Fernando Ruas, presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses mostrou em todo o seu esplendor o pensamento comum à maior parte dos autarcas portugueses sobre as questões ambientais.
Diz-nos este senhor para não hesitarmos e "corrermos com os fiscais do ambiente à pedrada".
É lamentável que este senhor represente os autarcas portugueses e ainda mais lamentável que esta seja a visão do mundo que predomina na cabeça da maior parte dos nossos autarcas.
Não tomando a nuvem por Juno nem a àrvore pela floresta, o desordenamento do território em todo o país é tal que deixa envergonhado qualquer cidadão de um país que se queira civilizado.
Numa altura em que o PROTAL está em cima da mesa das negociações, aquilo de que mais se queixam os nossos autarcas é dessa "moda do ambiente" como entrave ao desenvolvimento económico, sendo que na óptica da maioria desses senhores desenvolvimento é igual a crescimento económico.
Basta dar um passeio pelo litoral e vemos que é possível em Quarteira construir prédios de dez andares dentro da areia (caso da última construção antes de chegar ao Forte Novo).
É possível ver vivendas a caírem para dentro de àgua na praia de Vale do Lobo (num claro atentado ambiental à erosão costeira).
É possível ainda nas Dunas Douradas construir vinte apartamentos a cinco metros das dunas de areia (coisa só possível com "compadrios" na aprovação das licenças de construção).
Entre projectos estruturantes e de interesse "vital" para a "Região" e a construção de Marinas ao longo da costa algarvia o caminho que se está a seguir não é claramente o do ordenamento da Orla Costeira, mas sim o de continuar a "betanização" do que falta cimentar em cima das àguas algarvias.
Pelo menos houve o decoro dos custos económicos do desinvestimento ambiental em Vale de Lobo terem desta vez sido suportados pelos próprios privados que exploram essa costa, pois da última intervenção tinham sido em parte os dinheiros públicos a custear os interesses privados que lucram com o negócio.
Hoje, dia 23/07/2006 fui expulso por um segurança da empresa Prosecom das Dunas Douradas quando tentava estacionar o carro para ir à praia.
Os senhores estão a construir 10 apartamentos em "cima" da àgua do mar e já se sentem donos da antiga praia "As Três Marias".
É mais um caso grave de apropriação privada do espaço público e a tentativa de apropriação da praia para "ricos" clientes expulsando o "povo" da dita cuja.
Grave do ponto de vista da democracia. Não acha, senhor Presidente da Câmara Municipal de Loulé?
João Martins
A minha Lista de blogues
domingo, julho 23, 2006
O Ethos ambiental dos nossos autarcas
Faço da vida um caminho em que a felicidade está nas pequenas grandes coisas que o mundo nos permite desfrutar.
"Carpe Diem"
sexta-feira, julho 14, 2006
Proposta indecente
Gilberto Madail no seu melhor! Depois da catarse nacional e do bom desempenho da selecção portuguesa, há que reconhecê-lo, eis que aparece o caciquismo futebolistico no seu esplendor.
A proposta feita pelo senhor presidente da federação portuguesa de futebol no sentido de isentar de impostos os "pobres" trabalhadores do mundo da bola ultrapassou todas as expectativas de bom senso ao alcance do cidadão comum.
Num país em que o salário mínimo "nacional" ronda a miserável quantia de 350 euros por mês, o senhor Madail acha por bem que os nossos milionários futebolistas sejam "beneficiados" pelo bom serviço de salvação da pátria lusitana.
Eis uma proposta que diz tudo sobre quem a faz e que diz muito mais sobre como pensam e vêem o mundo os caciques do mundo da bola.
O futebol até há bem pouco tempo sempre foi um Estado Paralelo, qualquer coisa como um Estado dentro do Estado, onde a fuga ao fisco, a lavagem de dinheiro vindo de negócios escuros e os conluíos entre construtores civis, câmaras municipais e dirigentes desportivos adquiriam contornos de "normalidade". É o "sistema" a funcionar pois não pode ser de outra maneira já que todos fazem assim.
Se o meu vizinho compra os árbitros eu também tenho que comprar e este círculo vicioso alimentou-se desta "naturalidade" até à meia duzia de anos. Pena que aqui em Portugal o "apito dourado" não tenha qualquer repercussão social pois a nossa justiça infelizmente é tremendamente injusta.
Provavelmente temendo aquilo que acontece neste momento no futebol Italiano, onde a corrupção futebolistica já não passa impune, o senhor Madail decidiu fazer esta proposta legal e imoral simultaneamente.
Eu faço uma proposta decente. Por favor não tomem o dito "povo" por idiota, despeçam já esse senhor.
Quem assim pensa não pode continuar a desempenhar o lugar que ocupa.
Em nome dos impostos dos portugueses, de forma a que não precisem tanto de "apertar o cinto" para que afinal de contas o Estado Social vá passando a ser apenas uma parcela dos livros de História de Portugal.
Abraços e beijinhos
João Martins
A proposta feita pelo senhor presidente da federação portuguesa de futebol no sentido de isentar de impostos os "pobres" trabalhadores do mundo da bola ultrapassou todas as expectativas de bom senso ao alcance do cidadão comum.
Num país em que o salário mínimo "nacional" ronda a miserável quantia de 350 euros por mês, o senhor Madail acha por bem que os nossos milionários futebolistas sejam "beneficiados" pelo bom serviço de salvação da pátria lusitana.
Eis uma proposta que diz tudo sobre quem a faz e que diz muito mais sobre como pensam e vêem o mundo os caciques do mundo da bola.
O futebol até há bem pouco tempo sempre foi um Estado Paralelo, qualquer coisa como um Estado dentro do Estado, onde a fuga ao fisco, a lavagem de dinheiro vindo de negócios escuros e os conluíos entre construtores civis, câmaras municipais e dirigentes desportivos adquiriam contornos de "normalidade". É o "sistema" a funcionar pois não pode ser de outra maneira já que todos fazem assim.
Se o meu vizinho compra os árbitros eu também tenho que comprar e este círculo vicioso alimentou-se desta "naturalidade" até à meia duzia de anos. Pena que aqui em Portugal o "apito dourado" não tenha qualquer repercussão social pois a nossa justiça infelizmente é tremendamente injusta.
Provavelmente temendo aquilo que acontece neste momento no futebol Italiano, onde a corrupção futebolistica já não passa impune, o senhor Madail decidiu fazer esta proposta legal e imoral simultaneamente.
Eu faço uma proposta decente. Por favor não tomem o dito "povo" por idiota, despeçam já esse senhor.
Quem assim pensa não pode continuar a desempenhar o lugar que ocupa.
Em nome dos impostos dos portugueses, de forma a que não precisem tanto de "apertar o cinto" para que afinal de contas o Estado Social vá passando a ser apenas uma parcela dos livros de História de Portugal.
Abraços e beijinhos
João Martins
Faço da vida um caminho em que a felicidade está nas pequenas grandes coisas que o mundo nos permite desfrutar.
"Carpe Diem"
terça-feira, julho 04, 2006
Lésbicas pois. Onde está o problema?
O canal dois da RTP está a fazer história com a transmissão da série "Lésbicas".
História, porque esta é uma categoria social estigmatizada e marginalizada ao longo dos tempos na sociedade portuguesa.
História porque está a tornar visível aquilo que é oculto no dia a dia de muitos cidadãos que vivem entre nós e a quem são escamoteados os seus direitos.
A homossexualidade é entendida na maioria das sociedades contemporãneas como "contra-natura", rejeitada e condenada pela igreja católica como um pecado divino e os homossexuais têm direito à sua existência social desde que se mantenham na sua invisibilidade.
Uma sondagem publicada pelo jornal Expresso há alguns meses atrás revelava que existem em Portugal perto de um milhão de homossexuais, o que quer dizer que existe a probabilidade de 1 em cada dez pessoas que conhecemos pertencerem a esta categoria sexual.
A sexualidade de cada um só ao mesmo diz respeito e o heterossexualismo saloio que vê a norma heterossexual como a única legitima não raras vezes resvala para a homofobia social. Que o digam os miúdos que no nosso país se "divertiam" a espancar um transsexual, terminando a "brincadeira" por lhe acabar com a vida.
Mais uma vez os nossos vizinhos Espanhóis já levam vantagem naquilo que são a defesa dos direitos das minorias sexuais e avançaram este ano com a legalização do casamento entre homossexuais.
Parabéns à RTP pelo contributo que ajuda a desmistificar este lado oculto da vida social e que condena tanta gente ao isolamento e à descriminação.
Para quando a legalização do casamento dos homossexuais em Portugal e o reconhecimento dos mesmos a uma via socialmente condigna?
Abraços
João Martins
História, porque esta é uma categoria social estigmatizada e marginalizada ao longo dos tempos na sociedade portuguesa.
História porque está a tornar visível aquilo que é oculto no dia a dia de muitos cidadãos que vivem entre nós e a quem são escamoteados os seus direitos.
A homossexualidade é entendida na maioria das sociedades contemporãneas como "contra-natura", rejeitada e condenada pela igreja católica como um pecado divino e os homossexuais têm direito à sua existência social desde que se mantenham na sua invisibilidade.
Uma sondagem publicada pelo jornal Expresso há alguns meses atrás revelava que existem em Portugal perto de um milhão de homossexuais, o que quer dizer que existe a probabilidade de 1 em cada dez pessoas que conhecemos pertencerem a esta categoria sexual.
A sexualidade de cada um só ao mesmo diz respeito e o heterossexualismo saloio que vê a norma heterossexual como a única legitima não raras vezes resvala para a homofobia social. Que o digam os miúdos que no nosso país se "divertiam" a espancar um transsexual, terminando a "brincadeira" por lhe acabar com a vida.
Mais uma vez os nossos vizinhos Espanhóis já levam vantagem naquilo que são a defesa dos direitos das minorias sexuais e avançaram este ano com a legalização do casamento entre homossexuais.
Parabéns à RTP pelo contributo que ajuda a desmistificar este lado oculto da vida social e que condena tanta gente ao isolamento e à descriminação.
Para quando a legalização do casamento dos homossexuais em Portugal e o reconhecimento dos mesmos a uma via socialmente condigna?
Abraços
João Martins
Faço da vida um caminho em que a felicidade está nas pequenas grandes coisas que o mundo nos permite desfrutar.
"Carpe Diem"
quinta-feira, junho 22, 2006
O mundial dentro de casa
Pois é, a globalização tem destas coisas. Não vou à Alemanha ver o mundial, mas não tem problema, já que o mundial vem até mim.
Abençoada globalização.
Infelizmente porque não sou doente da bola e preciso de dinheiro para gastar em coisas mais úteis, tenho TV Cabo, mas não tenho Sport TV. Já agora aproveito e digo, não tenho, nem quero ter.
Mas este fenómeno social da monopolização privada do acesso à visualização dos jogos de futebol gerou um fenómeno interessante e simultaneamente discriminatório.
É que estamos a assitir a uma mudança na composição social dos espectadores dos espectáculos de futebol.
Este que sempre foi "o" desporto por excelência das classes populares está a sofrer uma recomposição classista. O seu público está-se a emburguesar.
Desde logo pelo preço dos bilhetes para assistir aos jogos de alto nível, só acessíveis aos bolsos de alguns e depois porque o acesso às transmissões televisivas está a ficar também só ao alcance de uns quantos.
Felizmente o pessoal da hotelaria recusou os planos do monopólio do capital e o bom povo pode sempre ir até ao café do bairro ver o que se vai passando na Alemanha.
Mas falemos dos principais protagonistas do espectáculo, as equipas e os seus jogadores.
A terminar a primeira fase, posso-vos dizer que gostei do bom futebol praticado pela Argentina, a Holanda e a Espanha.
Parece-me que vamos ter que contar com a Alemanha que joga em casa e está a jogar benzinho e também com a Inglaterra (meio campo fortíssimo)como potenciais candidatos.
O Brasil está a meio gás e vai ganhando sem grandes problemas. Não têm deixado jogar o "quadrado mágico".
O problema (para os seus adversários claro) é que quando estes tiverem que jogar o jogo pelo jogo, ai o Brasil vai sambar.
Portugal, não estando num grupo forte, cumpriu a sua missão. Em mundiais não há jogos fáceis e três vitórias em três jogos é um feito digno de registar.
Agora vem aí o "mata mata" como diz o mister Scolari e a partir daqui tudo é possível. Como alguém do mundo da bola disse um dia "deixem-nos sonhar".
Parabéns ao Equador e ao Gana que fugiram ao socialmente esperado e já ganharam o seu mundial.
Dos craques destaco Saviola, Riquelme, Messi e Crespo da Argentina. Fernando Torres de Espanha, Figo de Portugal (já sem velocidade mas com uma inteligência superior, o que é suficiente para o seu futebol continuar a encantar). Tivesse o Cristiano Ronaldo metade da inteligência de Figo... mas infelizmente o que lhe sobra noutras qualidades falta-lhe na capacidade de pensar o jogo.
Da Inglaterra há os que nunca jogam mal porque não sabem fazê-lo, são eles Lampard, Gerrard e Joe Cole.
Do Brasil claro, Ronaldinho Gaúcho e Kaka que quando lhes darem espaço vão desgraçar as defesas adversárias.
Balanço positivo desta primeira fase com muitos jogos agradáveis de se ver e com a tónica positiva de os árbitros até agora não se fazerem notar.
Suspeito que nesta fase do "mata-mata" a qualidade dos jogos vai piorar pois com equipas muitos equilibradas os sistemas tácticos fechados e defensivos vão imperar.
Abraços a todo o pessoal e boa sorte mister Scolari.
João Martins
Abençoada globalização.
Infelizmente porque não sou doente da bola e preciso de dinheiro para gastar em coisas mais úteis, tenho TV Cabo, mas não tenho Sport TV. Já agora aproveito e digo, não tenho, nem quero ter.
Mas este fenómeno social da monopolização privada do acesso à visualização dos jogos de futebol gerou um fenómeno interessante e simultaneamente discriminatório.
É que estamos a assitir a uma mudança na composição social dos espectadores dos espectáculos de futebol.
Este que sempre foi "o" desporto por excelência das classes populares está a sofrer uma recomposição classista. O seu público está-se a emburguesar.
Desde logo pelo preço dos bilhetes para assistir aos jogos de alto nível, só acessíveis aos bolsos de alguns e depois porque o acesso às transmissões televisivas está a ficar também só ao alcance de uns quantos.
Felizmente o pessoal da hotelaria recusou os planos do monopólio do capital e o bom povo pode sempre ir até ao café do bairro ver o que se vai passando na Alemanha.
Mas falemos dos principais protagonistas do espectáculo, as equipas e os seus jogadores.
A terminar a primeira fase, posso-vos dizer que gostei do bom futebol praticado pela Argentina, a Holanda e a Espanha.
Parece-me que vamos ter que contar com a Alemanha que joga em casa e está a jogar benzinho e também com a Inglaterra (meio campo fortíssimo)como potenciais candidatos.
O Brasil está a meio gás e vai ganhando sem grandes problemas. Não têm deixado jogar o "quadrado mágico".
O problema (para os seus adversários claro) é que quando estes tiverem que jogar o jogo pelo jogo, ai o Brasil vai sambar.
Portugal, não estando num grupo forte, cumpriu a sua missão. Em mundiais não há jogos fáceis e três vitórias em três jogos é um feito digno de registar.
Agora vem aí o "mata mata" como diz o mister Scolari e a partir daqui tudo é possível. Como alguém do mundo da bola disse um dia "deixem-nos sonhar".
Parabéns ao Equador e ao Gana que fugiram ao socialmente esperado e já ganharam o seu mundial.
Dos craques destaco Saviola, Riquelme, Messi e Crespo da Argentina. Fernando Torres de Espanha, Figo de Portugal (já sem velocidade mas com uma inteligência superior, o que é suficiente para o seu futebol continuar a encantar). Tivesse o Cristiano Ronaldo metade da inteligência de Figo... mas infelizmente o que lhe sobra noutras qualidades falta-lhe na capacidade de pensar o jogo.
Da Inglaterra há os que nunca jogam mal porque não sabem fazê-lo, são eles Lampard, Gerrard e Joe Cole.
Do Brasil claro, Ronaldinho Gaúcho e Kaka que quando lhes darem espaço vão desgraçar as defesas adversárias.
Balanço positivo desta primeira fase com muitos jogos agradáveis de se ver e com a tónica positiva de os árbitros até agora não se fazerem notar.
Suspeito que nesta fase do "mata-mata" a qualidade dos jogos vai piorar pois com equipas muitos equilibradas os sistemas tácticos fechados e defensivos vão imperar.
Abraços a todo o pessoal e boa sorte mister Scolari.
João Martins
Faço da vida um caminho em que a felicidade está nas pequenas grandes coisas que o mundo nos permite desfrutar.
"Carpe Diem"
domingo, junho 11, 2006
Futebol, media e nacionalismo bacoco
Já lá vai o tempo da célebre trilogia Fado, Futebol e Fátima. A Época Salazarista utilizou o futebol como instrumento de reprodução da ideologia dominante e como instrumento de legitimação do estado.
Slogans como "Nada contra a nação, tudo pela nação" ou "Portugal indiviso de Minho a Timor" serviam para a legitimação da dominação colonial e para provocar a ilusão de unanimidade onde existia a divisão e a conflitualidade.
A inculcação do nacionalismo pelo Estado servia de instrumento de legitimação do próprio Estado assegurando a dominação da elite dirigente do Estado Novo.
Hoje, já não temos Eusébio, mas temos os media que provocam a catarse nacionalista fomentando a histerese colectiva de um povo perdido de causas.
Em época de globalização, em que os Estados Nação perdem a sua soberania, em que ser cidadão do mundo pareceria ser uma evidência, temos aí a criação de uma identidade defensiva (o nacionalismo bacoco), que resiste à invasão do global tido como ameaçador e gerador de incertezas quanto ao nosso lugar do mundo.
Com a multiplicidade de referências identitárias com que somos bombardeados a partir da aldeia global, os individuos entram em crise de identidade.
A nacionalidade é um elemento identitário facil de agarrar e o futebol e os media têm todos os ingredientes para a alimentar.
O pior, é que se os nossos "heróis" contemporâneos não corresponderem às nossas expectativas, passamos rapidamente de um sentimento de orgulho na nação a uma nação depressiva.
Pois eu lamento, mas não tenho bandeira à janela, nem tenciono colocá-la.
Sou Louletano, Algarvio, Português, Europeu e sobretudo "Não sou Grego nem Ateniense, Sou um Cidadão do Mundo".
Cuidado com os nacionalismos bacocos em época de globalização...é que se nos fecharmos muito sobre nós próprios acabamos por despertar fenómenos como o racismo e a xenofobia. E estes estão aí mortinhos por despertar.
Boa sorte Portugal, que ganhe o melhor e que esse seja aquele que praticar melhor futebol.
Abraços
João Martins
Slogans como "Nada contra a nação, tudo pela nação" ou "Portugal indiviso de Minho a Timor" serviam para a legitimação da dominação colonial e para provocar a ilusão de unanimidade onde existia a divisão e a conflitualidade.
A inculcação do nacionalismo pelo Estado servia de instrumento de legitimação do próprio Estado assegurando a dominação da elite dirigente do Estado Novo.
Hoje, já não temos Eusébio, mas temos os media que provocam a catarse nacionalista fomentando a histerese colectiva de um povo perdido de causas.
Em época de globalização, em que os Estados Nação perdem a sua soberania, em que ser cidadão do mundo pareceria ser uma evidência, temos aí a criação de uma identidade defensiva (o nacionalismo bacoco), que resiste à invasão do global tido como ameaçador e gerador de incertezas quanto ao nosso lugar do mundo.
Com a multiplicidade de referências identitárias com que somos bombardeados a partir da aldeia global, os individuos entram em crise de identidade.
A nacionalidade é um elemento identitário facil de agarrar e o futebol e os media têm todos os ingredientes para a alimentar.
O pior, é que se os nossos "heróis" contemporâneos não corresponderem às nossas expectativas, passamos rapidamente de um sentimento de orgulho na nação a uma nação depressiva.
Pois eu lamento, mas não tenho bandeira à janela, nem tenciono colocá-la.
Sou Louletano, Algarvio, Português, Europeu e sobretudo "Não sou Grego nem Ateniense, Sou um Cidadão do Mundo".
Cuidado com os nacionalismos bacocos em época de globalização...é que se nos fecharmos muito sobre nós próprios acabamos por despertar fenómenos como o racismo e a xenofobia. E estes estão aí mortinhos por despertar.
Boa sorte Portugal, que ganhe o melhor e que esse seja aquele que praticar melhor futebol.
Abraços
João Martins
Faço da vida um caminho em que a felicidade está nas pequenas grandes coisas que o mundo nos permite desfrutar.
"Carpe Diem"
domingo, junho 04, 2006
A Educação de Sócrates
Fantástica a afirmação de Socrates sobre o estado da educação nacional.
Diz-nos este brilhante cientista da educação que a educação nacional daquilo que precisa é de "menos ideologia" e de "mais resultados".
Para espanto meu, é possível um primeiro ministro em Portugal dizer uma barbaridade destas sem qualquer ponta de perplexidade e o mínimo questionamento por parte dos experts dominantes no status quo do espaço jornalistico nacional.
Vale a pena desmontar estas evidências de senso comum político e questionar afinal se poderá a educação não ser ideológica.
A questão de fundo será então:
- Pode a educação ser não ideológica?
E a resposta clara só pode ser, obviamente que Não.
A educação por natureza é ideológica pois é inevitavelmente um campo de lutas sociais e políticas. Educar é por definição ajudar a escolher futuros possíveis na vida dos indivíduos e não pode ser nunca apenas percorrer um caminho já traçado pelo 1º ministro do país e que se resume este a educar para a competitividade, numa lógica acrítica de submissão ao mercado capitalista neoliberal.
Deve a educação ser laica ou religiosa? A decisão é política e ideológica.
Deve a educação estar centrada nas artes ou nas ciências? A decisão é política e ideológica.
Homens e mulheres devem estudar juntos nas mesmas escolas e universidades? A decisão é política e ideológica.
O curriculo deve ser uniforme e estandardizado para os alunos de todo o território nacional ou deve ser adequado às especificidades dos locais e dos alunos? A decisão é política e ideológica.
A educação deve ser teórica e abstrata ou deve ser prática e concreta? A decisão é política e ideológica.
Os pais devem avaliar os docentes e as escolas ou afinal não devem porque se acha que não têm competência para tal? A decisão é política e ideológica.
O retrato de Salazar, Cavaco e Sócrates devem estar afixados por cima do quadro negro no interior das salas de aula ou não deve porque a vida partidária não deve estar presente na sala de aula? A decisão é política e ideológica.
O manual escolar deve ser único e o mesmo para todos os alunos ou pelo contrário deve ser diversificado permitindo aos actores escolares a escolha dos mesmos? A decisão é política e ideológica.
A gestão das escolas deve ser privada e feita por gestores ou pelo contrário pública e feita por professores? A decisão é política e ideológica.
A escola deve ser para todos e democrática ou só para alguns e elitista? A decisão é política e ideológica.
As famílias podem escolher as escolas e pagarem a sua qualidade ou não podem escolher e devem matricular os filhos nas escolas dos territórios ditos "problemáticos"? A decisão é política e ideológica.
O véu dito islâmico pode entrar nas escolas laicas ou pelo contrário deve ficar à sua porta e ser objecto de exclusão do espaço escolar? A decisão é política e ideológica.
As artes e o desporto deveriam ter mais horas no curriculo escolar e serem de aproveitamento obrigatório para se transitar de ano ou devem ocupar uma posição de saberes subalternos no espaço escolar e não contarem para transitar de ano? A decisão é política e ideológica.
Pois é senhor Sócrates "menos ideologia" e mais "resultados" porque afinal as escolhas fundamentais o senhor já as fez, quanto ao resto o senhor ensina-nos como lá chegar.
Olhe deixo-lhe uma passagem de Émile Durkheim, brilhante sociólogo da educação de finais do século XIX para que possa meditar no assunto:
“Quando estudamos historicamente a forma pela qual se formaram e desenvolveram os sistemas educacionais, apercebemo-nos de que os mesmos dependem da religião, da organização politica, do grau de desenvolvimento das ciências, do estado da indústria, etc. Se os desligarmos de todas estas causas históricas, eles tornam-se incompreensíveis” (Émile Durkheim in Educação e Sociologia,1922).
Abraços e beijinhos para o pessoal da blogoesfera.
João Martins
Diz-nos este brilhante cientista da educação que a educação nacional daquilo que precisa é de "menos ideologia" e de "mais resultados".
Para espanto meu, é possível um primeiro ministro em Portugal dizer uma barbaridade destas sem qualquer ponta de perplexidade e o mínimo questionamento por parte dos experts dominantes no status quo do espaço jornalistico nacional.
Vale a pena desmontar estas evidências de senso comum político e questionar afinal se poderá a educação não ser ideológica.
A questão de fundo será então:
- Pode a educação ser não ideológica?
E a resposta clara só pode ser, obviamente que Não.
A educação por natureza é ideológica pois é inevitavelmente um campo de lutas sociais e políticas. Educar é por definição ajudar a escolher futuros possíveis na vida dos indivíduos e não pode ser nunca apenas percorrer um caminho já traçado pelo 1º ministro do país e que se resume este a educar para a competitividade, numa lógica acrítica de submissão ao mercado capitalista neoliberal.
Deve a educação ser laica ou religiosa? A decisão é política e ideológica.
Deve a educação estar centrada nas artes ou nas ciências? A decisão é política e ideológica.
Homens e mulheres devem estudar juntos nas mesmas escolas e universidades? A decisão é política e ideológica.
O curriculo deve ser uniforme e estandardizado para os alunos de todo o território nacional ou deve ser adequado às especificidades dos locais e dos alunos? A decisão é política e ideológica.
A educação deve ser teórica e abstrata ou deve ser prática e concreta? A decisão é política e ideológica.
Os pais devem avaliar os docentes e as escolas ou afinal não devem porque se acha que não têm competência para tal? A decisão é política e ideológica.
O retrato de Salazar, Cavaco e Sócrates devem estar afixados por cima do quadro negro no interior das salas de aula ou não deve porque a vida partidária não deve estar presente na sala de aula? A decisão é política e ideológica.
O manual escolar deve ser único e o mesmo para todos os alunos ou pelo contrário deve ser diversificado permitindo aos actores escolares a escolha dos mesmos? A decisão é política e ideológica.
A gestão das escolas deve ser privada e feita por gestores ou pelo contrário pública e feita por professores? A decisão é política e ideológica.
A escola deve ser para todos e democrática ou só para alguns e elitista? A decisão é política e ideológica.
As famílias podem escolher as escolas e pagarem a sua qualidade ou não podem escolher e devem matricular os filhos nas escolas dos territórios ditos "problemáticos"? A decisão é política e ideológica.
O véu dito islâmico pode entrar nas escolas laicas ou pelo contrário deve ficar à sua porta e ser objecto de exclusão do espaço escolar? A decisão é política e ideológica.
As artes e o desporto deveriam ter mais horas no curriculo escolar e serem de aproveitamento obrigatório para se transitar de ano ou devem ocupar uma posição de saberes subalternos no espaço escolar e não contarem para transitar de ano? A decisão é política e ideológica.
Pois é senhor Sócrates "menos ideologia" e mais "resultados" porque afinal as escolhas fundamentais o senhor já as fez, quanto ao resto o senhor ensina-nos como lá chegar.
Olhe deixo-lhe uma passagem de Émile Durkheim, brilhante sociólogo da educação de finais do século XIX para que possa meditar no assunto:
“Quando estudamos historicamente a forma pela qual se formaram e desenvolveram os sistemas educacionais, apercebemo-nos de que os mesmos dependem da religião, da organização politica, do grau de desenvolvimento das ciências, do estado da indústria, etc. Se os desligarmos de todas estas causas históricas, eles tornam-se incompreensíveis” (Émile Durkheim in Educação e Sociologia,1922).
Abraços e beijinhos para o pessoal da blogoesfera.
João Martins
Faço da vida um caminho em que a felicidade está nas pequenas grandes coisas que o mundo nos permite desfrutar.
"Carpe Diem"
sexta-feira, maio 26, 2006
Problemas da cidade de Loulé 23: Vírus do mau jornalismo ataca a cidade de Loulé
Não é novidade para ninguém que o mundo da informação se transformou num negócio de mercadoria.
Dar a notícia primeiro que o vizinho do lado tornou-se uma doença jornalistica do mundo pós-moderno e por vezes uma questão de sobrevivência pessoal e organizacional de quem vive do negócio da informação.
O assunto está na ordem do dia e os media da cidade de Loulé não estão imunes a este fenómeno.
Aqui vai o relato de um exemplo de péssimo jornalismo e de um mau serviço público prestado pelo jornal local A Voz de Loulé no dia 1 de Maio de 2006.
Afinal, estava ou não, o deputado do partido socialista Hugo Nunes presente na Assembleia da República, no dia em que uma boa parte dos deputados faltaram às suas obrigações não constituindo o quorum necessário à aprovação das leis da república?
É que qualquer leitor da Voz de Loulé de 1 de Maio de 2006 que queira ficar esclarecido sobre a verdade deste facto acaba por ficar incrédulo com a forma como este alto representante da nação foi tratado pelo editorial deste humilde jornal.
Vejamos como é abordada a notícia.
Numa das páginas centrais do jornal aparece um artigo de opinião de um comentador conhecido na nossa praça que após ter elaborado uma crítica pertinente à ausência dos deputados nesse referido dia, com a qual concordo inteiramente, passa de seguida a fazer um ataque pessoal ao Dr. Hugo Nunes, qual falácia ad hominem, injuriando-o com atributos muito pouco elegantes denegrindo agressivamente a imagem pessoal do mesmo.
Não teria eu nada a dizer, se não tivesse ficado estupefacto com o facto de na mesma página em que esta dura crítica pessoal é tecida, o mesmo jornal apresentar um desmentido do deputado em que este confirma que esteve presente no parlamento, inclusivé na hora em que iria decorrer a dita votação.
Pois é, para um humilde leitor como eu, que queira ficar esclarecido dos factos, podemos dizer que não bateu a bota com a perdigota.
É que se é verdade que o Dr. Hugo Nunes esteve presente no parlamento, o jornaleco local em causa, seguindo as regras da ética e da deontologia jornalísticas, só teria que ter tido o trabalho de verificar a veracidade da notícia com um simples pedido de esclarecimento à assembleia da república e então aí sim, faria a notícia de acordo com a verdade dos factos.
Evitaria assim fazer um péssimo serviço aos leitores louletanos e evitaria também estigmatizar o trabalho e a vida dos cidadãos manchando a imagem dos mesmos com danos que por vezes são difíceis de reparar.
Este é um belo exemplo do péssimo jornalismo que se faz em Portugal.
Fica no ar a minha dúvida. Estará a imprensa local assim tanto com a corda na garganta em termos da sua sobrevivência que precisa dos poderes instituidos para sobreviver?
Estará a ser instrumentalizada por algum partido político?
Se não o está, parece-me que tem que ter cuidado com a forma como informa os leitores.
É que se desta forma conquista os leitores de uma determinada cor política certamente que afugenta aqueles que querem uma informação isenta e credível.
Abraços a todo o pessoal e votos de uma boa vigilância à saúde da democracia.
João Martins
Dar a notícia primeiro que o vizinho do lado tornou-se uma doença jornalistica do mundo pós-moderno e por vezes uma questão de sobrevivência pessoal e organizacional de quem vive do negócio da informação.
O assunto está na ordem do dia e os media da cidade de Loulé não estão imunes a este fenómeno.
Aqui vai o relato de um exemplo de péssimo jornalismo e de um mau serviço público prestado pelo jornal local A Voz de Loulé no dia 1 de Maio de 2006.
Afinal, estava ou não, o deputado do partido socialista Hugo Nunes presente na Assembleia da República, no dia em que uma boa parte dos deputados faltaram às suas obrigações não constituindo o quorum necessário à aprovação das leis da república?
É que qualquer leitor da Voz de Loulé de 1 de Maio de 2006 que queira ficar esclarecido sobre a verdade deste facto acaba por ficar incrédulo com a forma como este alto representante da nação foi tratado pelo editorial deste humilde jornal.
Vejamos como é abordada a notícia.
Numa das páginas centrais do jornal aparece um artigo de opinião de um comentador conhecido na nossa praça que após ter elaborado uma crítica pertinente à ausência dos deputados nesse referido dia, com a qual concordo inteiramente, passa de seguida a fazer um ataque pessoal ao Dr. Hugo Nunes, qual falácia ad hominem, injuriando-o com atributos muito pouco elegantes denegrindo agressivamente a imagem pessoal do mesmo.
Não teria eu nada a dizer, se não tivesse ficado estupefacto com o facto de na mesma página em que esta dura crítica pessoal é tecida, o mesmo jornal apresentar um desmentido do deputado em que este confirma que esteve presente no parlamento, inclusivé na hora em que iria decorrer a dita votação.
Pois é, para um humilde leitor como eu, que queira ficar esclarecido dos factos, podemos dizer que não bateu a bota com a perdigota.
É que se é verdade que o Dr. Hugo Nunes esteve presente no parlamento, o jornaleco local em causa, seguindo as regras da ética e da deontologia jornalísticas, só teria que ter tido o trabalho de verificar a veracidade da notícia com um simples pedido de esclarecimento à assembleia da república e então aí sim, faria a notícia de acordo com a verdade dos factos.
Evitaria assim fazer um péssimo serviço aos leitores louletanos e evitaria também estigmatizar o trabalho e a vida dos cidadãos manchando a imagem dos mesmos com danos que por vezes são difíceis de reparar.
Este é um belo exemplo do péssimo jornalismo que se faz em Portugal.
Fica no ar a minha dúvida. Estará a imprensa local assim tanto com a corda na garganta em termos da sua sobrevivência que precisa dos poderes instituidos para sobreviver?
Estará a ser instrumentalizada por algum partido político?
Se não o está, parece-me que tem que ter cuidado com a forma como informa os leitores.
É que se desta forma conquista os leitores de uma determinada cor política certamente que afugenta aqueles que querem uma informação isenta e credível.
Abraços a todo o pessoal e votos de uma boa vigilância à saúde da democracia.
João Martins
Faço da vida um caminho em que a felicidade está nas pequenas grandes coisas que o mundo nos permite desfrutar.
"Carpe Diem"
domingo, maio 21, 2006
Problemas da cidade de Loulé 22: A ideologia do fim das ideologias
A crise petrolifera do início dos anos 70 trouxe consigo o fim de um período de crescimento económico sem precedentes no mundo ocidental. Era o fim dos conhecidos "trinta gloriosos" anos e do compromisso político entre o sistema capitalista como sistema de trocas económicas legitimamente institucionalizado e a democracia representativa, consubstanciada no Walfare State, conhecido entre nós como Estado Providência, sendo este que assegurava uma maior equidade na distribuição da riqueza acumulada e que sustentou o crescimento das classes médias no mundo ocidental, impedindo assim que as profecias de Marx da revolta do proletariado face aos capitalistas se concretizassem.
Com a criação do Estado de Bem Estar na Europa os cidadãos dos países europeus institucionalizavam os direitos sociais, que tanto suor, sangue e lágrimas tinham custado às classes trabalhadoras e pela primeira vez na nossa história uma grande maioria da população usufruia de sistemas universais de Saúde, Educação, Segurança Social, apoio social aos mais desfavorecidos e portanto instaurava-se um contrato social colectivo em que o social era encarado como muito mais do que um mero somatório de individuos isolados e em que a solidariedade social era um compromisso assumido entre os cidadãos e o seu Estado.
No início dos anos 80, com a chegada de Margaret Tacher (a dama de ferro) ao poder em Inglaterra e de Ronald Reagan nos EUA, as políticas neoliberais assumem a supremacia, assim como a ideologia de que o mercado deve funcionar por si próprio, pois só desta forma se conseguirá um ajustamento perfeito da economia.
Associado a esta ideia, a crença tida como indiscutível,de que o Estado só atrapalha o funcionamento da mesma e portanto deve ser reduzido ao minímo, para que assim se substitua o governo dos homens pela administração natural das coisas.
Com a queda do muro de Berlim e a vitória do sistema capitalista sobre o sistema comunista estavam asseguradas as condições para que o "Pensamento único" traduzido no fundamentalismo neoliberal assumisse as funções de equivalente funcional dos dogmas de fé religiosos tipícos do tempo da inquisição.
Francis Fukuyama declara o"Fim da História" (o que só demonstra como também os intelectuais mais consagrados podem ser portadores de uma cegueira estupidificante) e outras grandes mentes iluminadas o "Fim das Ideologias".
O que restou então?
O fundamentalismo neoliberal, sob a forma de ideologia do fim das ideologias, que se consagra a si mesmo como forma de pensamento único e que é inculcado a partir das grandes instâncias internacionais como o Banco Mundial, O FMI, a OCDE, o Banco Central Europeu e algumas universidades de elite ligadas aos grandes negócios internacionais que alguns autores designam como o "consenso de Washinton" e que decretam o fim único para o qual devem caminhar a economia dos países de todo o mundo, matando a política, subordinando-a totalmente à economia.
Bem poderiamos dizer...é o DÉFICE ESTÚPIDO!
Só tenho pena que esta seja uma doença que contagia partidos à direita e à esquerda, convertendo-se estes últimos em prostitutas de ocasião, em busca dos eleitores imaginários de um "centro" que está em todo o lugar e em lugar nenhum.
Lamento também com profunda mágoa que o socialismo e a social-democracia, essenciais ao funcionamento da democracia em meu entender, estejam novamente metidos na gaveta.
A política de volta é preciso. Vários caminhos são possíveis...trata-se é de reinventar novas formas de viver em sociedade e de construir em harmonia o colectivo.
Abraços a todo o pessoal com votos de que a História nunca tenha fim.
João Martins
Com a criação do Estado de Bem Estar na Europa os cidadãos dos países europeus institucionalizavam os direitos sociais, que tanto suor, sangue e lágrimas tinham custado às classes trabalhadoras e pela primeira vez na nossa história uma grande maioria da população usufruia de sistemas universais de Saúde, Educação, Segurança Social, apoio social aos mais desfavorecidos e portanto instaurava-se um contrato social colectivo em que o social era encarado como muito mais do que um mero somatório de individuos isolados e em que a solidariedade social era um compromisso assumido entre os cidadãos e o seu Estado.
No início dos anos 80, com a chegada de Margaret Tacher (a dama de ferro) ao poder em Inglaterra e de Ronald Reagan nos EUA, as políticas neoliberais assumem a supremacia, assim como a ideologia de que o mercado deve funcionar por si próprio, pois só desta forma se conseguirá um ajustamento perfeito da economia.
Associado a esta ideia, a crença tida como indiscutível,de que o Estado só atrapalha o funcionamento da mesma e portanto deve ser reduzido ao minímo, para que assim se substitua o governo dos homens pela administração natural das coisas.
Com a queda do muro de Berlim e a vitória do sistema capitalista sobre o sistema comunista estavam asseguradas as condições para que o "Pensamento único" traduzido no fundamentalismo neoliberal assumisse as funções de equivalente funcional dos dogmas de fé religiosos tipícos do tempo da inquisição.
Francis Fukuyama declara o"Fim da História" (o que só demonstra como também os intelectuais mais consagrados podem ser portadores de uma cegueira estupidificante) e outras grandes mentes iluminadas o "Fim das Ideologias".
O que restou então?
O fundamentalismo neoliberal, sob a forma de ideologia do fim das ideologias, que se consagra a si mesmo como forma de pensamento único e que é inculcado a partir das grandes instâncias internacionais como o Banco Mundial, O FMI, a OCDE, o Banco Central Europeu e algumas universidades de elite ligadas aos grandes negócios internacionais que alguns autores designam como o "consenso de Washinton" e que decretam o fim único para o qual devem caminhar a economia dos países de todo o mundo, matando a política, subordinando-a totalmente à economia.
Bem poderiamos dizer...é o DÉFICE ESTÚPIDO!
Só tenho pena que esta seja uma doença que contagia partidos à direita e à esquerda, convertendo-se estes últimos em prostitutas de ocasião, em busca dos eleitores imaginários de um "centro" que está em todo o lugar e em lugar nenhum.
Lamento também com profunda mágoa que o socialismo e a social-democracia, essenciais ao funcionamento da democracia em meu entender, estejam novamente metidos na gaveta.
A política de volta é preciso. Vários caminhos são possíveis...trata-se é de reinventar novas formas de viver em sociedade e de construir em harmonia o colectivo.
Abraços a todo o pessoal com votos de que a História nunca tenha fim.
João Martins
Faço da vida um caminho em que a felicidade está nas pequenas grandes coisas que o mundo nos permite desfrutar.
"Carpe Diem"
sexta-feira, maio 12, 2006
Problemas da cidade de Loulé 21: Uma forma social ligeiramente diferente da nossa
Numa época em que a interculturalidade atinge contornos de moda e de urgente necessidade e em que qualquer pacato cidadão da cidade de Loulé se encontra com pessoas provenientes de outros sítios do globo e de outras culturas a qualquer hora do dia, deixo-vos o conhecimento dos habitantes das ilhas Marquesas na Polinésia estudados pelo antropólogo Ralph Linton em 1920.
Sirvam-se e bom apetite;
"Os habitantes das ilhas Marquesas constituem um povo da Polinésia que vive numa ilha do Pacífico Central a mais ou menos dez graus a sul do Equador e que são de uma extrema beleza física, sobretudo as mulheres. Foram os últimos habitantes da Polinésia a serem cristianizados e resistiram muito tempo à influência dos brancos, chegando mesmo a escorraçar os missionários. Quando foram submetidos, reagiram não procriando...
Ilhas montanhosas, cercadas por falésias abruptas, as Marquesas são formadas por vales estreitos separados uns dos outros por esporões rochosos. De vez em quando, estas ilhas são vítimas de secas prolongadas e destruidoras que originam péssimas colheitas e escassez de água. Estas secas, que se prolongavam por vezes, durante três anos, provocavam verdadeiras fomes e podiam reduzir a população a um terço, levando por vezes, os indígenas a praticar o canibalismo.
A propriedade agrícola apenas consta de árvores ou jardins dispersos pelos vales. A terra é propriedade colectiva da tribo, administrada pelo chefe, mas as árvores e as colheitas são propriedade individual. Em cada nascimento planta-se uma árvore que será propriedade do recém-nascido. Apesar disso, a base da alimentação é fornecida pela pesca que se organiza numa base comunitária com a ajuda de redes gigantes colocadas entre os barcos.
Antigamente, os habitantes das ilhas Marquesas eram robustos canibais e, excepcionalmente, até as mulheres tinham autorização para comer carne humana. Persiste um canibalismo cerimonial destinado a incorporar as qualidades do indíviduo que se come (em geral, de uma outra tribo) com preferência pelas crianças.
O estatuto social é determinado pela primogenitura, independentemente do sexo. Pratica-se, regularmente a adopção. Através dos parentes que possuem em cada geração a posição social mais elevada, os habitantes das ilhas Marquesas estabelecem a sua genealogia (que, por vezes, recua até setenta ou oitenta gerações).
Os casamentos são endogâmicos à tribo, verificando-se uma grande mobilidade. Entre os habitantes das ilhas Marquesas, há duas vezes e meia mais homens do que mulheres. A causa deste fenómeno é desconhecida ou é escondida. Por isso, o lar marquesiano é poliândrico. Há um marido principal e maridos secundários, excepto nos lares mais pobres...Os lares mais abastados podem ter mais de quatro homens para uma mulher e a casa do chefe tem onze ou doze homens para três ou quatro mulheres. Todos os membros do grupo assim formado têm direitos sexuais uns sobre os outros, constituindo-se assim uma espécie de casamento de grupo..."
Ralph Linton in Claude Dubar "A socialização. Construção das identidades Sociais e Profissionais".
Pois é, numa época em que a empregada de limpeza lá de casa é Angolana, a empregada do café do vizinho é ucraniana, o dono do restaurante de fim de semana é chinês, o craque do clube da terra é brasileiro, o médico de família é espanhol e o vizinho da vivenda do lado é um reformado proveniente de Ingleterra convém pensar em como conviver harmoniosamente com "os outros", os "estranhos" e enriquecermo-nos mutuamente num processo contínuo de aprendizagem cultural.
Convém aprender a pensar para lá das "formas" em que fomos metidos desde pequeninos e que no Ocidente (e não só,claro) têm a forma de uma palas, como as orelhas dos burros, que (de)limitam o universo dos possíveis da nossa imaginação.
Contudo, já sabem...se o vizinho do lado for das ilhas Marquesas...garantam que ele está bem alimentado.
abraços
João Martins
Sirvam-se e bom apetite;
"Os habitantes das ilhas Marquesas constituem um povo da Polinésia que vive numa ilha do Pacífico Central a mais ou menos dez graus a sul do Equador e que são de uma extrema beleza física, sobretudo as mulheres. Foram os últimos habitantes da Polinésia a serem cristianizados e resistiram muito tempo à influência dos brancos, chegando mesmo a escorraçar os missionários. Quando foram submetidos, reagiram não procriando...
Ilhas montanhosas, cercadas por falésias abruptas, as Marquesas são formadas por vales estreitos separados uns dos outros por esporões rochosos. De vez em quando, estas ilhas são vítimas de secas prolongadas e destruidoras que originam péssimas colheitas e escassez de água. Estas secas, que se prolongavam por vezes, durante três anos, provocavam verdadeiras fomes e podiam reduzir a população a um terço, levando por vezes, os indígenas a praticar o canibalismo.
A propriedade agrícola apenas consta de árvores ou jardins dispersos pelos vales. A terra é propriedade colectiva da tribo, administrada pelo chefe, mas as árvores e as colheitas são propriedade individual. Em cada nascimento planta-se uma árvore que será propriedade do recém-nascido. Apesar disso, a base da alimentação é fornecida pela pesca que se organiza numa base comunitária com a ajuda de redes gigantes colocadas entre os barcos.
Antigamente, os habitantes das ilhas Marquesas eram robustos canibais e, excepcionalmente, até as mulheres tinham autorização para comer carne humana. Persiste um canibalismo cerimonial destinado a incorporar as qualidades do indíviduo que se come (em geral, de uma outra tribo) com preferência pelas crianças.
O estatuto social é determinado pela primogenitura, independentemente do sexo. Pratica-se, regularmente a adopção. Através dos parentes que possuem em cada geração a posição social mais elevada, os habitantes das ilhas Marquesas estabelecem a sua genealogia (que, por vezes, recua até setenta ou oitenta gerações).
Os casamentos são endogâmicos à tribo, verificando-se uma grande mobilidade. Entre os habitantes das ilhas Marquesas, há duas vezes e meia mais homens do que mulheres. A causa deste fenómeno é desconhecida ou é escondida. Por isso, o lar marquesiano é poliândrico. Há um marido principal e maridos secundários, excepto nos lares mais pobres...Os lares mais abastados podem ter mais de quatro homens para uma mulher e a casa do chefe tem onze ou doze homens para três ou quatro mulheres. Todos os membros do grupo assim formado têm direitos sexuais uns sobre os outros, constituindo-se assim uma espécie de casamento de grupo..."
Ralph Linton in Claude Dubar "A socialização. Construção das identidades Sociais e Profissionais".
Pois é, numa época em que a empregada de limpeza lá de casa é Angolana, a empregada do café do vizinho é ucraniana, o dono do restaurante de fim de semana é chinês, o craque do clube da terra é brasileiro, o médico de família é espanhol e o vizinho da vivenda do lado é um reformado proveniente de Ingleterra convém pensar em como conviver harmoniosamente com "os outros", os "estranhos" e enriquecermo-nos mutuamente num processo contínuo de aprendizagem cultural.
Convém aprender a pensar para lá das "formas" em que fomos metidos desde pequeninos e que no Ocidente (e não só,claro) têm a forma de uma palas, como as orelhas dos burros, que (de)limitam o universo dos possíveis da nossa imaginação.
Contudo, já sabem...se o vizinho do lado for das ilhas Marquesas...garantam que ele está bem alimentado.
abraços
João Martins
Faço da vida um caminho em que a felicidade está nas pequenas grandes coisas que o mundo nos permite desfrutar.
"Carpe Diem"
domingo, maio 07, 2006
Problemas da cidade de Loulé 20: Quando dizer é fazer: Há coisas que um presidente não pode dizer
Segundo o jornal Expresso deste Sábado, Cavaco Silva, dignissímo e excelentíssimo Presidente da República Portuguesa afirmou que pensa que a situação da economia portuguesa está "condenada" até 2010 e que nem tem a certeza que a mesma melhor depois disso.
Este homem que raramente se engana e nunca tem dúvidas, se tivesse lido os filósofos da linguagem como Austin e seus pares saberia com toda a certeza que falar é agir e ao contrário do ditado que refere que palavras leva-as o vento, as nossas enunciações discursivas são actos que afectam a vida de todos nós.
Se tivesse lido ainda Bourdieu e a sua brilhante obra, saberia também com certeza que os lugares de onde se fala dão ao que se diz a magia da "verdade" dos factos, provocando um impacto tanto maior quanto maior a importância do lugar de onde se enuncia aquilo que se está a dizer.
Resumindo, deixando-nos de filosofar em torno dos actos de linguagem, o que eu quero dizer é que falar não é só dizer, mas também fazer. As nossas falas são actos que afectam e transformam as nossas interacções e a nossa vida social quotidiana.
Austin ilustra isto brilhantemente com o ritual do batizo e do casamento demonstrando que só quando o padre declara "eu te batizo" ou enuncia "declaro-vos marido e mulher" é que os actos de batizar e de casar se concretizam.
Isso quer dizer que se o pacato cidadão de Boliqueime, Aníbal Silva, disser que a economia está no "fundo", quando muito, provoca uma discussão entre amigos no café junto às bombas de gasolina desta pacata vila e não afecta a quantidade de moedas que os mesmos têm no bolso.
Se for o presidente Cavaco e Silva a dizer que a economia está no "fundo" isso arrasa a confiança completa dos investidores contribuindo para um maior afundamento dessa mesma economia.
Também Freitas do Amaral deveria ler Austin e Bourdieu pois sofre do mesmo problema de mau uso da palavra quando quem fala é o cargo e não o homem que o veste.
Disse Freitas do Amaral que está "cansado" por causa do desgaste do lugar de Ministro de Negócios Estrangeiros, pela elevada exigência do mesmo. Pois é, bela elocução performativa cujos efeitos sociais e políticos fazem as delícias da nossa praça, principalmente dos seus opositores.
A isto chama-se dar um tiro no pé...
Recomendo vivamente a leitura de Austin na sua obra "Quando dizer é fazer" e a de Bourdieu "O que falar quer dizer"...Pode ser que assim o mau uso da palavra diminua e que os tiros de caçadeira não acertem tantas vezes no dedo mindinho do "pé grande" dos nossos governantes...ops...disse "pé grande"? Desculpem, vou já a correr ler Austin e Bourdieu.
Abraços e beijinhos para a malta da blogosfera.
João Martins
Este homem que raramente se engana e nunca tem dúvidas, se tivesse lido os filósofos da linguagem como Austin e seus pares saberia com toda a certeza que falar é agir e ao contrário do ditado que refere que palavras leva-as o vento, as nossas enunciações discursivas são actos que afectam a vida de todos nós.
Se tivesse lido ainda Bourdieu e a sua brilhante obra, saberia também com certeza que os lugares de onde se fala dão ao que se diz a magia da "verdade" dos factos, provocando um impacto tanto maior quanto maior a importância do lugar de onde se enuncia aquilo que se está a dizer.
Resumindo, deixando-nos de filosofar em torno dos actos de linguagem, o que eu quero dizer é que falar não é só dizer, mas também fazer. As nossas falas são actos que afectam e transformam as nossas interacções e a nossa vida social quotidiana.
Austin ilustra isto brilhantemente com o ritual do batizo e do casamento demonstrando que só quando o padre declara "eu te batizo" ou enuncia "declaro-vos marido e mulher" é que os actos de batizar e de casar se concretizam.
Isso quer dizer que se o pacato cidadão de Boliqueime, Aníbal Silva, disser que a economia está no "fundo", quando muito, provoca uma discussão entre amigos no café junto às bombas de gasolina desta pacata vila e não afecta a quantidade de moedas que os mesmos têm no bolso.
Se for o presidente Cavaco e Silva a dizer que a economia está no "fundo" isso arrasa a confiança completa dos investidores contribuindo para um maior afundamento dessa mesma economia.
Também Freitas do Amaral deveria ler Austin e Bourdieu pois sofre do mesmo problema de mau uso da palavra quando quem fala é o cargo e não o homem que o veste.
Disse Freitas do Amaral que está "cansado" por causa do desgaste do lugar de Ministro de Negócios Estrangeiros, pela elevada exigência do mesmo. Pois é, bela elocução performativa cujos efeitos sociais e políticos fazem as delícias da nossa praça, principalmente dos seus opositores.
A isto chama-se dar um tiro no pé...
Recomendo vivamente a leitura de Austin na sua obra "Quando dizer é fazer" e a de Bourdieu "O que falar quer dizer"...Pode ser que assim o mau uso da palavra diminua e que os tiros de caçadeira não acertem tantas vezes no dedo mindinho do "pé grande" dos nossos governantes...ops...disse "pé grande"? Desculpem, vou já a correr ler Austin e Bourdieu.
Abraços e beijinhos para a malta da blogosfera.
João Martins
Faço da vida um caminho em que a felicidade está nas pequenas grandes coisas que o mundo nos permite desfrutar.
"Carpe Diem"
segunda-feira, maio 01, 2006
Problemas da cidade de Loulé 19: Nuclear, não obrigado
A crise actual em torno do preço do petróleo devido aos disparates de George W. Bush e da administração Norte-Americana com as ameaças ao Irão, tem servido de pretexto para um poderoso lobbie económico forçar a entrada de centrais nucleares em Portugal.
É do conhecimento geral que o petróleo sendo uma fonte de energia não-renovável estará esgotado dentro dos próximos 50 anos.
É também do conhecimento geral que a implementação, funcionamento, manutenção e desmantelamento das centrais nucleares acarretam custos económicos, financeiros, sociais e ambientais que só uma forma de organização do trabalho de excelência pode evitar os riscos e perigos de desastre económico, ambiental e social.
O acidente de Chernobill na Ucrânia fez 20 anos na semana passada.
Da cidade só restaram os fantasmas e alguns velhos regressados ao seu chão natal, de cuja separação sentem que faria mais mal à sua existência social e pessoal do que qualquer morte lenta de médio e longo prazo por contaminação ambiental.
Chernobill deixou milhares de mortos, níveis elevadíssimos de radioactividade espalhados por várias partes do globo terrestre e milhares de pessoas marcadas por doenças associadas à libertação das radiações.
Os Espanhóis aqui ao nosso lado, começaram hoje a desmantelar a primeira das suas nove centrais nucleares prevendo fechar as outras oito nas próximas duas décadas.
Os nossos governantes porque, como sempre, acham que estamos "atrasados" nas questões do nuclear e porque a alta do preço do petróleo pressiona ainda mais o maldito "problema do défice nacional", começam a deixar-se namorar e a ser seduzidos pelos abutres económicos do negócio nuclear.
Mais uma vez a falta de cultura ambiental dos nosssos governantes pode vir a fazer com que a lógica meramente economicista possa vir a prevalecer.
Pela minha parte caros amigos, nuclear não obrigado!
Por muito que me argumentem com a o elevado nível de desenvolvimento técnico e com a sofisticação das novas centrais depois de Chernobill, aquilo de que tenho a certeza é que na maior parte dos acidentes de carácter técnico, são "erros humanos" que estão por detrás dos mesmos e esses são bem mais difíceis de controlar.
Porque não investir seriamente nas energias ditas "alternativas"? Porque não apostar em força na energia solar ?
No Algarve só mesmo a ignorância e a miopia ambiental permitem não apostar no belo sol com que os deuses nos permiaram.
Não teriam o governo central e as autarquias um papel fundamental para esta revolução cultural?
Poderia ser que assim a moda das Agendas 21 nas estratégias das autarquias não ficasse pelo mero ambientalismo prescrito e que passássemos a cuidar daquilo que mais precioso temos à nossa volta e que a mãe natureza nos deu.
A propósito, alguma mente iluminada da autarquia Louletana mandou cortar as árvores em frente ao Mercado Municipal de Loulé. Será ignorância política ou crime ambiental?
É que a lógica que leva a semear cimento e alcatrão nas nossas cidades destruindo arvores com largos anos de vida é a mesma que adere cegamente ao petróleo na costa algarvia e à paixão pelo nuclear.
Para quando o ambiente a incorporar a centralidade das políticas públicas nacionais e municipais?
Abraços e bom 1º de Maio. Comemorem bem o dia e já agora...reflitam sobre o significado histórico desta data, pois sem memória não há história que resista.
Abraços
João Martins
É do conhecimento geral que o petróleo sendo uma fonte de energia não-renovável estará esgotado dentro dos próximos 50 anos.
É também do conhecimento geral que a implementação, funcionamento, manutenção e desmantelamento das centrais nucleares acarretam custos económicos, financeiros, sociais e ambientais que só uma forma de organização do trabalho de excelência pode evitar os riscos e perigos de desastre económico, ambiental e social.
O acidente de Chernobill na Ucrânia fez 20 anos na semana passada.
Da cidade só restaram os fantasmas e alguns velhos regressados ao seu chão natal, de cuja separação sentem que faria mais mal à sua existência social e pessoal do que qualquer morte lenta de médio e longo prazo por contaminação ambiental.
Chernobill deixou milhares de mortos, níveis elevadíssimos de radioactividade espalhados por várias partes do globo terrestre e milhares de pessoas marcadas por doenças associadas à libertação das radiações.
Os Espanhóis aqui ao nosso lado, começaram hoje a desmantelar a primeira das suas nove centrais nucleares prevendo fechar as outras oito nas próximas duas décadas.
Os nossos governantes porque, como sempre, acham que estamos "atrasados" nas questões do nuclear e porque a alta do preço do petróleo pressiona ainda mais o maldito "problema do défice nacional", começam a deixar-se namorar e a ser seduzidos pelos abutres económicos do negócio nuclear.
Mais uma vez a falta de cultura ambiental dos nosssos governantes pode vir a fazer com que a lógica meramente economicista possa vir a prevalecer.
Pela minha parte caros amigos, nuclear não obrigado!
Por muito que me argumentem com a o elevado nível de desenvolvimento técnico e com a sofisticação das novas centrais depois de Chernobill, aquilo de que tenho a certeza é que na maior parte dos acidentes de carácter técnico, são "erros humanos" que estão por detrás dos mesmos e esses são bem mais difíceis de controlar.
Porque não investir seriamente nas energias ditas "alternativas"? Porque não apostar em força na energia solar ?
No Algarve só mesmo a ignorância e a miopia ambiental permitem não apostar no belo sol com que os deuses nos permiaram.
Não teriam o governo central e as autarquias um papel fundamental para esta revolução cultural?
Poderia ser que assim a moda das Agendas 21 nas estratégias das autarquias não ficasse pelo mero ambientalismo prescrito e que passássemos a cuidar daquilo que mais precioso temos à nossa volta e que a mãe natureza nos deu.
A propósito, alguma mente iluminada da autarquia Louletana mandou cortar as árvores em frente ao Mercado Municipal de Loulé. Será ignorância política ou crime ambiental?
É que a lógica que leva a semear cimento e alcatrão nas nossas cidades destruindo arvores com largos anos de vida é a mesma que adere cegamente ao petróleo na costa algarvia e à paixão pelo nuclear.
Para quando o ambiente a incorporar a centralidade das políticas públicas nacionais e municipais?
Abraços e bom 1º de Maio. Comemorem bem o dia e já agora...reflitam sobre o significado histórico desta data, pois sem memória não há história que resista.
Abraços
João Martins
Faço da vida um caminho em que a felicidade está nas pequenas grandes coisas que o mundo nos permite desfrutar.
"Carpe Diem"
segunda-feira, abril 24, 2006
Problemas da cidade de Loulé 18: Loulé, 32 anos depois de Abril
Nasci em Abril de 1970. No ano em que Salazar morreu.
Sou de uma geração que herdou o salazarismo como ponte de construção para o futuro.
Em 1974, a Revolução dos Cravos mudou por completo a sociedade portuguesa, Loulé não podia ficar imune a isso.
Lembro-me, acabado de aprender a dar os primeiros passos, que Loulé era uma sociedade tipicamente rural, tal como a maior parte do país.
Do Parragil, de Boliqueime, de Salir, do Ameixial, de Almancil e mesmo de Quarteira, as pessoas vinham à "Vila" montados na mulas e nos burros, deixando estes o rasto do "escremento" como denúncia dos trajectos percorridos pela população do "campo".
Hoje os burros são uma espécie em vias de extinção e a maior parte das famílias andam no seu automóvel.
As famílias reuniam-se em épocas festivas. Avós,pais, netos, tios e tias, primos e primas partilhavam a mesma mesa, num sinal que a família extensa ainda predominava. O divórcio era uma espécie de "crime" moral e o valores comunitários em torno da solidariedade familiar ainda predominavam.
Hoje a família complexificou-se. Um em cada dois casamentos resulta em divórcio, as famílias monoparentais expandem-se, assim como as uniões de facto e os filhos fora do casamento (os designados filhos "ilegitimos", antes de Abril)e as familías recompostas (casais divorciados de segundos e terceiros casamentos que constituem novas famílias) adquirem carácter de "normalidade". Os casamentos católicos entram em regressão e aumentam progressivamente os casamentos civis.
A minha avó frequentes vezes me dizia "vem já para casa que vem aí a PIDE" como forma de me assustar e de me fazer obedecer ao que ela queria. Namorar na rua era um dos "pecados" originais e beijos em público era sinónimo de depravação e de vergonha cultural. Hoje já não há polícia política e a sexualidade ficou quase reduzida à questão do sexo.
Na escola primária, a minha professora da escola "paga" obrigava-me a escrever com a mão direita, eu que era esquerdino, pois escrever à "canhota" significava adesão às concepções comunistas. A régua era utilizada diariamente e a gestão do medo e da obediência era a estratégia pedagógica preferencial.
Hoje as pedagogias activas põem a liberdade a circular nas salas de aula e bastantes vezes os professores têm dificuldade no controlo disciplinar dos seus alunos.
No desporto, fui jogar futebol para o Louletano e nos infantis tive que comprar o meu primeiro equipamento, a minha mãe lavava a roupa do clube em casa, e os campos de futebol no Inverno eram um verdadeiro lamaçal. Hoje, o futebol entrou na era das SAD e é uma verdadeira indústria do capitalismo global.
A imprensa era controlada pelo Estado, nos anos 60 havia 40% de analfabetos e a passividade e obediência à trilogia Deus, Pátria, Família era um dogma fundamental do regime.
Hoje a globalização informativa entra-nos pela casa dentro e a internet torna mais difícil o controlo estatal da informação. As populações estão mais educadas embora o descrédito pela política e pelos partidos encontre um descrédito nunca visto.
As mulheres não votavam, eram mal vista nos cafés e outros espaços públicos, eram uma "desvairadas" se fumassem e demonstrassem comportamentos tidos como monopólio do mundo masculino.
Hoje libertaram-se de uma boa parte da dominação masculina e negoceiam os seus papeis sociais com os seus pares democratizando a relação conjugal.
Na cultura, Loulé na minha infância era um deserto cultural. Havia um único cinema, os bombeiros vigiavam sala para que a mesma não pegasse fogo e ver um filme por semana era um acontecimento digno de um "abastado cultural".
Hoje começa a haver uma interessante oferta cultural em Loulé(muito frágil comparada com o resto do país).
25 de Abril de 1974,
Não tenho dúvidas, esta é uma data que merece ser comemorada em todo o seu esplendor. Lamentavelmente é uma data que tem vindo a "esmurecer", tudo se passando como se a democracia não precisasse de alimento contínuo.
Hoje temos o drama do desemprego, a ausência de futuro no horizonte dos jovens, os velhos são tratados como trapos, os poderes políticos estão desligados como nunca da realidade da vida das pessoas, os problemas ambientais estão a degradar a qualidade de vida dos cidadãos, a droga afecta quase todas as famílias, o tráfico humano ligado à prostituição prolifera... O mundo de hoje tem claramente novos problemas associados aos níveis de "desenvolvimento" conquistado, mesmo assim não posso deixar de concordar...
25 de Abril, sempre...uma data ímpar na história da sociedade Portuguesa...que convém não apagar da memória, nem das "velhas", nem das "jovens" gerações...também Loulé deve alimentar "sempre" este pedaço de memória da história portuguesa, para que as ditaduras fiquem onde nunca deveriam de sair, no cemitério dos factos do passado.
Um grande abraço e bom feriado.
João Martins
Sou de uma geração que herdou o salazarismo como ponte de construção para o futuro.
Em 1974, a Revolução dos Cravos mudou por completo a sociedade portuguesa, Loulé não podia ficar imune a isso.
Lembro-me, acabado de aprender a dar os primeiros passos, que Loulé era uma sociedade tipicamente rural, tal como a maior parte do país.
Do Parragil, de Boliqueime, de Salir, do Ameixial, de Almancil e mesmo de Quarteira, as pessoas vinham à "Vila" montados na mulas e nos burros, deixando estes o rasto do "escremento" como denúncia dos trajectos percorridos pela população do "campo".
Hoje os burros são uma espécie em vias de extinção e a maior parte das famílias andam no seu automóvel.
As famílias reuniam-se em épocas festivas. Avós,pais, netos, tios e tias, primos e primas partilhavam a mesma mesa, num sinal que a família extensa ainda predominava. O divórcio era uma espécie de "crime" moral e o valores comunitários em torno da solidariedade familiar ainda predominavam.
Hoje a família complexificou-se. Um em cada dois casamentos resulta em divórcio, as famílias monoparentais expandem-se, assim como as uniões de facto e os filhos fora do casamento (os designados filhos "ilegitimos", antes de Abril)e as familías recompostas (casais divorciados de segundos e terceiros casamentos que constituem novas famílias) adquirem carácter de "normalidade". Os casamentos católicos entram em regressão e aumentam progressivamente os casamentos civis.
A minha avó frequentes vezes me dizia "vem já para casa que vem aí a PIDE" como forma de me assustar e de me fazer obedecer ao que ela queria. Namorar na rua era um dos "pecados" originais e beijos em público era sinónimo de depravação e de vergonha cultural. Hoje já não há polícia política e a sexualidade ficou quase reduzida à questão do sexo.
Na escola primária, a minha professora da escola "paga" obrigava-me a escrever com a mão direita, eu que era esquerdino, pois escrever à "canhota" significava adesão às concepções comunistas. A régua era utilizada diariamente e a gestão do medo e da obediência era a estratégia pedagógica preferencial.
Hoje as pedagogias activas põem a liberdade a circular nas salas de aula e bastantes vezes os professores têm dificuldade no controlo disciplinar dos seus alunos.
No desporto, fui jogar futebol para o Louletano e nos infantis tive que comprar o meu primeiro equipamento, a minha mãe lavava a roupa do clube em casa, e os campos de futebol no Inverno eram um verdadeiro lamaçal. Hoje, o futebol entrou na era das SAD e é uma verdadeira indústria do capitalismo global.
A imprensa era controlada pelo Estado, nos anos 60 havia 40% de analfabetos e a passividade e obediência à trilogia Deus, Pátria, Família era um dogma fundamental do regime.
Hoje a globalização informativa entra-nos pela casa dentro e a internet torna mais difícil o controlo estatal da informação. As populações estão mais educadas embora o descrédito pela política e pelos partidos encontre um descrédito nunca visto.
As mulheres não votavam, eram mal vista nos cafés e outros espaços públicos, eram uma "desvairadas" se fumassem e demonstrassem comportamentos tidos como monopólio do mundo masculino.
Hoje libertaram-se de uma boa parte da dominação masculina e negoceiam os seus papeis sociais com os seus pares democratizando a relação conjugal.
Na cultura, Loulé na minha infância era um deserto cultural. Havia um único cinema, os bombeiros vigiavam sala para que a mesma não pegasse fogo e ver um filme por semana era um acontecimento digno de um "abastado cultural".
Hoje começa a haver uma interessante oferta cultural em Loulé(muito frágil comparada com o resto do país).
25 de Abril de 1974,
Não tenho dúvidas, esta é uma data que merece ser comemorada em todo o seu esplendor. Lamentavelmente é uma data que tem vindo a "esmurecer", tudo se passando como se a democracia não precisasse de alimento contínuo.
Hoje temos o drama do desemprego, a ausência de futuro no horizonte dos jovens, os velhos são tratados como trapos, os poderes políticos estão desligados como nunca da realidade da vida das pessoas, os problemas ambientais estão a degradar a qualidade de vida dos cidadãos, a droga afecta quase todas as famílias, o tráfico humano ligado à prostituição prolifera... O mundo de hoje tem claramente novos problemas associados aos níveis de "desenvolvimento" conquistado, mesmo assim não posso deixar de concordar...
25 de Abril, sempre...uma data ímpar na história da sociedade Portuguesa...que convém não apagar da memória, nem das "velhas", nem das "jovens" gerações...também Loulé deve alimentar "sempre" este pedaço de memória da história portuguesa, para que as ditaduras fiquem onde nunca deveriam de sair, no cemitério dos factos do passado.
Um grande abraço e bom feriado.
João Martins
Faço da vida um caminho em que a felicidade está nas pequenas grandes coisas que o mundo nos permite desfrutar.
"Carpe Diem"
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