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sexta-feira, julho 04, 2008

A Unicer e os destroços do capitalismo neoliberal: Por onde param os ex-trabalhadores?

Na altura do encerramento da fábrica da Unicer escrevi um post em jeito de pronúncio do destino dos trabalhadores à época "dispensados". Volto a relembrá-lo no sentido de pedir a vossa ajuda para saber se alguma coisa não bateu certo com a profecia que aqui fiz. Cá fica de novo o post então:

A globalização económica dentro de casa e o fecho da UNICER


"A globalização económica, hegemónica e neoliberal é assim. Cega, movida exclusivamente pelo valor mercadoria e ansiosa por expandir continuamente a acumulação de capital. Desta vez foi mesmo aqui dentro de casa. O Centro de Produção da UNICER de Loulé vai fechar portas e deslocalizar para outras bandas, onde as vantagens comparativas sejam maiores e as mais valias sejam crescentes. O problema é que se o capital é global, o trabalho ainda não o é e o drama dos trabalhadores e das suas famílias fica connosco ao lado da porta.

O filme já é conhecido e a tragédia é sempre a mesma. De início os trabalhadores resistem, tentam por tudo que a empresa não feche portas, até que o tempo e o desencanto os faz perder as energias. Alguns deles vão procurar soluções individuais, procurando novo trabalho, outros, cairão na categoria de desempregados de longa duração e talvez alguns deles procurem soluções na formação profissional de reconversão, à espera de melhores dias.

Os sindicatos vão estrebuchar e pouco poderão fazer. A sua força já é de outros tempos. As autoridades vão fazer o que podem, mas o que podem é muito pouco. A justiça, como sempre, vai demorar anos a dar o seu veredito, até que um dia os trabalhadores tenham a sua justa indeminização. Quando os Farrajotas faliram, os tribunais demoraram 14 anos a repôr a justiça face aos direitos dos trabalhadores. Catorze anos depois, quando a indeminização devida chegou, alguns trabalhadores estavam à beira da morte, ou já teria passado o período mais enérgico das suas vidas.

O neoliberalismo reinante, que João Cravinho, na revista Visão desta semana, diz reinar em Portugal há várias décadas e que se intensificou claramente com o governo actual, é predatório face aos menos poderosos, cego face aos direitos dos cidadãos e dos trabalhadores e soberano face ao poder político. Enquanto o poder político for um mero prolongamento dos poderes económicos dominantes nenhuma Unicer poderá por cá ficar.

Marx já tinha avisado, a lógica expansiva do capital é a da busca incessante do lucro. Seja nas Quatro Estradas, em Angola, na China, no fundo do mar da Noroega, ou em Marte. Só uma globalização mais justa e solidária pode alterar estas lógicas predadoras. E isso não vai mudar de um dia para o outro. É importante que os governantes e os empresários locais, ajudem à reconversão profissional destes trabalhadores e não os encarem como um mero exército de reserva do sistema capitalista global."

Quase um ano depois da fábrica ter encerrado e de termos escrito este post, somos informados pela imprensa nacional, que dos 57 trabalhadores da Unicer, dois foram integrados em Santarém, seis estão em programas ocupacionais, cinco estão a trabalhar, e os restantes 44 continuam no desemprego.

Acompanhe mais desenvolvimentos desta notícia em:
http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1319509

Os políticos lamentaram-se, o IEFP accionou as suas melhores respostas burocráticas, as empresas não querem saber dos trabalhadores da Unicer e a Unicer não quer saber dos seus ex-trabalhadores.

O Deus Mercado reduz a política e os políticos a meros servos do sistema capitalista global. O governo dos homens foi substituído pela administração das coisas. Não foi Marx que sonhou com isto?

PS: Faça como eu...beba Boémia...

quinta-feira, julho 03, 2008

(Des) Ordenamento da Orla Costeira no Concelho de Loulé:

Dunas Douradas - Praia das Marias

Nota: Clique em cima da foto para ampliação da imagem.

"Esta semana, a revista Única, do Expresso, traz um anúncio promovendo a venda de apartamentos e moradias na chamada urbanização das Dunas Douradas. Quem olha para a fotografia que ilustra o anúncio publicado no semanário em causa, não imagina que aquela imagem idílica não tem rigorosamente nada a ver com aquilo que está no local. Já anteriormente tinha chamado a atenção para o atentado urbanístico e paisagístico que estava a ser cometido nas Dunas Douradas, com o beneplácito da C.M. de Loulé e o apoio a nível de consultadoria de um conhecido político local, tanto quanto me foi transmitido ligado ao PSD. Ontem, tive oportunidade de comprovar o desastre que aconteceu nas Dunas Douradas. Onde antes estavam pinhais e uma paisagem de grande conforto e beleza para quem saía da praia, passou a estar um conjunto disforme de monos de betão que se atropelam mutuamente, todos de um profundo mau gosto - as chaminés são aos montes e indescritíveis, os candeeiros da via pública dos mais feios que há, as balaustradas do mais ordinário, o restaurante está pintado de cinzento... - enfim, um hino ao mau gosto e à fealdade, um verdadeiro desastre para os olhos a menos de cinquenta metros da duna. Convido Luísa Schmit, a investigadora e a interessada cidadã, e a Inspecção-Geral da Administração Local (IGAL) a visitarem este aborto e a esclarecerem como foi possível permitir uma barbaridade destas. Alguém devia ser chamado à pedra."

Texto copiado do Blogue O Bacteriófago
in http://www.microrganismo.blogspot.com/

Ordenamento da Orla Costeira no Concelho de Loulé: Dunas...

Praia da Marias - Dunas Douradas

Loulé, Allgarve, Portugal


Nota: Clique em cima da foto para ampliação da imagem.

Dunas

Dunas, são como divãs,
Biombos indiscretos de alcatrão sujo
Rasgados por cactos e hortelãs,
Deitados nas Dunas, alheios a tudo,
Olhos penetrantes,
Pensamentos lavados.

Bebemos dos lábios, refrescos gelados (refrão)
Selamos segredos,
Saltamos rochedos,
Em camara lenta como na TV,
Palavras a mais na idade dos "PORQUÊ"

Dunas, como que são divãs
Quem nos visse deitados de cabelos molhados bastante enrolados
Sacos camas salgados,
Nas Dunas, roendo maçãs
A ver garrafas de óleo boiando vazias nas ondas da manhã

Bebemos dos lábios, refrescos gelados,
nas dunas!
Em camara lenta como na TV,
Nas dunas..
Nas dunas..
Naasss duunas...
Naasss duunas..
Refrescos gelados...
Como na Tv.
Nas duunas..

quarta-feira, julho 02, 2008

Da radioactividade e da poluição tóxica: Por mar somos todos espanhóis

Da contaminação do ar, do mar e do solo. Algarvios de Huelva?



Há quase dez anos atrás fiz umas mini-férias na vizinha Andaluzia e fiquei instalado em Huelva, de onde partia e voltava todos os dias, no intuito de melhor conhecer o Sul de Espanha e a nossa vizinha Andaluzia.
O que mais me marcou nessas férias foi um maravilhoso passeio a pé pelo parque Donana, em que, após alguns kilómetros percorridos, expectante em relação à maravilhosa praia que provavelmente iria encontrar no final do percurso, deparo-me com um cenário dantesco, numa praia de enorme extensão, completamente desabitada, com restos de sacos de plástico de produtos químicos e outros que tais, espalhados por todo o areal, e com a água em muito pior condição do que a água do rio onde Marcelo Rebelo de Sousa se deliciou em banhos há alguns anos atrás.

A menos de cinquenta quilómetros da costa algarvia, aqui mesmo ao lado, temos um complexo quimíco e indústrial gerador de níveis de contaminação dos mais elevados do mundo.

Alguém já pensou no peixinho fresco que saboreamos pescado em "águas portuguesas"? Sugiro um passeio pela zona de Huelva em direcção ao litoral espanhol para que possam ver com os vossos próprios olhos. É simplesmente assustador. Estamos perante um grave problema de saúde pública que só Deus sabe as consequências que já teve para a população do sul da Ibéria.

Fica aqui a notícia retirada do Jornal do Algarve desta semana:

Ameaça radioactiva às portas do Algarve

"Uma vizinhança demasiado perigosa! É assim que se poderia definir a situação… São apenas sessenta os quilómetros que separam o Algarve de um dos ambientes mais contaminados da Europa e do mundo. Junto à cidade de Huelva, onde vivem 150 mil pessoas, há um verdadeiro cemitério de detritos de indústrias químicas, a céu aberto, que apesar dos alertas continua a passar quase despercebido, com todas as consequências que isso implica!
Naquela que já foi uma das praias mais emblemáticas do sul de Espanha, em Punta del Sebo, a escassos 500 metros da cidade de Huelva, encontra-se actualmente um enorme pólo industrial – com fábricas de resíduos químicos, pasta de papel, centrais termoeléctricas, fundições de cobre e refinarias de petróleo – onde se lida diariamente com substâncias altamente cancerígenas e radioactivas. “Durante anos foram libertados para os rios e para o ambiente milhões de toneladas de resíduos muito perigosos, que constituem um grave problema para a saúde das pessoas. E isso continua hoje em dia sem que as autoridades espanholas façam algo para o impedir”, revela ao Jornal do Algarve Bejarano Cristo, porta-voz da plataforma Mesa de la Ría, um grupo composto por cerca de 30 associações, partidos políticos, sindicatos e movimentos cívicos da região da Andaluzia.
Juntamente com a Greenpeace, a Mesa de la Ría tem vindo a denunciar e a lutar pelo “encerramento imediato” das indústrias químicas em Huelva. “Actualmente, já não restam dúvidas de que este complexo industrial está na origem de milhares de casos de cancro que surgiram na região nos últimos anos. O caso é tão grave que Huelva já é a cidade com a maior taxa de incidência de cancro de toda a Europa”, alertou Bejarano Cristo.

Mortalidade ligada ao cancro é 25 por cento superior à média

Diversos estudos e análises realizadas ao longo dos últimos anos, levadas a cabo por diversas entidades independentes, como a Universidade de Granada e Barcelona, têm revelado que os resíduos tóxicos e cancerígenos têm atingido níveis de radiação que chegam a ser 110 vezes superiores aos valores legais!
O estudo universitário de Barcelona revela mesmo que a taxa de mortalidade devido ao cancro na região da Andaluzia é 25 por cento superior à média. Além disso, foram detectadas quantidades muito elevadas de enxofre e arsénico no ar e nos rios Odiel e Tinto, que desaguam no Atlântico.
“Mesmo sem estes estudos alarmantes, consideramos que o que está à vista de todos já é suficientemente grave e que deveriam ser tomadas medidas urgentes. Mas a indústria química é muito poderosa e tem conseguido abafar o problema”, lamentou o porta-voz da Mesa de la Ría.
Apesar disso, a plataforma andaluza e o Greenpeace conseguiram nos últimos dois meses chamar a atenção do mundo para o excesso de radioactividade que se verifica em Huelva e nos seus arredores. Depois de confirmar a ocorrência de diversos acidentes ecológicos nos últimos anos, a própria Comissão Europeia também já perdeu a paciência e exige às empresas de Punta del Sebo que parem de poluir o ambiente com as suas descargas de resíduos químicos e metais pesados.
No passado mês de Maio, Bruxelas pediu mesmo ao governo espanhol explicações sobre a situação e exigiu “a tomada de medidas para prevenir mais violações do meio ambiente”. Entretanto, perante a gravidade do caso, a União Europeia decidiu ir mais longe e avançou recentemente com um estudo para apurar os factos e garante que tomará uma posição final até ao final de 2008.

"Maior catástrofe ambiental à escala mundial"

Uma das empresas que está na “lista negra” dos ambientalistas e da população de Huelva, onde começa a existir uma forte aliança das pessoas contra as indústrias químicas, é a Fertiberia, que há cerca de oito meses apresentou um plano de encerramento. Segundo este plano, a companhia – cujas instalações distam apenas 500 metros da cidade – propôs acabar com a sua actividade de forma gradual em Huelva, num período de 10 anos. No entanto, o governo espanhol e a União Eu-ropeia consideram que esse tempo é demasiado excessivo e estão a pressionar a empresa para encerrar até 2011.
Mas há mesmo quem defenda o “fim imediato” das descargas poluentes das indústrias químicas na região, apesar destas darem trabalho a milhares de pessoas. “Estas agressões ambientais são absolutamente intoleráveis, pois afectam gravemente a saúde e o ambiente”, tendo já sido classificada na Europa como “a maior catástrofe ambiental à escala mundial”, frisou Bejarano Cristo.
Entre as substâncias radioactivas detectadas em altos níveis de concentração no local, encontram-se o urânio 238 e 235, o polónio 210 (que vitimou o ex-espião russo Alexander Litvinenko), o rádon 222 ou ainda o rádio 226.

"Zona da morte"

Porém, os movimentos cívicos e a população parecem que estão a perder a “guerra” contra as 21 indústrias presentes em Huelva, que se agruparam numa poderosa Associação das Indústrias Químicas e Básicas de Huelva. “Eles transformaram a nossa terra numa zona da morte. As taxas de cancros são tão elevadas que não deixam dúvidas quanto à responsabilidade das indústrias neste caso. Por isso, esperamos que o estudo que está a ser liderado pela União Europeia traga resultados brevemente para podermos parar com esta mortalidade”, referiu o responsável.
O Jornal do Algarve tentou ao longo da semana contactar a Junta da Andaluzia e a associação que reúne as indústrias químicas de Huelva. Ambas mostraram-se pouco interessadas em fazer declarações à imprensa, tendo pedido que enviássemos as perguntas por escrito através de e-mail, sem garantias de resposta atempada, o que devido aos prazos não foi possível atender. Ainda assim, uma responsável da Associação das Indústrias Químicas e Básicas de Huelva adiantou que não tem conhecimento de qualquer estudo europeu em curso no local. Mas o nosso jornal sabe que, até ao final deste ano, a UE vai mesmo tomar uma posição sobre esta matéria que está a alarmar cada vez mais a população.
O pior é que, como revela o porta-voz da plataforma Mesa de la Ría, “mesmo que fechem já hoje as fábricas de uma vez por todas, os seus efeitos negativos ainda persistirão por muitos e muitos anos, pois há décadas que andam a libertar substâncias tóxicas e mortais para o meio ambiente”.

in http://www.jornaldoalgarve.pt/artigos.aspx?id=7933

terça-feira, julho 01, 2008

Memórias do abate de árvores na cidade: Avenida das Árvores Abatidas

Loulé, Allgarve, Portugal

Primavera 2008

Avenida José da Costa Mealha

Nota: Clique em cima da foto para ampliação da imagem.

Árvores

Árvores negras que falais ao meu ouvido,
Folhas que não dormis, cheias de febre,
Que adeus é este adeus que me despede
E este pedido sem fim que o vento perde
E esta voz que implora, implora sempre
Sem que ninguém lhe tenha respondido?

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, junho 30, 2008

Psssss! Caladinhos...que o respeitinho é muito bonito...



Google obrigada a impedir acesso ao site que alojava o Póvoa Online.


Pela primeira vez um blogue é suspenso por ordem judicial em Portugal. O tribunal dá razão a autarcas da Póvoa do Varzim num processo por difamação contra desconhecidos que os acusavam de corrupção. Aconteceu na Sexta-Feira e é a primeira vez que um blogue português é suspenso por ordem judicial.

Para António Pedro Ribeiro, colaborador do blogue suspenso, trata-se de uma "atitude prepotente, autoritária e fascizóide" dos autarcas. Circularam pela cidade vários nomes de suspeitos. Mas os autarcas nunca chegaram a descobrir quem se escondia por detrás da autoria de passagens como esta: "Actualmente (a Póvoa do Varzim) apenas oferece lixo, areia da praia contaminada e um mar poluído, tudo supervisionado por autarcas agarrados ao poder e sustentados por uma teia de corrupção que corrói toda a gestão municipal. Vingou a lei do cimento."

No Jornal Público de hoje, 30 de Junho de 2008, pode-se ainda ler que "O tribunal da Póvoa absolveu no dia 25 o líder da bancada do PS na assembleia municipal da prática de crimes de difamação do Presidente da Câmara, Macedo Vieira, e dos vereadores Aires Pereira, Manuel Angélico e Luís Diamantino, todos eleitos pelo PSD. Em julgamento esteve a opinião públicada há dois anos num jornal local, onde Ilídio Pereira fez referência, entre outras coisas, aos "poderes municipais e muito particularmente o do nosso munícipio, (que) se organizam de forma tentacular, criando dependências e cultivando a subserviência."

Recordo ainda que o autor do blogue Do Portugal Profundo já foi processado e também absolvido num caso de tribunal com o Primeiro Ministro José Sócrates, esse paladino da liberdade de expressão. Recentemente, é Paulo Pedroso que move várias "armas de destruição maçica" em forma de testemunhas, num processo contra Balbino Caldeira. E cada vez mais casos vão sendo do conhecimento público em Portugal.

Já aqui o tinha escrito, a cultura democrática em Portugal é tão frágil que os poderes instituídos não estavam preparados para a "explosão da palavra" na blogosfera e para o avanço brutal e repentino do alargar da discussão pública e da democracia sob a forma electrónica.

Não estando habituados à tomada da palavra por parte do "povo", resta a estas boas almas "democráticas", os tribunais, num país em que a justiça não defende os mais fracos e bastantes vezes é utilizada como arma de intimidação por parte dos poderes societais dominantes.

Da parte que me toca, garanto-vos que tenho todo o cuidado do mundo com o que escrevo e que isso se traduz por vezes num exercício penoso de autocensura. Não podendo escrever tudo o que penso, posso no entanto pensar tudo o que escrevo. É triste, mas depois de séculos de obscurantismo e de dezenas de anos a viver em regime ditaturial é compreensivel que a nossa democracia e os líderes que nos governam ainda a experenciem no seu estado prematuro e não a consigam vivenciar de outra forma.

É triste, muito triste, esta necessidade de autocensura como forma de autodefesa. Mas para além de triste...é mais necessária do que nunca...sobretudo na blogoesfera. Tristes Democratas...

Psssss! Caladinhos...

Ps: É mais importante do que nunca em prole da defesa da blogosfera a reflexão sobre a fronteira entre a crítica política e a ofensa privada e pessoal que nada tem que ver com liberdade de expressão. Fronteira muito difícil de traçar e que abre espaço a todas as formas de censura. Precisamente esta semana, Marcelo Rebelo de Sousa, chamou de maior incompetente do mundo a Jaime Silva, Ministro da Agricultura. Crítica política ou ofensa pessoal passível de acção do tribunal?

Para aceder ao relatório que enforma a decisão do tribunal clique em
http://povoaoffline.blogspot.com/2008/06/o-fascismo-continua-o-povoaonline-foi.html

domingo, junho 29, 2008

Ordenamento da Orla Costeira no LC: Dunas que doiram

Dunas Douradas

Loulé, Allgarve, Portugal

Praia das Marias

Nota: Clique em cima da foto para ampliação da imagem.

"(...) E isto é apenas a crista da onda. Os milhares de frequentadores do Algarve, de ano para ano, de década para década, vêm perdendo a paciência com a mentira contínua com que são burlados. Sempre à espera de que se cumpra a promessa de acabar com o caos; e sempre a verificar que ele nunca parou de crescer.
Quem pode, paga o luxo de alguma largueza de espaço num "resort" protegido por vários hectares de "greens". Outros vão recuando cada vez mais para as abas da serra. A extensa massa do turismo nacional, que é hoje quem aguenta o negócio algarvio, essa sujeita-se à permanente hora de ponta do infernal Algarve - seja Armação de Pera, Albufeira, Praia da Rocha ou Quarteira...Fazem bicha de manhã para o pão, para o leite, para o peixe, por entre um caos automobilístico e urbanístico.
No meio disto, uma trupe de estrangeiros recrutada nos preços mais baixos dos saldos turísticos, vai chinelando de peúgas e canecas de cerveja na mão pelos hotéis de luxo.
Anos sucessivos de desordenamento territorial conseguiram já destruir, afectar ou pôr em cheque todos - mas literalmente, todos - os recantos do Algarve litoral. Nada naquela região está a salvo. O que ainda ontem era um lugar lindo, pode ser amanhã um estaleiro de obras, e no dia a seguir uma urbanização medonha; o que ontem era ainda uma magnífica e produtiva extensão agrícola, pode ser amanhã mais um golfe. Até os imponentes cabeços de serra, podem ser amanhã uma lixeira intermunicipal, uma pedreira infernal, uma escombreira chanfrada por uma via rápida ao serviço de todas as pressas. As mais deslumbrantes arribas ocres podem de um dia para o outro aparecer ao mesmo tempo ocupadas por vivendas e piscinas, e esbarroncadas pela ruína que essas próprias construções lhes provocam.
Não há lugar mais eloquente de irracionalidade de ocupação do território do que o litoral algarvio. Pelo menos nisto, o país em peso está de acordo.
E todavia, as obras não param de crescer, e as ocupações não param de galgar tudo. Não há lei, não há Estado, não há senso comum, não há sequer a noção inevitável do colapso que todo este processo acabará por trazer ao próprio negócio que o moveu. Mesmo sabendo que o litoral algarvio está hoje em zona de alto risco de erosão e que as alterações climáticas aí farão sentir os seus efeitos de forma intensa."

In Luísa Schmidt, País (In) Sustentável. Ambiente e Qualidade de Vida em Portugal, 2007, pp. 171-172, editora Esfera do Caos.

Leitura a não perder.

sábado, junho 28, 2008

Ordenamento da Orla Costeira no Concelho de Loulé

Loulé, AllGarve, Portugal

Praia das Marias


Nota: Clique em cima da foto para ampliação da imagem.

Al(g)arvidades

"Já satura. Há mais de 20 anos que este é um dos maiores consensos nacionais: a abominável degradação a que se deixou chegar a preciosidade ambiental e turistica que era o Algarve! De todos os quadrantes políticos, nalgum momento, ouviram-se as mais explicítas lástimas ao caos a que chegou aquela martirizada região. Citemos apenas duas frases num espectro político insuspeito.
Cavaco Silva: "O Algarve é uma desilusão do ponto de vista do ordenamento do território. Como cidadão, sou obrigado a constatar a confusão, a falta de qualidade, o desordenamento...Mas isso tem muito a ver com certos aspectos negaticos do poder autárquico que, durante muitos anos, os governos da República tiveram pejo de enfrentar (...) incluindo os meus (...) Tenho muitas saudades do velho Algarve" (28/3/95, "Público").
Mário Soares durante a Presidência Aberta sobre o Ambiente: "O caos urbanístico do Algarve resulta de erros acumulados que começaram antes do 25 de Abril. (...) Mas continua a haver projectos que são verdadeiras "enormidades", tanto no barlavento como no sotavento. (...) E até em áreas protegidas há exemplos de turismo selvagem"
(7/04/1994). Mais tarde chegaria a utilizar a expressão "Reboleira" para se referir à desordem algarvia."

In Luísa Schmidt, País (In) Sustentável. Ambiente e Qualidade de Vida em Portugal, 2007, pag. 171, Editora Esfera do Caos

Leitura a não perder.

Ps: A exposição deste texto continua num próximo post.

sexta-feira, junho 27, 2008

Memórias do abate de árvores na cidade

Loulé, ano de 2008

Avenida José da Costa Mealha



Árvore, cujo pomo, belo e brando

Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruito debuxando.

Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.

Luís Vaz de Camões

quarta-feira, junho 25, 2008

Do retrocesso social na União Europeia

65 horas de trabalho - Nova Directiva Europeia

Tempos Modernos



A Europa regride socialmente a passos largos após as duras conquistas sociais do pós Segunda Guerra Mundial.

À directiva de "retorno", essa magnífica invenção de desrespeito total pelos direitos humanos mais elementares, junta-se a directiva das 65 horas de trabalho.

As mentes doentes que governam os Europeus são perversas o suficiente para propor 65 horas de trabalho semanais.

Marx deve ter dado milhares de voltas no caixão, espantado com o sonho concretizado do grande capital.

Sessenta e cinco a dividir por cinco, ajudem-me lá por favor, que não sei se estou a fazer bem as contas, dá 13 horas por dia. Restarão oito para dormir e ainda teremos três horas para comer e defecar. Claro que isto garante o fim de semana livre, pois se trabalharmos Sábado e Domingo sem parar, sempre sobra um tempinho durante a semana para repousar.

O capitalismo selvagem, neoliberal, aquele que enforma as grandes decisões estruturantes da União Europeia, em nome da "competitividade", está a contribuir para nos aproximarmos dos padrões de civilização da China e da India.

O direito ao descanso, a um trabalho condigno, à multidimensionalidade da vida social, que não se reduz concerteza ao trabalho; a possibilidade de conciliar a vida conjugal e familiar com o mundo da produção são nesta directiva completamente ignorados e desprezados em nome das mais valias inerentes ao mercado capitalista e da mais completa mercadorização dos seres que ainda se designam de humanos.

Em vez da UE se manifestar vivamente contra o trabalho escravo na China e na Indía e contra o claro atentado aos direitos humanos que significa trabalhar horas e horas sem fim nas mais miseráveis condições de trabalho e por um salário que não assegura o minimo de subsistência, os líderes da UE preferem aproximar-se dos padrões de escravidão desses países, em nome do lucro, da exploração e da "globalização" da economia.

Quem consegue ser produtivo a trabalhar 65 horas semanais? Será o objectivo a "produtividade" ou o regresso à pauperização dos tempos iniciais da sociedade da fábrica não terá como objectivo principal o controlo social total do massivo exército de reserva indústrial do sistema capitalista?

Já sei...já sei...é a "inevitabilidade" da globalização, essa entidade abstracta que a todos nos governa...

terça-feira, junho 24, 2008

Retratos da História Ambiental de Loulé: No lugar da árvore...descubra as diferenças...

Avenida José da Costa Mealha

Ano 2008


Era das Trevas


Avenida José da Costa Mealha

Ano 2008

Era Moderna



Cada árvore é um ser para ser em nós

Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses

António Ramos Rosa

segunda-feira, junho 23, 2008

Da não notícia da tragédia da Birmânia

Maio de 2008

Mais de 100 mil mortos provocou o ciclone de Myanmar

E a ajuda da comunidade internacional em que ponto está?



Atenção: Imagens que podem ferir a susceptibilidade dos visitantes

Deixo-vos com um texto de Vitor Malheiros do jornal Público de 17 de Junho de 2008 intitulado:

Hoje não há nenhuma notícia na Birmânia

"Quase sem darmos por isso, a Birmânia desapareceu das primeiras páginas dos jornais e da homepage dos sites. Às vezes, nas páginas interiores, aparece discreta uma notícia, um membro de uma organização humanitária denúncia o abandono das populações, um repórter mostra as filas de gente que esperam ajuda. Mas a Birmânia saiu da ribalta. Para mais, houve o tremor de terra na China. É difícil os media falarem de dois desastres do mesmo tipo ao mesmo tempo. Confunde os leitores.
E a recusa da junta birmanesa em deixar entrar os elementos das associações humanitárias não é notícia? Não. Não é notícia porque já foi. Já se disse e os jornais não podem repetir as mesmas notícias todos os dias. É a lógica perversa da notícia. O que há para dizer hoje sobre a Birmânia que seja diferente do que se disse há três semanas? Do que também não se disse mas se poderia ter dito ontem e anteontem? Nada. Hoje não há nenhuma notícia da Birmânia.
Os militares continuam a expulsar os refugiados dos campos onde estes esperaram, em vão, ajuda alimentar durante as últimas semanas. Dizem-lhes que regressem às suas terras e que refaçam a sua vida. De mãos vazias, de estômago vazio e de coração vazio também. Os birmaneses perderam a esperança, a energia e o interesse na vida, diz um voluntário. Acontece quando toda a nossa família desaparece numa noite. A junta prefere que morram pelos campos, que se afoguem discretamente nas aldeias quando começarem as monções, que deslizem de inacção para o fundo do lodo, que se desfaçam em disenteria. Mortos aos milhares nos campos de refugiados, dariam demasiado nas vistas. Dispersos, passarão mais despercebidos. Mesmo que os números atinjam os 1,5 a 2,4 milhões que estão agora sem abrigo, sem meios de subsistência, sem arroz, sem água potável, sem ajuda médica. Mesmo que essa ajuda se acumule nas fronteiras, nos barcos estrangeiros ao largo.
Os militares continuam a dispersar à coronhada as filas de gente faminta e desesperada que se acumula à beira das estradas. E continuam a prender os populares que, com os seus parcos meios, distribuem alimentos nas zonas atingidas. E a prender quem distribui DVD com imagens da catástrofe. Imagens "trucadas", dizem, para deixar mal o país. A palavra de ordem oficial é que a situação de emergência acabou - por isso não precisam de "chocolates" da comunidade internacional. Agora a hora é de reconstrução - por isso precisam de dinheiro. Onze mil milhões de dólares. Que irão cair nas contas secretas dos militares, enquanto uma parte dos 1,5 a 2,4 milhões sofrerão a sorte dos 134000 que já morreram até agora.
Hoje não há nenhuma notícia da Birmânia. Aung San Suu Kyi continua em prisão domiciliária. Os soldados ameaçam quem se esconda nos mosteiros e os monges que os acolham. As ONG continuam sem poder trabalhar. A ajuda pode entrar, mas tem que ser entregue aos soldados. Já era assim há dias. Nenhuma notícia. É como no Darfur. Também não há notícias do Darfur.
A comunidade internacional tem boas intenções mas não sabe o que fazer na Birmânia. A ONU tem as mãos atadas pelo respeito que a China tem pela soberania nacional de todos os países e principalmente dos que lhe são próximos. Os EUA têm as mãos atadas. A UE também tem as mãos atadas. Se se tratasse de lançar umas bombas, arrasar uma aldeias, matar uns milhares de pessoas, mutilar crianças, seria fácil, porque se percebe a necessidade. Mas lançar ajuda alimentar implica uma grande responsabilidade, não se pode fazer de ânimo leve. A Birmânia ia ficar irritada, a China podia ficar irritada e (neste caso) há o direito internacional a considerar. Nenhuma notícia."

In jornal Público, de 17 de Junho de 2008

Isto é jornalismo de qualidade...pena que o artigo esteja nas tais páginas escondidas do jornal.