoa desespera para achar as tais diferenças. Enfim, algumas há: por exemplo, Costa é contra a "austeridade", coisa que, patentemente, o Governo não é. Mas quando se lhe pergunta como quer fazer uma política sem "austeridade", ele responde com enorme clareza que "depende de muitas variáveis". Também há diferenças no nível da conversa: enquanto Passos Coelho não passa muito de um moralismo de 4ª classe, do género "temos de pagar o que devemos porque senão não somos sérios", Costa lança-se em elaboradas explicações sobre a prodigiosa trapalhada em que se transformou a política europeia. A trapalhada pode ser prodigiosa, mas Costa mostra um não menos prodigioso adestramento na compreensão das "muitas variáveis" justificando as atitudes da Grécia e da Alemanha. Até parece um intelectual. Não sei se terá grande sorte, já que toda a gente sabe o que acontece aos intelectuais na política. No final, sobra o pedido de "solidariedade" europeia, ou seja, o reconhecimento da impotência perante a Europa, que Portugal não controla e não influencia. É este mesmo Costa cheio de molezas e complexidades que outrora concorreu contra António José Seguro porque Seguro não sabia distinguir-se do Governo. Pois, mas é curioso como, ainda assim, nesse tempo era mais fácil reconhecer as diferenças. Talvez seja por isto que, depois de explodir logo a seguir à vitória de Costa, o PS regressou, na última sondagem disponível, aos valores do tempo de Seguro. Que não haja dúvidas: Costa não faz isto por inépcia, mas por estratégia. Acha que é assim que conquista um vasto eleitorado, do PSD à extrema-esquerda. Pois. Os lisboetas que se cuidem: se calhar ainda vão ter de ficar com ele como presidente da câmara até ao fim.
 

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