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sábado, agosto 26, 2006

A culpa é da chuva

Já vamos estando habituados a este tipo de incompetências e irresponsabilidades por parte de alguns dos políticos da nossa praça.

Como já aqui fiz referência a ausência de sensibilidade ambiental da maior parte dos nossos autarcas tem resultado numa catástrofe ambiental para o ordenamento do território na região do Algarve.

Numa época em que siglas como PROTAL,PDM,REN,RAN e outras que tais entraram no vocabulário até do cidadão menos informado, continuamos a recusarmo-nos do ponto de vista político a respeitar as prescrições e as proscrições que tais documentos recomendam e/ou obrigam.

Isso é comprovável pelo continuo abuso de construção em cima das dunas e da água do mar numa boa parte da nossa costa, coisa que me faz uma terrível "confusão" do ponto de vista das decisões e autorizações políticas.

É claro que tal depravação urbana tem que resultar em consequências danosas em termos ambientais.

Desta vez foi em Vale do Lobo. Uma descarga poluente em plena época balnear levou as autoridades ambientais (e muito bem!!!) a retirar a bandeira azul à respectiva praia.

Do lado económico, Van Gelder, o proprietário do empreendimento Vale do Lobo lavou desde logo as suas mãos fazendo como Pôncio Pilatos fez a Jesus Cristo: "Isto é um crime ambiental, temos que apurar responsabilidades e encontrar os responsáveis".

Da autarquia Louletana fez-se como o ministro Sócrates: "A gestão do silêncio é de ouro"..."pelo que nos toca informamos que as ETARS estão a funcionar em pleno".

Os responsáveis pela CCDR ultrapassaram-se a si próprios: "A culpa é da chuva que isto de chover no verão é um ultrage a todos os algarvios".

Para completar o cambalacho, Vale do Lobo, porque acha impensável ficar sem a tão apetitosa bandeira azul encontrou a solução encantatória para o problema: "A malta coloca a bandeira da União Europeia que por acaso também é azul e enganamos os parolos que aqui venham à nossa praia".

Pois é...é o reino da macacada!!!

Mas agora pergunto eu, quem se responsabiliza pelos impactos económicos, ambientais e...de saúde (saúde sim, porque estes não são visíveis nos cálculos económicos e políticos)para as populações que tomam o seu banho em àguas tão agradáveis?

A moda política é passar a mensagem que os defensores do ambiente são os "fundamentalistas" que travam o desenvolvimento económico dito "sustentável" mas parece que os "fundamentalistas" deveriam ser levados em conta em muitas mais situações.

Felizmente os estudos sociológicos indicam que as novas gerações são muito mais inteligentes do ponto de vista ambiental.

Pode ser que por aí o ambiente um dia ganhe o estatuto de cidadania em portugal.

Um abraço ambiental para todos

João Martins

sábado, agosto 12, 2006

A era dos danos "colaterais"

O mundo está mais perigoso do que nunca.

A guerra continua a ser uma instituição social total e com os meios tecnológicos e militares hoje disponíveis a capacidade de destruição em massa e inclusivé o risco de se acabar com a espécie humana é uma probabilidade comtemporânea bem real.

Norbert Elias, sociólogo Alemão, que percorreu em vida quase todo o século XX e assistiu aos horrores da segunda guerra mundial já tinha avisado.

Progredimos espantosamente na capacidade tecnológica e no aparente domínio sobre a natureza não humana, mas pouco evoluimos na capacidade de estabelecermos um entendimento entre os seres humanos.

A capacidade de vivermos harmoniosamente como seres humanos sem fazermos a separação entre um "nós" e os "outros" é infinitamente mais limitada do que a capacidade de destruição nuclear.

O 11 de Setembro de 2001 e as políticas seguidas pela administração Bush de combate ao "terrorismo", atacando estados e nações inteiras, onde se deveria combater apenas os grupos terroristas altamente organizados, veio potencializar o ódio ao "ocidente" e o consequente aumento da capacidade de recrutamento humano dos grupos terroristas espalhados por todo o mundo.

De toda a forma não se percebe muito bem se foram as guerras no Medio Oriente que potencializaram os actos terroristas ou se pelo contrário foi o terrorismo que deu origem à escalada da guerra. Provavelmente a relação é de causalidade circular.

Uma coisa é certa, o mundo mudou. Os actuais acontecimentos, entre os quais o mais recente no aeroporto de Heathrow, vão legitimar políticas de privação das liberdades individuais.

Bilhetes de identidade genéticos. Câmaras de video-vigilância nas casas de banho públicas, centros comerciais, auto-estradas, jogos de futebol, teatros, na ópera e outros que tais. Redes de satélite vigilantes dos mais pequenos movimentos individuais.
Sistemas de vigilância que visualizam seres humanos como vieram ao mundo.

Aviões carregados de civis abatidos em pleno ar pelas autoridades oficiais sempre que houver movimentos suspeitos e violação de espaço aéreo provocando danos "colaterais" (o que só legitima mais a causa dos terroristas que podem sempre dizer que foram "eles" que destruiram os aviões com civis voltando as populações contra os Estados)....o caminho está a ser traçado.


Existe uma visão política mais conservadora que só precisa do pretexto que agora está a ser dado. O Estado Totalitário severamente critícado por George Orwell em 1984 na sua visão do Big Bhother veio para ficar.

Ia para Londres esta semana em férias. Felizmente a agência de viagem conseguiu a alteração de destino a meu pedido.

O paradoxo acentuou-se na minha memória.

Segurança pessoal e colectiva ou liberdades individuais inalienáveis?

Não sei, tenho muitas dúvidas. Raramente tenho certezas e engano-me muitas vezes. Mas estarei disposto a abdicar das minhas liberdades tão duramente conquistadas ao longo da história da humanidade? Não valerá a pena sofrer a infima e dramática probabilidade de um dia, algures no globo terrestre sofrer um atentado?

E o terror será melhor combatido com o terrorismo de Estado?

A assunto está na ordem do dia e esta é uma discussão política em que os cidadãos têm que participar.

Bom fim de semana a todos os cibernautas.

João Martins

terça-feira, agosto 01, 2006

Sinais preocupantes da democracia portuguesa

Os regimes democráticos não sendo isentos de imperfeições caracterizam-se por um tipo de dominação racional-legal como nos ensinou o grande sociólogo Max Weber.

Quer isto dizer que o que legitima a dominação dos dominantes sobre os dominados é a crença na legalidade e nos regulamentos instítuidos pela lei do Estado de Direito.

A separação do cargo do homem que o ocupa é assim uma das traves mestras da legitimidade dos regimes democráticos.

Infelizmente assim não o entendem alguns dos nossos mais conceituados autarcas que têm vindo a público recentemente com afirmações discursivas e práticas sociais muito preocupantes do ponto de vista da vida democrática, demonstrando alguns comportamentos mais conformes com as práticas políticas dos regimes autoritários.

Senão vejamos, Rui Rio "proíbe" a crítica social e política às entidades que sejam apoiadas financeiramente pela autarquia do Porto. Promove desta forma um rebanho de cordeirinhos obedientes pois se dizem o que pensam o "subsídio" da autarquia com toda a certeza que será retirado.

Alberto João Jardim quer um jardim exclusivamente para heterossexuais. Para este "dinossauro" da política portuguesa Sócrates anda a enganar os portugueses pois faz de conta que quer resolver os problemas económico-financeiros do país, mas o que ele quer mesmo fazer, qual visão conspirativa, é legalizar o casamento dos homossexuais sem que os portugueses se apercebam, quase como o fez com a substituição do Ministro dos Negócios Estrangeiros, contribuindo assim segundo o omnipotente Jardim para a "degradação moral da vida portuguesa".

Fernando Ruas quer "expulsar os fiscais do ambiente à paulada" "valorizando" desta forma as preocupações ambientais dos portugueses e aderindo ainda ao "apanhem-no vivo ou morto" tão do agrado de George W. Bush.

Pois é, é a democracia que vamos tendo. Se isto continua assim começa a ser preocupante e de certa forma um retrocesso em relação às conquistas de Abril de que tanto estes senhores acima referidos apregoam ter contribuido.

Boa semana e lembrem-se que a democracia não é um estado adquirido de uma vez por todas mas sim um processo em constante transformação.

João Martins

domingo, julho 23, 2006

O Ethos ambiental dos nossos autarcas

Fernando Ruas, presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses mostrou em todo o seu esplendor o pensamento comum à maior parte dos autarcas portugueses sobre as questões ambientais.

Diz-nos este senhor para não hesitarmos e "corrermos com os fiscais do ambiente à pedrada".

É lamentável que este senhor represente os autarcas portugueses e ainda mais lamentável que esta seja a visão do mundo que predomina na cabeça da maior parte dos nossos autarcas.

Não tomando a nuvem por Juno nem a àrvore pela floresta, o desordenamento do território em todo o país é tal que deixa envergonhado qualquer cidadão de um país que se queira civilizado.

Numa altura em que o PROTAL está em cima da mesa das negociações, aquilo de que mais se queixam os nossos autarcas é dessa "moda do ambiente" como entrave ao desenvolvimento económico, sendo que na óptica da maioria desses senhores desenvolvimento é igual a crescimento económico.

Basta dar um passeio pelo litoral e vemos que é possível em Quarteira construir prédios de dez andares dentro da areia (caso da última construção antes de chegar ao Forte Novo).
É possível ver vivendas a caírem para dentro de àgua na praia de Vale do Lobo (num claro atentado ambiental à erosão costeira).
É possível ainda nas Dunas Douradas construir vinte apartamentos a cinco metros das dunas de areia (coisa só possível com "compadrios" na aprovação das licenças de construção).

Entre projectos estruturantes e de interesse "vital" para a "Região" e a construção de Marinas ao longo da costa algarvia o caminho que se está a seguir não é claramente o do ordenamento da Orla Costeira, mas sim o de continuar a "betanização" do que falta cimentar em cima das àguas algarvias.

Pelo menos houve o decoro dos custos económicos do desinvestimento ambiental em Vale de Lobo terem desta vez sido suportados pelos próprios privados que exploram essa costa, pois da última intervenção tinham sido em parte os dinheiros públicos a custear os interesses privados que lucram com o negócio.

Hoje, dia 23/07/2006 fui expulso por um segurança da empresa Prosecom das Dunas Douradas quando tentava estacionar o carro para ir à praia.
Os senhores estão a construir 10 apartamentos em "cima" da àgua do mar e já se sentem donos da antiga praia "As Três Marias".

É mais um caso grave de apropriação privada do espaço público e a tentativa de apropriação da praia para "ricos" clientes expulsando o "povo" da dita cuja.

Grave do ponto de vista da democracia. Não acha, senhor Presidente da Câmara Municipal de Loulé?

João Martins

sexta-feira, julho 14, 2006

Proposta indecente

Gilberto Madail no seu melhor! Depois da catarse nacional e do bom desempenho da selecção portuguesa, há que reconhecê-lo, eis que aparece o caciquismo futebolistico no seu esplendor.

A proposta feita pelo senhor presidente da federação portuguesa de futebol no sentido de isentar de impostos os "pobres" trabalhadores do mundo da bola ultrapassou todas as expectativas de bom senso ao alcance do cidadão comum.

Num país em que o salário mínimo "nacional" ronda a miserável quantia de 350 euros por mês, o senhor Madail acha por bem que os nossos milionários futebolistas sejam "beneficiados" pelo bom serviço de salvação da pátria lusitana.

Eis uma proposta que diz tudo sobre quem a faz e que diz muito mais sobre como pensam e vêem o mundo os caciques do mundo da bola.

O futebol até há bem pouco tempo sempre foi um Estado Paralelo, qualquer coisa como um Estado dentro do Estado, onde a fuga ao fisco, a lavagem de dinheiro vindo de negócios escuros e os conluíos entre construtores civis, câmaras municipais e dirigentes desportivos adquiriam contornos de "normalidade". É o "sistema" a funcionar pois não pode ser de outra maneira já que todos fazem assim.

Se o meu vizinho compra os árbitros eu também tenho que comprar e este círculo vicioso alimentou-se desta "naturalidade" até à meia duzia de anos. Pena que aqui em Portugal o "apito dourado" não tenha qualquer repercussão social pois a nossa justiça infelizmente é tremendamente injusta.

Provavelmente temendo aquilo que acontece neste momento no futebol Italiano, onde a corrupção futebolistica já não passa impune, o senhor Madail decidiu fazer esta proposta legal e imoral simultaneamente.

Eu faço uma proposta decente. Por favor não tomem o dito "povo" por idiota, despeçam já esse senhor.

Quem assim pensa não pode continuar a desempenhar o lugar que ocupa.

Em nome dos impostos dos portugueses, de forma a que não precisem tanto de "apertar o cinto" para que afinal de contas o Estado Social vá passando a ser apenas uma parcela dos livros de História de Portugal.

Abraços e beijinhos

João Martins

terça-feira, julho 04, 2006

Lésbicas pois. Onde está o problema?

O canal dois da RTP está a fazer história com a transmissão da série "Lésbicas".

História, porque esta é uma categoria social estigmatizada e marginalizada ao longo dos tempos na sociedade portuguesa.

História porque está a tornar visível aquilo que é oculto no dia a dia de muitos cidadãos que vivem entre nós e a quem são escamoteados os seus direitos.

A homossexualidade é entendida na maioria das sociedades contemporãneas como "contra-natura", rejeitada e condenada pela igreja católica como um pecado divino e os homossexuais têm direito à sua existência social desde que se mantenham na sua invisibilidade.

Uma sondagem publicada pelo jornal Expresso há alguns meses atrás revelava que existem em Portugal perto de um milhão de homossexuais, o que quer dizer que existe a probabilidade de 1 em cada dez pessoas que conhecemos pertencerem a esta categoria sexual.

A sexualidade de cada um só ao mesmo diz respeito e o heterossexualismo saloio que vê a norma heterossexual como a única legitima não raras vezes resvala para a homofobia social. Que o digam os miúdos que no nosso país se "divertiam" a espancar um transsexual, terminando a "brincadeira" por lhe acabar com a vida.

Mais uma vez os nossos vizinhos Espanhóis já levam vantagem naquilo que são a defesa dos direitos das minorias sexuais e avançaram este ano com a legalização do casamento entre homossexuais.

Parabéns à RTP pelo contributo que ajuda a desmistificar este lado oculto da vida social e que condena tanta gente ao isolamento e à descriminação.

Para quando a legalização do casamento dos homossexuais em Portugal e o reconhecimento dos mesmos a uma via socialmente condigna?

Abraços
João Martins

quinta-feira, junho 22, 2006

O mundial dentro de casa

Pois é, a globalização tem destas coisas. Não vou à Alemanha ver o mundial, mas não tem problema, já que o mundial vem até mim.
Abençoada globalização.

Infelizmente porque não sou doente da bola e preciso de dinheiro para gastar em coisas mais úteis, tenho TV Cabo, mas não tenho Sport TV. Já agora aproveito e digo, não tenho, nem quero ter.

Mas este fenómeno social da monopolização privada do acesso à visualização dos jogos de futebol gerou um fenómeno interessante e simultaneamente discriminatório.
É que estamos a assitir a uma mudança na composição social dos espectadores dos espectáculos de futebol.

Este que sempre foi "o" desporto por excelência das classes populares está a sofrer uma recomposição classista. O seu público está-se a emburguesar.
Desde logo pelo preço dos bilhetes para assistir aos jogos de alto nível, só acessíveis aos bolsos de alguns e depois porque o acesso às transmissões televisivas está a ficar também só ao alcance de uns quantos.

Felizmente o pessoal da hotelaria recusou os planos do monopólio do capital e o bom povo pode sempre ir até ao café do bairro ver o que se vai passando na Alemanha.

Mas falemos dos principais protagonistas do espectáculo, as equipas e os seus jogadores.

A terminar a primeira fase, posso-vos dizer que gostei do bom futebol praticado pela Argentina, a Holanda e a Espanha.

Parece-me que vamos ter que contar com a Alemanha que joga em casa e está a jogar benzinho e também com a Inglaterra (meio campo fortíssimo)como potenciais candidatos.

O Brasil está a meio gás e vai ganhando sem grandes problemas. Não têm deixado jogar o "quadrado mágico".
O problema (para os seus adversários claro) é que quando estes tiverem que jogar o jogo pelo jogo, ai o Brasil vai sambar.

Portugal, não estando num grupo forte, cumpriu a sua missão. Em mundiais não há jogos fáceis e três vitórias em três jogos é um feito digno de registar.
Agora vem aí o "mata mata" como diz o mister Scolari e a partir daqui tudo é possível. Como alguém do mundo da bola disse um dia "deixem-nos sonhar".

Parabéns ao Equador e ao Gana que fugiram ao socialmente esperado e já ganharam o seu mundial.

Dos craques destaco Saviola, Riquelme, Messi e Crespo da Argentina. Fernando Torres de Espanha, Figo de Portugal (já sem velocidade mas com uma inteligência superior, o que é suficiente para o seu futebol continuar a encantar). Tivesse o Cristiano Ronaldo metade da inteligência de Figo... mas infelizmente o que lhe sobra noutras qualidades falta-lhe na capacidade de pensar o jogo.

Da Inglaterra há os que nunca jogam mal porque não sabem fazê-lo, são eles Lampard, Gerrard e Joe Cole.

Do Brasil claro, Ronaldinho Gaúcho e Kaka que quando lhes darem espaço vão desgraçar as defesas adversárias.

Balanço positivo desta primeira fase com muitos jogos agradáveis de se ver e com a tónica positiva de os árbitros até agora não se fazerem notar.

Suspeito que nesta fase do "mata-mata" a qualidade dos jogos vai piorar pois com equipas muitos equilibradas os sistemas tácticos fechados e defensivos vão imperar.

Abraços a todo o pessoal e boa sorte mister Scolari.

João Martins

domingo, junho 11, 2006

Futebol, media e nacionalismo bacoco

Já lá vai o tempo da célebre trilogia Fado, Futebol e Fátima. A Época Salazarista utilizou o futebol como instrumento de reprodução da ideologia dominante e como instrumento de legitimação do estado.

Slogans como "Nada contra a nação, tudo pela nação" ou "Portugal indiviso de Minho a Timor" serviam para a legitimação da dominação colonial e para provocar a ilusão de unanimidade onde existia a divisão e a conflitualidade.

A inculcação do nacionalismo pelo Estado servia de instrumento de legitimação do próprio Estado assegurando a dominação da elite dirigente do Estado Novo.

Hoje, já não temos Eusébio, mas temos os media que provocam a catarse nacionalista fomentando a histerese colectiva de um povo perdido de causas.

Em época de globalização, em que os Estados Nação perdem a sua soberania, em que ser cidadão do mundo pareceria ser uma evidência, temos aí a criação de uma identidade defensiva (o nacionalismo bacoco), que resiste à invasão do global tido como ameaçador e gerador de incertezas quanto ao nosso lugar do mundo.

Com a multiplicidade de referências identitárias com que somos bombardeados a partir da aldeia global, os individuos entram em crise de identidade.

A nacionalidade é um elemento identitário facil de agarrar e o futebol e os media têm todos os ingredientes para a alimentar.

O pior, é que se os nossos "heróis" contemporâneos não corresponderem às nossas expectativas, passamos rapidamente de um sentimento de orgulho na nação a uma nação depressiva.

Pois eu lamento, mas não tenho bandeira à janela, nem tenciono colocá-la.

Sou Louletano, Algarvio, Português, Europeu e sobretudo "Não sou Grego nem Ateniense, Sou um Cidadão do Mundo".

Cuidado com os nacionalismos bacocos em época de globalização...é que se nos fecharmos muito sobre nós próprios acabamos por despertar fenómenos como o racismo e a xenofobia. E estes estão aí mortinhos por despertar.

Boa sorte Portugal, que ganhe o melhor e que esse seja aquele que praticar melhor futebol.

Abraços
João Martins

domingo, junho 04, 2006

A Educação de Sócrates

Fantástica a afirmação de Socrates sobre o estado da educação nacional.
Diz-nos este brilhante cientista da educação que a educação nacional daquilo que precisa é de "menos ideologia" e de "mais resultados".

Para espanto meu, é possível um primeiro ministro em Portugal dizer uma barbaridade destas sem qualquer ponta de perplexidade e o mínimo questionamento por parte dos experts dominantes no status quo do espaço jornalistico nacional.

Vale a pena desmontar estas evidências de senso comum político e questionar afinal se poderá a educação não ser ideológica.

A questão de fundo será então:

- Pode a educação ser não ideológica?

E a resposta clara só pode ser, obviamente que Não.

A educação por natureza é ideológica pois é inevitavelmente um campo de lutas sociais e políticas. Educar é por definição ajudar a escolher futuros possíveis na vida dos indivíduos e não pode ser nunca apenas percorrer um caminho já traçado pelo 1º ministro do país e que se resume este a educar para a competitividade, numa lógica acrítica de submissão ao mercado capitalista neoliberal.

Deve a educação ser laica ou religiosa? A decisão é política e ideológica.

Deve a educação estar centrada nas artes ou nas ciências? A decisão é política e ideológica.

Homens e mulheres devem estudar juntos nas mesmas escolas e universidades? A decisão é política e ideológica.

O curriculo deve ser uniforme e estandardizado para os alunos de todo o território nacional ou deve ser adequado às especificidades dos locais e dos alunos? A decisão é política e ideológica.

A educação deve ser teórica e abstrata ou deve ser prática e concreta? A decisão é política e ideológica.

Os pais devem avaliar os docentes e as escolas ou afinal não devem porque se acha que não têm competência para tal? A decisão é política e ideológica.

O retrato de Salazar, Cavaco e Sócrates devem estar afixados por cima do quadro negro no interior das salas de aula ou não deve porque a vida partidária não deve estar presente na sala de aula? A decisão é política e ideológica.

O manual escolar deve ser único e o mesmo para todos os alunos ou pelo contrário deve ser diversificado permitindo aos actores escolares a escolha dos mesmos? A decisão é política e ideológica.

A gestão das escolas deve ser privada e feita por gestores ou pelo contrário pública e feita por professores? A decisão é política e ideológica.

A escola deve ser para todos e democrática ou só para alguns e elitista? A decisão é política e ideológica.

As famílias podem escolher as escolas e pagarem a sua qualidade ou não podem escolher e devem matricular os filhos nas escolas dos territórios ditos "problemáticos"? A decisão é política e ideológica.

O véu dito islâmico pode entrar nas escolas laicas ou pelo contrário deve ficar à sua porta e ser objecto de exclusão do espaço escolar? A decisão é política e ideológica.

As artes e o desporto deveriam ter mais horas no curriculo escolar e serem de aproveitamento obrigatório para se transitar de ano ou devem ocupar uma posição de saberes subalternos no espaço escolar e não contarem para transitar de ano? A decisão é política e ideológica.

Pois é senhor Sócrates "menos ideologia" e mais "resultados" porque afinal as escolhas fundamentais o senhor já as fez, quanto ao resto o senhor ensina-nos como lá chegar.

Olhe deixo-lhe uma passagem de Émile Durkheim, brilhante sociólogo da educação de finais do século XIX para que possa meditar no assunto:

“Quando estudamos historicamente a forma pela qual se formaram e desenvolveram os sistemas educacionais, apercebemo-nos de que os mesmos dependem da religião, da organização politica, do grau de desenvolvimento das ciências, do estado da indústria, etc. Se os desligarmos de todas estas causas históricas, eles tornam-se incompreensíveis” (Émile Durkheim in Educação e Sociologia,1922).

Abraços e beijinhos para o pessoal da blogoesfera.

João Martins

sexta-feira, maio 26, 2006

Problemas da cidade de Loulé 23: Vírus do mau jornalismo ataca a cidade de Loulé

Não é novidade para ninguém que o mundo da informação se transformou num negócio de mercadoria.

Dar a notícia primeiro que o vizinho do lado tornou-se uma doença jornalistica do mundo pós-moderno e por vezes uma questão de sobrevivência pessoal e organizacional de quem vive do negócio da informação.

O assunto está na ordem do dia e os media da cidade de Loulé não estão imunes a este fenómeno.

Aqui vai o relato de um exemplo de péssimo jornalismo e de um mau serviço público prestado pelo jornal local A Voz de Loulé no dia 1 de Maio de 2006.

Afinal, estava ou não, o deputado do partido socialista Hugo Nunes presente na Assembleia da República, no dia em que uma boa parte dos deputados faltaram às suas obrigações não constituindo o quorum necessário à aprovação das leis da república?

É que qualquer leitor da Voz de Loulé de 1 de Maio de 2006 que queira ficar esclarecido sobre a verdade deste facto acaba por ficar incrédulo com a forma como este alto representante da nação foi tratado pelo editorial deste humilde jornal.

Vejamos como é abordada a notícia.

Numa das páginas centrais do jornal aparece um artigo de opinião de um comentador conhecido na nossa praça que após ter elaborado uma crítica pertinente à ausência dos deputados nesse referido dia, com a qual concordo inteiramente, passa de seguida a fazer um ataque pessoal ao Dr. Hugo Nunes, qual falácia ad hominem, injuriando-o com atributos muito pouco elegantes denegrindo agressivamente a imagem pessoal do mesmo.

Não teria eu nada a dizer, se não tivesse ficado estupefacto com o facto de na mesma página em que esta dura crítica pessoal é tecida, o mesmo jornal apresentar um desmentido do deputado em que este confirma que esteve presente no parlamento, inclusivé na hora em que iria decorrer a dita votação.

Pois é, para um humilde leitor como eu, que queira ficar esclarecido dos factos, podemos dizer que não bateu a bota com a perdigota.

É que se é verdade que o Dr. Hugo Nunes esteve presente no parlamento, o jornaleco local em causa, seguindo as regras da ética e da deontologia jornalísticas, só teria que ter tido o trabalho de verificar a veracidade da notícia com um simples pedido de esclarecimento à assembleia da república e então aí sim, faria a notícia de acordo com a verdade dos factos.

Evitaria assim fazer um péssimo serviço aos leitores louletanos e evitaria também estigmatizar o trabalho e a vida dos cidadãos manchando a imagem dos mesmos com danos que por vezes são difíceis de reparar.

Este é um belo exemplo do péssimo jornalismo que se faz em Portugal.

Fica no ar a minha dúvida. Estará a imprensa local assim tanto com a corda na garganta em termos da sua sobrevivência que precisa dos poderes instituidos para sobreviver?

Estará a ser instrumentalizada por algum partido político?

Se não o está, parece-me que tem que ter cuidado com a forma como informa os leitores.

É que se desta forma conquista os leitores de uma determinada cor política certamente que afugenta aqueles que querem uma informação isenta e credível.

Abraços a todo o pessoal e votos de uma boa vigilância à saúde da democracia.

João Martins

domingo, maio 21, 2006

Problemas da cidade de Loulé 22: A ideologia do fim das ideologias

A crise petrolifera do início dos anos 70 trouxe consigo o fim de um período de crescimento económico sem precedentes no mundo ocidental. Era o fim dos conhecidos "trinta gloriosos" anos e do compromisso político entre o sistema capitalista como sistema de trocas económicas legitimamente institucionalizado e a democracia representativa, consubstanciada no Walfare State, conhecido entre nós como Estado Providência, sendo este que assegurava uma maior equidade na distribuição da riqueza acumulada e que sustentou o crescimento das classes médias no mundo ocidental, impedindo assim que as profecias de Marx da revolta do proletariado face aos capitalistas se concretizassem.

Com a criação do Estado de Bem Estar na Europa os cidadãos dos países europeus institucionalizavam os direitos sociais, que tanto suor, sangue e lágrimas tinham custado às classes trabalhadoras e pela primeira vez na nossa história uma grande maioria da população usufruia de sistemas universais de Saúde, Educação, Segurança Social, apoio social aos mais desfavorecidos e portanto instaurava-se um contrato social colectivo em que o social era encarado como muito mais do que um mero somatório de individuos isolados e em que a solidariedade social era um compromisso assumido entre os cidadãos e o seu Estado.

No início dos anos 80, com a chegada de Margaret Tacher (a dama de ferro) ao poder em Inglaterra e de Ronald Reagan nos EUA, as políticas neoliberais assumem a supremacia, assim como a ideologia de que o mercado deve funcionar por si próprio, pois só desta forma se conseguirá um ajustamento perfeito da economia.
Associado a esta ideia, a crença tida como indiscutível,de que o Estado só atrapalha o funcionamento da mesma e portanto deve ser reduzido ao minímo, para que assim se substitua o governo dos homens pela administração natural das coisas.

Com a queda do muro de Berlim e a vitória do sistema capitalista sobre o sistema comunista estavam asseguradas as condições para que o "Pensamento único" traduzido no fundamentalismo neoliberal assumisse as funções de equivalente funcional dos dogmas de fé religiosos tipícos do tempo da inquisição.

Francis Fukuyama declara o"Fim da História" (o que só demonstra como também os intelectuais mais consagrados podem ser portadores de uma cegueira estupidificante) e outras grandes mentes iluminadas o "Fim das Ideologias".

O que restou então?

O fundamentalismo neoliberal, sob a forma de ideologia do fim das ideologias, que se consagra a si mesmo como forma de pensamento único e que é inculcado a partir das grandes instâncias internacionais como o Banco Mundial, O FMI, a OCDE, o Banco Central Europeu e algumas universidades de elite ligadas aos grandes negócios internacionais que alguns autores designam como o "consenso de Washinton" e que decretam o fim único para o qual devem caminhar a economia dos países de todo o mundo, matando a política, subordinando-a totalmente à economia.

Bem poderiamos dizer...é o DÉFICE ESTÚPIDO!

Só tenho pena que esta seja uma doença que contagia partidos à direita e à esquerda, convertendo-se estes últimos em prostitutas de ocasião, em busca dos eleitores imaginários de um "centro" que está em todo o lugar e em lugar nenhum.

Lamento também com profunda mágoa que o socialismo e a social-democracia, essenciais ao funcionamento da democracia em meu entender, estejam novamente metidos na gaveta.

A política de volta é preciso. Vários caminhos são possíveis...trata-se é de reinventar novas formas de viver em sociedade e de construir em harmonia o colectivo.

Abraços a todo o pessoal com votos de que a História nunca tenha fim.

João Martins

sexta-feira, maio 12, 2006

Problemas da cidade de Loulé 21: Uma forma social ligeiramente diferente da nossa

Numa época em que a interculturalidade atinge contornos de moda e de urgente necessidade e em que qualquer pacato cidadão da cidade de Loulé se encontra com pessoas provenientes de outros sítios do globo e de outras culturas a qualquer hora do dia, deixo-vos o conhecimento dos habitantes das ilhas Marquesas na Polinésia estudados pelo antropólogo Ralph Linton em 1920.

Sirvam-se e bom apetite;

"Os habitantes das ilhas Marquesas constituem um povo da Polinésia que vive numa ilha do Pacífico Central a mais ou menos dez graus a sul do Equador e que são de uma extrema beleza física, sobretudo as mulheres. Foram os últimos habitantes da Polinésia a serem cristianizados e resistiram muito tempo à influência dos brancos, chegando mesmo a escorraçar os missionários. Quando foram submetidos, reagiram não procriando...

Ilhas montanhosas, cercadas por falésias abruptas, as Marquesas são formadas por vales estreitos separados uns dos outros por esporões rochosos. De vez em quando, estas ilhas são vítimas de secas prolongadas e destruidoras que originam péssimas colheitas e escassez de água. Estas secas, que se prolongavam por vezes, durante três anos, provocavam verdadeiras fomes e podiam reduzir a população a um terço, levando por vezes, os indígenas a praticar o canibalismo.

A propriedade agrícola apenas consta de árvores ou jardins dispersos pelos vales. A terra é propriedade colectiva da tribo, administrada pelo chefe, mas as árvores e as colheitas são propriedade individual. Em cada nascimento planta-se uma árvore que será propriedade do recém-nascido. Apesar disso, a base da alimentação é fornecida pela pesca que se organiza numa base comunitária com a ajuda de redes gigantes colocadas entre os barcos.

Antigamente, os habitantes das ilhas Marquesas eram robustos canibais e, excepcionalmente, até as mulheres tinham autorização para comer carne humana. Persiste um canibalismo cerimonial destinado a incorporar as qualidades do indíviduo que se come (em geral, de uma outra tribo) com preferência pelas crianças.

O estatuto social é determinado pela primogenitura, independentemente do sexo. Pratica-se, regularmente a adopção. Através dos parentes que possuem em cada geração a posição social mais elevada, os habitantes das ilhas Marquesas estabelecem a sua genealogia (que, por vezes, recua até setenta ou oitenta gerações).

Os casamentos são endogâmicos à tribo, verificando-se uma grande mobilidade. Entre os habitantes das ilhas Marquesas, há duas vezes e meia mais homens do que mulheres. A causa deste fenómeno é desconhecida ou é escondida. Por isso, o lar marquesiano é poliândrico. Há um marido principal e maridos secundários, excepto nos lares mais pobres...Os lares mais abastados podem ter mais de quatro homens para uma mulher e a casa do chefe tem onze ou doze homens para três ou quatro mulheres. Todos os membros do grupo assim formado têm direitos sexuais uns sobre os outros, constituindo-se assim uma espécie de casamento de grupo..."

Ralph Linton in Claude Dubar "A socialização. Construção das identidades Sociais e Profissionais".

Pois é, numa época em que a empregada de limpeza lá de casa é Angolana, a empregada do café do vizinho é ucraniana, o dono do restaurante de fim de semana é chinês, o craque do clube da terra é brasileiro, o médico de família é espanhol e o vizinho da vivenda do lado é um reformado proveniente de Ingleterra convém pensar em como conviver harmoniosamente com "os outros", os "estranhos" e enriquecermo-nos mutuamente num processo contínuo de aprendizagem cultural.

Convém aprender a pensar para lá das "formas" em que fomos metidos desde pequeninos e que no Ocidente (e não só,claro) têm a forma de uma palas, como as orelhas dos burros, que (de)limitam o universo dos possíveis da nossa imaginação.

Contudo, já sabem...se o vizinho do lado for das ilhas Marquesas...garantam que ele está bem alimentado.

abraços

João Martins